Explorar dados em tempo real

Evolução do mercado: Relógios de pulso (CN 9102) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no setor dos relógios de pulso, relógios de bolso e relógios semelhantes, excluindo os de ouro ou prata (posição 9101), ao longo do período 2015–2025. A visão geral do produto CN 9102 permite identificar uma estrutura de mercado marcada por três grandes dinâmicas: uma crescente divergência entre o valor e o volume das trocas, uma concentração geográfica cada vez mais acentuada nas importações e uma reestruturação profunda da base produtiva europeia. Ao longo da década, o déficit comercial da UE alargou-se significativamente, impulsionado por aumentos de preço que mascaram quedas acentuadas nos volumes físicos transacionados.


1. Valorizar mais, transacionar menos: a divergência entre preço e volume

Uma das tendências mais marcantes do período 2015–2025 é a desconexão entre os valores e os volumes do comércio de relógios na UE. Tanto as exportações como as importações registaram quedas massivas em peso líquido e em número de unidades, mas os valores em euros mantiveram-se elevados ou até cresceram — sinal inequívoco de uma valorização média dos produtos transacionados.

1.1. Exportações: queda acentuada de volume com crescimento do valor unitário

As exportações da UE para países terceiros caíram de 1 735 M€ em 2015 para 1 378 M€ em 2025, uma redução de 20,6%. Contudo, a evolução dos volumes conta uma história muito mais dramática. O peso líquido exportado desceu de 2 215 toneladas para 965 toneladas (−56,4%), enquanto o número de unidades caiu de 13,9 milhões para 5,1 milhões (−63,3%).

Indicador 2015 2025 Variação
Valor (M€) 1 735 1 378 −20,6 %
Peso líquido (t) 2 215 965 −56,4 %
Unidades (milhões) 13,9 5,1 −63,3 %
Preço médio (€/t) 779 683 1 410 685 +80,9 %
Preço médio (€/unid.) 124,9 270,1 +116,3 %

O preço médio por unidade exportada mais do que duplicou, passando de 124,9 €/unidade para 270,1 €/unidade (+116,3%). Este fenómeno reflete uma reorientação das exportações europeias para segmentos de maior valor acrescentado — notadamente os relógios de corda automática (910221), cujo preço médio por unidade em exportação passou de 1 135,8 € em 2015 para 1 360,1 € em 2025, atingindo um pico de 2 219,2 € em 2024.

1.2. Importações: crescimento nominal sustentado por preços crescentes

Do lado das importações, o valor total cresceu 11,6 %, de 4 516 M€ para 5 039 M€, atingindo o máximo histórico em 2025. Contudo, os volumes de importação sofreram uma contração severa:

Indicador 2015 2025 Variação
Valor (M€) 4 516 5 039 +11,6 %
Peso líquido (t) 12 300 6 658 −45,9 %
Unidades (milhões) 129,8 59,2 −54,3 %
Preço médio (€/t) 367 074 756 133 +106,0 %
Preço médio (€/unid.) 34,8 85,0 +144,2 %

O preço médio das importações subiu 144,2% por unidade, em grande parte devido ao peso crescente dos relógios de corda automática (910221), que passaram a dominar as importações europeias em valor. Em 2015, as importações de 910221 valiam 2 038 M€; em 2025, atingiram 3 148 M€ — representando cerca de 62% do total das importações.

1.3. Déficit comercial em alargamento contínuo

O saldo comercial da UE em relógios agravou-se de −2 782 M€ em 2015 para −3 660 M€ em 2025 (−31,6%), atingindo o valor mais negativo registado no período. Importa notar que em 2022, o déficit temporariamente baixou para −1 854 M€ — o nível mais favorável do período — antes de se agravar novamente em 2023–2025. A dependência líquida de importações manteve-se persistentemente elevada, oscilando entre 92,5% e 95,4% ao longo de todo o período.


2. Reconfiguração geográfica das parcerias comerciais

A segunda grande dinâmica do período é a reconfiguração do mapa comercial, tanto do lado das importações como das exportações. A concentração das fontes de abastecimento intensificou-se, enquanto os destinos de exportação se diversificaram paradoxalmente face à perda dos mercados tradicionais.

2.1. Suíça: a consolidação como parceiro dominante nas importações

A Suíça tornou-se claramente o parceiro de importação nº1 da UE, com as suas vendas para a UE a crescerem de 2 931 M€ para 3 905 M€ (+33,3%). Em 2025, a Suíça representava cerca de 77,5% do valor total das importações da UE em relógios. Esta concentração é consistente com o papel da Suíça como o principal centro mundial de relojoaria de gama alta.

