Evolução do mercado: Ouro bruto (CN 7108) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código aduaneiro 7108 — Ouro (incluindo o ouro platinado), em formas brutas ou semimanufaturadas, ou em pó — ao longo do período 2015–2025. Este produto abrange quatro subcategorias: ouro em pó (710811), ouro bruto para fins não monetários (710812), ouro semimanufaturado (710813) e ouro para uso monetário (710820).
O período em análise é marcado por três transformações fundamentais: uma valorização explosiva dos preços do ouro, uma inversão radical da posição comercial da UE — de importadora líquida a exportadora líquida — e uma reconfiguração das relações comerciais com parceiros-chave, em particular a Suíça. A análise baseia-se exclusivamente nos dados fornecidos e procura identificar as dinâmicas subjacentes a estes desenvolvimentos.
1. A valorização do ouro e a revolução na balança comercial da UE
O primeiro e mais marcante desenvolvimento no período 2015–2025 é a escalada dos preços do ouro e a sua consequência direta: uma transformação profunda na balança comercial da UE.
1.1 Uma valorização de preços sem precedentes
O preço médio por tonelada de ouro exportado pela UE subiu de 29,0 milhões de EUR/t em 2015 para 80,8 milhões de EUR/t em 2025, uma variação de +178,8%. Nas importações, o percurso foi semelhante: de 25,2 milhões de EUR/t para 65,3 milhões de EUR/t (+159,4%). Estas variações refletem essencialmente a forte valorização internacional do ouro, acentuada por períodos de incerteza geopolítica, inflação elevada e política monetária expansionista.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Preço exportação (EUR/t) | 28 992 331 | 80 843 917 | +178,8% |
| Preço importação (EUR/t) | 25 171 307 | 65 305 375 | +159,4% |
| Valor exportações (mil M EUR) | 7,95 | 27,10 | +241,0% |
| Valor importações (mil M EUR) | 7,49 | 19,52 | +160,5% |
1.2 Volumes estáveis, valores em explosão: o efeito preço
Em contraste com a evolução dos preços, os volumes físicos apresentaram crescimentos muito mais modestos. As exportações em toneladas cresceram apenas 22,4% (de 273,8 t para 335,1 t), enquanto as importações permaneceram praticamente estáveis (+0,4%, de 297,6 t para 298,8 t). Isto significa que a explosão do valor do comércio — mais de +241% nas exportações e +160,5% nas importações — foi esmagadoramente impulsionada pelo efeito-preço e não pelo efeito-volume.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Quantidade exportada (t) | 273,8 | 335,1 | +22,4% |
| Quantidade importada (t) | 297,6 | 298,8 | +0,4% |
1.3 De importadora líquida a exportadora líquida: a inversão da balança
A evolução mais dramática reside na balança comercial. Em 2015, a UE registou um pequeno excedente de +455 milhões de EUR. A situação deteriorou-se progressivamente, atingindo um défice recorde de −9 646 milhões de EUR em 2022, impulsionado por uma vaga massiva de importações de ouro bruto (710812). Contudo, a partir de 2023, a balança inverteu-se de forma espetacular: em 2025, o excedente atingiu +7 579 milhões de EUR — uma variação de +1 566% face a 2015.
O rácio de dependência de importações confirma esta inversão: passou de +23,0% em 2015 (dependência positiva) para −75,9% em 2025 (a UE é agora um excedente líquido significativo em relação à sua produção). O índice de propensão para exportar disparou de 14,9% para 135,7% (+813,9%), reflectindo a crescente orientação da produção europeia para os mercados externos.
2. A geopolítica do ouro: parceiros, concentração e volatilidade
O segundo eixo de análise diz respeito à estrutura geográfica do comércio de ouro da UE e aos riscos associados à concentração em determinados parceiros.
