Evolução do mercado: Mel (CN 0409) — 2015–2025
Introdução
O mel natural (CN 0409) é um produto alimentar com relevância económica significativa no comércio internacional da União Europeia. Este relatório analisa a evolução das importações e exportações da UE com países terceiros ao longo do período 2015–2025, com base nos dados disponíveis no Trade Dashboard. Os dados abrangem 11 anos completos e permitem identificar tendências estruturais, reconfigurações geográficas e dinâmicas de preço que marcaram a década.
A UE permanece uma das maiores importadoras líquidas de mel do mundo, com um défice comercial que se manteve ao longo de todo o período analisado. No entanto, a evolução deste défice, os fluxos comerciais e os preços revelam transformações profundas no panorama do mercado global do mel.
1. A melhoria gradual do saldo comercial da UE
O défice comercial reduziu-se quase 29 % em termos nominais
O saldo comercial da UE em mel com países terceiros passou de −€289,6 milhões em 2015 para −€206,6 milhões em 2025, uma melhoria de 28,7 %. Apesar de continuar fortemente deficitário, esta evolução reflecte dois movimentos convergentes: um crescimento das exportações e uma redução do valor das importações, como se pode consultar no painel geral.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor das exportações (€) | 129,5 M | 155,8 M | +20,4 % |
| Quantidade exportada (t) | 24 135 | 28 066 | +16,3 % |
| Valor das importações (€) | 419,1 M | 362,4 M | −13,5 % |
| Quantidade importada (t) | 165 436 | 182 876 | +10,5 % |
| Saldo comercial (€) | −289,6 M | −206,6 M | +28,7 % |
A queda dos preços de importação foi o principal motor da redução do défice
Embora as quantidades importadas tenham crescido 10,5 % ao longo da década, o valor total das importações diminuiu 13,5 %. Isto só é possível porque o preço médio de importação caiu acentuadamente, passando de €2 533/t para €1 982/t (−21,8 %). Em contraste, os preços de exportação mantiveram-se relativamente estáveis, registando até uma ligeira subida de 3,5 % (de €5 364/t para €5 551/t). Esta divergência de preços sugere que a UE se reorientou para fornecedores com preços mais baixos, ao mesmo tempo que manteve o valor agregado das suas exportações.
Os exportadores da UE mostram uma especialização geográfica diversificada
De acordo com os dados de especialização, os Estados-Membros com maior vantagem comparativa revelada na exportação de mel são a Bulgária (RSCA = 0,79), a Grécia (0,68), a Hungria (0,60) e a Roménia (0,60). Trata-se sobretudo de países do sudeste europeu com tradição apícola consolidada. No extremo oposto, países como a Finlândia (RSCA = −0,99), a Estónia (−0,99) e a Irlanda (−0,96) apresentam uma vantagem comparativa fortemente negativa, reflectindo a sua posição predominantemente importadora.
2. A reconfiguração geográfica das importações: a ascensão da Ucrânia e o recuo da América Latina
A Ucrânia tornou-se o segundo maior fornecedor, ultrapassando a Argentina e o México
A transformação mais marcante na geografia das importações de mel da UE é a ascensão meteórica da Ucrânia. As importações deste país cresceram 143,9 %, passando de €44,6 milhões em 2015 para €108,8 milhões em 2025, posicionando-a como o segundo maior fornecedor da UE, logo atrás da China. Este crescimento é tanto mais notável quanto o volume máximo atingido foi de €121,1 milhões em anos anteriores. Os detalhes estão disponíveis nos dados por parceiro.
| Fornecedor | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 124,4 M | 79,8 M | −35,8 % |
| Ucrânia | 44,6 M | 108,8 M | +143,9 % |
| Argentina | 30,5 M | 42,6 M | +39,7 % |
| México | 71,3 M | 19,4 M | −72,7 % |
| Cuba | 15,9 M | 7,0 M | −56,0 % |
| Chile | 35,6 M | 17,5 M | −50,9 % |
| Uruguai | 12,5 M | 3,9 M | −68,5 % |
Os fornecedores latino-americanos sofreram reduções generalizadas
Enquanto a Ucrânia e a Argentina ganharam quota, os restantes fornecedores da América Latina registaram quebras acentuadas. O México (-72,7 %), o Uruguai (-68,5 %), Cuba (-56,0 %) e o Chile (-50,9 %) viram as suas exportações para a UE reduzirem-se para menos de metade do valor de 2015. Esta reconfiguração sugere uma reorientação do comércio europeu para fornecedores mais próximos geograficamente (Ucrânia) ou com acordos comerciais preferenciais mais recentes.
