Evolução do mercado: Ceras (CN 1521) — 2015–2025
Introdução
O código NC 1521 abrange as ceras vegetais (exceto triglicéridos), as ceras de abelha ou de outros insetos e o espermacete, mesmo refinados ou corados. Trata-se de um setor de nicho, mas estrategicamente relevante, com aplicações na indústria cosmética, farmacêutica, alimentar e de polimentos. O período em análise (2015–2025) foi marcado por transformações profundas na estrutura de fornecimento, na dinâmica de preços e na posição competitiva da União Europeia no comércio internacional deste produto (Vista geral do comércio).
1. Disparidade crescente entre volumes e preços na importação
1.1. Queda acentuada nos volumes importados apesar do crescimento do valor
Ao longo da década analisada, as importações da UE de ceras (CN 1521) apresentaram uma evolução paradoxal: o volume caiu 26,5%, passando de 20 104 toneladas em 2015 para 14 770 toneladas em 2025, enquanto o valor total se manteve relativamente estável com um ligeiro crescimento de 5,9%, de 82,3 M€ para 87,2 M€ (Vista geral do comércio).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor das importações (M€) | 82,3 | 87,2 | +5,9% |
| Quantidade importada (t) | 20 104 | 14 770 | −26,5% |
| Preço médio de importação (€/t) | 4 095 | 5 902 | +44,1% |
1.2. O segmento das ceras vegetais impulsiona a escalada de preços
A desagregação por subproduto revela que o aumento generalizado do preço médio de importação é sobretudo impulsionado pelo segmento 152110 (ceras vegetais). O preço médio de importação deste subproduto duplicou ao longo do período, passando de 3 119 €/t em 2015 para 6 279 €/t em 2025. Em contraste, o segmento 152190 (ceras de abelha, outros insetos e espermacete) registou uma ligeira descida de 6 037 €/t para 5 113 €/t (Comparação por segmento).
| Subproduto | Quantidade 2015 (t) | Quantidade 2025 (t) | Preço 2015 (€/t) | Preço 2025 (€/t) |
|---|---|---|---|---|
| 152110 — Ceras vegetais | 13 380 | 9 990 | 3 119 | 6 279 |
| 152190 — Ceras de abelha e outros | 6 724 | 4 780 | 6 037 | 5 113 |
O preço das ceras vegetais de importação duplicou, refletindo possivelmente a crescente escassez de matérias-primas naturais, o aumento dos custos de produção nos países de origem e a procura crescente por ingredientes naturais nas indústrias cosmética e farmacêutica europeias.
1.3. Exportações da UE crescem em valor, mas permanecem marginais em volume
As exportações da UE para países terceiros cresceram 32,2% em valor (de 14,9 M€ para 19,7 M€) e 14,1% em volume (de 1 934 t para 2 205 t). Contudo, o valor exportado representa apenas cerca de 22,6% do valor importado em 2025, confirmando o papel da UE como consumidor líquido de ceras (Vista geral do comércio).
2. Reconfiguração geográfica das cadeias de abastecimento
2.1. Brasil torna-se o principal fornecedor, ultrapassando a China
A estrutura geográfica das importações da UE sofreu uma transformação significativa. A China, que em 2015 era o maior fornecedor com 31,1 M€, viu as suas exportações para a UE diminuírem 31,2%, para 21,4 M€ em 2025. Em contrapartida, o Brasil consolidou-se como principal fornecedor, crescendo 83,3% de 23,4 M€ para 42,8 M€ (Principais parceiros por valor).
| Fornecedor | Valor 2015 (M€) | Valor 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 31,1 | 21,4 | −31,2% |
| Brasil | 23,4 | 42,8 | +83,3% |
| Indonésia | 5,2 | 1,4 | −72,2% |
| Vietname | 0,08 | 3,0 | +3 622,9% |
| México | 2,0 | 4,3 | +117,2% |
2.2. Emergência de novos fornecedores asiáticos e latino-americanos
Para além da ascensão do Brasil, destacam-se o crescimento exponencial das importações provenientes do Vietname (+3 623%, de 80 mil € para 3,0 M€) e do México (+117%, de 2,0 M€ para 4,3 M€). Por outro lado, a Indonésia registou uma quebra de 72,2%, saindo praticamente do mapa como fornecedor relevante (Principais parceiros por valor).
Estas mudanças sugerem uma estratégia europeia de diversificação de fornecedores, possivelmente motivada por preocupações com a fiabilidade das cadeias de abastecimento asiáticas, a crescente procura de ceras vegetais de origem brasileira (como a carnaúba) e a melhoria das relações comerciais com a América Latina.