Parceiro de importação 2015 (M€) 2025 (M€) Variação
Suíça 2 931 3 905 +33,3 %
China 1 140 813 −28,7 %
Hong Kong 203 83 −59,1 %
Reino Unido 116 16,5 −85,8 %
Japão 42,5 82,1 +93,1 %
Tailândia 17,9 55,6 +210,6 %
Filipinas 8,8 16,0 +81,4 %

Por outro lado, a China — segunda maior fornecedora — viu as suas exportações para a UE caírem 28,7%, refletindo um deslocamento da procura europeia para produtos de gama mais alta. Hong Kong (-59,1%) e, sobretudo, o Reino Unido (-85,8%) registaram quedas estruturais. O colapso das importações provenientes do Reino Unido é particularmente notável e coincidente com a saída formal da UE (Brexit, 2020), que eliminou a livre circulação de mercadorias e introduziu formalidades alfandegárias.

Em contrapartida, parcerias geográficas mais distantes ganharam relevância: a Tailândia (+210,6%), o Japão (+93,1%) e as Filipinas (+81,4%) cresceram substancialmente, sugerindo uma reconfiguração das cadeias de abastecimento dos fabricantes de relógios com produção no Sudeste Asiático.

2.2. Exportações: perda do Reino Unido e consolidação da Suíça

Do lado das exportações, o quadro é de clara erosão dos mercados tradicionais e relativa consolidação de mercados de nicho:

Parceiro de exportação 2015 (M€) 2025 (M€) Variação
Reino Unido 365 112 −69,2 %
Suíça 215 320 +48,3 %
Hong Kong 485 262 −46,1 %
Estados Unidos 124 150 +21,1 %
Turquia 23,1 47,0 +103,5 %
Noruega 21,0 52,2 +148,9 %
Emirados Árabes 56,4 84,3 +49,5 %

A perda do Reino Unido como destino de exportação é dramática: de 365 M€ em 2015 para 112 M€ em 2025 (−69,2%), representando uma perda de 253 M€ em valor absoluto. Hong Kong também perdeu relevância como entrepôt europeu (−46,1%). Em contraste, a Suíça consolidou-se como principal destino de exportação (48,3%), seguindo-se mercados de proximidade e do Médio Oriente como a Noruega (+148,9%), a Turquia (+103,5%) e os Emirados Árabes Unidos (+49,5%).

2.3. Concentração crescente nas importações, diversificação nas exportações

A evolução do índice HHI (Herfindahl-Hirschman) confirma as tendências geográficas observadas:

Indicador HHI 2015 2025 Variação
Importações (valor) 4 877 6 296 +29,1 %
Exportações (valor) 1 551 1 230 −20,7 %

O HHI das importações subiu 29,1%, refletindo a crescente dominância da Suíça como fornecedora. O HHI das exportações desceu 20,7%, indicando uma ligeira diversificação dos destinos — ainda assim, os números absolutos mostram que o mercado de exportação é significativamente menos concentrado que o de importações. Considerando a elevada dependência líquida (~95%) e a crescente concentração das importações, a UE encontra-se numa posição de vulnerabilidade relativamente elevada face a eventuais disrupções na cadeia de abastecimento suiça.


3. Transformação estrutural da produção e segmentação de produto

A terceira dinâmica fundamental é a transformação da base produtiva europeia e a evolução desigual dos diferentes segmentos de produto dentro da posição CN 9102.

3.1. Colapso da produção em volume, crescimento em valor

Os dados de produção da UE no segmento CN 9102 (evolução das quantidades) revelam uma transformação profunda:

Indicador de produção 2015 2025 Variação
Quantidade (milhões de unid.) 2,05 0,45 −78,0 %
Valor (M€) 125 180 +44,0 %

A produção em número de unidades caiu 78%, mas o valor global aumentou 44%, passando de 125 M€ para 180 M€ (com um pico de 191 M€ em dados observados). Este fenómeno sugere uma migração decisiva para segmentos de produção de maior valor unitário, numa lógica de especialização em relógios de gama alta. A produtividade aparente (valor por unidade) subiu de aproximadamente 61 €/unid. para 400 €/unid., embora esta métrica deva ser interpretada com cautela dadas as diferenças estruturais entre os subprodutos.

