Evolução do mercado: Mós e rebolos (CN 6804) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no segmento das mós e artigos semelhantes (posição aduaneira 6804) ao longo do período 2015–2025. Esta posição engloba mós para moer ou desfibrar, mós de diamante aglomerado, abrasivos aglomerados ou cerâmicos, pedras naturais, bem como pedras para amolar ou polir manualmente e suas partes.
O período em análise é marcado por transformações estruturais significativas: a UE manteve-se como exportador líquido, mas assistiu a uma erosão progressiva do seu saldo comercial. O valor das exportações cresceu 9,0% (de 738,5 milhões EUR para 804,8 milhões EUR), enquanto os volumes exportados recuaram 31,6% (de 95 691 t para 65 469 t). Em paralelo, as importações cresceram 36,3% em valor (de 399,2 milhões EUR para 544,3 milhões EUR) e 18,2% em volume (de 45 105 t para 53 317 t). O saldo comercial positivo reduziu-se de 339,3 milhões EUR para 260,5 milhões EUR (−23,2%).
1. A divergência entre volumes e preços: a UE exporta menos, mas mais valor
1.1. As exportações europeias perderam um terço do volume, mas ganharam 59% em preço médio
A dinâmica mais marcante do período é o afastamento entre a evolução dos volumes exportados e do valor total das exportações. Enquanto o volume caiu de 95 691 t (2015) para 65 469 t (2025), o preço médio subiu de 7 718 EUR/t para 12 289 EUR/t — um aumento de 59,2%. Este fenómeno sugere uma reestruturação do mix exportador europeu no sentido de produtos de maior valor acrescentado, nomeadamente mós de diamante aglomerado (CN 680421) e, em especial, pedras para amolar ou polir manualmente (CN 680430).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor exportações (M EUR) | 738,5 | 804,8 | +9,0% |
| Volume exportações (t) | 95 691 | 65 469 | −31,6% |
| Preço médio exportação (EUR/t) | 7 718 | 12 289 | +59,2% |
1.2. O segmento 680430 (pedras para amolar manualmente) explodiu em preço
O segmento CN 680430, apesar de representar volumes residuais (528 t em 2025, contra 485 t em 2015), registou uma valorização de preço exportador espetacular: de 10 626 EUR/t em 2015 para 31 438 EUR/t em 2025 — um crescimento de quase 196%. A receita exportadora deste subproduto passou de 5,2 milhões EUR para 16,6 milhões EUR. Esta evolução pode refletir a crescente procura de produtos artesanais de amolar de elevada qualidade, frequentemente produzidos por PME europeias especializadas.
1.3. O segmento 680422 (abrasivos aglomerados/cerâmicos) perdeu volume mas sustentou valor
O maior segmento exportador por volume, CN 680422, recuou de 87 700 t para 57 379 t em volume (−34,6%), mas o preço médio subiu de 5 741 EUR/t para 8 485 EUR/t (+47,8%). A receita desceu apenas marginalmente, de 503,5 milhões EUR para 487,0 milhões EUR (−3,3%), sinal de que o setor europeu de abrasivos industriais manteve poder de fixação de preços apesar da contração volumétrica.
| Segmento | Vol. 2015 (t) | Vol. 2025 (t) | Var. vol. | Preço 2015 (EUR/t) | Preço 2025 (EUR/t) | Var. preço |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 680422 — Abrasivos/cerâmica | 87 700 | 57 379 | −34,6% | 5 741 | 8 485 | +47,8% |
| 680421 — Diamante aglomerado | 5 321 | 6 296 | +18,3% | 41 650 | 46 379 | +11,4% |
| 680410 — Mós para moer | 1 503 | 509 | −66,1% | 3 810 | 10 248 | +169,0% |
| 680430 — Pedras p/ amolar | 485 | 528 | +8,9% | 10 626 | 31 438 | +195,9% |
| 680423 — Pedras naturais | 682 | 757 | +11,1% | 3 513 | 4 778 | +36,0% |
1.4. As importações acompanharam a subida de preços, mas a ritmo mais moderado
Do lado das importações, o preço médio subiu de 8 850 EUR/t para 10 208 EUR/t (+15,3%), num crescimento significativamente mais modesto do que o registado nas exportações. Esta assimetria — preços exportadores a subir mais do que os importadores — reforça a ideia de que a UE está a mover-se para segmentos de maior valor na cadeia de valor dos abrasivos.
