Evolução do mercado: Antiguidades e objetos de arte (CN 97) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 97 abrange uma categoria ampla e de elevado valor unitário: objetos de arte, de coleção e antiguidades, incluindo pinturas e desenhos originais (9701), gravuras (9702), esculturas originais (9703), selos (9704), coleções de interesse científico ou histórico (9705) e antiguidades com mais de 100 anos (9706). Entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE neste setor passou por transformações profundas: o valor das importações cresceu 112,8%, enquanto o das exportações aumentou 37,3%, corroendo um excedente comercial que era de 1.136 mil milhões de euros em 2015 para apenas 61 milhões em 2025. Este relatório analisa as três dinâmicas mais marcantes deste período — a erosão do saldo comercial, a reconfiguração geográfica dos parceiros e a crescente premiumização dos bens transacionados.
1. Do excedente ao equilíbrio: a maré importadora que transformou o saldo comercial da UE
1.1. Um crescimento assimétrico entre importações e exportações
Ao longo da década analisada, as importações da UE em CN 97 cresceram a um ritmo muito superior ao das exportações. Enquanto o valor exportado passou de 3.119 milhões de euros em 2015 para 4.282 milhões em 2025 (+37,3%), o valor importado quase duplicou, de 1.983 milhões para 4.220 milhões (+112,8%). Em volume físico, contudo, os percursos foram opostos: as exportações cresceram ligeiramente em peso líquido (de 9.836 t para 10.705 t, +8,8%), enquanto as importações caíram acentuadamente (de 50.586 t para 34.040 t, -32,7%).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor (M€) | 3.119 | 4.282 | +37,3% |
| Exportações — volume (t) | 9.836 | 10.705 | +8,8% |
| Exportações — preço médio (€/t) | 317.000 | 399.818 | +26,1% |
| Importações — valor (M€) | 1.983 | 4.220 | +112,8% |
| Importações — volume (t) | 50.586 | 34.040 | −32,7% |
| Importações — preço médio (€/t) | 39.198 | 123.963 | +216,2% |
| Saldo comercial (M€) | +1.136 | +61 | −94,6% |
Fonte: Visão geral do comércio
1.2. O pico importador de 2023 e o défice recorde
A evolução do saldo comercial não foi linear. De um excedente estável entre 2015 e 2019 (a rondar os 600–1.270 milhões de euros), registou-se uma ligeira deterioração em 2020 (ano da pandemia), seguida de uma recuperação em 2021–2022. Porém, em 2023, as importações dispararam para cerca de 5.844 milhões de euros — o máximo de todo o período —, impulsionadas por transações de grande valor em pinturas (CN 9701) e esculturas (CN 9703), resultando num défice comercial de aproximadamente -1.814 milhões de euros. Em 2024–2025, o mercado normalizou parcialmente, mas o saldo permaneceu perto do equilíbrio.
1.3. Queda da concentração nas importações, ligeiro aumento nas exportações
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor desceu de 3.629 para 2.713 (-25,2%), sinal de que a diversificação geográfica das importações aumentou ao longo da década. Em contraste, o HHI das exportações subiu ligeiramente de 2.509 para 2.715 (+8,2%), indicando uma ligeira concentração dos destinos de saída — reflexo do peso crescente dos Estados Unidos como parceiro de exportação.
2. Reconfiguração geográfica: o impacto do Brexit, das sanções à Rússia e o domínio dos hubs ocidentais
2.1. O Reino Unido como novo parceiro comercial de relevo após o Brexit
Uma das transformações mais visíveis na estrutura de parceiros resultou diretamente da saída do Reino Unido da UE. Até ao final de 2020, o comércio UE–Reino Unido era contabilizado como comércio intra-UE; a partir de 2021, passou a constar nas estatísticas externas. O efeito foi imediato: o Reino Unido passou a figurar como o segundo maior parceiro de importação da UE em CN 97, com um valor que atingiu 1.099 milhões de euros em 2025 — um crescimento de +473,9% face ao primeiro registo disponível (191 milhões). No ranking dos principais parceiros de importação, o Reino Unido é agora o segundo maior fornecedor, logo atrás dos Estados Unidos.
Nas exportações, o Reino Unido também ganhou destaque: de 407 milhões em 2015 para 775 milhões em 2025 (+90,3%), consolidando-se como o segundo maior destino das exportações da UE em objetos de arte.
