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Evolução do mercado: Movimentos de relógio (CN 9108) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código aduaneiro 9108, que abrange os mecanismos de pequeno volume para relógios, completos e montados. Este produto insere-se no capítulo 91 da Nomenclatura Combinada — Artigos de Relojoaria — e compreende cinco subcategorias distintas, desde mecanismos de corda automática (910820) até variantes com mostrador exclusivamente optoeletrónico (910812). O período analisado abrange os anos de 2015 a 2025, com dados anuais completos.

As definições e âmbito do produto incluem a correspondência ao código Prodcom 26.52.21.10 (Mecanismos de relojoaria), o que permite cruzar dados comerciais com a produção industrial europeia.

O panorama geral revela três dinâmicas fundamentais: (i) um acentuado declínio das exportações em valor, parcialmente compensado pelo crescimento do volume físico; (ii) uma consolidação das importações em torno de fornecedores de alto valor unitário, sobretudo a Suíça; e (iii) um aumento significativo da dependência externa, com a taxa de dependência líquida de importações a passar de 47,3% em 2015 para 83,9% em 2025.


1. Redestruturação das exportações: do valor ao volume

1.1 Queda acentuada do valor exportado apesar do crescimento físico

A evolução das exportações da UE para países terceiros apresenta uma dissonância marcante entre as dimensões de valor e de volume. Entre 2015 e 2025, o valor das exportações diminuiu de 40,8 milhões € para 15,7 milhões €, uma contração de 61,5%. Contudo, a quantidade em toneladas aumentou de 38,0 t para 138,5 t (+264,8%), enquanto as unidades suplementares caíram de 221.505 para 162.548 (-26,6%).

Indicador 2015 2025 Variação
Valor (milhões €) 40,8 15,7 -61,5%
Quantidade (t) 38,0 138,5 +264,8%
Unidades (p/st) 221.505 162.548 -26,6%
Preço por tonelada (€) 1.049.238 109.846 -89,5%
Preço por unidade (€) 184,3 96,6 -47,6%

Dados detalhados do comércio

1.2 Reorientação geográfica das exportações

Os principais destinos das exportações sofreram contrações generalizadas. A Suíça, que absorvia 27,1 milhões € em 2015, reduziu-se para 8,5 milhões € em 2025 (-68,7%). O Reino Unido passou de 5,2 milhões € para 2,0 milhões € (-62,6%), e os Estados Unidos de 1,6 milhões € para 0,5 milhões € (-70,9%).

Em contraste, os Emirados Árabes Unidos registaram um crescimento de 74.792 € para 386.943 € (+417,4%), representando uma emergência como destino para re-exportação e relojoaria de luxo nos mercados do Golfo.

1.3 Concentração das exportações em declínio

O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das exportações em valor diminuiu de 4.699 para 3.473 (-26,1%), sinalizando uma diversificação geográfica dos mercados de destino, ainda que de forma gradual e insuficiente para compensar a perda de receita global.


2. Consolidação das importações em torno da relojoaria suíça de alta gama

2.1 Valor crescente com volume decrescente: a viragem para o segmento premium

As importações totais da UE apresentaram um comportamento oposto ao das exportações em termos de valor: cresceram de 65,6 milhões € para 74,1 milhões € (+12,9%), apesar da redução do volume físico de 83,6 t para 48,7 t (-41,8%) e das unidades suplementares de 3,49 milhões para 1,91 milhões (-45,3%).

Indicador 2015 2025 Variação
Valor (milhões €) 65,6 74,1 +12,9%
Quantidade (t) 83,6 48,7 -41,8%
Unidades (p/st) 3.489.758 1.907.693 -45,3%
Preço por tonelada (€) 782.208 1.512.629 +93,4%
Preço por unidade (€) 18,8 38,8 +106,4%

A quase duplicação do preço médio por tonelada (+93,4%) e por unidade (+106,4%) confirma a reorientação das importações para produtos de maior valor acrescentado, consistentes com a especialização da indústria relojoeira europeia nos segmentos de luxo.

2.2 Domínio crescente da Suíça e colapso das importações do Reino Unido

A distribuição por parceiro revela uma concentração crescente em torno da Suíça:

Parceiro 2015 (€) 2025 (€) Variação
Suíça 46.176.571 61.221.408 +32,6%
China 5.401.026 4.773.743 -11,6%
Reino Unido 9.169.735 121.730 -98,7%
Japão 2.621.240 4.592.378 +75,2%
Hong Kong 1.605.854 2.003.896 +24,8%
Tailândia 329.706 400.651 +21,5%
Turquia 10.660 161.512 +1.415,2%

A Suíça passou de 70,4% para 82,7% do valor total das importações, consolidando-se como fornecedor quase monopolista. O colapso das importações do Reino Unido — de 9,2 milhões € para apenas 121.730 € — é particularmente notável e coincide cronologicamente com a saída do Reino Unido da UE (Brexit, 2020), cujas consequências aduaneiras e regulamentares terão desincentivado fluxos diretos.

O HHI das importações em valor subiu de 5.241 para 6.953 (+32,7%), confirmando uma maior concentração das fontes de abastecimento.

