Evolução do mercado: Guarnições de fricção (CN 6813) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia para o código aduaneiro 6813, que abrange guarnições de fricção — placas, rolos, tiras, segmentos, discos, anéis e pastilhas — não montadas, para travões, embraiagens ou outros mecanismos de fricção, à base de amianto, de outras substâncias minerais ou de celulose. O período em análise, de 2015 a 2025, abarca uma década de profundas transformações: restrições ao amianto, choques pandémicos, reconfigurações geopolíticas e uma acelerada transição para materiais mais sustentáveis. A análise baseia-se exclusivamente nos dados disponíveis, com período de comparação completo (11 anos), e incide sobre as três dinâmicas mais salientes do período: a divergência entre volumes e preços, a reorganização geográfica dos parceiros comerciais, e a crescente integração e exposição da UE no comércio global de materiais de fricção.
1. O paradoxo dos volumes e preços: menos toneladas, mais valor
1.1. A contração acentuada dos volumes transacionados
A evolução mais marcante do período é a forte queda nos volumes físicos, tanto em exportações como em importações. As exportações da UE diminuíram de 15.610 toneladas em 2015 para 9.665 toneladas em 2025, uma redução de 38,1%. As importações seguiram uma trajetória semelhante, caindo de 14.240 toneladas para 10.837 toneladas (-23,9%). Esta dupla descida sugere um enfraquecimento estrutural da procura física de guarnições de fricção, possivelmente relacionado com a crescente adoção de sistemas de travagem regenerativa em veículos elétricos e com a melhoria da eficiência dos materiais de fricção, que prolonga os ciclos de substituição.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor) | 144,4 M€ | 160,6 M€ | +11,2% |
| Exportações (quantidade) | 15.610 t | 9.665 t | −38,1% |
| Importações (valor) | 133,1 M€ | 133,6 M€ | +0,3% |
| Importações (quantidade) | 14.240 t | 10.837 t | −23,9% |
1.2. A escalada dos preços unitários como compensação estrutural
Paralelamente à queda de volumes, os preços unitários registaram uma subida acentuada, sobretudo do lado das exportações. O preço médio de exportação subiu de 9.166 €/t para 16.604 €/t (+81,2%), enquanto o preço médio de importação aumentou de 9.349 €/t para 12.323 €/t (+31,8%). Esta divergência entre os dois preços é significativa: em 2015, os preços de exportação e importação eram praticamente idênticos; em 2025, as exportações europeias valem 34,7% mais por tonelada do que as importações. Este diferencial reflete uma clara ascensão europeia na cadeia de valor, com a UE a concentrar-se em produtos de maior valor acrescentado e a importar componentes de menor preço.
1.3. A melhoria consistente da balança comercial
O saldo comercial da UE em guarnições de fricção passou de um superávite de 11,3 M€ em 2015 para 27,0 M€ em 2025, uma melhoria de 139,2%. O ponto mais baixo registou-se em 2020 (4,4 M€), coincidindo com a crise pandémica, mas a recuperação foi rápida e robusta. A melhoria do saldo ocorreu essencialmente pela via dos preços, já que os volumes importados e exportados caíram ambos — mas as exportações valorizaram-se mais que as importações. O índice de dependência líquida de importações manteve-se negativo ao longo de todo o período (de −5,9% em 2015 para −4,0% em 2025), confirmando que a UE permaneceu exportadora líquida.
2. Reconfiguração geográfica: novos parceiros, novas dependências
2.1. O retraimento da Rússia e a consolidação de novos destinos de exportação
A evolução mais dramática do lado das exportações é o colapso do comércio com a Rússia, que passou de 7,7 M€ em 2015 para apenas 251 mil euros em 2025 (−96,8%). Este colapso, concentrado nos anos pós-2022, é claramente atribuível às sanções comerciais impostas após a invasão da Ucrânia. Paralelamente, as exportações para a Índia dispararam de 5,2 M€ para 23,8 M€ (+357,4%), tornando-se o principal destino de exportação da UE — ultrapassando a China (24,8 M€), o Reino Unido (13,1 M€) e a Turquia (16,7 M€). As exportações para o México registaram uma quebra significativa (−69,2%), passando de 20,5 M€ para 6,3 M€.
| Parceiro | Exportações 2015 | Exportações 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 18,2 M€ | 24,8 M€ | +36,6% |
| Índia | 5,2 M€ | 23,8 M€ | +357,4% |
| Turquia | 15,7 M€ | 16,7 M€ | +6,2% |
| Reino Unido | 24,1 M€ | 13,1 M€ | −45,6% |
| México | 20,5 M€ | 6,3 M€ | −69,2% |
| Rússia | 7,7 M€ | 0,3 M€ | −96,8% |
2.2. Os Estados Unidos como principal fornecedor e parceiro estável
Do lado das importações, os Estados Unidos mantiveram-se como o principal parceiro da UE ao longo de todo o período, com importações a crescerem ligeiramente de 61,2 M€ para 63,9 M€ (+4,4%), embora com grande volatilidade (mínimo de 35,3 M€ em 2020, máximo de 82,4 M€). A China consolidou-se como segundo fornecedor (23,4 M€ em 2025), ultrapassando o Brasil (17,2 M€ em 2025, −31,9%). Outros parceiros apresentaram quedas acentuadas: a Turquia (−62,8%), o Chile (−90,7%) e o Reino Unido (−21,3%) perderam relevância como fornecedores.
