Evolução do mercado: Soja (CN 1201) — 2015–2025
Introdução
A União Europeia é um dos maiores consumidores mundiais de soja, matéria-prima essencial para a produção de farinhas e óleos utilizados sobretudo na alimentação animal. Classificada sob o código NC 1201 — Soja, mesmo triturada, esta posição inclui dois subprodutos: a soja para consumo geral (NC 120190), que representa mais de 99 % do volume comercializado, e a soja para sementeira (NC 120110), de volume residual — em 2025, as importações de semente situaram-se em apenas 6 139 toneladas.
O período 2015–2025 foi marcado por três grandes dinâmicas interligadas: a persistência de um déficit comercial estrutural que atingiu o pico de €8,2 mil milhões em 2022; uma profunda reconfiguração geográfica dos fornecedores, com a consolidação do Brasil e dos Estados Unidos e o desaparecimento do Paraguai e do Uruguai; e o aumento da concentração e da volatilidade das trocas. Este relatório analisa estas três dimensões com base nos dados disponíveis.
1. Um déficit estrutural agravado pela espiral de preços de 2021–2022
A UE importa anualmente mais de 13 milhões de toneladas de soja
Ao longo do período analisado, as importações da UE de soja mantiveram-se num patamar elevado e relativamente estável em termos de volume. O mínimo situou-se em 2017, com 12 976 mil toneladas, e o máximo em 2020, com 15 082 mil toneladas. Em 2025, o volume rondou as 14 211 mil toneladas — praticamente o mesmo nível de 2015 (13 530 mil toneladas). Esta estabilidade de volume contrasta fortemente com a oscilação do valor das importações, que variou entre €4,68 mil milhões (2017) e €8,35 mil milhões (2022), evidenciando a influência determinante dos preços internacionais no custo europeu de abastecimento.
O pico de 2022: a conjuntura geopolítica elevou os preços a máximos históricos
O ano de 2022 representou um ponto de rutura no ciclo de preços. O preço médio de importação atingiu €595/t — o máximo do período — face a uma média de €349/t entre 2015 e 2020. Este aumento de 70 % face ao período pré-pandemia reflete a conjugação de múltiplos fatores: a recuperação da procura pós-COVID, a seca na América do Sul e, sobretudo, os efeitos indiretos da invasão russa da Ucrânia nos mercados globais de matérias-primas agrícolas. Em 2025, o preço desceu para €394/t, ainda acima da média pré-2021 mas já significativamente abaixo do pico de 2022. O preço médio de exportação da UE (€477/t em 2025) é consistentemente superior ao de importação, sugerindo diferenciação de qualidade ou valor acrescentado.
| Ano | Importações (€ mil M) | Volume import. (mil t) | Preço import. (€/t) | Exportações (€ M) | Saldo comercial (€ mil M) |
|---|---|---|---|---|---|
| 2015 | 5,00 | 13 530 | 370 | 89 | −4,91 |
| 2016 | 5,06 | 14 015 | 361 | 74 | −4,99 |
| 2017 | 4,68 | 12 976 | 360 | 158 | −4,52 |
| 2018 | 4,87 | 14 374 | 339 | 66 | −4,81 |
| 2019 | 4,72 | 14 098 | 335 | 104 | −4,62 |
| 2020 | 5,13 | 15 082 | 340 | 98 | −5,04 |
| 2021 | 6,66 | 14 633 | 455 | 153 | −6,51 |
| 2022 | 8,35 | 14 030 | 595 | 137 | −8,21 |
| 2023 | 7,18 | 13 308 | 540 | 131 | −7,05 |
| 2024 | 6,42 | 14 654 | 438 | 188 | −6,24 |
| 2025 | 5,60 | 14 211 | 394 | 148 | −5,45 |
As exportações europeias cresceram 66 % mas permanecem residuais
As exportações da UE de soja registaram um crescimento expressivo ao longo do período: +66,4 % em valor (de €89 milhões para €148 milhões) e +43,1 % em volume. Contudo, estas exportações representam menos de 3 % do valor das importações, confirmando o carácter estrutural do déficit. O volume exportado é altamente variável, tendo atingido o máximo em 2017 (392 mil toneladas) — ano de preços baixos — e o mínimo em 2018 (161 mil toneladas). O valor máximo das exportações foi registado em 2024 (€188 milhões), sugerindo uma capacidade crescente de escoamento, ainda que insuficiente para alterar a balança.
