Evolução do mercado: Ácido sulfúrico (CN 2807) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no que respeita ao ácido sulfúrico e óleo fumante (posição pautal CN 2807) ao longo do período 2015–2025. Trata-se de um produto químico inorgânico fundamental para múltiplos setores industriais — desde a produção de fertilizantes fosfatados até ao refino de petróleo, metalurgia e tratamento de águas — sendo por isso um indicador relevante da dinâmica industrial europeia.
O período em análise abrange transformações significativas: a recuperação pós-crise europeia, a pandemia de COVID-19, o conflito na Ucrânia e as sanções à Rússia, as disrupções nas cadeias de abastecimento globais e a escalada dos custos energéticos. A UE surge consistentemente como exportador líquido de ácido sulfúrico, com um saldo comercial positivo ao longo de todo o período, o que reflete a sua capacidade produtiva consolidada. Entre 2015 e 2025, as exportações totais cresceram 177,5 % em valor, atingindo os €324,4 milhões, enquanto as importações cresceram 303,8 %, atingindo os €55,7 milhões.
O relatório estrutura-se em três eixos: (i) a desocilação entre valor e volume, com a subida de preços como motor principal do crescimento; (ii) a reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais, com o surgimento de novos destinos e o desaparecimento de fornecedores tradicionais; e (iii) a resiliência estrutural da base produtiva europeia e os episódios de volatilidade pontual.
1. O crescimento do valor comercial impulsionado pela escalada de preços
A dinâmica mais marcante do período é a divergência acentuada entre a evolução do valor e do volume comercializado. As exportações cresceram 177,5 % em valor (de €116,9 milhões para €324,4 milhões), mas contraíram-se 3,7 % em quantidade (de 3,44 milhões de toneladas para 3,31 milhões de toneladas). O preço médio de exportação subiu assim de €34,0/t para €98,0/t — um aumento de 188,1 %.
1.1. A divergência entre valor e volume nas exportações
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor das exportações (€) | 116,9 M€ | 324,4 M€ | +177,5 % |
| Volume das exportações (t) | 3,44 Mt | 3,31 Mt | −3,7 % |
| Preço médio exportação (€/t) | 34,0 €/t | 98,0 €/t | +188,1 % |
O facto de o volume exportado ter permanecido praticamente estável, enquanto o valor mais do que triplicou, indica que o crescimento das receitas exportadoras foi inteiramente conduzido pela componente preço. O preço mínimo registado no período foi de €21,7/t e o máximo de €113,7/t, o que revela uma amplitude de variação considerável. Esta subida de preços reflete, em grande medida, o aumento dos custos de produção — particularmente os energéticos, dado que a produção de ácido sulfúrico é intensiva em energia térmica — bem como a pressão inflacionista generalizada observada entre 2021 e 2023.
1.2. Importações: crescimento robusto em valor e volume
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor das importações (€) | 13,8 M€ | 55,7 M€ | +303,8 % |
| Volume das importações (t) | 122 481 t | 352 280 t | +187,6 % |
| Preço médio importação (€/t) | 112,6 €/t | 158,2 €/t | +40,4 % |
As importações cresceram tanto em volume como em valor, com o volume a quase triplicar (+187,6 %). Contudo, o preço médio de importação subiu apenas 40,4 % (de €112,6/t para €158,2/t), muito menos do que a subida dos preços de exportação (+188,1 %). Note-se que o preço médio de importação é historicamente superior ao de exportação — em 2015, a diferença era de €78,6/t —, o que sugere que a UE importa ácido sulfúrico de qualidade superior, ou em condições logísticas menos favoráveis, ou de fornecedores com menores economias de escala.
1.3. Um saldo comercial positivo e em expansão
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Saldo comercial (€) | 103,1 M€ | 268,7 M€ | +160,6 % |
| Dependência líquida de importações (%) | −33,6 % | −30,3 % | +9,8 % |
O saldo comercial da UE em ácido sulfúrico é persistentemente positivo ao longo de todo o período, situando-se sempre entre os €47,6 milhões (mínimo) e os €292,2 milhões (máximo). O valor mais baixo do saldo ocorreu provavelmente no contexto da pandemia ou da crise energética de 2022, períodos em que os custos de produção europeus se elevaram significativamente. A dependência líquida de importações permaneceu negativa ao longo de todo o período (entre −35,3 % e −12,1 %), confirmando a posição de exportador líquido da UE. O facto de este indicador se ter aproximado de zero em determinados momentos sugere períodos de pressão competitiva ou de contracção das exportações, mas sem que a UE alguma vezes tenha perdido a sua condição de superavitária.
