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Evolução do mercado: Pérolas (CN 7101) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento das pérolas naturais ou cultivadas (código nomenclatura combinada 7101), englobando pérolas naturais (710110), pérolas cultivadas em bruto (710121) e pérolas cultivadas trabalhadas (710122), no período 2015–2025. Este código abrange pérolas mesmo trabalhadas ou combinadas, mas não engastadas, bem como pérolas enfiadas temporariamente para facilidade de transporte.

O período em análise é marcado por uma contração generalizada das trocas comerciais, por alterações significativas na geografia dos parceiros e por uma reconfiguração da estrutura de dependência da UE face a fornecedores externos. O relatório organiza-se em três eixos principais: a trajetória de declínio do volume e do valor comercial; a reconfiguração geográfica das trocas; e a crescente vulnerabilidade estrutural do bloco europeu neste setor.


1. Trajetória de declínio: uma década de contração comercial

1.1. A redução acentuada das importações

As importações da UE em pérolas registaram uma quebra significativa ao longo da década. Em 2015, o valor total das importações situou-se em 58,3 milhões de EUR, tendo descido para 36,1 milhões de EUR em 2025 — uma queda de 38,2%. Em termos de massa, o declínio foi mais moderado: de 48,6 toneladas para 43,2 toneladas (-11,0%), o que sugere uma deterioração mais acentuada do valor médio unitário do que da quantidade física importada.

Indicador 2015 2025 Variação
Valor (EUR) 58 323 793 36 059 760 -38,2%
Quantidade (t) 48,6 43,2 -11,0%
Preço médio (EUR/t) 1 112 112 715 780 -35,6%

O mínimo do período foi atingido em 2020 (22,2 milhões de EUR), em plena pandemia de COVID-19, o que evidencia a forte sensibilidade deste mercado a choques exógenos. As importações por parceiro revelam que os principais fornecedores registaram quedas generalizadas, com destaque para a Polinésia Francesa (-74,1%), Hong Kong (-56,7%) e o Japão (-42,1%).

1.2. A erosão das exportações europeias

As exportações da UE sofreram uma redução ainda mais pronunciada. O valor passou de 21,1 milhões de EUR em 2015 para apenas 9,7 milhões de EUR em 2025, representando uma queda de 54,0%. A quantidade exportada diminuiu 28,2%, de 3,2 para 2,3 toneladas. O preço médio de exportação recuou 48,8%, de 6,0 milhões de EUR/t para 3,1 milhões de EUR/t.

Indicador 2015 2025 Variação
Valor (EUR) 21 098 618 9 700 474 -54,0%
Quantidade (t) 3,2 2,3 -28,2%
Preço médio (EUR/t) 6 043 763 3 095 793 -48,8%

É particularmente notável que as exportações por unidade suplementar (GT) tenham caído 67,1%, de 2,8 milhões GT para 929 mil GT, sugerindo uma redução muito significativa do número de unidades comercializadas, para além da simples perda de peso.

1.3. Défice comercial estrutural mas em ligeira melhoria

A UE manteve um défice comercial permanente ao longo de todo o período. O saldo negativo passou de -37,2 milhões de EUR em 2015 para -26,4 milhões de EUR em 2025, uma melhoria relativa de 29,2%. Contudo, esta melhoria não resultou de um aumento das exportações, mas sim de uma redução mais acentuada das importações relativamente às exportações — um padrão que reflete a contração generalizada do mercado europeu, e não um ganho de competitividade.

A produção europeia de pérolas (dominada pela pérola cultivada) diminuiu de 482 milhões de EUR em 2015 para 385 milhões de EUR em 2024 (-20,1%), o que corrobora a fragilização do setor produtivo europeu.


2. Reconfiguração geográfica: novos padrões de dependência

2.1. A consolidação da China como principal fornecedor

A China consolidou-se como parceiro dominante nas importações da UE. Em 2025, o valor das importações chinesas atingiu 13,9 milhões de EUR, representando cerca de 39% do total importado. Apesar de uma queda de 24,8% face a 2015 (18,5 milhões de EUR), a posição relativa da China reforçou-se, uma vez que os concorrentes recuaram mais acentuadamente.

