Evolução do mercado: Magnésio (CN 8104) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) com países terceiros para o código combinado 8104 — Magnésio e suas obras, incluindo os desperdícios e resíduos, e sucata, ao longo do período 2015–2025. Este código abrange magnésio bruto (com diferentes graus de pureza), aparas, pós, desperdícios e resíduos, sucata, e obras de magnésio. A análise baseia-se exclusivamente nos dados fornecidos e procura identificar as principais dinâmicas estruturais que moldaram este mercado ao longo da última década — desde a estabilidade pré-pandémica até ao choque de 2022 e à subsequente transformação da base produtiva europeia.
1. Uma década de dois tempos: estabilidade relativa até 2020 e o choque sem precedentes de 2022
1.1. O comércio global manteve volumes estáveis entre 2015 e 2021
Ao longo do período analisado, as importações da UE de magnésio (CN 8104) apresentaram volumes relativamente estáveis, com ligeiras flutuações. A quantidade importada situou-se tipicamente entre as 155.000 e as 185.000 toneladas anuais, registando uma queda acentuada apenas em 2020 (ano da pandemia de COVID-19) e na fase final do período em análise.
| Ano | Importações (valor, M€) | Importações (quantidade, t) | Preço médio import. (€/t) | Exportações (valor, M€) | Exportações (quantidade, t) | Preço médio export. (€/t) | Saldo comercial (M€) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2015 | 366,3 | 163.448 | 2.241 | 55,6 | 24.161 | 2.303 | −310,6 |
| 2016 | 368,2 | 181.550 | 2.028 | 54,5 | 20.604 | 2.644 | −313,7 |
| 2017 | 403,2 | 184.344 | 2.188 | 50,8 | 21.919 | 2.319 | −352,4 |
| 2018 | 384,8 | 177.752 | 2.165 | 66,2 | 26.526 | 2.497 | −318,6 |
| 2019 | 423,7 | 175.858 | 2.409 | 72,5 | 26.452 | 2.741 | −351,2 |
| 2020 | 322,0 | 155.198 | 2.075 | 66,6 | 23.379 | 2.849 | −255,4 |
| 2021 | 482,2 | 171.472 | 2.812 | 89,6 | 28.795 | 3.112 | −392,6 |
| 2022 | 1.133,5 | 205.278 | 5.522 | 256,9 | 38.979 | 6.590 | −876,6 |
| 2023 | 509,5 | 145.362 | 3.505 | 122,7 | 25.854 | 4.746 | −386,8 |
| 2024 | 428,2 | 144.166 | 2.970 | 91,9 | 18.923 | 4.854 | −336,3 |
| 2025 | 358,7 | 143.661 | 2.497 | 95,4 | 22.220 | 4.291 | −263,4 |
Fonte: Visão geral do comércio
1.2. O ano de 2022 representou um choque de preços de magnitude histórica
O ano de 2022 constituiu o ponto de rutura mais marcante do período. O valor das importações da UE disparou para 1.133,5 milhões de euros — quase o triplo do valor de 2021 e o máximo absoluto da série — impulsionado por um aumento brutal dos preços. O preço médio de importação atingiu 5.522 €/t, mais do dobro do registado em 2020 (2.075 €/t). Do mesmo modo, as exportações atingiram 256,9 milhões de euros (máximo da série), com preços médios de exportação de 6.590 €/t.
A análise de choques identifica três eventos de preço excecionais em 2022:
| Evento | Tipo de choque | Fluxo | Anomalia | Variação (%) | Participação no valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| China | Preço | Importações | 6,1 | +129,5% | 100,0% |
| EUA | Preço | Exportações | 8,0 | +135,6% | 56,4% |
| Suíça | Preço | Exportações | 22,4 | +80,8% | 8,9% |
Dado que a China representava praticamente a totalidade do valor das importações da UE em magnésio, o choque de preços chinês (+129,5%) teve um impacto dominante. Este fenómeno está relacionado com as restrições à produção de magnésio impostas em províncias chinesas no final de 2021, motivadas por limitações ao consumo energético, que provocaram uma grave perturbação na oferta global.
O saldo comercial da UE deteriorou-se para −876,6 milhões de euros em 2022, o pior valor da série. Os volumes também atingiram máximos (205.278 t nas importações; 38.979 t nas exportações), mas a escalada dos preços foi o fator dominante: os preços explicam a maior parte da divergência entre os picos de valor e os volumes efetivamente transacionados.
