Evolução do mercado: Papel e cartão (CN 4823) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia para a posição aduaneira 4823 — que abrange uma vasta gama de produtos de papel, cartão, pasta de celulose e mantas de fibras de celulose, cortados ou transformados — ao longo do período 2015–2025. Este capítulo residual do capítulo 48 inclui desde pratos e copos de papel (482369), artigos moldados de pasta de papel (482370), papel-filtro (482320), até uma ampla cauda de «outros» artigos não especificados (482390). A análise baseia-se exclusivamente nos dados disponíveis no painel de comércio e procura identificar as dinâmicas estruturais que definiram esta década de comércio.
1. A inversão da balança comercial europeia: de excedente a défice estrutural
1.1 Importações crescem três vezes mais do que as exportações
O dado mais marcante do período é a inversão total da balança comercial da UE neste produto. Em 2015, a UE registou um excedente comercial de €148,4 milhões, que se transformou num défice de €−211,1 milhões em 2025 — uma variação de −242,3%. As exportações cresceram 55,5% em valor, mas as importações dispararam 141,1%:
| Métrica | Exportações | Importações |
|---|---|---|
| Valor 2015 (€) | 664,7 M | 516,3 M |
| Valor 2025 (€) | 1.033,7 M | 1.244,8 M |
| Variação (%) | +55,5% | +141,1% |
| Variação quantidade (%) | +17,9% | +154,2% |
| Variação preço (%) | +31,9% | −5,2% |
Enquanto as exportações cresceram sobretudo por via de preços (+31,9%), as importações cresceram essencialmente por via de volume (+154,2%), o que sugere que a UE passou a absorver quantidades muito superiores de produto importado, com preços até ligeiramente mais baixos (−5,2%).
1.2 Intensificação da abertura comercial e erosão da autonomia
A intensidade comercial (comércio como proporção da produção) mais do que duplicou, passando de 14,6% em 2015 para 31,9% em 2025 (+118,2%). Por sua vez, a dependência líquida de importações passou de −4,3% (exportador líquido) para +5,3% (importador líquido), com um máximo de 7,7% registado num ponto intermédio. A UE deixou, portanto, de ser autossuficiente neste segmento de papel e cartão transformado.
2. A ascensão da China e a crescente concentração das origens de importação
2.1 China: o parceiro dominante
A China tornou-se, com enorme margem, o principal fornecedor de papel e cartão transformado (CN 4823) à UE. As importações originárias da China passaram de €214,8 M em 2015 para €769,3 M em 2025 (+258,1%), tendo atingido um pico de €939,6 M em 2022. Em 2025, a China representava aproximadamente 62% do valor total das importações da UE neste código — uma quota sem paralelo histórico.
Esta dinâmica explica-se em parte pelas vantagens de custo da produção chinesa, mas também pelo crescimento exponencial de subprodutos como pratos e copos de papel (482369) e artigos moldados de pasta (482370), segmentos onde a China tem forte presença.
2.2 Outros parceiros com crescimento acentuado
Para além da China, outros parceiros asiáticos e do Mediterrâneo Oriental registaram ritmos de crescimento elevados:
| Parceiro | Valor 2015 (€) | Valor 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 214,8 M | 769,3 M | +258,1% |
| Turquia | 26,4 M | 109,3 M | +313,3% |
| Índia | 10,3 M | 49,0 M | +374,0% |
| Ucrânia | 3,7 M | 42,6 M | +1.037,0% |
| Reino Unido | 99,1 M | 105,0 M | +5,9% |
| Estados Unidos | 71,3 M | 55,5 M | −22,2% |
| Bielorrússia | 1,3 M | ≈0 | −100% |
A Bielorrússia é um caso particular: as importações passaram de €1,3 M para praticamente zero, refletindo verosimilmente as sanções impostas após 2022. A Ucrânia, apesar de um crescimento percentual espetacular, cresceu a partir de uma base muito baixa.
2.3 Concentração das importações em níveis críticos
O índice de concentração HHI das importações disparou 72,5%, passando de 2.347 (2015) para 4.049 (2025), com um máximo de 4.136. Em contraste, o HHI das exportações manteve-se estável em torno de 860. Este aumento pronunciado reflete a crescente dependência da UE em relação a um número muito reduzido de fornecedores — sobretudo a China — o que constitui um risco de vulnerabilidade da cadeia de abastecimento.
2.4 Dinâmica por Estado-Membro
Os Estados-Membros mais expostos ao aumento das importações foram os maiores mercados de consumo da UE:
| Estado-Membro | Importações 2015 (€) | Importações 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 109,8 M | 154,1 M | +40,3% |
| Países Baixos | 65,3 M | 176,1 M | +169,7% |
| França | 52,0 M | 157,7 M | +203,5% |
| Itália | 35,7 M | 122,6 M | +243,6% |
| Bélgica | 28,2 M | 114,5 M | +305,7% |
| Espanha | 29,5 M | 104,6 M | +255,3% |
| Polónia | 21,2 M | 79,7 M | +275,3% |
A França, a Itália e a Bélgica apresentam os ritmos de crescimento mais acentuados, sugerindo que o consumo de produtos de papel transformado (incluindo embalagens e artigos descartáveis) se deslocou significativamente para fornecedores extra-UE nestes mercados.
