Evolução do mercado: Manganês (CN 8111) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativamente ao código pautal CN 8111 — «Manganês e suas obras, incluindo os desperdícios e resíduos, e sucata» — no período compreendido entre 2015 e 2025. Este produto abrange o manganês em formas brutas e pós, os desperdícios e resíduos, e as obras de manganês (códigos PRODCOM 24.45.30.85, 24.45.30.86 e 24.45.30.87).
O manganês é uma matéria-prima essencial para a indústria siderúrgica e para a produção de baterias de ião-lítio, sendo por isso considerado um mineral crítico para a transição energética. A análise dos dados disponíveis entre janeiro de 2015 e dezembro de 2025 revela três dinâmicas principais: uma crescente dependência das importações — sobretudo da China —, um enfraquecimento progressivo das exportações europeias, e um aumento da vulnerabilidade estrutural da UE num contexto de elevada concentração fornecedora. Este relatório descreve e interpreta essas tendências com base nos dados estatísticos fornecidos.
1. A crescente dependência das importações e o domínio da China
1.1. Um défice comercial estrutural que se acentua
A UE apresenta um défice comercial persistente e crescente no setor do manganês. Entre 2015 e 2025, o défice passou de -139,1 milhões de euros para -183,5 milhões de euros, uma deterioração de 31,9% (ver dados gerais). Este défice atingiu um máximo de -485,4 milhões de euros em determinado ano do período analisado, refletindo uma forte dependência externa.
| Indicador | 2015 (primeiro) | 2025 (último) | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor, M EUR) | 164,9 | 200,0 | +21,3% |
| Importações (quantidade, t) | 93 058 | 110 375 | +18,6% |
| Exportações (valor, M EUR) | 25,8 | 16,5 | -36,0% |
| Exportações (quantidade, t) | 10 146 | 5 789 | -42,9% |
| Saldo comercial (M EUR) | -139,1 | -183,5 | -31,9% |
As importações cresceram em volume e em valor, enquanto as exportações sofreram um declíneo acentuado, tanto em quantidade (-42,9%) como em valor (-36,0%). Esta divergência reflete um aprofundamento da dependência europeia relativamente a fornecedores externos.
1.2. A China como fornecedor dominante e praticamente monopolista
A análise dos principais parceiros comerciais por valor revela uma concentração extrema das importações na China. Em 2025, as importações de manganês provenientes da China totalizaram 181,0 milhões de euros, representando mais de 90% do valor total das importações da UE nesta posição pautal.
| País de origem | Importações 2015 (EUR) | Importações 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 147 240 789 | 181 040 704 | +23,0% |
| África do Sul | 12 332 967 | 7 876 013 | -36,1% |
| Gabão | 1 444 210 | 4 447 | -99,7% |
| Indonésia | 6 387 | 7 791 626 | +121 899,2% |
| Noruega | 102 193 | 39 141 | -61,7% |
| Reino Unido | 1 276 135 | 722 902 | -43,4% |
| Ucrânia | 328 502 | 7 676 505 | +2 236,8% |
A dominância chinesa é evidente. No entanto, nota-se uma reconfiguriação dos fornecedores secundários: enquanto as importações de Gabão praticamente desapareceram (-99,7%) e as da África do Sul e Noruega diminuíram significativamente, novos parceiros ganharam relevância — nomeadamente a Indonésia (crescimento explosivo de +121 899,2%) e a Ucrânia (+2 236,8%), que em 2025 já representava 7,7 milhões de euros em importações.
1.3. O papel crescente da Indonésia e da Ucrânia na diversificação da oferta
A entrada da Indonésia e da Ucrânia como fornecedores relevantes de manganês para a UE constitui um desenvolvimento significativo no período analisado. A Indonésia passou de importações residuais de 6 387 euros em 2015 para 7,8 milhões de euros em 2025, enquanto a Ucrânia cresceu de 328 502 euros para 7,7 milhões de euros no mesmo período.
Esta evolução pode refletir tanto o crescimento da capacidade mineira e de processamento nesses países como esforços europeus de diversificação das cadeias de abastecimento. Contudo, a variação da Indonésia é notavelmente volátil (coeficiente de variação de 0,82 nas importações), o que sugere que estas relações comerciais ainda são instáveis. Relativamente à Ucrânia, o seu coeficiente de variação de 1,14 — o mais elevado entre os parceiros de importação — indica uma extrema irregularidade nas remessas, possivelmente afetada por fatores geopolíticos, como o conflito iniciado em 2022.