O Japão, segundo maior fornecedor em 2015 com 12,2 milhões de EUR, reduziu as suas exportações para a UE para 7,1 milhões de EUR (-42,1%). Hong Kong, terceiro fornecedor em 2015 com 8,1 milhões de EUR, caiu para 3,5 milhões de EUR (-56,7%). A Polinésia Francesa, historicamente relevante no segmento das pérolas de Tahiti, reduziu as suas vendas para a UE em 74,1%, de 7,6 para 2,0 milhões de EUR.

Parceiro (importações) 2015 (EUR) 2025 (EUR) Variação
China 18 547 018 13 948 867 -24,8%
Japão 12 213 000 7 075 877 -42,1%
Hong Kong 8 073 065 3 496 562 -56,7%
Polinésia Francesa 7 591 142 1 969 309 -74,1%
Estados Unidos 361 750 883 098 +144,1%

2.2. O caso emblemático da Turquia

Um dos desenvolvimentos mais surpreendentes é a ascensão da Turquia como fornecedor de pérolas para a UE. Em 2015, as importações turcas eram negligenciáveis (2 055 EUR); em 2025, atingiram 241 048 EUR — uma variação de 11 629,8%. Apesar de o valor absoluto ainda ser modesto, este crescimento exponencial sugere o surgimento de uma nova rota de abastecimento, potencialmente ligada à produção de pérolas cultivadas ou ao papel de entreposto comercial da Turquia.

2.3. Geografia das exportações: perda de diversificação

Do lado das exportações, a UE assistiu a uma erosão generalizada dos seus mercados de destino. O Japão, principal destino em 2015 (2,5 milhões de EUR), caiu para 783 mil EUR (-68,8%). A Suíça, destino muito relevante com 6,8 milhões de EUR em 2015, recuou para 2,0 milhões de EUR (-70,0%). O Líbano quase desapareceu como destino (-96,6%).

Parceiro (exportações) 2015 (EUR) 2025 (EUR) Variação
Suíça 6 822 104 2 043 270 -70,0%
Hong Kong 6 446 311 2 632 413 -59,2%
Japão 2 508 663 782 747 -68,8%
Estados Unidos 732 691 1 312 945 +79,2%
Reino Unido 395 317 278 921 -29,4%

É notável que os Estados Unidos tenham sido a única exceção à tendência descendente, crescendo 79,2% como destino das exportações europeias (de 733 mil EUR para 1,3 milhões de EUR), reflectindo possivelmente uma reorientação estratégica das exportações europeias para o mercado norte-americano.

2.4. Volatilidade das trocas com parceiros periféricos

A análise de volatilidade revela coeficientes de variação (CV) muito elevados para parceiros secundários. As importações do Reino Unido apresentam CV de 2,01, do Japão de 2,17 e da Turquia de 2,78. Do lado das exportações, o Japão atinge CV de 3,07 e o Líbano de 2,04. Estes valores indicam flutuações extremamente acentuadas, frequentemente associadas a transações pontuais ou de grande montante em vez de fluxos comerciais regulares.

Foram detetados choques de preço significativos, com destaque para:

  • Reino Unido (importações, 2021): anomalia de 86,1 com aumento de preço de 2 437,1%, possivelmente ligada ao Brexit e à alteração das regras aduaneiras.
  • Reino Unido (exportações, 2023): anomalia de 11,3 com aumento de 481,0%.
  • Noruega (exportações, 2017): anomalia de 11,5 com aumento de 104,6%.

3. Vulnerabilidade estrutural: a crescente dependência externa da UE

3.1. A inversão radical da posição de autossuficiência

O indicador de dependência líquida de importações revela uma transformação estrutural profunda. Em 2015, o indicador situava-se em -35,2%, o que indicava que a UE era, globalmente, uma exportadora líquida de pérolas (provavelmente devido ao papel de entreposto e transformação de alguns Estados-Membros). Em 2025, o indicador atingiu 65,1%, reflectindo uma dependência líquida significativa face ao exterior. O máximo foi registado em 2020 (87,7%), durante a pandemia, quando as exportações desabaram mais do que as importações.

Esta inversão, de -35,2% para +65,1% (variação de 285,1%), é o indicador mais revelador da reconfiguração do posicionamento da UE no comércio global de pérolas.

3.2. Concentração crescente das importações

O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor aumentou de 1 933 para 2 425 (+25,5%), indicando uma concentração crescente do fornecimento. O valor máximo atingido foi de 2 922 (2020), durante a pandemia, quando as importações se concentraram ainda mais nos poucos parceiros com capacidade de manter a cadeia de abastecimento.