1.3. A normalização pós-choque e a nova base de preços
Após o choque de 2022, os preços começaram a convergir para patamares intermédios. Em 2025, o preço médio de importação situou-se em 2.497 €/t — ainda 15% acima do nível pré-choque de 2015 (2.241 €/t), mas já significativamente abaixo do pico. Curiosamente, os preços de exportação da UE permaneceram estruturalmente mais elevados: em 2025, atingiram 4.291 €/t, o que reflete um efeito composição — a UE tende a exportar produtos de maior valor acrescentado (obras de magnésio, código 810490, com preços médios de 13.671 €/t em 2025).
2. A revolução produtiva europeia e o colapso da dependência das importações
2.1. A produção interna da UE cresceu de forma exponencial
A dinâmica mais estrutural do período é o crescimento extraordinário da produção europeia de magnésio. De acordo com os dados PRODCOM disponíveis para o volume de produção:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Quantidade produzida (kg) | 66.807.360 | 2.469.925.134 | +3.597% |
| Valor da produção (€) | 147.732.044 | 3.145.932.400 | +2.030% |
Estes números são notáveis e refletem um investimento massivo na capacidade produtiva europeia, incluindo a produção secundária (reciclagem de desperdícios e resíduos de magnésio, abrangida pelo código PRODCOM 38.32.29.10). A queda da dependência líquida de importações é a consequência direta deste crescimento:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações (%) | 70,9 | 10,0 | −85,9% |
| Intensidade comercial (%) | 84,3 | 13,8 | −83,6% |
| Propensão para exportar (%) | 39,9 | 2,3 | −94,3% |
Fonte: Vulnerabilidade e autonomia
A dependência líquida de importações caiu de 70,9% para apenas 10,0%, o que significa que, embora a UE continue a importar quantidades significativas de magnésio, a produção interna passou a dominar o abastecimento. A propensão para exportar (exportações como percentagem da produção) caiu de 39,9% para 2,3%, indicando que a produção europeia é agora sobretudo orientada para o consumo interno.
2.2. Os Estados-Membros mais especializados revelam a geografia produtiva da UE
A análise de especialização em 2025 permite identificar os Estados-Membros com maior vantagem comparativa revelada (RCA) na produção e exportação de magnésio:
| Estado-Membro | RCA | RSCA | Quota na produção da UE | Quota no total UE |
|---|---|---|---|---|
| Áustria | 4,39 | 0,629 | 14,5% | 3,3% |
| Croácia | 4,16 | 0,612 | 1,7% | 0,4% |
| Países Baixos | 3,19 | 0,523 | 46,3% | 14,5% |
| Bulgária | 3,19 | 0,522 | 2,0% | 0,6% |
| Chéquia | 1,45 | 0,183 | 7,0% | 4,8% |
Os Países Baixos dominam a produção com 46,3% da quota europeia, seguidos pela Áustria (14,5%) e pela Chéquia (7,0%). Esta distribuição reflete a localização de instalações de fundição e transformação de magnésio na Europa Central, com destaque para a Áustria (cuja especialização mais que quadruplicou: RCA de 4,39).
2.3. A evolução dos indicadores de vulnerabilidade reflete uma transformação estrutural
O indicador de propensão para exportar apresenta a maior pontuação de saliência (142,0), acima da intensidade comercial (119,8), confirmando que a redução mais acentuada registou-se na capacidade exportadora relativa da UE. Em 2015, quase 40% da produção europeia era exportada; em 2025, esse valor caiu para 2,3%. Isto sugere que a expansão produtiva serviu sobretudo para substituir importações, não para alimentar exportações.
3. Reconfiguração geográfica e segmentar: novos parceiros e concentração crescente
3.1. A China permanece dominante nas importações, mas os destinos de exportação diversificaram-se
A análise dos principais parceiros revela que a China continuou a ser a principal origem das importações ao longo de todo o período, com quotas esmagadoras:
| Parceiro | Import. 2015 (M€) | Import. 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 312,5 | 316,2 | +1,2% |
| Israel | 8,3 | 14,9 | +78,8% |
| Suíça | 6,7 | 5,0 | −25,4% |
| Reino Unido | 17,8 | 4,0 | −77,6% |
| Sérvia | 8,7 | 0,7 | −92,4% |
| Turquia | 2,4 | 1,6 | −32,5% |
| EUA | 0,7 | 3,2 | +322,6% |
Fonte: Principais parceiros
O Reino Unido, a Sérvia e a Turquia reduziram significativamente as suas exportações para a UE — quedas de 77,6%, 92,4% e 32,5%, respetivamente. Israel e os EUA, por outro lado, aumentaram a sua presença como fornecedores.
