Evolução do mercado: Outras sementes oleaginosas (CN 1207) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no que respeita à posição pautal CN 1207 — "Outras sementes e frutos oleaginosos, mesmo triturados (exceto nozes comestíveis, azeitonas, soja, amendoins, copra, linhaça, sementes de nabo silvestre ou de colza e sementes de girassol)" — no período compreendido entre 2015 e 2025. Trata-se de uma posição residual que abrange uma ampla variedade de produtos, incluindo sementes de gergelim (sésamo), sementes de mostarda, sementes de cártamo, sementes de melão, sementes de dormideira (papoula) e sementes de algodão, entre outras.
Ao longo da década em análise, o comércio externo da UE neste setor registou uma expansão significativa, tanto em valor como em volume. Contudo, esse crescimento foi acompanhado por transformações profundas na estrutura geográfica das trocas, na composição dos segmentos de produto e nos níveis de preços praticados. O relatório organiza-se em torno de três eixos centrais: a dinâmica agregada do comércio e o agravamento do déficit estrutural; a reconfiguração geográfica das origens de importação; e as evoluções ao nível dos segmentos de produto.
Crescimento robusto do comércio e agravamento do déficit estrutural
Aumento sustentado do valor e do volume transacionados
Entre 2015 e 2025, o valor total das importações da UE de produtos CN 1207 cresceu 55,9%, passando de 555,5 milhões de euros para 866,4 milhões de euros. Em termos de volume, o crescimento foi ainda mais acentuado, atingindo os 65,5% (de 345 359 toneladas para 571 473 toneladas). As exportações acompanharam esta trajetória ascendente, com um aumento de 59,3% em valor (de 144,7 M€ para 230,4 M€) e de 58,7% em volume (de 85 933 t para 136 374 t).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações — valor | 555,5 M€ | 866,4 M€ | +55,9% |
| Importações — volume | 345 359 t | 571 473 t | +65,5% |
| Exportações — valor | 144,7 M€ | 230,4 M€ | +59,3% |
| Exportações — volume | 85 933 t | 136 374 t | +58,7% |
O crescimento do volume importado (+65,5%) superou claramente o crescimento do valor (+55,9%), sinal de que a expansão das importações foi impulsionada sobretudo por um aumento real da procura europeia por sementes oleaginosas e não por efeitos inflacionários.
Evolução assimétrica dos preços de importação e exportação
Um dos aspetos mais relevantes reside na divergência entre a evolução dos preços médios de importação e de exportação. O preço médio das importações diminuiu 5,8%, de 1 609 €/t para 1 516 €/t, com um mínimo de 1 322 €/t registado em 2018. Em contraste, o preço médio das exportações permaneceu praticamente estável (+0,3%), situando-se em torno de 1 689 €/t em 2025. Este diferencial — com exportações a preços médios ligeiramente superiores — sugere uma especialização europeia em segmentos de maior valor acrescentado, nomeadamente sementes destinadas à semeadura (CN 120721, a preços de exportação de 4 275 €/t em 2015 e elevada volatilidade ao longo do período) e produtos com maior grau de transformação.
O déficit comercial alarga-se de forma significativa
O déficit comercial da UE nesta posição pautal agravou-se 54,8%, passando de −410,9 M€ em 2015 para −635,9 M€ em 2025. O ponto mínimo do déficit ocorreu em 2018 (−308,4 M€), precisamente quando os preços de importação atingiram valores historicamente baixos. A partir de 2019, o déficit voltou a alargar-se progressivamente, atingindo o máximo da série em 2025. A UE é, portanto, cada vez mais dependente de fornecedores externos para o abastecimento em sementes oleaginosas abrangidas por esta posição residual.
Reconfiguração geográfica das importações e o peso crescente das origens não declaradas
Queda acentuada da concentração das importações
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações da UE em valor desceu de 1 294 para 728 entre 2015 e 2025, uma redução de 43,7%. Em volume, a queda situou-se nos 37,6% (de 1 011 para 631). Estes valores indicam uma diversificação acentuada das fontes de abastecimento: se em 2015 o mercado das importações se aproximava de uma concentração moderada, em 2025 encontra-se claramente disperso. No lado das exportações, o HHI diminuiu igualmente (de 694 para 536, −22,8% em valor), embora de forma menos pronunciada, e a concentração em volume até aumentou ligeiramente (+23,8%), sugerindo que as exportações se tornaram mais focadas em volume num conjunto mais restrito de destinos.
China e Índia perdem relevância enquanto origens não declaradas disparam
A evolução dos principais parceiros de importação revela uma transformação estrutural notável. A China, maior fornecedor em 2015 com 154,3 M€, diminuiu 15,2% para 130,8 M€ em 2025. A Índia registou uma queixa mais acentuada, de −30,5% (de 102,7 M€ para 71,4 M€), com um mínimo intercalar de 38,1 M€ em 2017. O Canadá (−27,3%) e a Rússia (−40,3%) seguiram trajetórias semelhantes.
