Explorar dados em tempo real

Evolução do mercado: Alfarroba e algas (CN 1212) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no âmbito da posição aduaneira CN 1212, que abrange um conjunto heterogéneo de produtos vegetais: alfarroba, algas, beterraba sacarina, cana-de-açúcar, raízes de chicória, caroços e amêndoas de frutos e outros produtos utilizados principalmente na alimentação humana. O período em análise (2015–2025) revela transformações significativas na estrutura do mercado, impulsionadas por mudanças na procura global por algas e produtos vegetais, reconfigurações geográficas dos parceiros comerciais e choques de preços pontuais. A balança comercial permanece estruturalmente deficitária, mas melhorou 20 % ao longo da década, passando de −227 milhões de euros em 2015 para −182 milhões de euros em 2025, em resultado de um crescimento exponencial das exportações — tanto em valor (+107 %) como em volume (+303 %) — contrastado por um aumento mais moderado das importações (+9 % em valor).


1. Crescimento exponencial das exportações da UE e compressão de preços

1.1. A duplicação do valor exportado e a triplicação do volume

A dinâmica mais marcante do período é o crescimento sustentado das exportações da UE para países terceiros. O valor exportado passou de 66,4 milhões de euros em 2015 para 137,2 milhões de euros em 2025, registando uma variação de +107 % (Vista geral do comércio). Contudo, a evolução mais expressiva ocorreu no volume: a quantidade exportada cresceu de 107 558 toneladas para 433 936 toneladas (+303 %), atingindo um máximo de 581 005 toneladas em 2024.

1.2. A queda acentuada dos preços unitários de exportação

Esta divergência entre o crescimento do valor e o crescimento do volume explica-se pela queda significativa dos preços médios de exportação, que desceram de 617 €/t em 2015 para 316 €/t em 2025 (−49 %), com um mínimo de 245 €/t em 2022. Esta compressão de preços sugere que a expansão das exportações se baseou em grande medida em produtos de menor valor unitário — em particular, beterraba sacarina — cujos preços rondam os 53–70 €/t, contrastando com os valores muito mais elevados de segmentos como as raízes de chicória (até 2 420 €/t) ou os produtos vegetais para alimentação humana (até 18 964 €/t).

1.3. Os principais motores da exportação: beterraba sacarina e raízes de chicória

A segmentação por subproduto revela que dois segmentos explicam a maior parte do crescimento exportador:

Subproduto Variação volume (exportação) Variação valor (exportação)
Beterraba sacarina (121291) de 27 651 t para 329 927 t (+1 093 %) de 3,3 M€ para 22,3 M€ (+576 %)
Raízes de chicória (121294) de 777 t para 6 250 t (+704 %) de 0,5 M€ para 15,1 M€ (+2 961 %)
Algas (121229) de 41 227 t para 58 189 t (+41 %) de 18,5 M€ para 36,9 M€ (+99 %)
Alfarroba (121292) de 7 923 t para 10 841 t (+37 %) de 3,2 M€ para 7,3 M€ (+127 %)

Fonte: Comparação de segmentos de produto

A beterraba sacarina tornou-se, de longe, o principal produto em volume exportado, o que reflete a capacidade excedentária da UE como grande produtora de açúcar. As raízes de chicória, embora em volumes muito inferiores, registaram o maior crescimento relativo em valor, refletindo uma procura crescente — possivelmente ligada ao uso de inulina como fibra prebiótica na indústria alimentar.


2. Reconfiguração geográfica: novos parceiros e crescente diversificação

2.1. Diversificação das origens de importação

O índice de concentração de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor desceu de 1 828 para 1 647 entre 2015 e 2025 (−10 %), sinalizando uma diversificação das fontes de abastecimento. A China continua a ser o principal fornecedor (120,8 milhões de euros em 2025), mas o seu peso relativo estabilizou. Paralelamente, registaram-se crescimentos notáveis de fornecedores anteriormente marginais:

Parceiro Importações 2015 Importações 2025 Variação
Islândia 6,0 M€ 20,3 M€ +240 %
Noruega 1,6 M€ 7,3 M€ +348 %
Tanzânia 4,3 M€ 5,9 M€ +39 %

Estes três países partilham uma característica comum: são produtores significativos de algas e outros produtos marinhos, o que se alinha com o crescimento da subcategoria de algas (121229), cujas importações quase duplicaram em volume (de 76 676 t para 149 430 t).

2.2. A perda de peso do Chile e da Sérvia

Em contrapartida, registaram-se quedas acentuadas em dois parceiros tradicionais. O Chile — que exporta sobretudo produtos vegetais para alimentação humana — viu as suas vendas para a UE recuar de 20,6 milhões de euros para 9,4 milhões de euros (−54 %). A Sérvia, por sua vez, passou de 2,0 milhões de euros para apenas 394 mil euros (−81 %), com um coeficiente de variação de 1,74, o mais elevado entre os parceiros de importação, refletindo uma forte instabilidade. O choque de preços detetado na Sérvia em 2019 — com uma variação anómala de +4 333 % — ilustra esta volatilidade extrema, ainda que com um peso no valor total das importações reduzido (0,4 %).

2.3. Expansão das exportações para mercados asiáticos e a Suíça

Do lado das exportações, o parceiro que mais cresceu foi a Suíça (de 6,3 M€ para 28,4 M€, +354 %), tornando-se o principal destino extracomunitário das exportações da UE (Parceiros de exportação). Simultaneamente, registou-se uma entrada forte em mercados do Sudeste Asiático: a Tailândia cresceu +217 % (de 2,4 M€ para 7,7 M€) e o Vietname +115 % (de 2,5 M€ para 5,4 M€). Esta orientação para a Ásia sugere que a UE está a capitalizar a crescente procura de algas e produtos vegetais em mercados com tradição de consumo de alimentos marinhos e vegetais funcionais.

