Evolução do mercado: Forragens (CN 1214) — 2015–2025
Introdução
O código NC 1214 abrange um amplo leque de produtos forrageiros — desde nabos e beterrabas forrageiras até feno, luzerna (alfalfa), trevo, sanfeno, tremoço, ervilhaca e produtos semelhantes, mesmo na forma de pellets — e desdobra-se em duas subpartidas: CN 121410 (farinha e pellets de luzerna) e CN 121490 (as restantes forragens) (definições e âmbito do produto).
Ao longo da janela 2015–2025, a UE manteve-se como exportador líquido estrutural de forragens, com um saldo comercial que passou de €371,7 M para €358,4 M (-3,6%). Contudo, a superfície esconde transformações profundas: as exportações mantiveram-se virtualmente estáveis em valor (+0,5%), mas as quantidades recuaram 12,6%, sustentadas por preços crescentes (+14,9%); ao mesmo tempo, as importações mais do que duplicaram tanto em valor (+143%) como em volume (+146%). Por detrás desta evolução global, identificam-se três dinâmicas centrais: (i) a compressão dos volumes exportados contrabalançada pelo efeito-preço; (ii) uma acentuada diversificação geográfica das exportações, aliada a crescente instabilidade dos fornecedores; e (iii) a afirmação do segmento de pellets de alfafa num contexto de expansão da produção europeia.
1. Um superávit robusto, mas os volumes de exportação sofrem uma erosão acentuada
A UE mantém uma posição de exportador líquido ao longo de toda a década
O saldo comercial da UE com países terceiros permaneceu positivo de 2015 a 2025, atingindo valores compreendidos entre um mínimo de €282,9 M (2017) e um máximo de €714,0 M (2022) (indicadores gerais de comércio). A dependência líquida de importações — que reflete as exportações líquidas em relação à produção doméstica — passou de -180,8% para -41,8%, sinalizando um afastamento significativo do pico exportador, mas sem pôr em causa o estatuto de exportador líquido.
Os preços crescentes mascaram uma queda pronunciada dos volumes exportados
O valor total das exportações manteve-se estável entre 2015 e 2025 (variação de +0,5%), mas a sua composição interna alterou-se radicalmente:
| Indicador — Exportações | 2015 | 2017 (mín. valor) | 2022 (máx. valor) | 2024 (mín. qty) | 2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Valor (€ M) | 382,3 | 292,3 | 735,4 | 327,6 | 384,1 |
| Quantidade (kt) | 1.899 | 1.541 | 2.436 | 1.334 | 1.660 |
| Preço médio (€/t) | 201 | 190 | 302 | 246 | 231 |
O ano de 2022 marcou o máximo absoluto do valor exportado (€735,4 M), reflectindo a conjugação de volumes historicamente elevados (2,44 Mt) com uma subida acentuada dos preços médios (de €216/t em 2021 para €302/t em 2022; +40%). A partir de 2023, os volumes desabaram, atingindo o mínimo de 1,33 Mt em 2024, antes de uma recuperação parcial em 2025 (1,66 Mt). Os preços de exportação atingiram o pico de €310/t em 2023 e recuaram ligeiramente até €231/t em 2025, mantendo-se ainda 15% acima do nível de 2015.
As importações cresceram forte, sobretudo no segmento de forragens diversas (CN 121490)
O valor das importações passou de €10,5 M em 2015 para €37,0 M no pico de 2023, fixando-se em €25,7 M em 2025:
| Indicador — Importações | 2015 | 2020 (mín. preço) | 2023 (máx. vol.) | 2025 |
|---|---|---|---|---|
| Valor (€ M) | 10,5 | 16,0 | 37,0 | 25,7 |
| Quantidade (kt) | 20,3 | 44,3 | 64,6 | 50,1 |
| Preço médio (€/t) | 519 | 362 | 573 | 512 |
O crescimento das importações foi quase inteiramente conduzido pelo subproduto CN 121490 (forragens diversas), cujas quantidades importadas passaram de 15,8 kt em 2015 para 46,6 kt em 2025 (+195%). Em contraste, as importações de CN 121410 (farinha e pellets de alfafa) mostraram volatilidade sem tendência linear clara (4,6 kt em 2015 → 3,4 kt em 2025). Os preços de importação mantiveram-se sistematicamente mais do dobro dos de exportação (~€522/t vs. ~€239/t para CN 121490 em 2025), sugerindo que a UE importa forragens de valor unitário significativamente superior, provavelmente de diferente qualidade ou perfil nutricional.