No entanto, a mudança mais extraordinária prende-se com a categoria "Países e territórios não especificados por razões comerciais ou militares no âmbito do comércio extra-UE", que passou de 1,6 M€ em 2015 para 185,6 M€ em 2025 — um crescimento de 11 312,9%. Em 2025, esta categoria constituía já a maior origem de importação em valor, superando a China.
| Principais parceiros de importação (valor) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Países não especificados | 1,6 M€ | 185,6 M€ | +11 312,9% |
| China | 154,3 M€ | 130,8 M€ | −15,2% |
| Índia | 102,7 M€ | 71,4 M€ | −30,5% |
| Nigéria | 36,4 M€ | 35,9 M€ | −1,4% |
| Ucrânia | 31,8 M€ | 35,4 M€ | +11,4% |
| Canadá | 28,0 M€ | 20,4 M€ | −27,3% |
| Rússia | 18,3 M€ | 10,9 M€ | −40,3% |
Esta evolução das origens não declaradas — que passou de 0,3% para 21,4% do total das importações — é um dos fenómenos mais marcantes do período e pode estar relacionada com fatores como o recurso a rotas de reexportação indiretas no contexto das sanções internacionais, alterações nas regras de confidencialidade aduaneira ou, simplesmente, com a crescente complexidade das cadeias de abastecimento globais.
Dinâmicas intra-UE: Países Baixos como hub logístico e a ascensão da Dinamarca
No que respeita ao comércio intra-UE, os Países Baixos consolidaram-se como o principal hub logístico, registando simultaneamente o maior crescimento nas exportações (+78,2%, de 39,8 M€ para 71,0 M€) e um forte aumento das importações (+41,2%, de 127,2 M€ para 179,6 M€). A Alemanha, embora tenha visto as suas importações recuar 16,8% (de 147,3 M€ para 122,6 M€), manteve-se como relevante exportador (+13,1%). A França destacou-se pelo crescimento mais acentuado das exportações intra-UE (+139,9%, de 8,1 M€ para 19,4 M€).
O caso mais notável é, porém, o da Dinamarca, cujas importações cresceram 6 339,1%, passando de 2,9 M€ para 187,1 M€. Em 2025, a Dinamarca tornou-se o maior importador da UE por valor, ultrapassando os Países Baixos (179,6 M€). Esta evolução, de magnitude invulgar, poderá refletir a instalação ou expansão de unidades industriais de transformação de sementes oleaginosas no território dinamarquês ou alterações nos padrões de reexportação.
No lado das exportações, a Grécia registou o maior crescimento relativo (+97,5%, de 15,9 M€ para 31,3 M€), refletindo a sua elevada especialização neste setor (RSCA de 0,80; RCA de 8,77 em 2025), seguida da Áustria (RSCA de 0,64; RCA de 4,50). No extremo oposto, a Irlanda (RSCA de −1,00) e o Chipre (RSCA de −0,99) apresentam uma especialização exportadora praticamente inexistente neste produto.
Dinâmicas segmentares: domínio do sésamo, crise da mostarda e ascensão das sementes de melão
Sésamo e a categoria residual dominam as importações
A análise segmentar das importações revela que dois segmentos dominam a estrutura do mercado: as sementes de gergelim/sésamo (CN 120740) e a categoria residual "outras sementes oleaginosas" (CN 120799). Em 2025, o sésamo representou 236,6 M€ em valor e 133 516 t em volume, enquanto a categoria residual atingiu 267,2 M€ e 144 656 t em volume. Juntos, estes dois segmentos representam a esmagadora maioria das importações.
| Segmento de importação | Valor 2015 | Valor 2025 | Var. valor | Vol. 2015 | Vol. 2025 | Var. volume |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 120740 — Sésamo | 217,1 M€ | 236,6 M€ | +9,0% | 129 771 t | 133 516 t | +2,9% |
| 120799 — Outras sementes | 222,8 M€ | 267,2 M€ | +19,9% | 77 120 t | 144 656 t | +87,6% |
| 120750 — Mostarda | 60,6 M€ | 58,7 M€ | −3,1% | 105 925 t | 96 369 t | −9,0% |
| 120770 — Sementes de melão | 34,4 M€ | 93,3 M€ | +171,0% | 406 t | 1 572 t | +286,9% |
| 120791 — Papoula | 10,0 M€ | 13,3 M€ | +33,3% | 5 283 t | 7 985 t | +51,1% |
| 120760 — Cártamo | 6,3 M€ | 7,9 M€ | +25,1% | 13 971 t | 14 598 t | +4,5% |
| 120729 — Sementes de algodão | 2,4 M€ | 0,1 M€ | −94,8% | 11 113 t | 50 t | −99,6% |
A categoria residual (CN 120799) registou o maior crescimento em volume (+87,6%), passando de 77 120 t para 144 656 t, o que sugere uma expansão significativa das importações de sementes não individualizadas nas subposições. Em termos de preço, este segmento apresentou elevada volatilidade, oscilando entre 1 867 €/t (2018) e 2 709 €/t (2022), fechando 2025 nos 1 847 €/t — praticamente ao nível de 2015. O sésamo, por seu lado, manteve volumes estáveis em torno dos 130 000 t, com preços a atingirem um pico de 2 168 €/t em 2024 antes de recuarem para 1 772 €/t em 2025.