2.3. Concentração das importações aumenta, mas as exportações diversificam-se
O índice de concentração Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 2 650 para 3 083 (+16,4%), indicando uma maior dependência de um número reduzido de fornecedores — em particular o Brasil. Nas exportações, verificou-se o movimento inverso: o HHI desceu de 842 para 632 (−25,0%), refletindo uma maior diversificação dos mercados de destino (Concentração HHI).
| Fluxo | HHI 2015 | HHI 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações | 2 650 | 3 083 | +16,4% |
| Exportações | 842 | 632 | −25,0% |
2.4. Alemanha consolida posição de liderança nas exportações, com Índia e EUA como mercados em crescimento
No lado das exportações, a Alemanha permaneceu como o principal exportador da UE, com um crescimento de 32,2% (de 9,5 M€ para 12,5 M€). Os destinos mais dinâmicos foram a Índia (+209,5%, de 0,5 M€ para 1,6 M€) e os Estados Unidos (+45,1%, de 2,0 M€ para 2,9 M€). As exportações para o Irão sofreram uma queda drástica de 87,1%, refletindo possivelmente o impacto de sanções internacionais (Principais exportadores por valor).
3. Produção interna em forte crescimento, mas dependência externa agravada
3.1. Produção europeia de ceras triplica em volume
A produção da UE de ceras (CN 1521) registou um crescimento notável, passando de 2 748 toneladas em 2015 para 8 000 toneladas em 2025 — um aumento de 191,1%. Em termos de valor, a produção cresceu 182,4%, de 6,4 M€ para 18,0 M€ (Volumes de produção).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Produção (t) | 2 748 | 8 000 | +191,1% |
| Valor da produção (M€) | 6,4 | 18,0 | +182,4% |
3.2. Apesar do crescimento produtivo, a dependência líquida de importações agrava-se
Paradoxalmente, a dependência líquida de importações subiu de 51,1% em 2015 para 70,6% em 2025 (+38,2%), atingindo um máximo de 89,4% em 2023. Isto significa que o crescimento da produção interna não foi suficiente para acompanhar a procura interna, que se expandiu mais rapidamente (Dependência líquida de importações).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações (%) | 51,1 | 70,6 | +38,2 p.p. |
| Intensidade comercial (%) | 73,7 | 90,3 | +22,5% |
| Propensão para exportar (%) | 36,7 | 61,1 | +66,5% |
3.3. A UE intensifica a sua integração no comércio global de ceras
A intensidade comercial (soma de importações e exportações em percentagem do consumo aparente) subiu de 73,7% para 90,3%, enquanto a propensão para exportar cresceu de 36,7% para 61,1%. Estes indicadores sugerem que a UE está simultaneamente a importar mais em termos relativos e a tornar-se mais ativa como exportador, configurando um papel crescentemente central no comércio global de ceras — tanto como transformadora como reexportadora (Intensidade comercial; Propensão para exportar).
3.4. Especialização geográfica da produção dentro da UE
A produção de ceras na UE é altamente concentrada geograficamente. Em 2025, a Alemanha liderava com um RSCA (índice de vantagem comparativa simétrica revelada) de 0,45 e uma quota de 55,6% na produção total do setor, seguida pela França (RSCA 0,38; 17,2%). Países como a Irlanda, Estónia e Roménia apresentam níveis negligenciáveis de especialização (Especialização dos Estados-Membros).
Conclusão
O mercado europeu de ceras (CN 1521) entre 2015 e 2025 foi marcado por três tendências estruturais convergentes: a escalada dos preços de importação, sobretudo das ceras vegetais; a reconfiguração profunda das cadeias de fornecimento, com o Brasil a assumir uma posição dominante em detrimento da China e da Indonésia; e o aumento paradoxal da dependência externa apesar de um crescimento significativo da produção interna.
O setor enfrenta um desafio estrutural: a procura europeia de ceras naturais — impulsionada pelas indústrias cosmética, farmacêutica e alimentar — cresce mais rapidamente do que a capacidade produtiva interna. A concentração crescente das importações no Brasil, embora refleça a qualidade e competitividade das ceras brasileiras (nomeadamente a carnaúba), introduz uma vulnerabilidade adicional na cadeia de abastecimento. A volatilidade registada em fornecedores como a Malásia (CV de 1,13) e a Indonésia (CV de 0,61) reforça a importância da diversificação (Volatilidade).
Olhando para o futuro, o equilíbrio entre a expansão da produção europeia, a diversificação de fornecedores e a adaptação a preços de importação estruturalmente mais elevados será determinante para a competitividade e a resiliência do setor europeu de ceras.