Evolução do mercado: Amendoins (CN 1202) — 2015–2025
Introdução
O rubro 1202 da Nomenclatura Combinada abrange os amendoins não torrados nem de outro modo cozidos, incluindo as suas subpartidas para sementeira (120230), com casca (120241) e descascados ou triturados (120242). Trata-se de um produto essencialmente tropical de que a União Europeia é historicamente deficitária. Entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE neste produto apresentou dinâmicas marcantes: crescimento sustentado das importações, consolidação da Argentina como fornecedor dominante, acentuada redução das exportações e aprofundamento do défice comercial. O painel de visão geral fornece o quadro geral dos fluxos que servem de base a esta análise.
1. Consolidação da Argentina como motor das importações europeias
1.1. O domínio crescente de Buenos Aires
Ao longo do período em análise, a Argentina consolidou-se inequivocamente como o principal fornecedor externo de amendoins para a UE. O valor das importações provenientes da Argentina passou de €381,8 milhões em 2015 para €662,3 milhões em 2025, uma subida de 73,5%. Este crescimento foi mais acentuado do que a média das importações totais da UE (+41,1% em valor), sinalizando uma crescente dependência deste fornecedor. Em termos de quota, a Argentina passou de representar cerca de 52,4% das importações europeias em valor (2015) para 64,5% (2025). As importações por parceiro ilustram bem esta evolução.
| Parceiro | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Argentina | 381,8 | 662,3 | +73,5 |
| Estados Unidos | 141,1 | 73,7 | −47,8 |
| China | 83,2 | 107,3 | +28,9 |
| Brasil | 40,7 | 57,1 | +40,5 |
| Egipto | 21,8 | 57,7 | +164,3 |
| Nicarágua | 15,4 | 24,2 | +57,7 |
| Índia | 7,1 | 10,1 | +41,3 |
1.2. O declínio norte-americano e a ascensão de fornecedores emergentes
Se o crescimento argentino é o grande destaque, a queda das importações dos Estados Unidos constitui o movimento simétrico mais relevante. O valor importado dos EUA desceu de €141,1 milhões para €73,7 milhões (−47,8%), garantindo à sua concorrente direta do Cone Sul uma ainda maior preponderância no mercado europeu. Paralelamente, observa-se uma ascensão significativa de fornecedores alternativos: o Egipto cresceu 164,3%, passando de fornecedor residual para um papel relevante (€57,7 milhões em 2025), enquanto Brasil e Nicarágua reforçaram a sua presença. Estes movimentos sugerem uma diversificação parcial — embora ainda insuficiente face à concentração crescente num único fornecedor.
1.3. Maior concentração de abastecimento
O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações em valor subiu de 3 312 para 4 403 (+32,9%), sinalizando uma concentração de mercado que se agravou ao longo da década. Em volume, o padrão é semelhante: de 3 645 para 4 713. Esta concentração do HHI constitui um risco estrutural, pois torna o abastecimento europeu vulnerável a choques internos argentinos — sejam eles climáticos, cambiais ou regulatórios.
2. Défice comercial crescente apesar da expansão produtiva europeia
2.1. Um défice que ultrapassa mil milhões de euros
O défice comercial da UE em amendoins intensificou-se significativamente entre 2015 e 2025. Passando de −€694,8 milhões para −€1 004,0 milhões, representou uma deterioração de 44,5%. O mínimo do período foi registado em 2019 (−€684,6 milhões), antes de um agravamento acentuado nos anos seguintes e do pico negativo em 2022 (−€1 124,5 milhões). As métricas de vulnerabilidade evidenciam este aprofundamento.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (€ M) | 33,1 | 23,1 | −30,2% |
| Importações (€ M) | 727,9 | 1 027,1 | +41,1% |
| Saldo (€ M) | −694,8 | −1 004,0 | −44,5% |
| Dependência líquida (%) | 83,1% | 83,8% | +0,9 p.p. |
2.2. Um mercado que se expande em volume mas estagna em produção doméstica
Os dados de produção europeia revelam um crescimento notável em quantidade: de 314 000 toneladas em 2015 para 600 000 toneladas em 2025 (+91,1%). Contudo, o valor da produção permaneceu praticamente inalterado (de €1 000 milhões para €990 milhões), o que indica uma pressão descendente nos preços recebidos pelos produtores europeus. Este decoupling entre volume e valor sugere que a produção europeia se concentra em segmentos de menor valor acrescentado ou que a concorrência internacional comprimiu as margens. De notar que a especialização dos Estados-Membros é muito desigual: os Países Baixos apresentam o maior RCA (5,60), enquanto a maioria dos restantes Estados-Membros tem RCA próximo de zero.