A crise global das sementes de mostarda e os choques de fornecimento
O segmento das sementes de mostarda (CN 120750) é particularmente revelador da influência dos choques de oferta globais sobre o comércio da UE. Em 2022, na sequência das severas secas que afetaram o Canadá — maior produtor mundial —, o preço médio de importação das sementes de mostarda disparou para 1 378 €/t, praticamente o dobro do registado em 2021 (716 €/t). O valor das importações atingiu um pico de 130,6 M€ em 2022 e 140,7 M€ em 2023, muito acima da média histórica de ~60–70 M€. Em 2025, os preços regressaram a valores próximos dos pré-crise (609 €/t), sugerindo uma normalização do mercado global.
Paralelamente, a análise de volatilidade dos parceiros de importação identifica a Argentina como o fornecedor com maior volatilidade de preços (coeficiente de variação de 0,90), tendo registado um choque de preço em 2018 com uma subida anómala de 88,8%. O Cazaquistão (CV de 1,13), o Paraguai (CV de 0,53, com choque de +82,6% em 2022) e o Sudão (CV de 0,44) completam o painel dos fornecedores mais voláteis. No lado das exportações, a Coreia do Sul regista a maior volatilidade (CV de 1,58), com um choque de preço em 2017 de +1 470,9%, embora com um peso reduzido no total (0,9% do valor exportado).
Sementes de melão como motor de crescimento e o desaparecimento das sementes de algodão
As sementes de melão (CN 120770) constituem o segmento de maior crescimento relativo nas importações: o valor aumentou 171,0%, de 34,4 M€ para 93,3 M€, enquanto o volume cresceu 286,9% (de 406 t para 1 572 t). O preço médio extremamente elevado deste segmento (59 301 €/t em 2025) confere-lhe o carácter de nicho especializado, refletindo o seu uso sobretudo na produção de óleos de elevado valor acrescentado. A evolução ascendente deste segmento é consistente ao longo de todo o período, sem recuos significativos.
Em contraste, as sementes de algodão (CN 120729) praticamente desapareceram das importações da UE, passando de 11 113 t em 2015 para meras 50 t em 2025 (−99,6% em volume, −94,8% em valor). Curiosamente, no lado das exportações, as sementes de algodão mantiveram-se como um produto significativo (88 005 t / 31,4 M€ em 2025), sugerindo que a UE continua a transformar e reexportar estas sementes, mas cada vez menos as importa como matéria-prima bruta — possivelmente por via de uma reestruturação das cadeias de abastecimento têxteis e da crescente concorrência de fornecedores alternativos de matérias-primas fibrosas.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma expansão robusta do comércio da UE em sementes oleaginosas da posição CN 1207, impulsionada sobretudo pelo crescimento do volume importado (+65,5%), com preços médios de importação a ligeiramente recuar (−5,8%). Esta evolução agravou significativamente o déficit comercial estrutural da UE, que atingiu os 635,9 M€ em 2025.
Três tendências estruturais merecem destaque. Em primeiro lugar, a diversificação geográfica das importações, com uma queda acentuada do HHI (−43,7%), refletindo uma menor dependência de fornecedores tradicionais como a China (−15,2%) e a Índia (−30,5%). Em segundo lugar, o aparecimento explosivo da categoria de "origens não especificadas" como principal fonte de importação em 2025 (185,6 M€), um desenvolvimento que merece acompanhamento atento por parte dos analistas e decisores políticos. Em terceiro lugar, a crescente importância das sementes de melão (+171% em valor) e da categoria residual (+87,6% em volume) como motores de crescimento, em contraste com o colapso virtual das importações de sementes de algodão.
A crise das sementes de mostarda de 2022, com a duplicação dos preços de importação, constituiu um alerta quanto à vulnerabilidade da UE a choques de oferta em cadeias de abastecimento concentradas geograficamente. A subsequente normalização dos preços em 2024–2025 sugere, porém, uma capacidade de ajustamento do mercado. Do lado das exportações, o crescimento notável para destinos como a Arábia Saudita (+92,8%) e a China (+547,6%) indica uma diversificação dos mercados de destino europeus.
Olhando para o futuro, a crescente complexidade das cadeias de abastecimento — patente na ascensão das origens não declaradas — e a elevada volatilidade dos preços em fornecedores-chave como a Argentina, o Cazaquistão e o Paraguai constituem fatores de risco que importa monitorizar de perto.