Evolução do mercado: Instrumentos de medição (CN 9025) — 2015–2025
Introdução
O código combinado 9025 abrange uma família alargada de instrumentos de medição — termómetros, pirómetros, barómetros, higrómetros, psicrómetros, densímetros, areómetros e pesa-líquidos, bem como as respetivas partes e acessórios. Este setor integra-se no capítulo 90 da Nomenclatura Combinada, dedicado a instrumentos de ótica, medida e precisão, e alimenta indústrias tão diversas como a farmacêutica, a agroalimentar, a climatização e a energia.
Entre 2015 e 2025, o comércio extra-UE deste setor registou dinâmicas significativas: as exportações cresceram 47,7 % em valor (de 961 milhões € para 1 420 milhões €), enquanto as importações aumentaram 28,1 % (de 859 milhões € para 1 100 milhões €). A balança comercial manteve-se estruturalmente positiva, passando de 103 milhões € para 320 milhões €, embora tenha registado uma inversão pontual em 2016. A análise seguinte organiza-se em três eixos: o desempenho comercial agregado, a reconfiguração geográfica dos parceiros e a transformação da base produtiva europeia.
1. Crescimento robusto das exportações e consolidação do excedente comercial
1.1. As exportações crescem a um ritmo sustentado, superando as importações em valor
Ao longo do período analisado, a evolução do comércio mostra que a UE reforçou a sua posição líquida exportadora. As exportações passaram de 961 milhões € em 2015 para 1 420 milhões € em 2025 (+47,7 %), enquanto as importações cresceram de 859 milhões € para 1 100 milhões € (+28,1 %). O ponto mínimo das exportações situou-se em 2016 (894 milhões €), coincidindo com uma contração generalizada do comércio europeu, mas a recuperação foi rápida e sustentada a partir de 2017.
| Indicador | 2015 | Mínimo | Máximo | 2025 | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Exportações (milhões €) | 961 | 894 (2016) | 1 420 (2025) | 1 420 | +47,7 % |
| Importações (milhões €) | 859 | 714 (2016) | 1 233 (2022) | 1 100 | +28,1 % |
| Saldo comercial (milhões €) | 103 | −35 (2016) | 371 (2022) | 320 | +211,8 % |
A divergência de trajetórias entre exportações e importações traduz-se num reforço consistente do excedente comercial. O saldo atingiu o máximo de 371 milhões € em 2022, impulsionado pela combinação de exportações recorde e uma moderagem relativa das importações em volume.
1.2. A valorização dos preços exportados sinaliza uma subida na cadeia de valor
Um aspeto notável da evolução é o diferencial de preços entre exportações e importações. Em 2025, o preço médio das exportações situou-se em 181 716 €/tonelada, face a 68 648 €/tonelada nas importações — uma razão de 2,6:1. Esta diferença, que se manteve ao longo de todo o período, indica que a UE se especializou em segmentos de maior valor acrescentado (instrumentos eletrónicos de precisão, pirómetros industriais, sistemas integrados), enquanto importa sobretudo instrumentos de leitura direta e componentes de menor complexidade.
| Preço médio | 2015 (€/t) | 2025 (€/t) | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações | 152 315 | 181 716 | +19,3 % |
| Importações | 53 879 | 68 648 | +27,4 % |
A subida mais acentuada dos preços de importação (+27,4 %) face aos de exportação (+19,3 %) reflete, em parte, a pressão inflacionária pós-pandemia e o aumento dos custos de transporte, mas também a crescente sofisticação dos fornecedores asiáticos.
1.3. A relação volume/valor revela uma dinâmica de produtividade aparente
Em termes de volume físico, as exportações cresceram 23,8 % (de 6 305 para 7 805 toneladas), enquanto as importações se mantiveram praticamente estáveis (+0,5 %, de 15 931 para 16 015 toneladas). Esta combinação — crescimento de volume nas exportações com estagnação nas importações — sugere que a indústria europeia ganhou quota de mercado em segmentos de peso elevado, ao mesmo tempo que o crescimento do valor das importações se deveu sobretudo à subida de preços e não ao aumento de volumes.
O volume máximo de exportações (8 708 toneladas) ocorreu em 2022, ano em que as exportações atingiram também o valor mais elevado até então, confirmando a correlação entre volume e receita.