No lado das exportações, a transformação foi mais pronunciada:
| Parceiro | Export. 2015 (M€) | Export. 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| EUA | 8,0 | 54,2 | +579,7% |
| Sérvia | 9,1 | 9,9 | +8,4% |
| Suíça | 6,2 | 7,8 | +26,4% |
| Reino Unido | 18,2 | 11,5 | −36,9% |
| Brasil | 5,0 | 2,7 | −45,9% |
| Ucrânia | 1,0 | 0,5 | −45,2% |
| Canadá | 0,02 | 0,7 | +4.098,1% |
Os EUA tornaram-se de longe o principal destino das exportações da UE de magnésio, com um crescimento de 579,7%, passando de 8,0 para 54,2 milhões de euros. Em 2022, este mercado representou 56,4% do valor total das exportações da UE para o mundo. O Canadá também emergiu como destino relevante, com um crescimento de quase 4.100%.
3.2. A concentração das exportações duplicou, refletindo a dependência de poucos mercados
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) para as exportações da UE praticamente duplicou ao longo do período:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| HHI importações (valor) | 7.378 | 7.908 | +7,2% |
| HHI exportações (valor) | 1.796 | 3.579 | +99,3% |
| HHI importações (volume) | 7.769 | 8.362 | +7,6% |
| HHI exportações (volume) | 1.834 | 3.933 | +114,5% |
O HHI das importações, já elevado em 2015 (reflectindo o domínio da China), subiu ligeiramente (+7,2%). Porém, o HHI das exportações duplicou (+99,3% em valor, +114,5% em volume), indicando uma concentração crescente das exportações da UE em poucos parceiros — sobretudo os EUA, que em 2025 absorviam mais de metade do valor exportado.
3.3. A composição segmentar do comércio revela padrões distintos entre importações e exportações
A análise por segmento de produto permite identificar padrões claros:
Importações em 2025 — por subproduto:
| Código | Descrição | Quantidade (t) | Valor (M€) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|---|
| 810411 | Magnésio bruto ≥ 99,8% | 66.992 | 155,3 | 2.318 |
| 810419 | Magnésio bruto < 99,8% | 43.134 | 111,7 | 2.590 |
| 810430 | Aparas, grânulos, pós | 23.391 | 58,0 | 2.480 |
| 810420 | Desperdícios, resíduos, sucata | 7.621 | 11,9 | 1.567 |
| 810490 | Obras de magnésio | 2.523 | 21,8 | 8.616 |
Exportações em 2025 — por subproduto:
| Código | Descrição | Quantidade (t) | Valor (M€) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|---|
| 810420 | Desperdícios, resíduos, sucata | 10.405 | 29,7 | 2.858 |
| 810419 | Magnésio bruto < 99,8% | 7.003 | 27,0 | 3.854 |
| 810490 | Obras de magnésio | 2.192 | 30,0 | 13.671 |
| 810411 | Magnésio bruto ≥ 99,8% | 1.561 | 4,7 | 2.988 |
| 810430 | Aparas, grânulos, pós | 1.059 | 3,9 | 3.726 |
Fonte: Comparação por segmento
As importações são dominadas por magnésio bruto de elevada pureza (810411: 46,6% do volume importado em 2025), seguido do de menor pureza (810419: 30,0%). As exportações, pelo contrário, são lideradas por desperdícios e sucata (810420: 46,8% do volume exportado), o que sugere que parte do material importado é transformado na UE e os resíduos são reexportados. As obras de magnésio (810490) constituem uma fatia pequena do volume exportado (9,9%), mas representam a maior parcela do valor exportado (31,5%), graças ao seu preço médio de 13.671 €/t — confirmando que a UE agrega valor sobretudo na transformação final.
