Evolução do mercado: Queijos (CN 0406) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento de Queijos e requeijão (posição aduaneira CN 0406) ao longo do período 2015–2025. Esta posição inclui queijos frescos, queijos ralados ou em pó, queijos fundidos, queijos de pasta azul e outras categorias de queijo (ver definição completa).
Ao longo da década analisada, o setor queijeiro da UE consolidou-se como um dos mais competitivos do agronegócio europeu, registando um crescimento acentuado tanto em volume como em valor. Três grandes dinâmicas estruturais emergem dos dados:
- A consolidação da UE como potência exportadora líquida de queijos;
- A escalada dos preços, agravada por choques de oferta em 2022;
- A crescente diversificação geográfica dos parceiros comerciais.
O relatório encontra-se estruturado em torno destes três eixos analíticos, complementados por uma visão sobre a estrutura do mercado e a composição por segmento de produto.
1. Consolidação como potência exportadora líquida
A UE é, de forma inequívoca, um exportador líquido de queijos. Entre 2015 e 2025, o saldo comercial da balança queijeira quase duplicou, passando de €4 148 milhões para €7 809 milhões (+88,3%) (ver dados gerais).
As exportações cresceram em valor e volume de forma sustentada
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor das exportações (€) | 5 015 M | 9 066 M | +80,8% |
| Volume das exportações (t) | 1 159 091 | 1 420 746 | +22,6% |
| Preço médio exportação (€/t) | 4 327 | 6 381 | +47,5% |
O crescimento do valor exportado (+80,8%) superou largamente o crescimento do volume (+22,6%), o que evidencia que a subida dos preços médios (+47,5%) foi o principal motor da valorização das exportações ao longo do período (ver painel de comércio).
As importações cresceram de forma mais moderada
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor das importações (€) | 867 M | 1 257 M | +45,0% |
| Volume das importações (t) | 187 431 | 199 560 | +6,5% |
| Preço médio importação (€/t) | 4 627 | 6 300 | +36,2% |
As importações cresceram substancialmente em valor (+45%), mas o volume manteve-se relativamente estável (+6,5%), indicando que a subida do valor se deveu sobretudo à inflação dos preços internacionais do queijo, e não a um aumento da dependência externa (ver dados gerais). A confiança líquida nas importações agravou-se de −8,6% para −13,2%, sinal de que a UE reforçou a sua posição de excedente exportador (ver dependência líquida).
Itália e Dinamarca lideram a aceleração exportadora
Os Estados-Membros com maior crescimento das exportações foram (ver exportadores por Estado-Membro):
| Estado-Membro | Exportações 2015 (€) | Exportações 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Itália | 839 M | 2 009 M | +139,5% |
| Dinamarca | 428 M | 923 M | +115,9% |
| Polónia | 176 M | 393 M | +123,1% |
| Alemanha | 516 M | 893 M | +73,3% |
| França | 985 M | 1 257 M | +27,5% |
Destaca-se o caso da Itália, que mais do que duplicou o valor das suas exportações e se consolidou como o maior exportador da UE — ultrapassando a França, que permaneceu o segundo maior exportador mas com um crescimento mais modesto (+27,5%). A Polónia e a Dinamarca registaram taxas de crescimento elevadas, refletindo a crescente relevância das exportações de países nórdicos e do leste europeu.
A propensão exportadora da UE (exportações como percentagem da produção) subiu de 9,7% para 13,5% (+39,4%), confirmando que a produção europeia está cada vez mais orientada para os mercados externos (ver propensão exportadora).
2. Escalada de preços e o choque de 2022
Uma das tendências mais marcantes da década foi a subida generalizada dos preços do queijo, tanto nas exportações como nas importações. Esta dinâmica atingiu particular intensidade em 2022, quando se registaram choques de preço significativos em vários mercados de destino.