2.1 A Suíça como epicentro do comércio europeu de ouro
A Suíça domina de forma avassaladora o comércio de ouro da UE com países terceiros. Em 2025, as importações da Suíça representaram 13 043 milhões de EUR (+149,3% face a 2015) e as exportações para a Suíça atingiram 16 307 milhões de EUR (+195,2%). A Suíça é simultaneamente o maior fornecedor e o maior destino de exportação, o que reflecte o papel dos refinadores e centros financeiros suíços como intermediários globais no mercado do ouro.
| Parceiro | Importações 2025 (mil M EUR) | Variação | Exportações 2025 (mil M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|---|
| Suíça | 13,04 | +149,3% | 16,31 | +195,2% |
| Reino Unido | 0,48 | +110,7% | 8,06 | +552,9% |
| Estados Unidos | 1,62 | +3 243,5% | 0,31 | +288,5% |
| Emirados Árabes | 0,88 | +3 230,5% | 0,92 | +455,6% |
| África do Sul | 0,90 | +25,1% | — | — |
| Turquia | — | — | 0,42 | +26,4% |
2.2 Novos atores e crescimentos exponenciais
Além da Suíça, destaca-se o crescimento exponencial de several parceiros. As importações dos Emirados Árabes Unidos cresceram 3 230,5%, as dos Estados Unidos 3 243,5% e as da Colômbia 1 024,3%. Do lado das exportações, o Reino Unido tornou-se o segundo maior destino (8 060 milhões de EUR, +552,9%), enquanto o Líbano (+1 091,1%) e os Emirados Árabes (+455,6%) apresentaram crescimentos notáveis. Estas evoluções sugerem uma diversificação das rotas comerciais, ainda que a concentração permaneça elevada.
2.3 Concentração moderada, mas volatilidade heterogénea
O índice de concentração HHI diminuiu ligeiramente ao longo do período — de 4 997 para 4 601 nas importações e de 5 121 para 4 524 nas exportações — indicando uma ligeira diversificação. Contudo, a volatilidade dos fluxos varia enormemente entre parceiros. Os parceiros com maior coeficiente de variação incluem:
- Andorra (CV = 2,56 nas exportações) e Coreia do Sul (CV = 2,09) — mercados muito erráticos.
- Emirados Árabes — volatilidade elevada tanto nas importações (CV = 1,53) como nas exportações (CV = 1,49).
- Líbano (CV = 1,98 nas exportações) — fluxos esporádicos e de grande amplitude.
Em contraste, a Suíça apresenta o coeficiente mais baixo (CV ≈ 0,22 em ambos os fluxos), confirmando a sua posição de parceiro estável e estrutural. Foram ainda detetados dois choques de preço significativos: uma anomalia nas exportações para a Turquia em 2023 (abnormality 14,9, variação +120,5%) e outra nas importações do Reino Unido em 2019 (abnormality 3,6, variação +154,6%).
2.4 O papel dos Estados membros como intermediários
A distribuição intra-UE revela uma forte concentração em poucos Estados membros. A Alemanha e a Itália dominam tanto as importações como as exportações:
| Estado membro | Importações 2025 (mil M EUR) | Exportações 2025 (mil M EUR) |
|---|---|---|
| Itália | 6,34 | 8,20 |
| Alemanha | 7,85 | 10,23 |
| Áustria | 1,71 | — |
| Espanha | 0,28 | 2,34 |
| Finlândia | — | 1,10 |
| França | 1,84 | 1,53 |
A Finlândia (+513,7%) e a França (+804,0% nas exportações) registaram os maiores crescimentos, sugerindo uma expansão significativa das capacidades de refino e processamento nesses países. Os dados de especialização confirmam que a Estónia (RSCA = 0,69), a Áustria (RSCA = 0,60) e a França (RSCA = 0,46) são os Estados membros mais especializados neste produto.
3. Estrutura produtiva e segmentação por tipo de ouro
O terceiro eixo de análise incide sobre a composição do comércio por subcategoria de produto e sobre a evolução da produção europeia.