2.4. A crescente especialização dos Estados Bálticos e de Portugal

A análise da especialização comercial revela que, em 2025, os Estados-Membros mais especializados na exportação deste setor são a Letónia (RSCA = 0,76), a Lituânia (RSCA = 0,74) e Portugal (RSCA = 0,65). O caso de Portugal é particularmente relevante: com uma quota de 6,5 % nas exportações totais da UE para CN 1212, mas apenas 1,4 % nas exportações totais, o país demonstra uma vantagem comparativa clara, provavelmente ligada à tradição de exportação de alfarroba e algas do Atlântico. No extremo oposto, a Finlândia (RSCA = −0,96) e a Estónia (RSCA = −0,83) apresentam uma especialização negativa pronunciada.


3. Queda estrutural das importações de beterraba sacarina e ascensão das algas

3.1. O colapso das importações de beterraba sacarina

A transformação mais dramática na composição das importações da UE ocorreu na subcategoria de beterraba sacarina (121291). Em 2015, a UE importou 47 199 toneladas (2,0 milhões de euros); em 2025, as importações reduziram-se a apenas 12,5 toneladas (13 887 euros), representando uma queda de −99,97 % em volume. Esta evolução reflete provavelmente a eliminação progressiva das quotas de produção de açúcar na UE (a partir de 2017), que permitiu uma expansão interna da produção, tornando as importações residuais. Note-se que, simultaneamente, as exportações de beterraba sacarina dispararam de 27 651 toneladas para 329 927 toneladas — evidência clara da transformação da UE de importadora líquida para exportadora líquida neste segmento.

3.2. O crescimento sustentado das algas como matéria-prima estratégica

Em contraste, as importações de algas (121229) — incluindo as próprias para alimentação humana — cresceram de forma robusta:

Período Importações de algas (121229), volume Preço médio
2015 76 676 t 743 €/t
2020 141 963 t 376 €/t
2022 149 431 t 578 €/t
2025 149 430 t 438 €/t

Fonte: Segmentos de produto — importações

O volume praticamente duplicou (+95 %), sustentado por uma procura crescente de algas para alimentação humana, cosmética e nutracêutica. O pico de preço em 2022 (578 €/t), coincidente com a crise energética e as disrupções logísticas pós-COVID, elevou temporariamente o valor das importações de algas para 86,4 milhões de euros — o máximo do período. Em 2025, os preços normalizaram-se para 438 €/t, mas o volume manteve-se estável perto do máximo histórico, sugerindo uma procura estrutural e não apenas conjuntural.

3.3. Os choques de preços nos fornecedores periféricos e as suas causas prováveis

A análise de choques de oferta detetou três eventos significativos durante o período:

Evento Tipo Ano Variação Anomalia
Sérvia — importações Preço 2019 +4 333 % 578,4
Chile — importações Preço 2022 +123,9 % 22,7
Nigéria — importações Preço 2022 +91,6 % 36,8

O choque sérvio de 2019, apesar da sua magnitude relativa impressionante, teve um impacto marginal no valor total das importações (0,4 %). Os choques do Chile e da Nigéria em 2022, por outro lado, ocorreram num contexto global de inflação nos custos dos transportes e da energia, e afetaram parcelas mais significativas do valor das importações (7,4 % e 4,4 %, respetivamente). Estes episódios ilustram a vulnerabilidade pontual da UE a fornecedores com base geográfica distante e infraestruturas logísticas mais frágeis.


Conclusão

O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação profunda do comércio da UE na posição CN 1212. Três tendências estruturais dominaram a evolução do mercado:

  1. A passagem da UE de importadora líquida a exportadora líquida de beterraba sacarina, com as exportações a crescerem de 27 651 toneladas para 329 927 toneladas enquanto as importações colapsaram para valores residuais — uma mudança diretamente ligada à liberalização do regime açucareiro europeu em 2017.

  2. A consolidação das algas como o principal segmento de importação, com volumes que praticamente duplicaram (para 149 430 toneladas em 2025), sustentados pela crescente procura de ingredientes naturais para a indústria alimentar, nutracêutica e cosmética, e por fornecedores nórdicos (Islândia, Noruega) que ganharam peso significativo.

  3. A melhoria da balança comercial (de −227 M€ para −182 M€), impulsionada pelo crescimento das exportações (+107 % em valor), ainda que parcialmente comprometida pela compressão dos preços de exportação (−49 %), reflexo do peso crescente de produtos de baixo valor unitário como a beterraba sacarina.

A crescente diversificação geográfica — tanto das fontes de importação (HHI em queda) como dos destinos de exportação (expansão para a Suíça, Tailândia e Vietname) — confere ao mercado europeu uma maior resiliência face a choques de oferta pontuais, como os detetados em 2019 e 2022. A vantagem comparativa demonstrada por Estados-Membros como Portugal, Letónia e Lituânia sugere que a especialização regional continuará a moldar a paisagem exportadora da UE neste setor nos próximos anos.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

Se precisar de aconselhamento sobre a política comercial europeia, ou de representação dos seus interesses em Bruxelas, contacte-me através do endereço support@tradedashboard.eu. Encontrará o meu CV neste endereço.