2.3. Preços crescentes nas importações, pressão sobre a balança
O preço médio das importações europeias de amendoins subiu de €1 314/t para €1 473/t (+12,1%), tendo atingido o máximo de €1 694/t em 2022. A subida de preços — impulsionada pela inflação global, custos logísticos pós-pandemia e condições climáticas nos países de origem — contribuiu para amplificar o défice em valor. O denominado efeito-preço explica assim parte significativa da deterioração da balança comercial, mesmo quando os volumes importados cresceram de forma moderada (554 152 t → 697 305 t, +25,8%).
3. Reconfiguração das exportações europeias sob o impacto de choques geopolíticos
3.1. A queda acentuada das exportações europeias
As exportações europeias de amendoins sofreram uma redução pronunciada ao longo da década. Em valor, desceram de €33,1 milhões para €23,1 milhões (−30,2%), mas em volume a queda foi ainda mais acentuada: de 24 510 toneladas para 13 902 toneladas (−43,3%). Curiosamente, o preço médio de exportação subiu 23,0% (de €1 349/t para €1 659/t), o que indica que a UE passou a exportar quantidades menores mas de maior valor unitário — possivelmente amendoins de nicho ou com maior grau de transformação. A evolução das exportações reflete claramente esta trajetória descendente.
| Parceiro exportação | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 14,8 | 5,0 | −65,9 |
| Ucrânia | 0,9 | 7,8 | +804,0 |
| Noruega | 4,2 | 3,6 | −13,9 |
| Sérvia | 3,0 | 0,9 | −70,4 |
| Rússia | 5,5 | 0,0 | −100,0 |
| Bielorrússia | 1,3 | 0,5 | −63,9 |
| Suíça | 0,4 | 1,7 | +304,0 |
3.2. A rota do Leste: perda de mercados pós-2022
A evolução das exportações para a Rússia e a Bielorrússia constitui o exemplo mais flagrante do impacto geopolítico no comércio de amendoins. As exportações para a Federação Russa caíram de €5,5 milhões em 2015 para praticamente zero (€14) em 2025, o que se explica pelas sanções económicas impostas após fevereiro de 2022. De igual modo, as exportações para a Bielorrússia desceram 63,9%. Em contraste, a Ucrânia surgiu como destino crescente (+804%), o que pode refletir redirecionamento comercial e rotas logísticas alternativas no contexto do conflito. A Suíça e a Áustria (+533,1%) também ganharam relevância, sugerindo uma reorientação para mercados da Europa Central e Ocidental. Estes movimentos são visíveis nos parceiros de exportação.
3.3. Volatilidade e propensão à instabilidade nos parceiros
A análise de volatilidade revela que os parceiros de importação mais estáveis são a Argentina (CV = 0,16) e Israel (CV = 0,19), enquanto a Índia (CV = 0,54) e o Paraguai (CV = 0,72) apresentam flutuações significativas. Do lado das exportações, a volatilidade é extremamente elevada em mercados como a Rússia (CV = 1,36) e a Ucrânia (CV = 1,21), refletindo a instabilidade geopolítica que caracterizou a relação comercial com estes países. Os eventos de choque detetados incluem anomalias de preço para exportações para a Arábia Saudita (2022) e importações da Rússia (2018), embora estes ocorressem em volumes residuais.
Conclusão
A análise do período 2015–2025 revela um mercado europeu de amendoins profundamente dependente de importações e cada vez mais concentrado num único fornecedor — a Argentina. O crescimento das importações argentinas (+73,5%) contrasta com o declínio das vendas americanas (−47,8%), configurando uma geografia comercial cada vez mais polarizada. A dependência líquida de importações manteve-se estável nos 83–84%, mas o défice comercial agravou-se em 44,5%, atingindo mil milhões de euros.
Do lado das exportações, a perda de mercados na Europa de Leste (Rússia, Sérvia, Bielorrússia) não foi integralmente compensada pelo crescimento em destinos alternativos como a Ucrânia e a Suíça. A produção europeia duplicou em volume mas estagnou em valor, sugerindo desafios de competitividade e valor acrescentado.
Os principais riscos identificados são a crescente concentração de fornecimento (HHI em alta), a elevada volatilidade de parceiros secundários e a vulnerabilidade a choques geopolíticos. A diversificação geográfica — nomeadamente através do reforço dos laços com Brasil, Egipto e Nicarágua — e o investimento em maior valor acrescentado na produção europeia constituem as principais linhas de ação sugeridas por este diagnóstico.