A evolução segmentar ao longo do período mostra que as importações de magnésio bruto de alta pureza (810411) cresceram de 72.227 t (2015) para 97.323 t (2022), antes de recuarem para 66.992 t em 2025 — abaixo do nível de 2015. Por outro lado, as importações de desperdícios e resíduos (810420) cresceram significativamente na fase final (de 4.599 t em 2019 para 7.621 t em 2025), sugerindo um aumento da procura europeia de matéria-prima secundária para reciclagem interna.
3.4. Os Estados-Membros importadores e exportadores reconfiguraram-se
A distribuição pelos Estados-Membros revela mudanças significativas:
Principais importadores:
| Estado-Membro | Import. 2015 (M€) | Import. 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 172,2 | 168,2 | −2,3% |
| Alemanha | 46,7 | 27,7 | −40,8% |
| Itália | 30,6 | 16,8 | −45,1% |
| Roménia | 24,1 | 16,8 | −30,3% |
| França | 17,6 | 15,4 | −12,7% |
| Espanha | 10,1 | 13,1 | +29,3% |
| Grécia | 9,9 | 17,5 | +76,8% |
Principais exportadores:
| Estado-Membro | Export. 2015 (M€) | Export. 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Chéquia | 8,8 | 33,7 | +284,6% |
| Países Baixos | 8,0 | 16,4 | +103,8% |
| Alemanha | 19,9 | 11,9 | −40,2% |
| Áustria | 0,8 | 12,7 | +1.518,2% |
| Espanha | 0,2 | 7,9 | +3.469,7% |
| Hungria | 0,03 | 4,0 | +12.276,0% |
| Itália | 7,4 | 2,4 | −67,9% |
Os Países Baixos mantiveram-se como o principal hub de importação (168,2 milhões de euros em 2025), graças ao porto de Roterdão e à sua posição logística. A Alemanha, a Itália e a Roménia reduziram significativamente as suas importações — consistente com o aumento da produção interna europeia. Nos destinos de exportação, a Chéquia tornou-se o principal exportador (33,7 M€), seguida dos Países Baixos e de uma Áustria em forte crescimento. A Espanha (+3.470%) e a Hungria (+12.276%) registaram crescimentos extraordinários, embora a partir de bases muito baixas, refletindo provavelmente novas instalações de produção ou transformação.
Conclusão
A análise do comércio de magnésio (CN 8104) da UE entre 2015 e 2025 revela uma transformação estrutural profunda. Três dinâmicas principais definem este período:
-
O choque de 2022 como ponto de rutura. A crise de abastecimento originada na China e o subsequente aumento de preços (+130% nas importações) elevaram o valor do comércio a máximos históricos e aprofundaram temporariamente o défice comercial da UE para −876,6 milhões de euros. Embora os preços tenham entretanto parcialmente regressado a patamares intermédios, a memória deste choque acelerou decisões estratégicas de investimento na produção europeia.
-
A construção de autonomia produtiva. A produção europeia de magnésio cresceu de forma exponencial ao longo do período (o valor da produção passou de 148 milhões para 3.146 milhões de euros). Como resultado, a dependência líquida de importações caiu de 70,9% para apenas 10,0%, e a propensão para exportar desceu de 39,9% para 2,3%. A UE deixou de ser um importador dependente para se tornar um produtor com capacidade de autoabastecimento significativa.
-
A reconfiguração dos fluxos comerciais. A China reforçou o seu domínio nas importações (quota praticamente constante em valor), mas os destinos de exportação diversificaram-se em direção à América do Norte (EUA e Canadá). Simultaneamente, a concentração das exportações duplicou (HHI: +99,3%), refletindo a crescente dependência do mercado norte-americano. Internamente, a produção deslocou-se geograficamente para a Europa Central (Chéquia, Áustria) e meridional (Espanha, Grécia), enquanto as economias industriais tradicionais (Alemanha, Itália) reduziram o seu peso relativo.
Em suma, o mercado europeu de magnésio emerge de 2015–2025 como um caso paradigmático de resposta estratégica a uma crise de abastecimento: a vulnerabilidade exposta em 2021–2022 catalisou investimentos que transformaram a estrutura produtiva do continente, reduzindo drasticamente a dependência externa — ainda que a concentração das exportações em poucos mercados constitua um novo vetor de vulnerabilidade a monitorizar.