3.1 O domínio absoluto do ouro bruto (710812)
A subcategoria 710812 (ouro bruto para fins não monetários) domina esmagadoramente o comércio. Em 2025, representou 67,7% do valor das importações e 81,4% do valor das exportações. A sua participação cresceu ao longo do período, impulsionada pela valorização do ouro e pelo aumento da procura de ouro bruto para refino.
| Segmento | Descrição | Imp. 2025 (mil M EUR) | Exp. 2025 (mil M EUR) |
|---|---|---|---|
| 710812 | Ouro bruto (excl. pó) | 13,16 | 22,05 |
| 710813 | Ouro semimanufaturado | 6,35 | 5,01 |
| 710811 | Ouro em pó | 0,01 | 0,04 |
| 710820 | Ouro monetário | ≈ 0 | ≈ 0 |
3.2 Ouro semimanufaturado (710813): crescimento moderado mas significativo
O ouro semimanufaturado (710813) representa a segunda maior subcategoria. As importações cresceram de 2 814 milhões de EUR (2015) para 6 347 milhões de EUR (2025), e as exportações passaram de 1 733 milhões para 5 005 milhões de EUR. Em volume, as importações mantiveram-se relativamente estáveis (de 149,8 t para 120,2 t), confirmando que o crescimento do valor foi essencialmente ditado pela subida dos preços. Este segmento inclui ouro em formas como barras, fios e folhas, com aplicações na indústria joalheira e eletrónica.
3.3 Ouro em pó (710811): crescimento exponencial nas importações
O segmento mais pequeno mas com a evolução mais dinâmica é o ouro em pó (710811). As importações em volume dispararam de 0,8 t em 2015 para 23,8 t em 2025 — um aumento de 2 744%. As exportações, inversamente, caíram de 7,6 t para 0,8 t. Esta dinâmica sugere um aumento significativo da procura industrial europeia de ouro em pó — possivelmente ligada à indútria eletrónica e de componentes avançados — e uma diminuição da capacidade exportadora da UE neste segmento.
3.4 Produção europeia: crescimento de volume e de valor
A produção europeia de ouro cresceu de 352 737 kg para 499 323 kg (+41,6%) em volume, mas a valorização dos preitos fez com que o valor da produção se tenha disparado de 1 263 milhões de EUR para 14 888 milhões de EUR (+1 079,1%). Estes números incluem a produção de Estados membros com tradição mineira (Finlândia, Suécia, Espanha, Polónia) e reflectem um aumento real da capacidade produtiva, amplificado pela valorização do ouro nos mercados internacionais.
Conclusão
O período 2015–2025 foi transformador para o comércio europeu de ouro bruto (CN 7108). Os dados revelam três grandes dinâmicas:
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A escalada dos preços foi o motor dominante da evolução do valor comercial. Com volumes físicos crescentes de forma modesta, a subida dos preços do ouro — de cerca de 25–29 milhões de EUR/t para 65–81 milhões de EUR/t — explica a esmagadora parte do crescimento de +241% nas exportações e +160,5% nas importações.
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A inversão da balança comercial foi a mudança estrutural mais significativa. A UE passou de uma posição de pequeno excedente (2015) a um défice recorde de −9 646 milhões de EUR (2022) e, subsequentemente, a um excedente robusto de +7 579 milhões de EUR (2025). Esta trajetória reflecte flutuações na procura global, movimentos de refino e reexportação, e possivelmente reclassificações de stocks.
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A concentração geográfica permanece elevada, com a Suíça a desempenhar um papel estrutural como intermediária. Contudo, observa-se uma ligeira diversificação, com parceiros como os Emirados Árabes, os Estados Unidos e a Colômbia a ganharem relevância crescente. A volatilidade heterogénea entre parceiros constitui um risco potencial para a estabilidade dos abastecimentos.
O crescimento exponencial das importações de ouro em pó (+2 744% em volume) e o aumento da propensão exportadora da UE (de 14,9% para 135,7%) sugerem que a UE está a reconfigurar a sua posição na cadeia de valor global do ouro, passando progressivamente de uma posição de consumo e importação para uma de refino, transformação e reexportação.