2. Reconfiguração geográfica: China dominante, Rússia em colapso e o peso crescente do México
2.1. A China reforça o domínio nas importações, com crescimento de quase 60 %
A análise por parceiros revela que a China consolidou a posição de principal fornecedor extra-UE, com importações a crescerem de 274 milhões € para 438 milhões € (+59,6 %). O ponto máximo foi atingido em 2022, com 683 milhões € — um valor que reflete provavelmente a acumulação de stocks no contexto pós-pandémico e a normalização das cadeias de abastecimento. O coeficiente de variação das importações chinesas é o mais baixo entre os principais parceiros (0,13), indicando uma fornecimento estável e previsível.
2.2. O México surge como parceiro de crescimento acelerado
O crescimento mais espetacular registou-se nas importações provenientes do México, que passaram de 22 milhões € para 71 milhões € (+216,4 %), com um pico de 74 milhões € em 2024. Este crescimento pode estar associado à estratégia de nearshoring de multinacionais que instalaram capacidade produtiva no México para servir simultaneamente os mercados americano e europeu, bem como a eventuais acordos de cooperação industrial.
2.3. A Rússia praticamente desaparece como destino de exportação
Uma das transformações mais marcantes do período foi o colapso das exportações para a Rússia: de 36 milhões € em 2015 para apenas 2,4 milhões € em 2025 (−93,5 %). A queda acentuou-se significativamente a partir de 2022, em resultado das sanções económicas impostas pela UE no contexto do conflito na Ucrânia. Com um coeficiente de variação de 0,66 — o mais volátil entre os principais destinos —, este parceiro representou uma fonte de instabilidade estrutural que foi eliminada.
| Parceiro (importações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 274 | 438 | +59,6 % |
| Estados Unidos | 154 | 222 | +44,5 % |
| México | 22 | 71 | +216,4 % |
| Reino Unido | 71 | 105 | +47,7 % |
| Japão | 21 | 18 | −13,2 % |
| Índia | 6 | 13 | +123,9 % |
| Turquia | 2 | 5 | +126,8 % |
2.4. Os Estados Unidos e o Reino Unido mantêm-se como parceiros estratégicos em ambas as direções
Tanto em exportações como em importações, os EUA e o Reino Unido figuram entre os principais parceiros. As exportações para os EUA cresceram 68,7 % (de 172 milhões € para 290 milhões €), tornando este o maior destino individual, enquanto as exportações para o Reino Unido cresceram 83,9 % (de 83 milhões € para 152 milhões €). O Reino Unido como destino mostra um crescimento particularmente forte, o que pode refletir a reconfiguração das relações comerciais pós-Brexit e a necessidade de fluxos diretos UE–Reino Unido que antes transitavam internamente.
2.5. A concentração das importações acentuou-se, enquanto as exportações se mantiveram diversificadas
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 1 623 para 2 187 (+34,7 %), ultrapassando o limiar de 1 800 que marca uma concentração moderada. Este aumento reflete o crescimento desproporcionado da China como fornecedor. Em contraste, o HHI das exportações manteve-se estável (822 para 874, +6,3 %), refletindo uma carteira de destino mais diversificada e resiliente.
| HHI | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 1 623 | 2 187 | +34,7 % |
| Exportações (valor) | 822 | 874 | +6,3 % |
3. Transformação estrutural: a produção europeia produz menos unidades, mas gera significativamente mais valor
3.1. A produção industrial europeia duplicou em valor, apesar de uma queda de quase 30 % em volume
Os dados de produção PRODCOM revelam uma evolução paradoxal: a produção em unidades caiu 29,4 % (de 73,8 milhões para 52,1 milhões de unidades), enquanto o valor da produção subiu 129,7 % (de 2 501 milhões € para 5 744 milhões €). Este aparente paradoxo explica-se pela migração da produção europeia para instrumentos de maior valor unitário — instrumentos eletrónicos, sistemas de medição integrados e equipamentos industriais de precisão — em detrimento de instrumentos mecânicos simples (como termómetros de líquido de leitura direta), cuja produção se deslocou para Ásia.