2. Reorientação geográfica: China avança, Rússia desaparece, os EUA consolidam-se
2.1. A China tornou-se o principal fornecedor da UE com 239 milhões EUR
A China consolidou a sua posição como principal fornecedor extra-UE de mós e abrasivos, com um crescimento de 54,4% ao longo do período (de 155,1 milhões EUR para 239,4 milhões EUR), atingindo um máximo de 276,4 milhões EUR em 2022. A quota chinesa nas importações totais da UE passou de 38,8% em 2015 para 44,0% em 2025. Este crescimento reflete tanto a competitividade- preço dos produtores chineses como a expansão da indústria chinesa de abrasivos sintéticos, em especial diamante sintético aglomerado (CN 680421).
2.2. A Turquia emergiu como segundo fornecedor em crescimento
A Turquia registou o maior crescimento relativo entre os principais fornecedores: as importações da UE provenientes da Turquia passaram de 4,7 milhões EUR para 17,6 milhões EUR (+271,5%). Este crescimento reflete o investimento turco na indústria de abrasivos e a proximidade geográfica ao mercado europeu.
2.3. As exportações para a Rússia colapsaram em 66,2%
O parceiro comercial que mais perdeu relevância do lado das exportações europeias foi a Federação Russa: as exportações caíram de 34,0 milhões EUR (2015) para 11,5 milhões EUR (2025), uma queda de 66,2%. Esta evolução é fortemente correlacionada com as sanções económicas impostas após 2022 e com a deterioração das relações comerciais bilaterais. A volatilidade associada a este parceiro é a mais elevada entre os destinos de exportação (coeficiente de variação de 0,47), refletindo a instabilidade das flutuações anuais.
| Principais parceiros de importação da UE | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 155,1 | 239,4 | +54,4% |
| Suíça | 46,3 | 60,5 | +30,8% |
| Índia | 20,7 | 24,8 | +19,6% |
| EUA | 37,8 | 29,2 | −22,9% |
| Reino Unido | 11,4 | 11,8 | +3,3% |
| Turquia | 4,7 | 17,6 | +271,5% |
| Tailândia | 17,5 | 26,6 | +52,0% |
2.4. Os Estados Unidos consolidaram-se como o principal destino de exportação
Os EUA tornaram-se de longe o principal destino das exportações europeias, crescendo de 103,2 milhões EUR para 175,2 milhões EUR (+69,8%). Este crescimento sustentado sugere uma vantagem competitiva europeia no mercado norte-americano, possivelmente ligada à qualidade dos abrasivos industriais e à procura do setor automóvel e aeroespacial dos EUA.
2.5. A concentração geográfica das importações aumentou
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor subiu de 1 938 para 2 276 (+17,4%), indicando uma maior concentração das fontes de abastecimento. Em volumes, o HHI também subiu (de 4 519 para 4 781), embora de forma mais moderada (+5,8%). Do lado das exportações, a concentração também aumentou (HHI de 514 para 770, +49,8%), sinalizando uma maior dependência de mercados de destino menos diversificados.
Concentração do comércio (HHI)
Principais parceiros por valor
3. Estrutura produtiva europeia: especialização, integração comercial e resiliência
3.1. A Áustria e a Alemanha lideram a especialização europeia em abrasivos
Os dados de especialização (RSCA) para 2025 revelam que a Áustria (RSCA = 0,71, RCA = 5,82) é o Estado-Membro mais especializado na produção e exportação de mós e artigos semelhantes, seguida de Luxemburgo (RSCA = 0,32), Eslovénia (0,29), Alemanha (0,20) e Itália (0,18). Estes cinco países representam a espinha dorsal industrial do setor na UE, com destaque para a Alemanha (quota de 31,9% na produção e 21,2% nas exportações totais da UE) e a Itália (11,5% e 8,0%, respetivamente).