2. Reconfiguração das fontes de abastecimento: consolidação e novas dependências
Brasil e Estados Unidos dominam e consolidam a sua posição como fornecedores
O mapa dos fornecedores da soja importada pela UE foi profundamente reconfigurado entre 2015 e 2025. O Brasil manteve-se como principal fornecedor ao longo de todo o período, passando de €1 957 milhões em 2015 para €2 297 milhões em 2025 (+17,4 %), com um pico de €4 137 milhões em 2022. Os Estados Unidos, segundo maior fornecedor, cresceram de €1 680 milhões para €2 196 milhões (+30,7 %), atingindo um máximo de €3 199 milhões em 2022. Em conjunto, os dois países representavam mais de 80 % das importações da UE em 2025, face a cerca de 73 % em 2015. Em 2022 — o ano de preços máximos — a sua quota combinada atingiu cerca de 88 %.
| Fornecedor | 2015 (€ M) | Máximo (€ M) | 2025 (€ M) | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| Brasil | 1 957 | 4 137 | 2 297 | +17,4 % |
| Estados Unidos | 1 680 | 3 199 | 2 196 | +30,7 % |
| Canadá | 388 | 532 | 353 | −9,1 % |
| Ucrânia | 136 | 627 | 627 | +362,3 % |
| Paraguai | 429 | 538 | ~0 | −100 % |
| Uruguai | 296 | 296 | ~0 | −100 % |
| Sérvia | 28 | 56 | 5 | −81,8 % |
O desaparecimento das importações do Paraguai e do Uruguai
Uma das transformações mais marcantes do período foi o colapso total das importações provenientes do Paraguai e do Uruguai. O Paraguai passou de €429 milhões em 2015 para praticamente zero em 2025 (−100 %), enquanto o Uruguai desceu de €296 milhões para valores residuais (−100 %). Em 2015, estes dois países representavam conjuntamente 14,5 % das importações europeias de soja; em 2025, a sua quota era negligível. A volatilidade extrema destes fluxos (coeficiente de variação de 1,40 para o Paraguai e 1,35 para o Uruguai) confirma a descontinuidade abrupta. Esta evolução pode estar ligada à crescente procura chinesa por soja sul-americana, à reorientação logística destes países para o mercado asiático e, potencialmente, à antecipação de requisitos regulamentares europeus, como o Regulamento sobre Desflorestação (EUDR).
A ascensão da Ucrânia como terceiro maior fornecedor
Em contrapartida, a Ucrânia registou um crescimento excecional como fornecedor de soja para a UE: de €136 milhões em 2015 para €627 milhões em 2025, uma variação de +362,3 %. Curiosamente, apesar da invasão russa de 2022, as importações ucranianas continuaram a crescer, atingindo o máximo em 2025. A Ucrânia ultrapassou o Canadá como terceiro maior fornecedor e representa já 11,2 % das importações europeias. Este crescimento reflete a proximidade geográfica, os acordos de comércio preferencial UE-Ucrânia e a liberalização temporária dos direitos aduaneiros. A volatilidade moderada destes fluxos (CV de 0,53) sugere uma relação comercial em consolidação.
O aumento da concentração das fontes de importação
O índice de concentração HHI das importações subiu de 2 835 (2015) para 3 391 (2025), uma variação de +19,6 %. Em termos de volume, o aumento foi ainda mais pronunciado: de 2 853 para 3 529 (+23,7 %). O valor máximo registou-se em 2022, com 4 210 (valor) e 4 281 (volume), quando o Brasil e os Estados Unidos dominaram de forma avassaladora. Paralelamente, o HHI das exportações da UE cresceu de forma ainda mais acentuada: de 2 165 para 3 488 (+61,1 % em valor), refletindo a concentração das exportações num número reduzido de mercados, sobretudo nos Balcãs. Do ponto de vista da segurança de abastecimento, a crescente concentração das importações em dois fornecedores principais constitui um risco estratégico para a UE, aumentando a exposição a choques climáticos, geopolíticos ou comerciais.
3. Redistribuição dos fluxos dentro da UE: crescimento do Sul e novos mercados de exportação
A concentração das importações nos principais portos e mercados europeus
No interior da UE, as importações de soja estão geograficamente concentradas nos países com maior capacidade portuária e de transformação. Os Países Baixos (€1 462 milhões em 2025), a Espanha (€1 218 milhões) e a Alemanha (€936 milhões) mantiveram-se como os três maiores importadores ao longo de todo o período. Contudo, o crescimento mais notável foi o da Itália, que mais do que duplicou as suas importações — de €353 milhões (2015) para €865 milhões (2025), uma variação de +144,6 % —, posicionando-se como o quarto maior importador da UE, ultrapassando Portugal e a França.
