Evolução do mercado: Aparelhos de massagem (CN 9019) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro CN 9019 abrange um conjunto heterogéneo de equipamentos médicos e de bem-estar: aparelhos de mecanoterapia e massagem, de ozonoterapia, oxigenoterapia, aerossolterapia, aparelhos respiratórios de reanimação e outros aparelhos de terapia respiratória. Este relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia com países terceiros ao longo de 2015–2025, com base em dados anuais. A análise evidencia três dinâmicas principais: (i) um crescimento robusto do comércio acompanhado de um aprofundamento do défice comercial; (ii) um choque pandémico de enorme magnitude em 2020, que afetou de forma assimétrica os dois subsegmentos do produto; e (iii) uma concentração crescente das importações, sobretudo na China, com implicações para a autonomia estratégica da UE.
1. Crescimento sustentado do comércio e aprofundamento do défice comercial
O volume total do comércio quase duplicou entre 2015 e 2025
Entre 2015 e 2025, o valor total das exportações da UE (com países terceiros) passou de 1 064 M EUR para 1 758 M EUR, uma variação de +65,2%. No mesmo período, as importações cresceram de 1 572 M EUR para 2 735 M EUR (+74,0%). Os preços unitários acompanharam esta trajetória: o preço médio de exportação subiu de 59 031 EUR/t para 62 301 EUR/t (+5,5%), enquanto o preço médio de importação cresceu de 15 380 EUR/t para 17 121 EUR/t (+11,3%). (Evolução geral do comércio)
| Ano | Exportações (M EUR) | Importações (M EUR) | Saldo comercial (M EUR) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 1 064 | 1 572 | −508 |
| 2016 | 1 119 | 1 760 | −641 |
| 2017 | 1 371 | 2 007 | −636 |
| 2018 | 1 396 | 2 036 | −640 |
| 2019 | 1 363 | 2 066 | −703 |
| 2020 | 2 454 | 4 072 | −1 618 |
| 2021 | 1 984 | 3 121 | −1 137 |
| 2022 | 1 819 | 3 295 | −1 476 |
| 2023 | 1 852 | 2 477 | −625 |
| 2024 | 1 778 | 2 514 | −736 |
| 2025 | 1 758 | 2 735 | −978 |
Fonte: dados segmentados CN 901910 + 901920.
O período pré-pandémico (2015–2019) caracterizou-se por um crescimento moderado mas consistente das importações (+31,4%), com exportações a acompanharem a trajetória. O défice comercial situava-se entre os −508 M EUR e os −703 M EUR, com uma relativa estabilidade.
O défice comercial praticamente duplicou ao longo da década
O saldo comercial da UE no setor CN 9019 agravou-se de −508 M EUR em 2015 para −978 M EUR em 2025, uma deterioração de 92,3%. O ponto mais crítico registou-se em 2020, com um défice de 1 618 M EUR — o triplo do nível de 2015 — impulsionado pelo choque pandémico. Apesar de uma recuperação parcial em 2023 (−625 M EUR), o défice voltou a alargar-se nos dois anos seguintes. (Concentração e dependência)
A dependência líquida em relação às importações reflete esta evolução: partiu de 6,3% em 2015, atingiu um máximo histórico de 75,8% em 2020 e fechou 2025 nos 31,0% — um aumento acumulado de 392%.
A produção europeia cresceu significativamente, mas não neutralizou o défice
Os dados de produção PRODCOM indicam que o valor de produção da UE passou de 240 M EUR em 2015 para 1 634 M EUR em 2025 (+581%), com um máximo de 1 953 M EUR entretanto registado. Apesar deste crescimento expressivo — que reflete a expansão da capacidade industrial europeia, sobretudo no segmento respiratório —, a produção não foi suficiente para travar o aprofundamento do défice, dado o crescimento ainda mais rápido das importações.