3. Choques de preço, segmentação do produto e volatilidade
3.1 A crise energética de 2021–2022 e o seu impacto nos preços
O período 2021–2022 foi marcado por choques significativos de preço, visíveis tanto em importações como em exportações. Os eventos de choque mais relevantes foram:
| Evento | Tipo | Fluxo | Anomalia | Desvio (%) | Participação (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Noruega 2022 | Preço | Exportações | 70,5 | +44,1% | 7,5% |
| China 2021 | Preço | Importações | 34,0 | +29,4% | 70,0% |
| Índia 2022 | Preço | Importações | 14,5 | +34,5% | 4,5% |
O choque de preços das importações chinesas em 2021, com uma anomalia de 34,0 e uma variação de 29,4%, afetou cerca de 70% do valor das importações. Este fenómeno coincide com a crise energética europeia e a escassez global de matérias-primas no pós-COVID, que elevou os custos de produção de papel e celulose na China e em todo o mundo. Note-se, contudo, que em 2023–2025 os preços de importação regressaram parcialmente, terminando o período ligeiramente abaixo do nível de 2015 (€2.983/t vs. €3.145/t, uma queda de 5,2%).
Por outro lado, o preço médio de exportação da UE subiu continuamente de €2.578/t para €3.400/t (+31,9%), o que sugere uma aglutinação europeia em segmentos de maior valor acrescentado.
3.2 Diferenciação entre segmentos de produto
A análise por subposição revela dinâmicas muito distintas entre os diferentes tipos de produto:
Importações (quantidades em toneladas):
| Código | Descrição | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|
| 482369 | Pratos, copos, etc. de papel | 69.119 | 213.874 | +209,4% |
| 482390 | Outros (residual) | 63.942 | 110.024 | +72,1% |
| 482370 | Artigos moldados de pasta | 21.509 | 84.033 | +290,7% |
| 482320 | Papel-filtro | 7.764 | 5.686 | −26,8% |
| 482340 | Papel-diagrama | 1.289 | 1.902 | +47,6% |
| 482361 | De bambu | 568 | 1.834 | +222,9% |
As importações de pratos e copos de papel (482369) e artigos moldados de pasta (482370) cresceram de forma espetacular (+209% e +291%, respetivamente), impulsionadas pela procura de embalagens sustentáveis e pela proibição de plásticos de uso único na UE. Curiosamente, o papel-filtro e cartão-filtro (482320) registou uma ligeira queda nas importações (−26,8%), o que pode indicar que a produção europeia é suficiente para este segmento especializado.
O segmento 482361 (de bambu) cresceu +222,9% em volume, embora a partir de uma base muito pequena (568 t). Este crescimento reflete a crescente procura por alternativas renováveis e «naturais» ao papel convencional.
Exportações (quantidades em toneladas):
| Código | Descrição | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|
| 482390 | Outros (residual) | 152.789 | 159.175 | +4,2% |
| 482370 | Artigos moldados de pasta | 32.407 | 51.374 | +58,5% |
| 482369 | Pratos, copos, etc. de papel | 34.720 | 42.113 | +21,3% |
| 482320 | Papel-filtro | 34.841 | 33.973 | −2,5% |
| 482340 | Papel-diagrama | 2.819 | 1.646 | −41,6% |
| 482361 | De bambu | 284 | 175 | −38,4% |
O segmento residual 482390 representa a maioria das exportações, mas cresceu apenas 4,2% em volume. As exportações de artigos moldados de pasta (482370) cresceram +58,5%, mas a um ritmo muito inferior ao crescimento das importações do mesmo segmento (+291%), o que confirma a erosão da competitividade europeia.
3.3 Volatilidade por parceiro comercial
A análise de volatilidade revela coeficientes de variação muito distintos entre parceiros. Os parceiros com maior volatilidade em importações incluem a Coreia do Sul (CV=0,94), a Rússia (CV=0,74) e a Índia (CV=0,71), enquanto o Reino Unido se mantém surpreendentemente estável (CV=0,10). Do lado das exportações, a Rússia apresenta a maior volatilidade (CV=0,69), em grande parte devido à interrupção abrupta do comércio após 2022 — as exportações da UE para a Rússia passaram de €54,8 M em 2015 para praticamente zero em 2025 (−100%).
Conclusão
O período 2015–2025 marcou uma transformação estrutural no mercado europeu de papel e cartão transformado (CN 4823). Três tendências dominaram a evolução:
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A inversão da balança comercial: A UE deixou de ser exportador líquido (−4,3% em 2015) para se tornar importador líquido (+5,3% em 2025), um reflexo direto da pressão competitiva exercida sobretudo pela China e, em menor medida, pela Turquia e pela Índia.
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A crescente concentração das importações: Com a China a representar cerca de 62% do valor das importações, a UE encontra-se numa posição de vulnerabilidade acrescida. O HHI das importações subiu 72,5%, atingindo níveis que sugerem uma dependência de poucos fornecedores. Este risco é atenuado, em parte, pelo crescimento da produção europeia de papel (a produção da UE em volume cresceu 473,8% em quilogramas), mas o ritmo de especialização difere significativamente entre Estados-Membros — a Finlândia destaca-se como o parceiro mais especializado (RSCA=0,645), enquanto a Irlanda e Malta se situam no extremo oposto.
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A transição para produtos sustentáveis e de consumo: Os segmentos de pratos e copos de papel (482369) e artigos moldados de pasta (482370) registaram os crescimentos mais acentuados, tanto em importações como em exportações. Esta dinâmica reflete a transição pós-UE Directive 2019/904 sobre plásticos de uso único, que impulsionou a procura de alternativas à base de papel. Contudo, a Europa não tem sido capaz de acompanhar a procura interna com produção própria, resultando em importações crescentes a preços competitivos de origem asiática.
Em suma, o mercado europeu de papel e cartão transformado encontra-se num ponto de inflexão: a integração comercial global trouxe preços mais competitivos e maior variedade, mas também uma dependência crescente de fornecedores externos, cuja concentração e volatilidade impõem riscos estratégicos que importa monitorizar.