| Estado-Membro | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 1 578 | 1 462 | −7,4 % |
| Espanha | 1 305 | 1 218 | −6,7 % |
| Alemanha | 939 | 936 | −0,3 % |
| Itália | 353 | 865 | +144,6 % |
| Portugal | 285 | 336 | +17,9 % |
| França | 222 | 302 | +36,1 % |
| Bélgica | 81 | 122 | +50,6 % |
A ligeira descida dos Países Baixos (−7,4 %) e da Espanha (−6,7 %) em valor, apesar da relativa estabilidade dos volumes, sugere uma redistribuição parcial do processamento de soja para outros Estados-Membros. A França (+36,1 %), a Bélgica (+50,6 %) e, sobretudo, a Itália (+144,6 %) ganharam peso, o que pode refletir investimentos em novas unidades de esmagamento no Sul da Europa.
O crescimento das exportações da UE para os Balcãs e a Noruega
As exportações da UE de soja para países terceiros apresentaram uma reorientação geográfica significativa ao longo do período. A Sérvia tornou-se o principal destino, com exportações a crescerem de €33 milhões (2015) para €82 milhões (2025), ou +145,9 %. A Noruega registou um crescimento excecional de 8 055 % (de €289 mil para €23,6 milhões), embora com elevada volatilidade (CV de 1,73). Simultaneamente, as exportações para a Turquia desceram 94,9 % (de €15,5 milhões para €796 mil), e as do Reino Unido diminuíram 41,0 % — possivelmente refletindo o Brexit e a reconfiguração das cadeias de abastecimento.
Choques de preço nas exportações: Sérvia e Rússia
A análise de choques nas exportações da UE revelou episódios significativos. Em 2020, as exportações para a Sérvia registaram uma anomalia de preço de +390,9 % (grau de anomalia: 91,3), com uma quota de 40,4 % no valor total das exportações nesse ano. Em 2022, as exportações para a Federação Russa sofreram um choque de +501,2 %, possivelmente refletindo as sanções internacionais e a reconfiguração comercial após a invasão da Ucrânia, com uma quota de valor de 26,3 %.
Padrões de especialização: vantagem comparativa dos países do Leste
Os dados de especialização de 2025 revelam que os Estados-Membros com maior vantagem comparativa nas exportações de soja (medida pelo RSCA) são maioritariamente países da Europa Central e de Leste: a Eslovénia (RSCA 0,67, RCA 5,0), a Croácia (0,61, RCA 4,1), a Eslováquia (0,55, RCA 3,5), a Roménia (0,47, RCA 2,7) e a Hungria (0,43, RCA 2,5). Estes países combinam alguma produção doméstica com uma posição geográfica estratégica que facilita as exportações para os mercados dos Balcãs e da Europa de Leste — precisamente os destinos que mais cresceram. Em contraste, países como a Irlanda (RSCA −1,0), a Bulgária (−1,0) e a Finlândia (−1,0) não apresentam qualquer especialização exportadora neste produto, concentrando-se na importação para consumo interno.
Conclusão
O mercado europeu de soja (CN 1201) entre 2015 e 2025 caracterizou-se por uma dependência importadora profunda e estrutural. O déficit comercial variou entre −€4,52 mil milhões (2017, o ano mais favorável) e −€8,21 mil milhões (2022, o ano do choque de preços), reflectindo a total incapacidade da UE em satisfazer internamente a sua procura de soja. Apesar de o volume de importações se ter mantido relativamente estável em torno dos 14 milhões de toneladas, os preços sofreram flutuações acentuadas: de €335/t em 2019 para €595/t em 2022 — uma duplicação em apenas três anos — antes de regressarem a €394/t em 2025.
Do lado da oferta, verificou-se uma consolidação acentuada em torno do Brasil e dos Estados Unidos, que em 2025 representavam mais de 80 % das importações da UE. O desaparecimento do Paraguai e do Uruguai como fornecedores e a ascensão da Ucrânia como terceiro maior parceiro configuram um mapa de abastecimento significativamente diferente do de 2015. O aumento do índice de concentração HHI (de 2 835 para 3 391) sublinha a crescente dependência de poucos fornecedores, constituindo um risco estratégico do ponto de vista da segurança de abastecimento.
No interior da UE, a Itália emergiu como um pólo de importação em forte crescimento (+144,6 %), enquanto os países do Leste europeu consolidaram a sua posição como exportadores de nicho, com vantagens comparativas claras. A evolução futura será provavelmente moldada pela aplicação do Regulamento sobre Desflorestação da UE (EUDR), que poderá reconfigurar ainda mais as cadeias de abastecimento, exigindo maior rastreabilidade e incentivando a diversificação dos fornecedores para lá do eixo Brasil–Estados Unidos.