| Indicador de produção | 2015 | Mínimo | Máximo | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|---|---|
| Quantidade (milhões de unidades) | 73,8 | 47,0 | 93,4 | 52,1 | −29,4 % |
| Valor (milhões €) | 2 501 | 2 414 | 5 744 | 5 744 | +129,7 % |
| Valor médio por unidade (€) | 33,9 | — | — | 110,2 | +225,7 % |
3.2. A Alemanha mantém a liderança europeia, mas Países Baixos e Finlândia ganham protagonismo
A análise por Estado-Membro confirma a centralidade da Alemanha, responsável por 33,2 % do valor das exportações europeias (508 milhões € em 2025, +11,7 % face a 2015). Contudo, o crescimento mais dinâmico partiu de outros Estados-Membros:
- Países Baixos: exportações de 71 milhões € para 162 milhões € (+126,7 %), refletindo o papel de hub logístico e a presença de multinacionais do setor;
- Finlândia: de 53 milhões € para 116 milhões € (+116,1 %), com uma vantagem comparativa revelada (RSCA de 0,36) ligada à indústria de instrumentação ambiental e meteorológica;
- França: de 51 milhões € para 106 milhões € (+108,4 %);
- Estónia: de 50 milhões € para 56 milhões €, com o segundo maior RSCA da UE (0,62), indicando especialização intensa apesar da escala reduzida.
3.3. O segmento de termómetros e pirómetros eletrónicos (902519) domina ambos os fluxos
A decomposição por segmento de produto permite identificar os motores do comércio:
| Segmento | Descrição | Imp. 2015 (M€) | Imp. 2025 (M€) | Exp. 2015 (M€) | Exp. 2025 (M€) |
|---|---|---|---|---|---|
| 902519 | Termómetros e pirómetros (excl. líquidos) | 391 | 672 | 525 | 837 |
| 902590 | Partes e acessórios | 112 | 176 | 139 | 248 |
| 902580 | Higrómetros, barómetros e semelhantes | 337 | 227 | 276 | 313 |
| 902511 | Termómetros de líquido, leitura direta | 18 | 25 | 20 | 22 |
O segmento 902519 (termómetros e pirómetros não combinados, excluindo os de líquido de leitura direta) é claramente o dominante, representando cerca de 60 % das exportações e das importações em valor. Curiosamente, as importações deste segmento cresceram mais (+71,7 %) do que as exportações (+59,4 %), refletindo a concorrência crescente de fabricantes asiáticos em instrumentos eletrónicos de gama média.
O segmento 902580 (higrómetros, barómetros e instrumentos flutuantes) é o único que registou uma queda nas importações (de 337 milhões € para 227 milhões €, −32,6 %), sugerindo uma reorientação da procura europeia ou uma substituição por instrumentos integrados noutros segmentos.
3.4. A dependência líquida diminuiu drasticamente, consolidando a autonomia europeia
O indicador de dependência das importações revela uma evolução positiva: o indicador de dependência líquida passou de −23,1 % para −1,2 % (valores negativos indicam posição exportadora líquida). Embora a posição líquida se tenha aproximado do equilíbrio, a UE manteve-se estruturalmente exportadora ao longo de todo o período. A propensão para exportar apresentou a maior saliência entre os indicadores de vulnerabilidade, com uma queda de 95,2 % para 5,6 %, o que reflete o crescimento do consumo aparente europeu face ao valor das exportações.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma consolidação da posição europeia no comércio internacional de instrumentos de medição (CN 9025). Três tendências estruturais dominaram esta evolução:
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Reforço do excedente comercial — as exportações cresceram quase o dobro das importações em termos relativos, sustentadas por preços médios significativamente superiores (2,6:1), o que confirma a especialização europeia em segmentos de alto valor acrescentado.
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Reconfiguração geográfica — a China consolidou-se como fornecedor dominante (a concentrar o aumento do HHI das importações), o México emergiu como parceiro de crescimento acelerado, e a Rússia desapareceu quase totalmente como destino de exportação. A diversificação das exportações manteve-se saudável, com os EUA, a China, o Reino Unido e a Turquia como principais mercados de destino.
-
Transformação da base produtiva — a produção europeia evoluiu para menos unidades mas com valor substancialmente superior (+130 % em valor), refletindo uma aposta em instrumentos eletrónicos de precisão e sistemas integrados. A Alemanha mantém a liderança, mas Países Baixos, Finlândia e Estónia emergem como centros de especialização relevantes.
A principal fragilidade identificada é a crescente concentração das importações na China (HHI de 2 187), que representa um risco de dependência num contexto de crescentes tensões geopolíticas e disrupções nas cadeias de abastecimento globais. A reduzida volatilidade das importações chinesas (CV de 0,13) oferece alguma previsibilidade, mas a diversificação de fornecedores continua a ser um desafio estratégico para o setor.