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Evolução do mercado: Relógios (CN 9105) — 2015–2025

Introdução

A posição aduaneira 9105 abrange relógios de parede, despertadores e outros relógios que não se enquadram nas posições 9101 a 9104 — excluindo, portanto, relógios de pulso, relógios de bolso, relógios com mecanismos de pequeno volume (9103) e relógios de painéis de instrumentos. Ao longo da década 2015–2025, este segmento do setor da relojoaria registou transformações estruturais significativas no comércio da União Europeia (UE) com países terceiros.

O presente relatório analisa a evolução das importações e exportações da UE para a posição CN 9105 com base em dados anuais completos, abrangendo o período de janeiro de 2015 a dezembro de 2025. As três secções seguintes exploram as principais dinâmicas identificadas: a contração volumétrica do comércio compensada por uma valorização dos preços, a reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais, e as alterações estruturais na produção europeia e na especialização do setor.


1. Queda dos volumes e valorização dos preços: uma reestruturação profunda do comércio

Redução acentuada das quantidades transacionadas em ambos os sentidos

Entre 2015 e 2025, tanto as importações como as exportações da UE de relógios CN 9105 registaram reduções expressivas em volume. As importações diminuíram 28,8% em massa, passando de 28.089 toneladas em 2015 para 19.989 toneladas em 2025, enquanto as exportações caíram 28,4%, de 1.983 para 1.420 toneladas. Em unidades suplementares (número de peças), a contração foi ainda mais marcada nas exportações, que recuaram 43,5% (de 3,35 milhões para 1,89 milhões de peças), face a uma redução de 26,0% nas importações (de 58,3 milhões para 43,2 milhões de peças).

Indicador 2015 2025 Variação
Importações — massa (t) 28.089 19.989 −28,8%
Importações — unidades (p/st) 58.340.000 43.151.668 −26,0%
Exportações — massa (t) 1.983 1.420 −28,4%
Exportações — unidades (p/st) 3.351.553 1.892.108 −43,5%

Oscilações anuais: o impacto da pandemia e a recuperação

A evolução não foi linear. As importações atingiram o seu pico de valor em 2022 (~€219,3 milhões), sugerindo uma acumulação de stock no rescaldo pandémico ou uma recuperação da procura, antes de voltarem a cair para €161,8 milhões em 2025. As exportações, por seu lado, atingiram o mínimo em 2021 (~€54,9 milhões), refletindo os efeitos tardios da pandemia na procura internacional, recuperando depois para €71,8 milhões em 2025. O mínimo absoluto de importações em valor (€152,5 milhões) ocorreu em 2023, o que sugere uma contração mais profunda posterior ao choque pandémico, possivelmente ligada ao aperto das condições económicas europeias.

Valorização dos preços médios como fator compensador

Apesar da queda nos volumes, os preços médios registaram trajetórias ascendentes em ambos os sentidos do comércio, atenuando parcialmente a perda de valor:

Indicador 2015 2025 Variação
Preço médio importações (€/t) 7.132 8.091 +13,4%
Preço médio importações (€/p/st) 3,43 3,71 +8,0%
Preço médio exportações (€/t) 41.807 50.572 +21,0%
Preço médio exportações (€/p/st) 24,76 37,97 +53,3%

Estes dados revelam uma dinâmica fundamental: a UE importa relógios a preços significativamente mais baixos do que exporta. O preço médio de exportação por tonelada em 2025 é mais de seis vezes superior ao preço médio de importação (€50.572/t vs. €8.091/t), refletindo a natureza distinta dos fluxos: a UE importa sobretudo relógios produzidos em massa de baixo custo e exporta relógios de nicho e maior valor acrescentado.

Redução do déficit comercial apesar da contração

O déficit comercial da UE em CN 9105 passou de −€117,3 milhões em 2015 para −€89,9 milhões em 2025, uma melhoria de 23,4%. Contudo, o déficit atingiu o seu ponto mais profundo (−€148,1 milhões) num ano intermédio antes de recuperar. A melhoria resultou sobretudo de uma queda mais acentuada das importações em valor (−19,3%) do que das exportações (−13,4%), combinada com a subida de preços nas exportações.


2. Reconfiguração geográfica: hegemonia chinesa nas importações e perda de parceiros tradicionais

Consolidação da China como fornecedor quase exclusivo

Ao longo da década, a China consolidou a sua posição como principal fornecedor da UE em relógios CN 9105. As importações chinesas passaram de €153,2 milhões em 2015 para €130,3 milhões em 2025 (−15,0%), representando mais de 80% do valor total das importações. O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 6.027 para 6.915 (+14,7%), confirmando uma concentração crescente numa única origem. Curiosamente, a volatilidade do fluxo chinês é baixa (CV = 0,095), indicando estabilidade no volume importado mesmo quando o seu valor flutua.