Do lado das exportações, o HHI diminuiu de 2 729 para 2 110 (-22,7%), sugerindo uma ligeira diversificação dos destinos — embora em contexto de redução global do volume exportado. A concentração por volume das exportações caiu ainda mais acentuadamente (-62,8%), de 2 982 para 1 111.

3.3. Papeis divergentes dos Estados-Membros

A análise de especialização revela uma disparidade acentuada entre os Estados-Membros:

Estado-Membro RCA RSCA Quota prod. Quota total
Itália 5,24 0,68 42,0% 8,0%
França 2,21 0,38 17,3% 7,8%
Espanha 2,13 0,36 12,3% 5,8%
Alemanha 1,16 0,07 24,5% 21,2%

A Itália destaca-se como o centro europeu de transformação de pérolas, com um RCA de 5,24 e uma quota de 42,0% na produção europeia do setor. A França e a Espanha também apresentam vantagens comparativas (RCA > 2), enquanto a Alemanha, apesar de representar 21,2% do comércio total da UE no setor, apresenta um RCA próximo de 1 (1,16), indicando uma presença comercial proporcional à sua dimensão, sem especialização particular.

3.4. O perfil setorial: pérolas cultivadas trabalhadas dominam

A segmentação por produto confirma que as pérolas cultivadas trabalhadas (710122) dominam esmagadoramente tanto as importações como as exportações:

Importações por segmento (2025):

Segmento Valor (EUR) Quantidade (t)
Trabalhadas (710122) 26 905 896 36,3
Pérolas naturais (710110) 5 699 897 4,9
Em bruto (710121) 3 453 966 2,0

As pérolas cultivadas trabalhadas representam 74,6% do valor e 84,1% da massa das importações em 2025. Este padrão confirma a posição da UE como importador líquido de matéria-prima semi-transformada, provavelmente destinada ao setor joalheiro de luxo.

Exportações por segmento (2025):

Segmento Valor (EUR) Quantidade (t)
Trabalhadas (710122) 6 777 349 1,4
Em bruto (710121) 1 149 525 0,7
Pérolas naturais (710110) 914 773 0,1

As exportações seguem um padrão semelhante, com as pérolas trabalhadas a representar 77,1% do valor total. É curioso notar que as exportações de pérolas cultivadas trabalhadas caíram de 17,3 milhões de EUR para 6,8 milhões de EUR (-60,8%) ao longo do período, reflectindo a perda de relevância da UE como transformador e reexportador.

A propensão exportadora da UE neste setor é de 886,8% (2025), valor que, embora elevado, deve ser interpretado com cautela — reflecte a estrutura de reexportação de pérolas importadas e transformadas, e não uma capacidade produtiva autónoma. A intensidade comercial situou-se em 167,1% em 2025, ligeiramente abaixo do valor de 2015 (181,5%), confirmando uma ligeira dessensibilização do setor face ao comércio internacional.


Conclusão

O comércio da UE em pérolas (CN 7101) ao longo da década 2015–2025 é marcado por uma contração profunda e generalizada. As importações caíram 38,2% em valor e as exportações 54,0%, reflectindo tanto a fragilidade estrutural do setor europeu como os efeitos de choques exógenos (pandemia, Brexit, reconfiguração das cadeias globais de valor).

A dependência da UE face à China reforçou-se, enquanto fornecedores tradicionais como Japão, Hong Kong e Polinésia Francesa perderam relevância. Do lado das exportações, a UE perdeu terreno na maioria dos mercados, com a excepção dos Estados Unidos. A inversão do indicador de dependência líquida (de -35% para +65%) é o sinal mais claro de que a UE deixou de ser um ator com capacidade líquida de exportação neste setor para se tornar um importador dependente.

A concentração das importações aumentou (HHI de 1 933 para 2 425), e a especialização produtiva está cada vez mais concentrada em poucos Estados-Membros, sobretudo a Itália e a França. O setor das pérolas cultivadas trabalhadas (710122) continua a dominar a estrutura comercial, confirmando a posição da UE como transformadora e consumidora final, mais do que como produtora primária.

Em síntese, o mercado europeu de pérolas encontra-se num ciclo de maturação com características de declínio estrutural, onde a redução da procura interna e a perda de competitividade exportadora se reforçam mutuamente, criando um quadro de vulnerabilidade crescente face a fornecedores externos.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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