2. Reconfiguração geográfica: novos destinos de exportação e perda de fornecedores tradicionais
O período 2015–2025 assistiu a uma significativa redistribuição geográfica dos parceiros comerciais da UE em ácido sulfúrico, tanto do lado das exportações como das importações. A concentração das importações diminuiu, enquanto a das exportações se manteve relativamente estável, refletindo uma diversificação assimétrica.
2.1. Exportações: consolidação de parceiros tradicionais e crescimento exponencial de novos destinos
Os principais destinos de exportação da UE em 2025 foram o Reino Unido (€48,6 milhões), o Marrocos (€54,5 milhões), a Turquia (€37,4 milhões), os Estados Unidos (€36,8 milhões), o Brasil (€36,1 milhões) e o Chile (€37,6 milhões).
| Parceiro | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) | CV |
|---|---|---|---|---|
| Reino Unido | 6,6 M | 48,6 M | +633,4 % | 0,48 |
| Chile | 1,8 M | 37,6 M | +1 957,3 % | 1,21 |
| Marrocos | 14,0 M | 54,5 M | +288,8 % | 0,38 |
| Turquia | 14,7 M | 37,4 M | +154,8 % | 0,19 |
| Estados Unidos | 14,6 M | 36,8 M | +151,4 % | 0,23 |
| Brasil | 12,2 M | 36,1 M | +196,1 % | 0,21 |
O caso mais notável é o do Chile, cujas importações de ácido sulfúrico da UE passaram de €1,8 milhões para €37,6 milhões — um crescimento de 1 957,3 %. A elevada volatilidade (CV de 1,21) e o choque de preço de 2020 (anomalia de 63,8, com uma variação de +591,7 %) sugerem que este crescimento esteve associado a choques pontuais — possivelmente a paragem de capacidade produtiva local ou a uma procura excepcional ligada à indústria mineira chilena (cobre e lítio).
O Reino Unido tornou-se no maior destino de exportação da UE em 2025 (€48,6 milhões), crescendo 633,4 % em relação a 2015. Este crescimento é em parte explicável pelo Brexit, que passou a contabilizar o comércio com o Reino Unido como comércio extra-UE a partir de 2021. A existência de um choque de preço em 2022 (anomalia de 16,9, com variação de +86,0 %) e uma quota de 16,4 % no valor das exportações em 2025 confirmam a importância crescente deste mercado.
O Brasil também apresentou um crescimento expressivo (+196,1 %), mas com um choque de preço em 2018 (anomalia de 28,4, variação de +144,4 %), possivelmente relacionado com o aumento da procura no setor de fertilizantes.
A Sérvia apresentou uma evolução instável: apesar de ter registado um crescimento acumulado de −39,3 %, atingiu um pico de €50,6 milhões noutro ponto do período, com uma volatilidade elevada (CV de 0,70). Este padrão sugere a existência de contratos de grande dimensão pontuados por períodos de inatividade.
2.2. Importações: queda drástica das importações da Rússia e crescimento de novos fornecedores
| Parceiro | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) | CV |
|---|---|---|---|---|
| Sérvia | 0,5 M | 11,2 M | +1 949,8 % | 1,60 |
| Reino Unido | 4,9 M | 12,1 M | +145,9 % | 0,28 |
| Estados Unidos | 4,5 M | 11,5 M | +154,5 % | 0,29 |
| Noruega | 0,9 M | 9,5 M | +991,2 % | 0,49 |
| Federação Russa | 0,01 M | 0,00004 M | −99,7 % | 1,22 |
| Bielorrússia | 0,5 M | 0,4 M | −13,0 % | 0,45 |
A evolução mais marcante do lado das importações é a virtual desaparição da Rússia como fornecedor: as importações passaram de €11 788 em 2015 para apenas €36 em 2025, uma queda de 99,7 %. Com um pico intercalar de €3,4 milhões e uma volatilidade extremamente elevada (CV de 1,22), este colapso está claramente associado às sanções impostas após a invasão da Ucrânia em 2022. A Bielorrússia, outro parceiro com ligações ao mercado russo, também apresentou uma ligeira queda (−13,0 %).
