Evolução do mercado: Compostos de terras raras (CN 2846) — 2015–2025
Introdução
O código CN 2846 abrange os compostos, inorgânicos ou orgânicos, dos metais das terras raras, de ítrio ou de escândio, ou das misturas destes metais. Trata-se de uma categoria de produtos estratégica para a indústria europeia, com aplicações em setores como energia renovável, eletrónica, mobilidade elétrica e defesa. Este relatório analisa a evolução do comércio externo da UE neste produto entre 2015 e 2025, identificando as principais dinâmicas de crescimento, reconfiguração das parcerias comerciais e mudanças estruturais na produção e no valor acrescentado. Os dados indicam uma transformação profunda: a UE passou de uma posição de dependência líquida das importações para um equilíbrio quase perfeito da balanza comercial, impulsionada sobretudo por um crescimento excecional das exportações de compostos de alto valor e pela diversificação das fontes de abastecimento.
1. Da dependência ao equilíbrio: a transformação da balança comercial da UE
1.1. Exportações com crescimento duplicado face a importações moderadas
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de compostos de terras raras cresceram 100,9% em valor, passando de €61,0 M para €122,5 M. Em termos de volume, o crescimento foi de 87,1% (de 3 537 t para 6 618 t). As importações, por seu lado, apresentaram um aumento mais moderado de 24,2% em valor (de €91,5 M para €113,7 M) e 19,3% em quantidade (de 12 020 t para 14 337 t).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (€ M) | 61,0 | 122,5 | +100,9% |
| Exportações (t) | 3 537 | 6 618 | +87,1% |
| Importações (€ M) | 91,5 | 113,7 | +24,2% |
| Importações (t) | 12 020 | 14 337 | +19,3% |
| Balança comercial (€ M) | −30,5 | +8,8 | — |
1.2. A reversão da balança comercial: de défice de €30,5 M a superávite de €8,8 M
O dado mais marcante do período é a reversão completa da balança comercial. Em 2015, a UE registou um défice comercial de €30,5 M; em 2025, alcançou um superávite de €8,8 M — uma melhoria de quase €40 M. O ponto de viragem ocorreu por volta de 2021, quando as exportações dispararam. O índice de dependência líquida de importações reflete esta trajetória: partiu de −37,1% em 2015 (indicando uma posição exportadora líquida face à produção interna) e convergiu para −0,6% em 2025, oscilando até ao máximo de 9,4% num ponto intermédio.
1.3. Preços de exportação em forte alta, particularmente em compostos não-cério
Os preços médios de exportação cresceram 7,5% no agregado (de €17 210/t para €18 494/t), mas esta média esconde disparidades enormes entre segmentos. Os compostos de terras raras excluindo cério (CN 284690) viram os seus preços de exportação disparar de €27 802/t em 2015 para €84 820/t em 2025 — um aumento de mais de 200%. Este aumento reflete a crescente procura global de terras raras pesadas e o posicionamento da UE na transformação de alto valor acrescentado.
2. Reconfiguração das parcerias: diversificação das importações e concentração das exportações
2.1. A China mantém-se como principal fornecedor, mas perde quota
A China continuou a ser o maior parceiro de importação da UE ao longo de todo o período, mas com uma quebra significativa de 18,8% em valor (de €51,2 M para €41,6 M). No entanto, é em volume de negócios que a mudança é mais notável: o índice de concentração HHI das importações desceu 44,3%, de 3 716 para 2 071, sinal de uma diversificação substancial das fontes de abastecimento.
2.2. Malásia e Rússia emergem como fornecedores alternativos
Dois parceiros registaram crescimentos exponenciais enquanto fontes de importação:
| Parceiro | Importações 2015 (€ M) | Importações 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 51,2 | 41,6 | −18,8% |
| Malásia | 0,2 | 13,5 | +7 356% |
| Rússia | 3,2 | 10,8 | +234,9% |
| Estados Unidos | 11,9 | 5,5 | −53,8% |
| Japão | 16,2 | 10,2 | −37,1% |
| Reino Unido | 6,1 | 1,6 | −73,4% |
O crescimento da Malásia como fornecedor está ligado à expansão do processamento de terras raras nesse país (nomeadamente pela Lynas Rare Earths), que surgiu como alternativa estratégica à dependência chinesa. A Rússia, por sua vez, aumentou significativamente as suas exportações para a UE antes de 2022, embora a elevada volatilidade das importações russas (CV de 0,20) sugira flutuações associadas ao contexto geopolítico.
2.3. As exportações da UE concentram-se no Japão e nos Estados Unidos
Do lado das exportações, o Japão e os Estados Unidos tornaram-se os principais destinos, representando em conjunto €72,5 M em 2025 (59% do total das exportações da UE). O Japão registou um crescimento de 310,7% (de €9,5 M para €39,0 M) e os EUA de 125,2% (de €14,9 M para €33,5 M). Paralelamente, as exportações para a Rússia colapsaram quase totalmente (−99,3%), refletindo as sanções e restrições comerciais impostas a partir de 2022. O HHI das exportações subiu 63,4%, de 1 358 para 2 219, indicando uma maior concentração dos destinos de exportação — precisamente o oposto da tendência observada nas importações.
