Evolução do mercado: Leite condensado (CN 0402) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativamente ao código pautal CN 0402 — Leite e nata (creme de leite), concentrados ou adicionados de açúcar ou de outros edulcorantes — no período compreendido entre 2015 e 2025. Este código abrange múltiplos subprodutos lácteos, desde leite em pó com baixo teor de gordura até leite concentrado e adoçado em formas sólidas e líquidas (Definições e âmbito do produto).
O período em análise foi marcado por transformações estruturais significativas: a UE consolidou a sua posição como exportador líquido dominante, registou um crescimento excecional da produção interna e reorientou geograficamente os seus fluxos comerciais. Os indicadores-chave de referência são os seguintes:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor) | 3 331,7 M€ | 3 519,3 M€ | +5,6 % |
| Exportações (volume) | 1 502 893 t | 1 263 770 t | −15,9 % |
| Exportações (preço médio) | 2 217 €/t | 2 785 €/t | +25,6 % |
| Importações (valor) | 188,5 M€ | 233,9 M€ | +24,1 % |
| Importações (volume) | 119 608 t | 121 379 t | +1,5 % |
| Saldo comercial | 3 143,2 M€ | 3 285,4 M€ | +4,5 % |
| Produção interna (quantidade) | 1 476,4 Mkg | 3 522,1 Mkg | +138,6 % |
| Produção interna (valor) | 1 754,9 M€ | 9 648,7 M€ | +449,8 % |
Fonte: Visão geral do comércio.
1. Da dependência volumétrica à consolidação por valor: a transição para um modelo exportador de alto valor acrescentado
1.1. Queda acentuada do volume exportado, compensada por preços significativamente mais elevados
A dinâmica mais marcante do período é a inversão do crescimento: entre 2015 e 2025, o volume exportado pela UE diminuiu 15,9 % (de 1 502 893 t para 1 263 770 t), mas o valor total das exportações cresceu 5,6 %, atingindo 3 519,3 M€ em 2025. Este paradoxo explica-se inteiramente pela evolução dos preços médios de exportação, que subiram de 2 217 €/t para 2 785 €/t (+25,6 %).
O pico de valor registou-se em 2022 (4 375,6 M€), quando os preços médios de exportação atingiram o máximo do período (3 541 €/t), impulsionados pela conjuntura global de inflação nos custos dos alimentos e energéticos. O mínimo de valor ocorreu em 2020 (2 762,7 M€), refletindo o impacto da pandemia COVID-19 nas cadeias de abastecimento e na procura internacional.
| Período | Valor exportações (M€) | Volume exportações (t) | Preço médio (€/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 3 331,7 | 1 502 893 | 2 217 |
| 2019 | 3 333,7 | 1 592 923 | 2 093 |
| 2020 | 2 762,7 | 1 235 557 | 2 236 |
| 2022 | 4 375,6 | 1 235 787 | 3 541 |
| 2025 | 3 519,3 | 1 263 770 | 2 785 |
1.2. Crescimento explosivo da produção interna como motor da consolidação exportadora
A capacidade produtiva da UE neste segmento cresceu de forma exponencial ao longo do período. A produção em quantidade passou de 1 476,4 Mkg em 2015 para 3 522,1 Mkg em 2025 (+138,6 %), enquanto o valor da produção subiu de 1 754,9 M€ para 9 648,7 M€ (+449,8 %). O pico de produção em volume atingiu-se em 2024, com 4 319,9 Mkg, e o de valor em 2023, com 11 612,1 M€.
Este crescimento sustentou a capacidade exportadora da UE mesmo num contexto de diminuição volumétrica das exportações: a diferença entre o crescimento da produção e o crescimento das exportações sugere um aumento significativo do consumo interno e/ou acumulação de stocks. A evolução da produção revela a aposta estratégica dos principais Estados-Membros no reforço da capacidade de processamento lácteo.
1.3. A propensão exportadora como indicador de especialização crescente
A intensidade comercial da UE neste produto subiu de 21,4 % para 37,7 % (+75,6 %), e a propensão exportadora cresceu de 20,0 % para 36,4 % (+81,5 %). Estes indicadores, que atingiram o seu máximo em 2024 (52,9 % e 51,8 % respetivamente), confirmam que o sector lácteo de produtos concentrados e/ou adoçados se tornou progressivamente mais orientado para a exportação, com uma salientância da propensão exportadora de 95,1 pontos.
A relevância do saldo comercial evidencia a robustez da posição da UE: o saldo comercial manteve-se sempre fortemente positivo, e a dependência líquida de importações agravou-se de −22,4 % para −52,3 %, confirmando a posição de superavit estrutural.