2.3 Peso crescente dos mecanismos de corda automática (910820)

A análise por segmento de produto revela uma transformação estrutural na composição das importações. Os mecanismos de corda automática (910820) tornaram-se a subcategoria dominante em valor:

Segmento 2015 (€) 2025 (€) Variação
910820 — Corda automática 26.153.618 44.799.752 +71,3%
910811 — Mostrador mecânico 32.318.750 22.199.045 -31,3%
910890 — Corda manual 4.863.914 5.401.199 +11,1%
910819 — Optoeletrónico+mecânico 1.914.894 1.460.475 -23,7%
910812 — Mostrador optoeletrónico 342.805 163.423 -52,3%

O segmento 910820, que em 2015 representava 39,9% do valor importado, ascendeu para 60,5% em 2025, ultrapassando os mecanismos de mostrador mecânico (910811) como subcategoria líder. Esta evolução reflete a crescente popularidade dos relógios automáticos no mercado consumidor europeu e a especialização suíça neste segmento.

Comparação entre segmentos de produto


3. Vulnerabilidade estrutural e choques de fornecimento

3.1 Dependência crescente das importações

A evolução do saldo comercial e dos indicadores de autonomia revelam uma vulnerabilidade crescente da UE neste setor:

Indicador 2015 2025 Variação
Saldo comercial (milhões €) -24,8 -58,4 -135,7%
Dependência líquida de importações (%) 47,3 83,9 +77,4 p.p.
Intensidade comercial (%) 142,3 126,2 -11,4%
Propensão para exportar (%) 312,8 355,9 +13,8%

A dependência líquida de importações atingiu 83,9% em 2025, o valor mais elevado de todo o período. Este indicador significa que a UE importa uma proporção crescente do consumo interno de mecanismos de relógio, com uma especialização doméstica em declínio.

3.2 Contração da produção industrial europeia

Os dados de produção reforçam a narrativa de desindustrialização:

Indicador 2015 2025 Variação
Produção (unidades) 606.485 426.112 -29,7%
Valor da produção (€) 19.237.186 10.095.000 -47,5%

A produção europeia de mecanismos de relógio contraiu-se em valor quase ao ritmo das exportações (-47,5% vs. -61,5%), sugerindo que parte da redução da produção se destina ao mercado interno, mas o grosso da contração reflete uma reestruturação do setor.

Em termes de especialização regional, a França mantém o RSCA mais elevado entre os grandes produtores (0,69), seguida dos Países Baixos (0,31). Países como a Lituânia apresentam valores de RSCA extremos (0,82), mas com quota de produção marginal (6,3%).

3.3 Choques de preço nos fluxos com parceiros-chave

A análise de volatilidade e os eventos de choque detetados revelam três perturbações significativas:

Evento Fluxo Tipo Ano Desvio (abnormality) Variação (%)
Suíça — preço Exportações Preço 2022 769,1 +1.396,9%
Reino Unido — preço Importações Preço 2018 73,7 +209,5%
Reino Unido — preço Exportações Preço 2021 9,7 +206,8%

O choque mais pronunciado ocorreu nas exportações para a Suíça em 2022, com uma anomalia de preço de 769,1 desvios-padrão e uma variação de +1.396,9%, correspondendo a 59,1% do valor das exportações nesse ano. Este evento pode estar relacionado com perturbações logísticas pós-pandemia ou com a reclassificação de fluxos comerciais.

Os choques associados ao Reino Unido (2018 e 2021) são consistentes com as incertezas regulamentares do Brexit, que geraram antecipações e reajustamentos nos padrões de comércio bilateral.

Em termos de volatilidade estrutural, os maiores coeficientes de variação (CV) nas importações dizem respeito à Noruega (CV = 2,22), Taiwan (CV = 1,85) e Turquia (CV = 1,54), embora estes parceiros tenham pesos absolutos reduzidos nas importações totais.


Conclusão

O mercado europeu de mecanismos de relógio (CN 9108) entre 2015 e 2025 caracterizou-se por uma dualização estrutural: de um lado, a UE reforçou a sua dependência de importações de alta gama provenientes sobretudo da Suíça; do outro, assistiu a uma erosão significativa da capacidade exportadora e da produção industrial própria.

A consolidação do fornecedor suíço — com a Suíça a representar 82,7% do valor importado em 2025 — configura um risco de concentração que se agravou ao longo da década. O simultâneo declínio das exportações (-61,5% em valor) e da produção (-47,5% em valor) sugere que a indústria relojoeira europeia (excluindo a suíça) perdeu relevância como fornecedor global.

A propensão para exportar, embora tenha registado um ligeiro aumento nominal (+13,8%), mascaram a realidade de que o denominador (a produção) contraiu mais rapidamente que o numerador (as exportações). A intensidade comercial, por sua vez, diminuiu de 142,3% para 126,2%, refletindo um mercado europeu cada mais integrado no fornecimento suíço mas menos interligado com o resto do mundo em termos de exportação.

Em suma, o período 2015–2025 marcou uma transição de um modelo de comércio mais equilibrado para uma estrutura de dependência importadora concentrada, com implicações para a resiliência da cadeia de valor relojoeira europeia face a potenciais disrupções de fornecimento.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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