2. O enfraquecimento das exportações europeias e a perda de competitividade
2.1. Queda acentuada das exportações em volume e em valor
As exportações da UE de manganês registaram um declíneo significativo ao longo da década. O valor das exportações passou de 25,8 milhões de euros em 2015 para 16,5 milhões de euros em 2025, uma redução de 36,0% (ver dados gerais). Em termos de volume, a queda foi ainda mais pronunciada: de 10 146 toneladas para 5 789 toneladas (-42,9%).
Apesar da diminuição em volume, o preço médio das exportações subiu de 2 545 EUR/t para 2 855 EUR/t (+12,2%), o que sugere uma valorização dos produtos exportados ou um deslocamento para produtos de maior valor acrescentado.
2.2. Perda de quota nos principais mercados de destino
O perfil dos principais parceiros de exportação revela uma contração generalizada das exportações europeias. Os maiores declínios registaram-se no Reino Unido (-55,9%) e no Canadá (-36,8%), dois dos mercados tradicionais da UE.
| País destino | Exportações 2015 (EUR) | Exportações 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 3 978 016 | 1 752 921 | -55,9% |
| Estados Unidos | 4 997 363 | 4 572 216 | -8,5% |
| Noruega | 1 716 436 | 1 851 299 | +7,9% |
| Índia | 2 603 904 | 2 595 485 | -0,3% |
| Brasil | 92 718 | 285 976 | +208,4% |
| Canadá | 3 463 457 | 2 190 210 | -36,8% |
| Turquia | 1 052 923 | 1 262 564 | +19,9% |
Embora existam exceções pontuais — como o Brasil (+208,4%) e a Turquia (+19,9%) —, a tendência dominante é de contração. Os Estados Unidos, maior destino das exportações europeias de manganês, mantiveram-se relativamente estáveis (-8,5%), mas registaram um choque de preço extraordinário em 2022, com uma anormalidade de 266,4 e um aumento de 79,3% nos preços (ver choques de fornecimento). Este evento pode estar relacionado com as perturbações nas cadeias de abastecimento pós-pandemia e com a guerra na Ucrânia.
2.3. Alterações no perfil dos principais exportadores da UE
A análise dos principais países exportadores da UE mostra uma reconfiguração significativa. A Alemanha continua a ser o maior exportador, mas com uma redução de 25,6% (de 10,6 para 7,8 milhões de euros). Os Países Baixos (-38,7%), a Suécia (-63,3%), a França (-92,3%) e a Espanha (-75,6%) registaram quedas muito acentuadas.
| País exportador (UE) | Exportações 2015 (EUR) | Exportações 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 10 552 233 | 7 849 123 | -25,6% |
| Países Baixos | 4 582 926 | 2 811 403 | -38,7% |
| Bélgica | 844 150 | 3 351 599 | +297,0% |
| França | 2 963 587 | 226 898 | -92,3% |
| Espanha | 4 710 316 | 1 147 792 | -75,6% |
| Suécia | 1 469 317 | 539 567 | -63,3% |
| Eslovénia | 49 975 | 51 440 | +2,9% |
A Bélgica surge como a principal exceção, com um crescimento impressionante de 297,0%, passando a terceiro maior exportador da UE. Esta evolução pode refletir a consolidação de atividades de transformação e reexportação no porto de Antuérpia, historicamente um hub logístico europeu para metais.
3. Concentração fornecedora, vulnerabilidade estrutural e dinâmicas de mercado
3.1. Elevada concentração das importações e risco de dependência
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações da UE em manteve-se consistentemente elevado ao longo do período, com valores entre 7 494 (mínimo) e 9 022 (máximo) para o HHI em valor. Em 2025, o HHI em valor situou-se em 8 237, ligeiramente acima do valor inicial de 8 042 (+2,4%). Estes valores indicam uma concentração muito elevada das importações, compatível com um mercado oligopolista ou quase monopolista.
Em contraste, o HHI das exportações da UE é significativamente mais baixo (1 552 em 2025), refletindo uma distribuição mais diversificada dos destinos de exportação — embora este índice tenha crescido 36,8% ao longo do período, sugerindo uma ligeira concentração crescente.
3.2. Aumento da dependência líquida de importações
A taxa de dependência líquida de importações da UE subiu de 64,7% em 2015 para 83,1% em 2025, uma variação de +28,5%. Esta métrica, que atingiu um máximo de 85,9% em determinado ano, confirma que a UE se tornou progressivamente mais dependente do exterior para o abastecimento de manganês.
| Indicador de vulnerabilidade | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações | 64,7% | 83,1% | +28,5% |
| Intensidade comercial | 78,4% | 90,5% | +15,5% |
| Propensão para exportar | 31,9% | 40,1% | +25,7% |
A intensidade comercial — que mede o peso do comércio total relativamente à produção doméstica — subiu de 78,4% para 90,5%, indicando que a economia europeia está cada vez mais integrada no comércio internacional de manganês, tanto pelo lado das importações como pelo das exportações.