Os preços médios de exportação subiram quase 50% em dez anos
O preço médio de exportação passou de €4 327/t em 2015 para €6 381/t em 2025, uma subida de 47,5% (ver painel de comércio). A análise por segmento revela que a subida de preços foi generalizada, mas afetou de forma desigual as diversas categorias de queijo:
| Segmento | Preço exportação 2015 (€/t) | Preço exportação 2025 (€/t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| 040690 — Outros queijos | 4 810 | 7 360 | +53,0% |
| 040610 — Queijos frescos | 2 970 | 4 700 | +58,2% |
| 040630 — Queijos fundidos | 4 346 | 5 605 | +29,0% |
| 040620 — Queijos ralados/em pó | 5 477 | 8 211 | +49,9% |
| 040640 — Queijos de pasta azul | 7 812 | 9 368 | +19,9% |
Os queijos frescos (040610) e os queijos ralados ou em pó (040620) registaram os maiores aumentos percentuais de preço de exportação, sugerindo uma forte procura internacional por estes segmentos. Os queijos de pasta azul (040640), já posicionados num patamar de preço mais elevado, apresentaram uma subida mais contida (+19,9%) (ver segmentação por produto).
2022: ano de choques de preço em mercados estratégicos
O ano de 2022 foi marcado por choques de preço acentuados nas exportações da UE para vários parceiros. Os eventos de maior anomalia detetados foram (ver choques de oferta):
| Parceiro | Tipo de choque | Anomalia | Variação de preço | Valor como % do total |
|---|---|---|---|---|
| Argélia | Preço | 78,3 | +53,1% | 1,6% |
| Japão | Preço | 11,6 | +39,4% | 7,9% |
| Coreia do Sul | Preço | 9,9 | +39,9% | 3,6% |
O caso mais pronunciado foi o da Argélia, com uma anomalia de 78,3 (a mais elevada do período), embora representasse apenas 1,6% do valor total das exportações. Mais relevante do ponto de vista comercial foi o choque registado no Japão — terceiro maior destino das exportações europeias de queijo — com uma variação de preço de +39,4% em 2022, contribuindo com 7,9% do valor total exportado (ver choques).
Estes choques inserem-se num contexto mais amplo de inflação global de alimentos em 2022, impulsionada por fatores como a crise energética, a ruptura das cadeias de abastecimento pós-COVID e o conflito na Ucrânia, que afetou os custos de produção pecuária e os transportes internacionais.
A volatilidade é mais pronunciada nos parceiros de menor dimensão
Os parceiros com maior coeficiente de variação (CV) nas importações de queijo da UE são precisamente os de menor dimensão comercial (ver volatilidade):
| Parceiro (importações UE) | Coeficiente de variação |
|---|---|
| Ucrânia | 1,41 |
| Nova Zelândia | 1,37 |
| Islândia | 1,40 |
| Noruega | 0,46 |
| Sérvia | 0,41 |
Por contraste, os principais parceiros — Reino Unido (CV = 0,12) e Suíça (CV = 0,08) — apresentam padrões de comércio bastante estáveis, refletindo relações comerciais consolidadas e proximidade geográfica.
3. Diversificação geográfica e fragmentação do mercado
A terceira grande dinâmica observável é a crescente diversificação dos parceiros comerciais da UE, tanto do lado das importações como das exportações, acompanhada de uma fragmentação do mercado em termos de especialização produtiva dos Estados-Membros.
A concentração das exportações diminuiu significativamente
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) — um indicador de concentração de mercado — revelou uma tendência clara de fragmentação (ver concentração):
| Fluxo | HHI 2015 (valor) | HHI 2025 (valor) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações | 4 745 | 4 204 | −11,4% |
| Exportações | 1 530 | 1 197 | −21,8% |
A diminuição do HHI exportação (−21,8%) é particularmente significativa: significa que as exportações europeias de queijo estão a distribuir-se por um leque mais alargado de mercados de destino, reduzindo a dependência de qualquer parceiro individual. O HHI das importações também diminuiu (−11,4%), embora de forma mais moderada (ver concentração por volume).
Novos mercados de destino ganharam relevância
A análise dos parceiros de exportação revela que, para além dos mercados tradicionais, novos destinos ganharam peso significativo (ver parceiros de exportação):
| Parceiro | Exportações UE 2015 (€) | Exportações UE 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 1 684 M | 2 620 M | +55,6% |
| Estados Unidos | 835 M | 1 326 M | +58,8% |
| Japão | 265 M | 449 M | +69,4% |
| Suíça | 307 M | 566 M | +84,4% |
| Coreia do Sul | 126 M | 265 M | +110,6% |
| Arábia Saudita | 141 M | 238 M | +69,3% |
| Ucrânia | 19 M | 239 M | +1 160% |
O caso mais notável é o da Ucrânia, cujas importações de queijo europeu passaram de €19 milhões para €239 milhões — um crescimento de mais de 1 100% em valor — refletindo, em parte, a liberalização comercial associada ao Acordo de Associação UE-Ucrânia e às necessidades de abastecimento decorrentes do conflito armado. A Coreia do Sul (+110,6%) e a Suíça (+84,4%) também apresentaram crescimentos expressivos.