Colapso das importações do Reino Unido e de Hong Kong

O impacto do Brexit é claramente visível nos dados. As importações provenientes do Reino Unido caíram 72,5%, de €5,6 milhões para €1,5 milhões. De forma análoga, Hong Kong perdeu 81,6% do seu valor de exportação para a UE, passando de €10,8 milhões para €2,0 milhões. Taiwan também registou uma queda de 71,2% (de €2,0 milhões para €0,6 milhões), e a Índia caiu 64,5% (de €1,9 milhões para €0,7 milhões). Estes parceiros tradicionais foram os que mais sofreram, sugerindo que a consolidação da produção na China continental e a reconfiguração pós-Brexit reduziram a relevância dos hubs alternativos.

O Vietname é uma exceção: as suas exportações para a UE cresceram 211,9%, de €0,26 milhões para €0,83 milhões, embora a partir de um nível muito baixo, o que pode refletir a diversificação das cadeias de abastecimento globais para o Sudeste Asiático.

Suíça: destino crescente e mais estável para as exportações europeias

Do lado das exportações, a Suíça tornou-se o principal destino, com um crescimento de 35,1% (de €18,4 milhões para €24,8 milhões), representando agora cerca de 34,5% do valor total das exportações. O fluxo para a Suíça apresenta o menor coeficiente de variação (CV = 0,089) entre todos os parceiros de exportação, indicando elevada estabilidade ao longo do tempo. Registou-se um choque de preço de exportação em 2022 para a Suíça (anomalia 19,7, variação de +111,3%, com peso de 32,1% no valor total), sugerindo uma alteração significativa no mix de produtos exportados nesse ano — possivelmente um aumento da quota de relógios de elevado valor unitário.

Os EUA mantiveram-se como segundo destino estável (+10,0%, de €9,0 milhões para €10,0 milhões), enquanto a Noruega cresceu 36,0% (de €2,1 milhões para €2,9 milhões).

Choques geopolíticos: perda da Rússia e crescimento do Camboja

As exportações para a Rússia colapsaram 83,4%, de €3,0 milhões para €0,5 milhões, refletindo de forma inequívoca as sanções impostas após a invasão da Ucrânia em 2022. A Bielorrússia registou uma queda semelhante de 85,3% nas importações. O HHI das exportações subiu de 1.070 para 1.719 (+60,7%), refletindo a concentração crescente na Suíça como destino. Em contrapartida, o Camboja emergiu como destino de exportação com crescimento de 836,9% (de €65.441 para €613.135), embora a partir de valores residuais.

Parceiro 2015 2025 Variação
Importações — principais origens
China €153,2M €130,3M −15,0%
Hong Kong €10,8M €2,0M −81,6%
Reino Unido €5,6M €1,5M −72,5%
Taiwan €2,0M €0,6M −71,2%
Índia €1,9M €0,7M −64,5%
Vietname €0,3M €0,8M +211,9%
Exportações — principais destinos
Suíça €18,4M €24,8M +35,1%
Reino Unido €11,4M €5,8M −49,7%
EUA €9,0M €10,0M +10,0%
Noruega €2,1M €2,9M +36,0%
Rússia €3,0M €0,5M −83,4%
China €4,7M €0,5M −88,7%

3. Colapso da produção europeia e reorientação para o segmento premium

Erosão drástica do volume de produção europeia

Os dados de produção PRODCOM revelam uma queda dramática na produção europeia de relógios CN 9105. O número de unidades produzidas caiu 88,3%, de 5,13 milhões de unidades em 2015 para apenas 600.000 unidades em 2025, tendo atingido um mínimo de 297.609 unidades num ano intermédio. Em termos de valor, a contração foi muito menor (−27,6%), passando de €124,4 milhões para €90,0 milhões (com mínimo de €53,1 milhões).

Indicador 2015 Mínimo intermédio 2025 Variação
Produção — unidades (p/st) 5.127.476 297.609 600.000 −88,3%
Produção — valor (€) €124,4M €53,1M €90,0M −27,6%
Valor médio implícito por unidade ~€24 ~€150

A divergência entre a queda de unidades (−88,3%) e a queda de valor (−27,6%) indica que a produção europeia remanescente se concentrou em produtos significativamente mais valorizados por unidade — um sinal claro de especialização no segmento premium, onde a tradição relojoeira europeia mantém vantagens comparativas.