3.3. Volatilidade dos preços e choques de fornecimento
A análise da volatilidade revela padrões distintos entre parceiros. As importações da China apresentam o coeficiente de variação (CV) mais baixo (0,12), o que sugere uma relação comercial estável e previsível. Em contraste, as importações da Ucrânia (CV=1,14) e da Coreia do Sul (CV=2,34) são altamente voláteis.
No lado das exportações, os principais parceiros apresentam CV moderados, com a Turquia (0,23) e a Noruega (0,27) a registarem os fluxos mais estáveis, e o Brasil (0,87) e a Rússia (0,99) os mais voláteis.
Foram detetados três eventos de choque significativos nas exportações da UE:
| País destino | Tipo de choque | Ano central | Anormalidade | Variação de preço | Quota de valor |
|---|---|---|---|---|---|
| Estados Unidos | Preço | 2022 | 266,4 | +79,3% | 25,6% |
| Turquia | Preço | 2021 | 22,7 | +78,2% | 5,7% |
| Canadá | Preço | 2021 | 22,7 | +81,4% | 6,3% |
O choque de 2022 nas exportações para os EUA é particularmente significativo, com uma anormalidade de 266,4 e uma quota de valor de 25,6%, o que indica um impacto substancial no valor total das exportações europeias de manganês. Estes eventos de 2021-2022 coincidem com o período pós-pandémico e com as perturbações logísticas e geopolíticas que afetaram os mercados globais de matérias-primas.
3.4. A produção europeia: crescimento em volume, mas perda de valor
Os dados de produção europeia revelam uma evolução paradoxal: a quantidade produzida aumentou 252,2% (de 2,5 milhões de kg para 8,9 milhões de kg), mas o valor caiu 62,6% (de 110,0 milhões de euros para 41,1 milhões de euros). Esta dinâmica sugere uma queda acentuada dos preços unitários de produção interna, possivelmente refletindo pressão competitiva dos fornecedores asiáticos ou uma alteração da mistura de produtos produzidos na UE.
No que respeita à especialização, os Países Baixos destacam-se como o país mais especializado em manganês (RSCA=0,7004), seguidos pela Áustria (RSCA=0,1589). A maioria dos restantes Estados-Membros apresenta valores de RSCA negativos, indicando uma posição competitiva desfavorável neste setor. Os países menos especializados incluem a Hungria (RSCA=-1,0), a Roménia (-0,9949) e Portugal (-0,9862).
Conclusão
A análise do comércio externo da UE em manganês (CN 8111) entre 2015 e 2025 revela um conjunto coerente de tendências que apontam para uma crescente vulnerabilidade estratégica. O défice comercial agravou-se, as importações cresceram sustentadamente e a China consolidou a sua posição como fornecedor dominante, representando mais de 90% do valor das importações europeias. Simultaneamente, as exportações da UE registaram um declíneo acentuado (-36% em valor, -43% em volume), refletindo uma perda de competitividade no mercado internacional.
A dependência líquida de importações atingiu 83,1% em 2025, e o índice de concentração HHI das importações manteve-se em níveis muito elevados (acima de 8 000), o que configura um risco significativo para a segurança de abastecimento europeia num mineral cada vez mais essencial para a indústria das baterias e para a transição energética.
A emergência da Indonésia e da Ucrânia como fornecedores alternativos é um desenvolvimento positivo do ponto de vista da diversificação, mas a elevada volatilidade destas relações comerciais (CV de 0,82 e 1,14, respetivamente) limita a sua fiabilidade. Os choques de preço detetados em 2021-2022, particularmente nas exportações para os EUA, ilustram a exposição do setor a perturbações externas.
Em suma, os dados indicam que a UE se encontra numa posição de crescente dependência externa para o manganês, num contexto de concentração fornecedora elevada e de volatilidade crescente. Estas dinâmicas reforçam a pertinência das iniciativas europeias em matéria de minerais críticos, designadamente o Regulamento sobre Matérias-Primas Críticas (Critical Raw Materials Act), no sentido de promover a diversificação das cadeias de abastecimento, o aumento da capacidade de reciclagem e o desenvolvimento de uma produção doméstica mais resiliente.