2. Reconfiguração geográfica: dos mercados tradicionais do Magrebe e Nigéria para o Golfo Pérsico e a nova Ásia
2.1. Os parceiros de exportação: consolidação do Golfo Pérsico e erosão do mercado nigeriano
Os sete principais destinos das exportações da UE registaram evoluções divergentes entre 2015 e 2025:
| País destino | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Argélia | 311,2 | 336,7 | +8,2 % |
| Arábia Saudita | 190,1 | 265,5 | +39,7 % |
| Reino Unido | 205,8 | 263,2 | +27,9 % |
| Omã | 146,6 | 225,3 | +53,7 % |
| China | 222,5 | 159,5 | −28,3 % |
| Emirados Árabes Unidos | 146,6 | 140,9 | −3,9 % |
| Nigéria | 171,9 | 97,0 | −43,6 % |
Fonte: Principais parceiros por valor.
Três dinâmicas sobressaem:
- Crescimento do Golfo Pérsico: A Arábia Saudita (+39,7 %) e Omã (+53,7 %) tornaram-se mercados cada vez mais importantes, refletindo a urbanização, a mudança de padrões alimentares e a procura crescente de produtos lácteos convenientes nas economias do CCG. Omã registou a maior taxa de crescimento entre os parceiros principais.
- Erosão do mercado nigeriano: A Nigéria, que em 2015 representava o quinto maior destino (171,9 M€), viu as suas importações da UE caírem 43,6 % para 97,0 M€ em 2025. Esta quebra reflete provavelmente as dificuldades cambiais nigerianas, as restrições às importações e a crescente capacidade de substituição regional.
- Redução da dependência chinesa: As exportações para a China diminuíram 28,3 % (de 222,5 M€ para 159,5 M€), refletindo a diversificação chinesa de fornecedores (com destaque para a Nova Zelândia) e a geopolítica comercial. O preço de exportação para a China registou um choque de preço significativo em 2022 (anomalia de 101,1), com um aumento de 39,3 % no preço médio.
2.2. Os parceiros de importação: emergência da Ucrânia e reorientação para a Nova Zelândia
As importações da UE, embora numericamente modestas face às exportações, registaram uma reconfiguração geográfica acentuada:
| País origem | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 169,6 | 134,6 | −20,7 % |
| Ucrânia | 0,6 | 50,5 | +8 124 % |
| Nova Zelândia | 8,9 | 35,1 | +295,7 % |
| Suíça | 2,6 | 4,4 | +67,6 % |
| Estados Unidos | 0,4 | 4,8 | +1 009 % |
Fonte: Principais parceiros por valor.
- Ucrânia como fornecedor emergente: A Ucrânia passou de fornecedor marginal (0,6 M€ em 2015) para o segundo maior fornecedor extra-UE (50,5 M€ em 2025), um crescimento de 8 124 %. Este fenómeno está ligado à liberalização comercial UE-Ucrânia (Acordo de Associação em vigor desde 2017, com medidas de liberalização adicional desde 2022) e à competitividade dos custos ucranianos.
- Nova Zelândia reforça a posição: As importações da Nova Zelândia cresceram 295,7 %, de 8,9 M€ para 35,1 M€, consolidando a posição do hemisfério sul como fornecedor complementar. A volatilidade das importações da Nova Zelândia (CV de 0,72) indica flutuações consideráveis.
- Queda da relevância do Reino Unido: O Reino Unido, maior fornecedor extra-UE, perdeu relevância relativa (−20,7 %), possivelmente refletindo os efeitos do Brexit na reorganização das cadeias de abastecimento.
2.3. Concentração das exportações vs. diversificação das importações
O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) revela uma assimetria estrutural entre exportações e importações:
- Exportações: O HHI manteve-se estável e baixo (de 384 para 403 em valor), indicando uma distribuição muito diversificada dos destinos de exportação. Esta diversificação constitui um fator de resiliência.
- Importações: O HHI diminuiu 50,4 % (de 8 128 para 4 028 em valor), refletindo uma significativa diversificação das fontes de abastecimento. Em 2015, o mercado de importação era altamente concentrado no Reino Unido; em 2025, a presença da Ucrânia e da Nova Zelândia reduziu essa dependência.
A concentração HHI confirma que o risco de concentração se reduziu significativamente do lado das importações, embora a diversificação exportadora tenha sido uma característica constante ao longo de todo o período.
3. Reestruturação interna do sector: dos subprodutos tradicionais em pó para as formas concentradas e especializadas
3.1. O leite em pó magro (CN 040210) consolida-se como pilar das exportações
O subproduto CN 040210 — Em pó, grânulos ou outras formas sólidas, com teor de gordura ≤ 1,5 % — é o segmento dominante das exportações da UE. Em 2025, representou 795 950 t de volume e 2 026,5 M€ de valor, correspondendo a 57,6 % do valor total exportado. O volume cresceu 12,6 % face a 2015, mas o valor subiu 34,3 %, refletindo a valorização dos preços (de 2 136 €/t para 2 546 €/t).
| Subproduto | Volume exportado 2015 (t) | Volume exportado 2025 (t) | Variação |
|---|---|---|---|
| 040210 (pó, gordura ≤ 1,5 %) | 706 558 | 795 950 | +12,6 % |
| 040221 (gordura > 1,5 %, não adoçado) | 350 300 | 171 014 | −51,2 % |
| 040291 (concentrado, não adoçado) | 294 344 | 193 838 | −34,1 % |
| 040299 (concentrado, adoçado) | 116 001 | 96 581 | −16,7 % |
| 040229 (gordura > 1,5 %, adoçado) | 35 690 | 6 387 | −82,1 % |
Fonte: Segmentação por subproduto.