Em contrapartida, a Sérvia emergiu como fornecedor crescente (+1 949,8 %), atingindo €11,2 milhões em 2025, embora com grande volatilidade (CV de 1,60). A Noruega registou um crescimento de 991,2 % (de €0,9 milhões para €9,5 milhões), refletindo possivelmente a proximidade geográfica e as relações comerciais consolidadas no Espaço Económico Europeu.
2.3. Estrutura da concentração: importações mais diversificadas, exportações ligeiramente mais concentradas
| Indicador (HHI, valor) | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| HHI importações | 2 667 | 1 811 | −32,1 % |
| HHI exportações | 945 | 1 079 | +14,2 % |
O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações diminuiu significativamente (de 2 667 para 1 811), indicando uma diversificação das fontes de abastecimento. Este resultado é particularmente relevante no contexto da perda do fornecedor russo: a UE conseguiu redirecionar as suas importações para múltiplos fornecedores (Sérvia, Noruega, Reino Unido, Estados Unidos), reduzindo a dependência de qualquer origem individual. O HHI das exportações, embora mais baixo, apresentou um ligeiro aumento (+14,2 %), sugerindo uma concentração crescente em torno de alguns mercados-chave — nomeadamente o Reino Unido, o Marrocos e o Chile.
3. Resiliência produtiva, especialização regional e choques pontuais de oferta
O setor europeu do ácido sulfúrico demonstrou uma notável resiliência produtiva ao longo do período, com a produção a crescer mais de 30 % em quantidade e valor. No entanto, o padrão de especialização entre Estados-Membros é desigual, e o período foi pontuado por episódios de volatilidade que merecem análise.
3.1. Crescimento sustentado da produção europeia
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Produção (kg SO₂) | 8 258 M kg | 10 830 M kg | +31,1 % |
| Produção (€) | 617,9 M€ | 814,4 M€ | +31,8 % |
A produção europeia de ácido sulfúrico, expressa em quilogramas de dióxido de enxofre (kg SO₂), cresceu 31,1 % — de 8,3 mil milhões de kg para 10,8 mil milhões de kg — com um pico de 11,6 mil milhões de kg. O valor da produção cresceu em termos semelhantes (+31,8 %), atingindo €814,4 milhões em 2025. Este crescimento produtivo sustentado confere à UE a capacidade de manter o seu estatuto de exportador líquido e de responder a flutuações da procura externa. A variação praticamente idêntica entre quantidade (+31,1 %) e valor (+31,8 %) sugere que os preços de produção interna evoluíram de forma relativamente estável ao longo do período — ao contrário dos preços de exportação, que registaram subidas muito mais acentuadas.
3.2. Padrões de especialização entre Estados-Membros
A análise das vantagens comparativas revela uma concentração geográfica significativa da produção e exportação de ácido sulfúrico dentro da UE.
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota na produção UE | Quota no comércio total UE |
|---|---|---|---|---|
| Bulgária | 0,608 | 4,10 | 2,6 % | 0,6 % |
| Suécia | 0,477 | 2,83 | 6,8 % | 2,4 % |
| Espanha | 0,311 | 1,90 | 11,0 % | 5,8 % |
| Bélgica | 0,272 | 1,75 | 14,8 % | 8,5 % |
| Alemanha | 0,212 | 1,54 | 32,6 % | 21,2 % |
A Alemanha é de longe o maior produtor da UE, respondendo por 32,6 % da produção total, embora com um nível de especialização moderado (RSCA de 0,212). A Bélgica e a Espanha combinam uma quota significativa na produção (14,8 % e 11,0 %, respetivamente) com níveis mais elevados de especialização. A Bulgária apresenta o maior índice de especialização (RSCA de 0,608, RCA de 4,10), confirmando o seu papel como exportador especializado — facto corroborado pelo crescimento das exportações búlgaras de €20,6 milhões para €68,7 milhões (+232,8 %) ao longo do período.