A concentração das importações aumentou
O índice de concentração HHI das importações por valor subiu de 1 480 para 1 675 (+13,2 %). Apesar de a UE manter uma base de fornecedores relativamente diversificada (com HHI ainda abaixo do limiar de mercado concentrado), esta subida indica uma crescente dependência de menos parceiros, sobretudo da China e da Ucrânia, que em 2025 representam juntos mais de metade do valor das importações. Em contraste, a concentração das exportações manteve-se praticamente estável (HHI de 1 032 para 1 096), reflectindo uma carteira de destinos mais diversificada.
3. Choques de preço, volatilidade e a viragem para mercados premium nas exportações
Os EUA e a Suíça tornaram-se destinos de exportação em forte crescimento
O crescimento das exportações da UE foi impulsionado por mercados premium. Os Estados Unidos registaram o maior crescimento relativo entre os principais parceiros: +120,3 %, passando de €10,6 milhões para €23,4 milhões. A Suíça cresceu 63,5 % (de €14,5 M para €23,7 M) e Israel 226,0 % (de €1,5 M para €4,8 M). Em contraste, o Reino Unido, o maior destino individual, manteve-se relativamente estável (−2,4 %), reflectindo a consolidação de uma relação comercial já madura, como documentado nos dados por parceiro de exportação.
| Destino | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 29,0 M | 28,3 M | −2,4 % |
| Suíça | 14,5 M | 23,7 M | +63,5 % |
| Arábia Saudita | 17,4 M | 19,5 M | +12,2 % |
| EUA | 10,6 M | 23,4 M | +120,3 % |
| Japão | 10,7 M | 13,8 M | +29,6 % |
Detetaram-se choques de preço significativos em 2021–2022
A análise de volatilidade e choques identificou três eventos de anomalia de preço relevantes:
-
Exportações para o Reino Unido em 2021 — anomalia de 6,4 desvios-padrão, com uma subida de 27,7 % no preço. Este choque, ocorrendo no primeiro ano completo pós-Brexit, pode estar relacionado com a introdução de novas barreiras alfandegárias e ajustamentos logísticos.
-
Importações de Cuba em 2022 — anomalia de 4,0 desvios-padrão, com um aumento de 36,0 % no preço. Reflete as dificuldades económicas cubanas e as restrições nas exportações.
-
Importações do México em 2021 — anomalia de 3,7 desvios-padrão, com uma subida de 37,1 % no preço. Dado que o México registou uma quebra acumulada de 72,7 % no valor das importações ao longo do período, este choque de preço pode ter acelerado a reorientação para outros fornecedores.
A volatilidade é mais acentuada nos fornecedores periféricos
Os coeficientes de variação revelam que os fornecedores com fluxos mais instáveis são o Vietname (CV = 1,07), o Uruguai (0,69) e o Brasil (0,53) nas importações, e a Argélia (0,98) e a China (0,73) nas exportações. Os fornecedores principais como a China (CV = 0,21) e a Ucrânia (CV = 0,22) apresentam volatilidade mais moderada, o que reforça a sua atratividade como parceiros comerciais estáveis.
Conclusão
O mercado europeu do mel natural entre 2015 e 2025 foi marcado por três grandes dinâmicas: uma melhoria estrutural do saldo comercial, imp sobretudo pela queda dos preços de importação; uma reconfiguração geográfica profunda com a ascensão da Ucrânia como fornecedor de referência e o recuo da América Latina; e uma valorização das exportações da UE para mercados premium como os EUA e a Suíça.
O défice comercial permanece substancial (−€206,6 milhões em 2025), mas a evolução é favorável. A crescente concentração das importações em poucos parceiros — sobretudo China e Ucrânia — representa um risco de dependência que merece acompanhamento. Os choques de preço detetados em 2021–2022 sublinham a vulnerabilidade do mercado a perturbações geopolíticas e logísticas, reforçando a importância de manter uma base de fornecimento diversificada.