Elevada propensão exportadora num contexto de menor produção

Os indicadores de vulnerabilidade revelam uma evolução paradoxal: a propensão exportadora da UE subiu de 50,4% para 82,7% (+64,0%), atingindo um máximo de 142,7% num ano intermédio. A intensidade comercial passou de 81,6% para 94,3% (+15,6%), com picos acima dos 100%, valor que pode indicar atividade de reexportação. Em contrapartida, a dependência líquida de importações manteve-se estável em torno dos 54–55% ao longo de todo o período, indicando que a UE continua a consumir predominantemente relógios de origem externa.

A análise dos preços unitários por subcategoria confirma a dualidade do mercado:

Subcategoria Preço export (€/p/st, 2025) Preço import (€/p/st, 2025) Rácio export/import
910599 — Relógios não elétricos especializados 624,20 18,17 34x
910529 — Relógios de parede não elétricos 94,42 3,95 24x
910591 — Outros relógios elétricos 41,76 5,29 8x
910521 — Relógios de parede/gerais elétricos 25,74 3,21 8x
910511 — Despertadores elétricos 8,32 3,50 2x

A subcategoria 910599, que inclui relógios não elétricos especializados (excluindo despertadores e relógios de parede), apresenta preços de exportação 34 vezes superiores aos de importação, confirmando a aposta europeia em nichos de alta qualidade artesanal ou tecnológica.

Especialização geográfica e padrões de concentração no interior da UE

Os dados de especialização por Estado-Membro para 2025 revelam uma distribuição heterogénea. Os Países Baixos (RSCA = 0,27), a França (0,27) e a Polónia (0,16) são os Estados-Membros com maior vantagem comparativa revelada na exportação de relógios CN 9105. No extremo oposto, Malta (RSCA = −1,00), a Irlanda (−0,98) e Portugal (−0,92) apresentam especialização negativa mais acentuada.

Do lado das importações, a Alemanha é o principal importador, apesar de uma queda de 40,0% (de €71,8 milhões para €43,1 milhões). Os Países Baixos foram o único grande Estado-Membro a registar crescimento nas importações (+21,9%, de €23,0 milhões para €28,1 milhões), refletindo provavelmente o seu papel como hub logístico europeu. Nas exportações, a Alemanha manteve a liderança mas com queda de 34,6% (de €34,3 milhões para €22,4 milhões), enquanto a Suécia registou um crescimento excecional de 209,3% (de €1,1 milhões para €3,5 milhões).

Estado-Membro Importações 2015 Importações 2025 Variação
Alemanha €71,8M €43,1M −40,0%
França €34,3M €27,8M −19,0%
Países Baixos €23,0M €28,1M +21,9%
Itália €16,6M €10,8M −34,6%
Bélgica €12,6M €10,2M −19,3%
Espanha €10,7M €7,7M −27,7%

Conclusão

O mercado da UE em relógios CN 9105, entre 2015 e 2025, foi marcado por três grandes tendências convergentes que definiram uma reestruturação profunda do setor.

Em primeiro lugar, registou-se uma contração estrutural dos volumes de comércio exterior, com reduções na ordem dos 26% a 44% tanto em massa como em unidades, parcialmente compensada por uma valorização dos preços médios — particularmente nas exportações, cuja subida de +21% por tonelada e +53% por unidade reflete o reposicionamento europeu para o segmento premium.

Em segundo lugar, assistiu-se a uma concentração crescente em torno da China (nas importações) e da Suíça (nas exportações). A China consolidou mais de 80% do valor importado com baixa volatilidade, enquanto a Suíça se tornou o destino de mais de um terço das exportações europeias — com elevada estabilidade temporal. Parceiros tradicionais como o Reino Unido (−72,5%), Hong Kong (−81,6%) e a Rússia (−83,4%) viram a sua relevância diminuir drasticamente, por razões distintas: Brexit, reconfiguração das cadeias de abastecimento asiáticas e sanções geopolíticas, respetivamente.

Em terceiro lugar, observou-se um declínio acentuado da produção europeia — com o número de unidades produzidas a cair 88,3% — mas mantendo um valor residual elevado, indicando a sobrevivência da relojoaria europeia em nichos de alta qualidade e elevado preço unitário. A propensão exportadora crescente (de 50% para 83%) e a intensidade comercial a aproximar-se dos 95% sugerem que o setor se reorientou para servir mercados externos com produtos especializados, enquanto a dependência líquida de importações se manteve estável em torno dos 54–55%.

Em síntese, a UE evoluiu, neste segmento, de um mercado com alguma capacidade produtiva de massas para um modelo crescentemente assente na importação de produtos de baixo custo (quase exclusivamente chineses), na transformação e exportação de nichos de elevado valor acrescentado — uma estratégia que mitiga parcialmente a dependência em termos de valor, mas que mantém a vulnerabilidade estrutural da UE face ao fornecedor dominante.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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