2. Reconfiguração das parcerias e diversificação notável das exportações
A concentração das exportações despenhou-se mais de 60%, revelando um mercado de destino muito mais plural
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) em valor das exportações caiu de 3.347 em 2015 para 1.254 em 2025, uma descida de 62,5% — passando de um patamar de mercado altamente concentrado para um regime moderadamente concentrado (concentração do comércio). Do lado das importações, a concentração manteve-se relativamente estável (HHI de 1.382 em 2015 para 1.286 em 2025; -7%), sugerindo uma base de fornecedores já diversificada no início do período.
A procura do Golfo Pérsico reconfigura-se: os EAU perdem peso relativo enquanto a Arábia Saudita ascende
Em 2015, os Emirados Árabes Unidos eram de longe o principal destino das exportações europeias de forragens, representando €211,8 M — mais de metade do total. Em 2025, este valor caiu 56% para €94,1 M. Paralelamente, a Arábia Saudita quase triplicou as suas compras, e a Jordânia e o Japão registaram acréscimos expressivos (principais parceiros de exportação):
| Principais mercados de exportação (€ M) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Emirados Árabes Unidos | 211,8 | 94,1 | -55,6% |
| Arábia Saudita | 26,2 | 69,6 | +165,1% |
| Suíça | 37,5 | 40,0 | +6,9% |
| China | 38,4 | 21,3 | -44,4% |
| Jordânia | 10,1 | 26,7 | +164,2% |
| Japão | 8,3 | 19,8 | +137,6% |
| Reino Unido | 10,1 | 15,6 | +53,8% |
A reconfiguração do mercado peninsular arábico é particularmente notável: a quota dos EAU nas exportações globais baixou de 55% para 24%, numa redistribuição que beneficiou sobretudo a Arábia Saudita (atualmente o segundo maior destino). A China, que atingiu o pico de €100,4 M em 2022, recuou 44% até 2025, o que pode reflectir uma reconfiguração das cadeias de abastecimento de rações asiáticas.
Os fornecedores extra-UE tornaram-se crescentemente voláteis e geograficamente dispersos
Do lado das importações, sete parceiros-chave exibem coeficientes de variação (CV) muito díspares (volatilidade por parceiro):
| Fornecedor extra-UE | Import. 2015 (€ M) | Import. 2025 (€ M) | Variação | CV |
|---|---|---|---|---|
| Reino Unido | 2,8 | 3,2 | +11,6% | 0,45 |
| Federação Russa | 0,8 | 5,7 | +589,1% | 0,88 |
| Austrália | 1,8 | 3,1 | +75,6% | 0,90 |
| Ucrânia | 1,2 | 3,0 | +159,6% | 0,67 |
| Sérvia | <0,01 | 3,4 | +>100.000% | 1,51 |
| Canadá | 0,3 | 1,0 | +232,3% | 0,61 |
A Sérvia — CV de 1,51, o mais volátil de todos — é o caso mais extremo: de importações marginais (€2.386 em 2015) para €3,4 M em 2025. A Federação Russa e o Canadá multiplicaram significativamente as suas vendas de forragens para a UE, num contexto em que as importações totais cresceram 143% em valor. Do lado dos Estados-Membros, a Polónia emergiu como principal importador intra-UE em 2025 (€8,0 M; +567%), seguida da Grécia (€3,3 M; +429%), Itália (€3,3 M; +169%) e Países Baixos (€2,5 M; +83%). A Espanha continua a ser o principal exportador da UE (€233 M; +12%), mas a Itália registou uma quebra acentuada (-57%).
3. A consolidação das pellets de alfafa e o fortalecimento da produção europeia
O segmento CN 121410 (farinha e pellets de alfafa) ganha peso nas exportações
A decomposição por subprodutos revela uma divergência acentuada entre as duas partidas (comparação por subproduto):
| Exportações por subproduto | 2015 | 2022 (máx. valor) | 2025 | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| CN 121410 — Farinha/pellets de alfafa | ||||
| Volume (kt) | 391 | 545 | 507 | +29,7% |
| Valor (€ M) | 72,7 | 138,8 | 109,0 | +49,8% |
| Preço médio (€/t) | 186 | 254 | 215 | +15,5% |
| CN 121490 — Outras forragens | ||||
| Volume (kt) | 1.507 | 1.890 | 1.153 | -23,6% |
| Valor (€ M) | 309,5 | 596,7 | 275,1 | -11,1% |
| Preço médio (€/t) | 205 | 316 | 239 | +16,3% |
A quota de CN 121410 no valor total das exportações passou de 19% em 2015 para 28% em 2025, reflectindo a crescente procura internacional por pellets de alfafa — um produto de elevado valor acrescentado e de aplicação difundida nas rações pecuárias. A perda de volume (-236 kt) no segmento CN 121490 mais do que compensou o ganho de volume (+116 kt) no CN 121410, explicando a queda global das quantidades exportadas. No lado das importações, o contraste é mais pronunciado: o CN 121490 cresceu de 15,8 kt para 46,6 kt (+195%), enquanto o CN 121410 oscilou sem tendência definida.