Do lado oposto, a Estónia (RSCA de −0,999), a Irlanda (−0,994) e a Eslováquia (−0,987) apresentam especialização negativa, sendo importadores líquidos de ácido sulfúrico. A Irlanda tornou-se no maior importador intra-UE em 2025 (€18,3 milhões), crescendo 257,6 %, o que pode refletir a expansão do setor farmacêutico e tecnológico irlandês.
3.3. Volatilidade e choques de preço pontuais
A análise de volatilidade revela padrões distintos entre parceiros comerciais. Do lado das exportações, a Turquia (CV de 0,19) e o Brasil (CV de 0,21) apresentam relações comerciais estáveis, enquanto o Chile (CV de 1,21) e Cuba (CV de 1,88) exibem volatilidade elevada. Do lado das importações, a Sérvia (CV de 1,60), a Coreia do Sul (CV de 2,64) e a Índia (CV de 3,30) são os parceiros mais voláteis, enquanto a Suíça (CV de 0,19) e o Reino Unido (CV de 0,28) constituem fornecedores mais previsíveis.
Três choques de preço de exportação se destacam:
| Parceiro | Tipo | Ano | Anomalia | Variação (%) | Quota de valor |
|---|---|---|---|---|---|
| Chile | Preço | 2020 | 63,8 | +591,7 % | 5,7 % |
| Brasil | Preço | 2018 | 28,4 | +144,4 % | 13,5 % |
| Reino Unido | Preço | 2022 | 16,9 | +86,0 % | 16,4 % |
O choque do Chile em 2020 — no contexto da pandemia — é o mais extremo (anomalia de 63,8), sugerindo uma perturbação grave na oferta local que levou a uma subida abrupta dos preços de importação. O choque do Reino Unido em 2022 coincide com o período pós-Brexit e com a crise energética europeia, podendo refletir tanto a procura acrescida do Reino Unido como a pressão sobre os custos de produção da UE.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por três dinâmicas principais no comércio europeu de ácido sulfúrico (CN 2807).
Em primeiro lugar, o crescimento das exportações em valor (+177,5 %) foi inteiramente conduzido pela subida de preços (+188,1 %), uma vez que os volumes se mantiveram estáveis (−3,7 %). Este padrão reflete a inflação dos custos de produção — sobretudo energéticos — e a capacidade dos produtores europeus de transferir esses custos para os mercados externos, mantendo a sua competitividade.
Em segundo lugar, ocorreu uma significativa reconfiguração geográfica. Do lado das exportações, o Chile (+1 957,3 %) e o Reino Unido (+633,4 %) tornaram-se destinos de grande dimensão, enquanto mercados tradicionais como a Turquia e o Marrocos consolidaram a sua posição. Do lado das importações, a virtual desaparição da Rússia como fornecedor (−99,7 %) — consequência direta das sanções pós-2022 — foi compensada por uma diversificação para a Sérvia, a Noruega e o Reino Unido, resultando numa redução de 32,1 % do HHI de concentração das importações.
Em terceiro lugar, a base produtiva europeia demonstrou resiliência, com um crescimento de 31,1 % na produção. A Alemanha, a Bélgica, a Espanha, a Suécia e a Bulgária constituem o núcleo produtivo, com esta última a destacar-se como exportador altamente especializado (RCA de 4,10). A UE manteve-se exportador líquido ao longo de todo o período, com uma dependência líquida de importações sempre negativa (entre −35,3 % e −12,1 %).
Os episódios de volatilidade — nomeadamente os choques de preço no Chile (2020), no Brasil (2018) e no Reino Unido (2022) — foram pontuais e não comprometeram a estrutura fundamental do mercado. No entanto, a elevada volatilidade das importações de alguns fornecedores (Sérvia, Coreia do Sul, Índia) sugere que a diversificação das fontes de abastecimento continua a ser um fator de gestão de risco relevante para a indústria europeia.
Em síntese, o mercado europeu de ácido sulfúrico encontra-se numa posição de solidez comercial, com uma produção crescente, um saldo comercial positivo e uma diversificação geográfica em progresso, embora sujeito a pressões de preço e a riscos geopolíticos que merecem monitorização contínua.