2. O choque pandémico de 2020 e a dinâmica divergente dos segmentos
A pandemia provocou um pico sem precedentes no segmento respiratório (CN 901920)
O segmento de aparelhos de ozonoterapia, oxigenoterapia, aerossolterapia e terapia respiratória (CN 901920) foi o epicentro do choque pandémico. As importações deste subsegmento dispararam de 1 198 M EUR em 2019 para 2 981 M EUR em 2020, um aumento de +149%. No entanto, a decomposição entre volume e preço revela que a subida foi sobretudo price-driven: a quantidade importada cresceu apenas 31% (de 24 455 t para 32 059 t), enquanto o preço médio quase duplicou, passando de 48 979 EUR/t para 92 983 EUR/t (+90%). Este pico de preços reflete a escassez global de equipamentos respiratórios (ventiladores, CPAP, reanimadores) no auge da crise sanitária.
| Ano | CN 901920 — Importações | CN 901910 — Importações | ||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Valor (M EUR) | Qtd (t) | Preço (EUR/t) | Valor (M EUR) | Qtd (t) | Preço (EUR/t) | |
| 2015 | 952 | 23 983 | 39 686 | 621 | 78 247 | 7 930 |
| 2019 | 1 198 | 24 455 | 48 979 | 868 | 104 461 | 8 306 |
| 2020 | 2 981 | 32 059 | 92 983 | 1 091 | 128 563 | 8 488 |
| 2021 | 1 352 | 46 463 | 29 107 | 1 769 | 193 309 | 9 143 |
| 2022 | 1 572 | 40 163 | 39 128 | 1 724 | 157 004 | 10 979 |
| 2025 | 1 511 | 38 525 | 39 212 | 1 224 | 121 230 | 10 100 |
Um choque de preço nas importações da China em 2020 — com uma anormalidade de 37,4 e uma deslocação de +153% — constitui o evento de choque mais relevante da série, refletindo a dependência das importações chinesas de equipamentos respiratórios num contexto de procura excepcional. As exportações da UE para a Austrália (+181,5%) e Canadá (+160,9%) registaram igualmente choques de preço no mesmo ano.
O segmento de mecanoterapia e massagem (CN 901910) manteve maior estabilidade
Em contraste, o segmento de aparelhos de mecanoterapia, massagem e psicotécnica (CN 901910) evidenciou uma evolução muito mais estável durante a pandemia. As importações cresceram apenas 26% em valor em 2020 (de 868 M para 1 091 M EUR), com preços praticamente inalterados (8 306 → 8 488 EUR/t, +2%). Este subsegmento, orientado para o bem-estar e a reabilitação, não foi diretamente afetado pela urgência pandémica.
Contudo, o segmento CN 901910 registou um crescimento acentuado em 2021–2022, com as importações a atingirem 1 769 M EUR e 193 309 t em 2021 — o máximo da série em ambos os indicadores. Este boom tardio pode refletir uma procura reprimida acumulada durante os confinamentos, bem como uma crescente consciencialização para a saúde e o bem-estar no pós-pandemia.
Os preços normalizaram-se após o choque, mas a estrutura de comércio ficou alterada
Em 2021, o preço médio de importação de CN 901920 despenhou para 29 107 EUR/t — abaixo do nível pré-pandémico —, enquanto a quantidade importada atingiu o máximo da série (46 463 t). Este padrão sugere uma normalização da oferta global e a acumulação de stocks. As exportações da UE de CN 901920 seguiram um padrão semelhante: de 1 030 M EUR / 10 457 t em 2019, dispararam para 2 112 M EUR / 15 326 t em 2020 (preço médio de 137 797 EUR/t), antes de registarem 39 489 t em 2021 a um preço médio de apenas 39 422 EUR/t — um volume três vezes superior ao normal, a preços significativamente mais baixos.
A volatilidade dos preços de exportação foi particularmente elevada para os parceiros Estados Unidos (coeficiente de variação de 0,69) e China (CV de 1,01 — o mais alto da série), confirmando a instabilidade dos fluxos durante e após a pandemia.
3. Concentração crescente das importações e dependência estratégica face à China
A China consolidou-se como fornecedor dominante, afastando os parceiros tradicionais
A evolução dos principais parceiros comerciais revela uma clara reconfiguração das cadeias de abastecimento. As importações da UE provenientes da China passaram de 514 M EUR em 2015 para 1 300 M EUR em 2025, uma variação de +153%, com um pico de 2 375 M EUR entretanto registado. A quota da China no total das importações da UE (de países terceiros) subiu de 32,7% para 47,5%.