A produção europeia cresceu de forma sustentada, sinalizando maior autossuficiência relativa
Paralelamente ao crescimento do segmento de pellets de alfafa, a produção europeia de forragens registou evolução positiva (volumes de produção; valor de produção):
| Indicador — Produção UE | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Quantidade (kt) | 1.095,9 | 1.340,0 | +22,3% |
| Valor (€ M) | 259,9 | 319,4 | +22,9% |
O crescimento simultâneo da produção doméstica (+22%) e da queda das exportações (-12,6% em volume) teve consequências claras na orientação do setor. A intensidade comercial caiu de 64,8% para 30,6%, e a propensão para exportar desceu de 64,7% para 30,2% — ambos os indicadores a registar quedas de cerca de 53% ao longo da década. Estes sinais apontam para um setor progressivamente orientado para o abastecimento do mercado interno, embora exportador em valor absoluto.
A especialização dos Estados-Membros segue padrões geográficos heterogéneos
O RSCA (Revealed Symmetric Comparative Advantage) em 2025 revela especializações muito desiguais (países mais especializados; países menos especializados):
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota prod. UE | Quota total exp. |
|---|---|---|---|---|
| França | 0,50 | 3,04 | 23,7% | 7,8% |
| Croácia | 0,49 | 2,91 | 1,2% | 0,4% |
| Roménia | 0,42 | 2,44 | 4,1% | 1,7% |
| Bulgária | 0,39 | 2,30 | 1,4% | 0,6% |
| Lituânia | 0,27 | 1,72 | 1,1% | 0,6% |
A França combina a maior quota na produção europeia (24%) com o mais alto RSCA, consolidando-se como motor do setor. A Roménia e a Bulgária — com RSCA de 0,42 e 0,39, respetivamente, em 2025 — reforçam o peso do sudeste europeu na exportação de forragens. No extremo oposto, a Finlândia (RSCA: -0,99), a Eslovénia (-0,99) e a Irlanda (-0,98) registam RCA próximas de zero, indicando uma posição exportadora residual no setor forrageiro.
Conclusão
O mercado europeu de forragens (CN 1214) sofreu uma transformação profunda entre 2015 e 2025. A UE mantém o estatuto de exportador líquido, mas a estrutura do comércio alterou-se em múltiplas dimensões:
- Volumes em erosão, preços em alta: os volumes de exportação recuaram 12,6% face ao início da década, mas o valor permaneceu estável graças a um aumento sustentado dos preços médios. O pico de exportações em 2022 (€735 M) — impulsionado pela conjuntura geopolítica e energética global — seguiu-se de uma contração acentuada, com os volumes a atingirem o mínimo de 1,33 Mt em 2024 antes de parcialmente recuperarem.
- Maior diversificação e reconfiguração geográfica: a concentração das exportações (HHI) desceu 63%, reflectindo uma transição para uma base de mercados de destino muito mais plural. O mercado do Golfo Pérsico reconfigurou-se em particular, com os EAU a cederem a primazia à Arábia Saudita, e a Jordânia e o Japão a ascenderem como destinos relevantes. Do lado das importações, parceiros como a Sérvia, a Rússia e o Canadá ganharam relevo crescente, mas com elevada volatilidade.
- Ascensão do segmento processado e maior orientação interna: as exportações de pellets de alfafa (CN 121410) cresceram 50% em valor, compensando parcialmente a perda de volume no segmento de forragens diversas. Com a produção europeia a crescer 22% em simultâneo, a intensidade comercial e a propensão para exportar ambos reduziram-se para metade, sugerindo uma reorientação estrutural do setor em direção ao abastecimento da procura doméstica.
Os choques de preço de exportação de 2022-2023 — com uma abnormalidade de 48,4 para os Emirados Árabes Unidos e de 23,7 para a China — evidenciam a vulnerabilidade do setor a disrupções externas. Perspetivamente, a crescente orientação para a produção doméstica e o peso crescente do segmento de pellets de alfafa sugerem um setor europeu de forragens a caminho de uma maturação, em que o valor acrescentado da transformação industrial prevalece crescentemente sobre o volume bruto exportado.