A especialização da UE na relojoaria é liderada, em 2025, por França (RSCA: 0,6255, RCA: 4,34), seguida por Alemanha (RSCA: 0,1641, RCA: 1,39). Estes dois países dominam tanto as importações como as exportações no setor. Do lado menos especializado, Roménia (RSCA: −0,8359) e Hungria (RSCA: −0,7732) apresentam índices de especialização fortemente negativos, indicando uma posição de consumidora e não produtora.

3.2. Domínio crescente dos relógios de corda automática (910221)

A decomposição por subproduto CN 9102 revela que os relógios de corda automática (910221) dominam crescentemente o mercado, tanto em importações como em exportações:

Importações por subsegmento — valores em 2015 e 2025 (M€):

Subproduto 2015 2025 Variação
910221 – Corda automática 2 038 3 148 +54,5 %
910211 – Mostrador mecânico 1 867 1 208 −35,3 %
910229 – Corda manual (hand winding) 147 226 +53,8 %
910212 – Mostrador optoeletrónico 210 284 +35,5 %
910219 – Combinado mecânico/optoeletrónico 199 123 −38,1 %
910291 – Funcionamento elétrico 29,3 17,5 −40,4 %
910299 – Relógios de bolso 25,8 31,3 +21,4 %

Em 2025, os relógios de corda automática representavam 62,5% do valor total das importações, contra 45,1% em 2015. Em simultâneo, os relógios de mostrador exclusivamente mecânico (910211) perderam relevância relativa, passando de 41,3% para 24,0% do total. Este deslocamento reflete a crescente atratividade dos relógios automáticos de gama alta no mercado europeu.

No que respeita às exportações, a distribuição é semelhante: os relógios de corda automática (910221) passaram de 732 M€ em 2015 para 606 M€ em 2025, mantendo-se como o maior segmento exportado. Os relógios de mostrador mecânico (910211) caíram de 615 M€ para 471 M€. Em ambos os casos, o preço médio por unidade subiu significativamente, confirmando a estratégia de posicionamento premium.

3.3. Sinais de volatilidade e eventos de choque

A análise de volatilidade revela padrões distintos entre parceiros. Nas importações, Hong Kong (CV: 0,69), o Reino Unido (CV: 0,91) e o Vietname (CV: 1,87) apresentam a maior volatilidade, sendo que as flutuações do Vietname são particularmente extremas, refletindo provavelmente volumes muito instáveis e de base reduzida.

Do lado das exportações, foram identificados eventos de choque de preço em três mercados: Marrocos (2023, elevação de 206,5% no preço com grau de anormalidade de 65,1), Andorra (2020, elevação de 107,0%) e Singapura (2021, elevação de 211,9%). Estes picos, embora de quota reduzida no valor total (>0,2–1,6%), sugerem transações pontuais de grande valor unitário — possivelmente lotes de relógios de luxo — ou reclassificações estatísticas.


Conclusão

A evolução do mercado europeu de relógios (CN 9102) entre 2015 e 2025 é marcada por uma dualidade estrutural. Por um lado, os volumes transacionados — tanto em importações como em exportações — sofreram contrações acentuadas, frequentemente superiores a 45%. Por outro, os valores mantiveram-se elevados ou cresceram, impulsionados por um aumento consistente do preço médio unitário que reflete uma clara orientação para o segmento de gama alta.

O mercado tornou-se simultaneamente mais concentrado nas suas fontes de abastecimento (com a Suíça a consolidar a sua posição dominante, representando 77,5% das importações em 2025) e mais vulnerável no seu saldo comercial, dado o déficit crescente e a dependência líquida estável perto dos 95%. O Brexit gerou uma reconfiguração significativa dos fluxos bilaterais com o Reino Unido, visível tanto nas importações (−85,8%) como nas exportações (−69,2%).

Finalmente, a base produtiva europeia experienciou uma transformação radical: a queda de 78% na produção em unidades, acompanhada de um aumento de 44% no valor, aponta para uma especialização crescente na relojoaria de gama alta e ultrapremium — uma estratégia que, embora rentável por unidade, aprofunda a dependência estrutural em volumes e em segmentos de gama média oriundos do Leste Asiático.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

Se precisar de aconselhamento sobre a política comercial europeia, ou de representação dos seus interesses em Bruxelas, contacte-me através do endereço support@tradedashboard.eu. Encontrará o meu CV neste endereço.