3.2. A Alemanha mantém a liderança absoluta em exportações, mas perde dinamismo
A Alemanha exportou 261,8 milhões EUR em 2025 (crescimento marginal de 1,8% face a 2015), enquanto a Áustria cresceu 25,9% (de 93,6 para 117,9 milhões EUR), a Espanha 72,6% (de 22,5 para 38,9 milhões EUR) e a Suécia 73,6% (de 18,3 para 31,7 milhões EUR). A Eslovénia, por seu lado, registou uma quebra significativa (−36,6%), refletindo possivelmente reestruturações industriais ou perda de competitividade. Estes dados sugerem uma dispersão geográfica da capacidade exportadora europeia para além do eixo Alemanha-Itália tradicional.
| Estado-Membro (exportações) | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 257,2 | 261,8 | +1,8% |
| Itália | 178,4 | 190,8 | +6,9% |
| Áustria | 93,6 | 117,9 | +25,9% |
| Polónia | 33,9 | 33,4 | −1,4% |
| Espanha | 22,5 | 38,9 | +72,6% |
| Suécia | 18,3 | 31,7 | +73,6% |
| Eslovénia | 42,0 | 26,6 | −36,6% |
Principais exportadores por valor
3.3. A intensidade comercial e a propensão exportadora atingiram máximos históricos
A intensidade comercial da UE no setor CN 6804 subiu de 41,2% para 67,1% (+62,7%), enquanto a propensão exportadora passou de 29,7% para 55,3% (+86,1%). Estes valores indicam que a indústria europeia de abrasivos tornou-se significativamente mais dependente dos mercados externos, tanto como fornecedora como como compradora.
3.4. A dependência líquida de importações agravou-se
O indicador de dependência líquida de importações passou de −11,2% para −24,1% (variação de −115,2%). Apesar do sinal negativo indicar que a UE continua a ser exportador líquido, o agravamento deste indicador reflete a perda de competitividade relativa face ao crescimento das importações, em particular da China. O valor mínimo registado (−29,9% em 2022) coincide com o pico das importações chinesas (276,4 milhões EUR), sugerindo uma pressão competitiva especialmente intensa nesse ano.
3.5. A volatilidade do comércio com parceiros periféricos é elevada
A análise da volatilidade revela que os parceiros com maior coeficiente de variação (CV) nas importações são a Rússia (0,64) e a Ucrânia (0,43), refletindo as disrupções geopolíticas do período. Do lado das exportações, os destinos mais voláteis são a Rússia (0,47), os Emirados Árabes Unidos (0,47) e a Arábia Saudita (0,32). Os choques de preço mais significativos detetados ocorreram em exportações para a Índia (2017, desvio de 26,3%) e para o Egipto (2018, desvio de 50,9%), embora com quotas de valor reduzidas (5,0% e 1,3%, respetivamente).
Conclusão
O mercado europeu de mós e abrasivos (CN 6804) entre 2015 e 2025 apresenta três dinâmicas fundamentais: (i) uma valorização estrutural do mix exportador europeu, com preços a crescer 59% enquanto os volumes recuam 32%, sinalizando uma aposta em produtos de maior valor acrescentado; (ii) uma reorientação geográfica significativa, com a China a consolidar-se como fornecedor dominante (+54% em valor), a Rússia a perder relevância como destino de exportação (−66%) e os EUA a tornarem-se o principal mercado de destino (+70%); e (iii) uma crescente integração da indústria europeia nos mercados globais, com a propensão exportadora a quase duplicar e a intensidade comercial a atingir 67%.
A UE mantém o estatuto de exportador líquido líquido, mas o saldo comercial positivo encolheu 23% e a concentração das fontes de importação aumentou, sobretudo por via da dependência chinesa. A capacidade de a indústria europeia — liderada por Alemanha, Itália e Áustria — manter a sua vantagem em segmentos de elevado valor acrescentado (diamante aglomerado, pedras de amolar de qualidade) será determinante para sustentar a posição comercial nos próximos anos.