3.2. Colapso dos subprodutos tradicionais com elevado teor de gordura
A evolução mais dramática registou-se nos segmentos de teor de gordura superior a 1,5 %:
- CN 040221 (não adoçado): O volume exportado caiu de 350 300 t para 171 014 t (−51,2 %), embora o preço médio tenha subido de 3 032 €/t para 4 774 €/t (+57,4 %). O valor total das exportações desceu de 1 062,1 M€ para 816,4 M€ (−23,1 %).
- CN 040229 (adoçado): O segmento praticamente desapareceu, com o volume a cair de 35 690 t para 6 387 t (−82,1 %). Este é o subproduto diretamente associado ao "leite condensado" na aceção tradicional, e o seu colapso sugere uma mudança estrutural na procura internacional, possivelmente ligada a preocupações com o teor de açúcar e à concorrência de produtores asiáticos.
3.3. O crescimento do leite concentrado não adoçado (CN 040291) como importação complementar
Do lado das importações, o subproduto CN 040291 (Sem adição de açúcar ou de outros edulcorantes) registou o crescimento mais expressivo: o volume passou de 21 962 t para 50 861 t (+131,6 %). Este crescimento das importações de leite concentrado não adoçado, num contexto em que as exportações do mesmo subproduto diminuíram 34,1 %, sugere uma especialização crescente da UE no segmento de maior valor acrescentado e uma complementaridade com fornecedores terceiros para formas de produto mais básicas.
Paralelamente, as importações de CN 040210 (leite em pó magro) diminuíram 13,7 % (de 52 893 t para 45 450 t), reforçando a ideia de que a UE consolidou a sua autossuficiência neste segmento. As importações por subproduto mostram claramente esta reestruturação.
3.4. O perfil de especialização regional revela concentração produtiva nos Países Baixos e Irlanda
A análise de especialização por Estado-Membro confirma uma concentração geográfica da produção:
| Estado-Membro | RCA | RSCA | Quota na produção da UE |
|---|---|---|---|
| Irlanda | 4,05 | 0,604 | 8,5 % |
| Luxemburgo | 3,09 | 0,511 | 1,0 % |
| França | 1,82 | 0,290 | 14,2 % |
| Bélgica | 1,62 | 0,237 | 13,7 % |
| Lituânia | 1,56 | 0,220 | 1,0 % |
Fonte: Especialização por país.
Os Países Baixos continuam a ser o maior exportador em valor (849,7 M€ em 2025, embora −15,3 % face a 2015), seguidos da Alemanha (530,0 M€), França (449,6 M€) e Bélgica (556,4 M€). A Bélgica (+54,7 %) e a Irlanda (+92,5 %) registaram os crescimentos mais notáveis entre os grandes exportadores, enquanto a Dinamarca sofreu a maior queda (−49,4 %). No ranking dos exportadores por Estado-Membro, observa-se a consolidação do eixo Benelux-França como centro produtivo europeu.
Do lado das importações intra-UE, os Países Baixos (61,2 M€), a Bélgica (40,2 M€) e a França (39,6 M€) são os principais importadores, confirmando o seu papel como hubs de distribuição e reexportação.
Conclusão
O período 2015–2025 transformou profundamente o mercado europeu do CN 0402. A UE consolidou a sua posição como superavitário estrutural, com um saldo comercial que se manteve acima dos 2 500 M€ ao longo de todo o período, apesar da redução de 15,9 % nos volumes exportados. A chave desta resiliência reside na valorização dos preços (+25,6 %) e no crescimento excecional da capacidade produtiva interna (+138,6 % em volume, +449,8 % em valor).
A reconfiguração geográfica foi igualmente significativa: os mercados do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Omã) tornaram-se cada vez mais relevantes, enquanto a Nigéria e a China perderam peso relativo. Do lado das importações, a emergência da Ucrânia como fornecedor (de 0,6 M€ para 50,5 M€) e o reforço da Nova Zelândia diversificaram as fontes de abastecimento e reduziram a concentração (HHI −50,4 %).
A nível interno, observou-se uma clara reestruturação dos segmentos: o leite em pó magro (CN 040210) consolidou-se como o pilar exportador, enquanto os subprodutos tradicionais de elevado teor de gordura — especialmente o leite condensado adoçado (CN 040229) — registaram quedas dramáticas (−82,1 %). Esta evolução reflete tanto a mudança de preferências dos consumidores internacionais como a crescente especialização da indústria europeia em produtos de maior valor acrescentado.
Os principais riscos identificados incluem a elevada volatilidade das exportações para a China (CV de 0,36) e os choques de preços pontuais, como os registados em 2022. Contudo, a diversificação geográfica das exportações (HHI estável entre 384 e 403) constitui um fator de resiliência robusto face a eventuais perturbações dos mercados individuais.