2.2. Colapso das exportações para a Rússia
O outro grande deslocamento geográfico é o desaparecimento quase total das exportações da UE para a Federação Russa. De 35,9 milhões de euros em 2015, o valor despenjou para apenas 211 mil euros em 2025 (-99,4%). Este colapso, com coeficiente de variação de 0,87 (o mais volátil entre todos os principais destinos de exportação), é claramente explicado pelas sanções económicas impostas a partir de 2022, que incluíram restrições específicas à exportação de bens culturais e de elevado valor.
2.3. Estados Unidos e Suíça mantêm-se como polos fundamentais
Os Estados Unidos consolidaram-se como o principal parceiro comercial da UE em CN 97, tanto em importações (de 1.057 milhões para 1.385 milhões, +31,1%) como em exportações (de 1.194 milhões para 1.841 milhões, +54,2%). A volatilidade do comércio com os EUA é moderada, reflectindo uma relação comercial estável e estrutural — consistente com o papel de Nova Iorque como principal praça de leilões mundiais.
A Suíça, que alberga entrepostos francos de arte de referência mundial (como os freeports de Genebra), permanece como hub logístico crucial. As importações da UE a partir da Suíça duplicaram (de 453 milhões para 1.040 milhões, +129,6%), enquanto as exportações para a Suíça diminuíram ligeiramente (de 861 milhões para 701 milhões, -18,6%). Em 2023, detetou-se um choque de preço nas importações da Suíça, com uma subida abrupta de 63,8% e uma anormalidade de 21,9, coincidindo com o pico importador global desse ano.
| Parceiro | Importações 2015 (M€) | Importações 2025 (M€) | Variação | Exportações 2015 (M€) | Exportações 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 1.057 | 1.385 | +31,1% | 1.194 | 1.841 | +54,2% |
| Reino Unido¹ | 191 | 1.099 | +473,9% | 407 | 775 | +90,3% |
| Suíça | 453 | 1.040 | +129,6% | 861 | 701 | −18,6% |
| China | 30 | 40 | +35,4% | 59 | 36 | −38,8% |
| Japão | 38 | 74 | +98,7% | — | — | — |
| Rússia | — | — | — | 36 | 0,2 | −99,4% |
¹ Primeiro registo disponível para o Reino Unido como parceiro extra-UE: 2021.
Fonte: Principais parceiros por valor
2.4. A França como epicentro das importações europeias de arte
Dentro da UE, a distribuição das importações por Estado-Membro revela uma concentração crescente em França, que passou de 587 milhões para 1.650 milhões (+181,2%), tornando-se de longe o principal importador de objetos de arte na UE. A Bélgica registou o crescimento mais acentuado (+422,6%, de 98 milhões para 513 milhões), possivelmente reflectido pela importância dos portos e aeroportos belgas como pontos de entrada. A Alemanha cresceu de forma mais moderada (+45,4%, de 469 milhões para 682 milhões), enquanto os Países Baixos foram o único grande importador a registar uma quebra (-45,2%).
| Estado-Membro | Importações 2015 (M€) | Importações 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| França | 587 | 1.650 | +181,2% |
| Alemanha | 469 | 682 | +45,4% |
| Bélgica | 98 | 513 | +422,6% |
| Países Baixos | 333 | 183 | −45,2% |
| Itália | 100 | 244 | +144,0% |
| Espanha | 46 | 112 | +145,0% |
Fonte: Principais declarantes por valor
3. Premiumização do mercado: menos objetos, preços mais altos e o domínio das pinturas
3.1. A explosão dos preços de importação: um mercado de menos volume mas muito mais valor
A dinâmica mais marcante do período é a divergência radical entre volume e preço nas importações. Enquanto o peso líquido importado caiu 32,7% (de 50.586 t para 34.040 t), o preço médio subiu 216,2% (de 39.198 €/t para 123.963 €/t). Este fenómeno de premiumização — importação de menos peças, mas de valor unitário muito superior — é consistente com a tendência global do mercado de arte, onde obras de elevado calibre atingem preços recorde em leilões internacionais.
Nas exportações, a subida de preço foi mais moderada (+26,1%, de 317.000 €/t para 399.818 €/t), acompanhada de um crescimento de volume de 8,8%, sugerindo que o mercado de saída da UE manteve um perfil mais estável.