As importações revelam a emergência de novos fornecedores
Do lado das importações, o crescimento mais espetacular registou-se em parceiros de menor dimensão tradicional, embora o Reino Unido e a Suíça permaneçam os maiores fornecedores (ver parceiros de importação):
| Parceiro | Importações UE 2015 (€) | Importações UE 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 453 M | 594 M | +31,1% |
| Suíça | 389 M | 556 M | +42,8% |
| Turquia | ~0 M | 10 M | +895 688% |
| Ucrânia | ~0 M | 11 M | +425 343% |
| Sérvia | 1,4 M | 9,0 M | +556% |
| Noruega | 7,4 M | 18,8 M | +154% |
| Nova Zelândia | 9,4 M | 25,9 M | +176% |
A Turquia e a Ucrânia passaram de volumes residuais para fornecedores de mais de €10 milhões, refletindo a integração destes países nas cadeias de abastecimento de queijo europeu. A Nova Zelândia, apesar da distância geográfica, mais do que duplicou as suas exportações para a UE, provavelmente em segmentos específicos de queijos de elevado valor acrescentado.
A produção europeia cresceu mais em valor do que em volume
Os dados de produção PRODCOM confirmam uma dinâmica coerente com a evolução das exportações (ver volumes de produção):
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Quantidade produzida (kg) | 8 537 M | 11 673 M | +36,7% |
| Valor da produção (€) | 29 253 M | 62 640 M | +114,1% |
O valor da produção mais do que duplicou (+114,1%) num contexto em que o volume cresceu 36,7%, evidenciando uma valorização significativa da produção queijeira europeia — possivelmente impulsionada pela subida de preços ao produtor, pela inflação dos custos dos inputs (alimentação animal, energia, mão de obra) e por uma crescente orientação para produtos de maior valor acrescentado.
A especialização varia fortemente entre Estados-Membros
Em 2025, os Estados-Membros com maior vantagem comparativa revelada (RSCA) na produção de queijo foram (ver especialização):
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota na produção (%) |
|---|---|---|---|
| Chipre | 0,90 | 19,97 | 0,65% |
| Grécia | 0,64 | 4,62 | 3,12% |
| Luxemburgo | 0,62 | 4,27 | 1,38% |
| Dinamarca | 0,51 | 3,11 | 5,36% |
| Estónia | 0,35 | 2,05 | 0,69% |
No extremo oposto, Malta (RSCA = −1,00), a Finlândia (−0,82) e a Suécia (−0,73) apresentam desvantagem comparativa, refletindo padrões de consumo doméstico e condições naturais menos favoráveis à produção queijeira orientada para exportação.
Conclusão
O setor de queijos (CN 0406) da UE apresentou, entre 2015 e 2025, uma trajetória de consolidação enquanto potência exportadora global. O saldo comercial quase duplicou, atingindo €7,8 mil milhões em 2025, impulsionado não só pelo crescimento do volume exportado (+22,6%) mas sobretudo pela valorização dos preços (+47,5%).
O ano de 2022 constituiu um ponto de inflexão no ciclo de preços, com choques de preço significativos em mercados como o Japão, a Coreia do Sul e a Argélia, inseridos num contexto global de inflação alimentar. Apesar desta volatilidade pontual, os fluxos com os principais parceiros — Reino Unido, Estados Unidos e Suíça — mantiveram-se estáveis, como atestam os seus baixos coeficientes de variação.
A crescente fragmentação do mercado (HHI em queda) e a emergência de novos parceiros comerciais — com destaque para a Ucrânia, tanto como destino de exportação como fonte de importação — sinalizam uma diversificação saudável do comércio queijeiro europeu. A produção europeia, por seu lado, mais do que duplicou em valor, refletindo a crescente orientação para produtos de elevado valor acrescentado e a adaptação a custos de produção mais elevados.
Em síntese, o setor queijeiro da UE encontra-se numa posição de robustez comercial, com vantagens comparativas bem definidas, mercados de destino cada vez mais diversificados e uma capacidade produtiva crescente — fatores que, em conjunto, conferem ao setor uma resiliência significativa perante os desafios do comércio internacional.