2.4. Choques de preço identificados em mercados de destino
A análise de eventos de choque revelou três episódios significativos nas exportações da UE:
| Evento | Ano | Tipo | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações para as Filipinas | 2019 | Preço | +16 134,6% |
| Exportações para a China | 2021 | Preço | +201,0% |
| Exportações para os EUA | 2022 | Preço | +149,3% |
O choque nas Filipinas em 2019, com uma anomalia de preço de 247,7, envolveu um volume marginal (quota de 0,8% do valor total) e pode refletir uma transação pontual de elevado valor unitário. Os choques na China (2021) e nos EUA (2022) são mais estruturalmente significativos, coincidindo com o período de forte crescimento dos preços das terras raras a nível global.
3. Declínio da produção europeia e ascensão de França como potência exportadora
3.1. A produção da UE de terras raras caiu para metade
Os dados de produção PRODCOM revelam um declínio acentuado da produção industrial europeia de compostos de terras raras:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Quantidade produzida (t) | 7 983,5 | 3 957,6 | −50,4% |
| Valor da produção (€ M) | 210,1 | 165,0 | −21,5% |
O declínio de 50,4% na quantidade produzida, contrastando com o crescimento de 87,1% nas exportações, sugere uma mudança estrutural: a UE está a transformar e a reexportar volumes crescentes de materiais importados, ou então a concentrar a produção em compostos de muito alto valor unitário. A quebra do valor da produção (−21,5%) ser inferior à da quantidade (−50,4%) implica que os preços de produção internos subiram significativamente, alinhando-se com a tendência global de valorização das terras raras.
3.2. França: de exportador marginal a líder europeu
A evolução de França é o caso mais impressionante do período. As exportações francesas passaram de €6,5 M em 2015 para €67,3 M em 2025 — um crescimento de 933%, que fez de França o maior exportador da UE de compostos de terras raras, ultrapassando a Alemanha e a Estónia. O índice de especialização RSCA de França (0,628) e o seu RCA de 4,38 confirmam uma vantagem comparativa revelada significativa neste produto. Este crescimento está provavelmente ligado à presença do grupo Solvay (antiga Rhodia) em La Rochelle, um dos maiores centros de processamento de terras raras da Europa.
3.3. O mapa europeu da especialização: Estónia, França e Países Baixos no topo
A análise de especialização revela três Estados-Membros com vantagem comparativa positiva em 2025:
| País | RCA | RSCA | Quota na produção da UE |
|---|---|---|---|
| Estónia | 20,46 | 0,907 | 6,9% |
| França | 4,38 | 0,628 | 34,2% |
| Países Baixos | 3,22 | 0,526 | 46,7% |
A Estónia, apesar de uma quota modesta na produção total, apresenta o RCA mais elevado (20,46), refletindo a especialização da empresa Silmet (atualmente parte do grupo Neo Performance Materials) na transformação de terras raras. Os Países Baixos, com 46,7% da quota de produção, funcionam como hub logístico e de transformação. Em contraste, Alemanha, Espanha, Áustria, Eslovénia e Finlândia apresentam RSCA negativos, indicando desvantagem comparativa.
3.4. Divergência de preços entre segmentos: o alto valor dos compostos não-cério
A decomposição por segmento revela dinâmicas opostas entre os dois subcódigos:
Importações por segmento (2015 → 2025):
| Segmento | Quantidade (t) | Valor (€ M) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| CN 284610 — Cério | 1 852 → 9 348 (+405%) | 24,8 → 26,2 (+5,6%) | 13 384 → 2 798 (−79%) |
| CN 284690 — Outros | 10 168 → 4 988 (−51%) | 66,7 → 87,5 (+31%) | 6 551 → 17 491 (+167%) |
Exportações por segmento (2015 → 2025):
| Segmento | Quantidade (t) | Valor (€ M) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| CN 284610 — Cério | 1 685 → 5 747 (+241%) | 9,0 → 48,2 (+435%) | 5 331 → 8 375 (+57%) |
| CN 284690 — Outros | 1 852 → 871 (−53%) | 52,0 → 74,4 (+43%) | 27 802 → 84 820 (+205%) |
Os compostos de cério (CN 284610) apresentam uma trajetória de volume crescente mas com preços de importação em queda acentuada (de €13 384/t para €2 798/t), sugerindo commoditização e intensificação da concorrência global. Os restantes compostos de terras raras (CN 284690) seguem a direção oposta: volumes de importação a diminuir mas com preços a triplicar, refletindo a crescente escassez e valorização dos metais pesados (disprósio, térbio, európio) essenciais para ímanes permanentes e aplicações de alta tecnologia. No lado das exportações, a UE converteu-se num exportador líquido de compostos de alto valor (CN 284690), com preços de exportação de €84 820/t em 2025 — quase cinco vezes o preço médio de importação do mesmo segmento — o que sugere um posicionamento europeu na transformação de elevado valor acrescentado.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação estrutural do mercado europeu de compostos de terras raras. A UE reforçou a sua posição como exportadora líquida, impulsionada por uma duplicação do valor das exportações e pela diversificação das suas fontes de importação para além da China. No entanto, esta evolução esconde fragilidades: a produção interna europeia caiu para metade em volume, as exportações estão cada vez mais concentradas em dois destinos (Japão e EUA) e a capacidade de transformação depende de um número muito reduzido de atores industriais, sobretudo em França e na Estónia. A crescente divergência de preços entre segmentos — com os compostos de terras raras pesadas a atingirem valores de exportação próximos de €85 000/t — sublinha a importância estratégica destes materiais e a necessidade de assegurar cadeias de abastecimento resilientes face às crescentes tensões geopolíticas e à procura global em rápida expansão.