3.2. CN 9701 (pinturas e desenhos): a categoria que dita o ritmo do mercado
A análise por segmento de produto confirma que as pinturas e desenhos originais (CN 9701) dominam esmagadoramente o comércio em valor. Em 2025, esta categoria representou 54% do valor total das importações (2.277 M€) e 54% do valor das exportações (2.326 M€).
O preço médio das importações de pinturas subiu de 215.387 €/t em 2015 para 717.658 €/t em 2025 (+233%), tendo atingido um pico excecional de 1.228.103 €/t em 2023 — ano do já referido choque importador. O preço médio das exportações de pinturas subiu de forma mais contínua, de 1.155.723 €/t para 1.706.228 €/t (+48%).
| Segmento | Imp. 2015 (M€) | Imp. 2025 (M€) | Var. | Exp. 2015 (M€) | Exp. 2025 (M€) | Var. |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 9701 — Pinturas e desenhos | 883 | 2.277 | +158% | 1.800 | 2.326 | +29% |
| 9703 — Esculturas originais | 292 | 683 | +134% | 671 | 896 | +34% |
| 9705 — Coleções | 558 | 925 | +66% | 240 | 520 | +117% |
| 9706 — Antiguidades >100 anos | 163 | 219 | +34% | 337 | 428 | +27% |
| 9702 — Gravuras e litografias | 37 | 97 | +162% | 34 | 95 | +176% |
| 9704 — Selos | 29 | 16 | −44% | 27 | 17 | −36% |
Fonte: Comparação por segmento de produto
3.3. Gravuras e coleções: nichos em crescimento acelerado
Se o foco recai sobre as pinturas, dois segmentos registaram taxas de crescimento relativo ainda mais acentuadas. As gravuras, estampas e litografias originais (CN 9702) cresceram 162% nas importações e 176% nas exportações, embora a partir de bases muito inferiores (97 milhões e 95 milhões, respetivamente, em 2025). As coleções de interesse científico ou histórico (CN 9705) — o segmento com maior peso em volume físico, 27.329 t nas importações em 2025 — cresceram 117% nas exportações, de 240 milhões para 520 milhões, reflectindo uma procura crescente por peças com narrativa museológica ou coleccionista.
Já os selos (CN 9704) continuaram o seu declínio estrutural, caindo 44% nas importações e 36% nas exportações, num reflexo da secular diminuição do coleccionismo filatélico.
3.4. Choques de preço detetados: 2022 e 2023 como anos de anomalia
O sistema de deteção de choques identificou três eventos significativos no período:
| Evento | Tipo | Fluxo | Ano | Desvio anormal | Variação | Peso no valor |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Suíça | Preço | Importações | 2023 | 21,9 | +63,8% | 24,6% |
| Estados Unidos | Preço | Exportações | 2022 | 5,4 | +90,1% | 46,7% |
| Austrália | Preço | Exportações | 2022 | 3,8 | +144,3% | 0,8% |
O choque de preço nas exportações para os EUA em 2022 (+90,1%, com peso de 46,7% no valor total das exportações) coincide com o período de recordes em leilões internacionais e com a venda de coleções de grande notoriedade. O choque nas importações a partir da Suíça em 2023, com a maior anormalidade detetada (21,9), é o reflexo direto do pico importador desse ano, possivelmente associado à reexportação de obras armazenadas em entrepostos francos suíços.
Conclusão
O mercado europeu de objetos de arte, coleções e antiguidades (CN 97) entre 2015 e 2025 é marcado por três grandes vetores de mudança: a erosão do excedente comercial da UE face ao crescimento muito mais acentuado das importações; a reconfiguração geográfica dos parceiros, com o surgimento do Reino Unido como parceiro externo, o desaparecimento da Rússia e o reforço do papel dos Estados Unidos e da Suíça; e uma acentuada premiumização, em que se importam menos objetos fisicamente mas a preços médios muito mais elevados, com as pinturas e desenhos (CN 9701) a comandarem mais de metade do valor transacionado. A singularidade de 2023 — ano de um pico importador sem precedentes, de um défice comercial recorde e de choques de preço de magnitude invulgar — sublinha a natureza cíclica e concentrada deste mercado, em que a venda de poucas obras de elevado calibre pode distorcer significativamente as estatísticas agregadas.