2.3. Reorganização da produção intra-UE: a ascensão da Itália e da Hungria
A estrutura interna da UE também se reconfigurou. A Alemanha manteve-se como o principal exportador (73,1 M€ em 2025), mas com uma ligeira perda (−8,9%). A França, pelo contrário, mais do que duplicou as suas exportações, passando de 23,2 M€ para 39,0 M€ (+68,3%), consolidando-se como segundo exportador. Do lado das importações, a Itália registou o crescimento mais espetacular (de 4,5 M€ para 14,5 M€, +218,8%), e a Hungria mais que duplicou (5,1 M€ para 9,2 M€). Estas dinâmicas sugerem um deslocamento da base produtiva europeia, com Itália e Hungria a emergirem como centros de montagem ou transformação de materiais de fricção para o mercado automóvel europeu.
3. Intensificação comercial e volatilidade crescente
3.1. A UE como plataforma de comércio global de materiais de fricção
Os indicadores de intensidade comercial e de propensão exportadora revelam uma integração crescente da UE no mercado global. A intensidade comercial (comércio externo relativo à produção) subiu de 26,7% para 45,9% (+72,0%), e a propensão exportadora (exportações relativas à produção) passou de 17,8% para 31,1% (+75,4%). Estes valores indicam que uma proporção crescente da produção europeia é destinada ao mercado externo, e que a UE se tornou uma plataforma logística e produtiva cada vez mais relevante para o setor. Este fenómeno decorre simultaneamente de uma queda da produção interna (−38,5% em volume, de 119.401 t para 73.395 t) e da valorização das exportações.
3.2. A segmentação dos produtos: o domínio crescente do código 681389
A análise por segmento de produto revela uma transformação estrutural. O segmento 681389 (materiais de fricção para embraiagens e outros mecanismos, excluindo travões e amianto) tornou-se dominante nas importações, passando de 88,5 M€ (66,5% do total) para 90,5 M€ (67,7%). Este crescimento esconde, porém, uma evolução notável: as quantidades importadas deste segmento cresceram significativamente (de 3.422 t para 5.728 t, +67,4%), enquanto os preços caíram de 25.852 €/t para 15.792 €/t (−38,9%). Em contraste, o segmento 681381 (guarnições para travões) registou uma queda acentuada nas quantidades importadas (de 10.630 t para 5.099 t, −52,0%), mas uma escalada dos preços (de 3.996 €/t para 8.415 €/t, +110,6%). O segmento residual 681320 (que contém amianto) é marginal — menos de 10 toneladas importadas em 2025 — confirmando a transição completa para materiais sem amianto.
| Segmento | Importações 2015 (valor) | Importações 2025 (valor) | Var. valor | Var. quantidade | Var. preço |
|---|---|---|---|---|---|
| 681381 — Travões | 42,5 M€ | 42,9 M€ | +1,0% | −52,0% | +110,6% |
| 681389 — Embraiagens e outros | 88,5 M€ | 90,5 M€ | +2,2% | +67,4% | −38,9% |
| 681320 — Com amianto | 2,2 M€ | 0,08 M€ | −96,3% | −94,7% | −30,6% |
3.3. Choques de preço e volatilidade nos fluxos comerciais
O análise de volatilidade e de choques de abastecimento revelam um mercado sujeito a flutuações significativas. Os parceiros com maior volatilidade nas importações são Hong Kong (CV=3,18), Turquia (CV=0,71) e Chile (CV=0,66); nas exportações, destacam-se a Argélia (CV=0,73), o México (CV=0,57) e a Rússia (CV=0,51). Foram detetados três choques de preço significativos: um aumento anómalo de +45,7% nos preços de importação do Brasil em 2023 (com uma quota de 19,7% no valor total das importações), um aumento de +44,5% nos preços de exportação para a Arábia Saudita em 2023, e um aumento de +42,7% nos preços de exportação para os EUA em 2019. Estes eventos pontuais sugerem ajustamentos de cadeia de abastecimento e pressões de custos em mercados-chave.
Conclusão
O mercado de guarnições de fricção (CN 6813) da UE entre 2015 e 2025 é definido por uma transformação estrutural profunda. Os volumes físicos em circulação — tanto em exportação como em importação — sofreram reduções acentuadas, mas os preços unitários subiram de forma pronunciada, permitindo que o valor total das trocas comerciais se mantivesse estável ou até crescesse. Esta dinâmica reflete tanto a pressão inflacionária como a transição do setor para produtos de maior valor acrescentado. A estrutura geográfica do comércio foi profundamente reconfigurada: a perda da Rússia como destino de exportação, a emergência da Índia como principal parceiro de exportação, a consolidação dos EUA como fornecedor dominante e a ascensão de Itália e Hungria como centros logísticos internos marcam uma nova era para o setor. O segmento de amianto tornou-se praticamente residual, confirmando a transição ambiental. Finalmente, a crescente intensidade comercial e propensão exportadora da UE revelam que o setor se tornou mais dependente dos mercados externos, mas simultaneamente mais competitivo em termos de preço — uma evolução que, embora positiva no curto prazo, implica maior exposição a choques de procura e a perturbações geopolíticas.