Em paralelo, Singapura (+205,4%, de 99 M para 303 M EUR) e México (+169,5%, de 51 M para 138 M EUR) registaram crescimentos significativos, sugerindo o papel crescente de hubs de reexportação ou de novas plataformas de produção. Pelo contrário, os Estados Unidos — outrora o segundo maior fornecedor — perderam peso, com as importações a recuarem 18,2% (de 301 M para 246 M EUR).
| Parceiro | Importações 2015 (M EUR) | Importações 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 514 | 1 300 | +153,0% |
| Singapura | 99 | 303 | +205,4% |
| Reino Unido | 167 | 206 | +23,0% |
| México | 51 | 138 | +169,5% |
| Estados Unidos | 301 | 246 | −18,2% |
| Austrália | 166 | 173 | +4,7% |
| Canadá | 37 | 35 | −7,1% |
Do lado das exportações, os principais destinos mantiveram-se os mercados ocidentais: Estados Unidos (429 M EUR, +128%), Reino Unido (324 M EUR, +100%) e Suíça (158 M EUR, +66%). As exportações para a Rússia (−20%) e China (−42%) diminuíram, refletindo possivelmente sanções, restrições geopolíticas ou o fortalecimento da capacidade produtiva local.
A concentração das importações agravou-se, sinalizando riscos de abastecimento
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 1 758 (2015) para 2 632 (2025), uma variação de +49,7%. Este nível de HHI situa-se já na zona de "concentração moderada", com riscos acrescidos de fornecedor único. Em valor, o HHI das importações atingiu um máximo de 3 630 em 2020, coincidindo com o pico pandémico e a dominância esmagadora das importações chinesas (quota de 77,8% nesse ano).
| Fluxo | HHI 2015 | HHI 2020 | HHI 2025 | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 1 758 | 3 630 | 2 632 | +49,7% |
| Exportações (valor) | 798 | — | 1 117 | +40,0% |
Do lado das exportações, o HHI é significativamente mais baixo (1 117 em 2025), indicando uma base de destinos mais diversificada. A concentração por volume segue padrões semelhantes, com o HHI das importações a subir de 5 286 para 6 338 (+19,9%).
A especialização intra-UE evidencia um mercado fragmentado mas com hubs dominantes
Os dados de vantagem comparativa revelada (RCA) mostram que os Países Baixos (RCA de 2,42, RSRCA de 0,42) e a Irlanda (RCA de 1,79) são os Estados-membros mais especializados na exportação de CN 9019, provavelmente refletindo a sua posição como plataformas logísticas e de comércio de reexportação. A Alemanha lidera em valor absoluto de exportações (490 M EUR em 2025), seguida dos Países Baixos (403 M EUR). A França (+215%) e a Polónia (+595%) registaram os maiores crescimentos em exportações entre os Estados-membros, sinalizando uma reconfiguração das cadeias de valor europeias.
Em termos de propensão para exportar, o indicador subiu de 84,8% em 2015 para 109,0% em 2025, sugerindo que a UE se tornou progressivamente mais exportadora líquida relativamente à sua produção — embora continue a ser importadora líquida em termos absolutos.
Conclusão
O mercado da CN 9019 na UE cresceu de forma robusta entre 2015 e 2025, mas a trajetória não foi linear. A pandemia de COVID-19 constituiu um ponto de rutura: em 2020, os preços dos equipamentos respiratórios (CN 901920) praticamente duplicaram e o défice comercial atingiu 1 618 M EUR — o triplo do nível pré-pandémico. Embora os preços tenham regressado a níveis normais em 2021, as importações de volume elevado persistiram.
A tendência mais preocupante é a concentração crescente das importações na China. De 32,7% em 2015, a quota chinesa subiu para 47,5% em 2025 (com picos acima de 58% em anos anteriores), e o HHI das importações atingiu níveis de concentração moderada. Esta dependência, evidenciada de forma dramática durante a pandemia — quando a China representou 77,8% do valor das importações em 2020 —, constitui uma vulnerabilidade estratégica para a UE num setor que inclui equipamentos respiratórios essenciais.
Apesar do crescimento da produção europeia (+581% em valor entre 2015 e 2025) e da diversificação das exportações (HHI de 1 117), o défice comercial continua a alargar-se (−978 M EUR em 2025), sinalizando que a procura interna da UE cresce mais rapidamente do que a capacidade de produção e exportação. A manutenção de cadeias de abastecimento diversificadas e o reforço da base produtiva europeia permanecem desafios centrais para a próxima década.