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Evolução do mercado: Embalagens de papel (CN 4819) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no setor das embalagens de papel, cartão e pastas de celulose, classificadas pela posição aduaneira CN 4819, no período compreendido entre 2015 e 2025. Esta posição abrange uma vasta gama de produtos, desde caixas caneladas (onduladas) e dobráveis até sacos, bolsas e cartonagens para escritórios e lojas.

O período em análise é particularmente relevante por abringer transformações estruturais profundas: a pandemia de COVID-19, a escalada dos preços das matérias-primas, as perturcações nas cadeias de abastecimento e as alterações geopolíticas resultantes do conflito na Ucrânia. Estes fatores, conjugados com a crescente consciencialização ambiental e a transição para embalagens mais sustentáveis, moldaram significativamente os padrões de comércio do setor.

A análise incide sobre as tendências gerais do comércio, a estrutura geográfica das trocas, a concentração de mercado e a vulnerabilidade da UE no que respeita a este setor.


1. A era dos preços: crescimento do valor apesar da estagnação dos volumes

1.1. O valor das exportações cresceu 31%, mas os volumes recuaram 4,5%

Ao longo da década analisada, as exportações da UE de embalagens de papel para países terceiros registaram uma evolução paradoxal: o valor total aumentou significativamente, mas os volumes transportados diminuíram. Os dados revelam que o valor das exportações subiu de 2 196 M€ em 2015 para 2 879 M€ em 2025, correspondendo a um crescimento de 31,1%. Em contraste, os volumes exportados passaram de 1 128 kt para 1 077 kt, uma redução de 4,5%.

Esta desconexão entre valor e volume é explicada inteiramente pela evolução dos preços médios de exportação, que subiram de 1 947 €/t para 2 673 €/t (+37,3%). A variação mais acentuada ocorreu entre 2020 e 2022, quando os preços atingiram o pico de 2 799 €/t, refletindo a combinação da crise energética europeia, o aumento do custo das matérias-primas celulósicas e as disrupções logísticas pós-pandemia.

Indicador 2015 2025 Variação
Valor das exportações (M€) 2 196 2 879 +31,1%
Volume das exportações (kt) 1 128 1 077 −4,5%
Preço médio exportação (€/t) 1 947 2 673 +37,3%

(Fonte: Dados gerais de comércio)

1.2. As importações aceleram em valor (+62%) e em volume (+38%)

O crescimento das importações foi ainda mais pronunciado do que o das exportações. O valor das importações passou de 1 392 M€ em 2015 para 2 247 M€ em 2025, uma subida de 61,5%. Os volumes acompanharam a tendência, crescendo de 571 kt para 790 kt (+38,3%). O pico de volumes importados foi atingido em 2022, com 935 kt, coincidindo com o período de máxima procura e disrupção das cadeias de abastecimento.

O preço médio de importação subiu de 2 438 €/t para 2 846 €/t (+16,8%), embora com uma volatilidade considerável — tendo atingido um mínimo de 1 719 €/t (provavelmente em 2020) e um máximo de 3 445 €/t.

Indicador 2015 2025 Variação
Valor das importações (M€) 1 392 2 247 +61,5%
Volume das importações (kt) 571 790 +38,3%
Preço médio importação (€/t) 2 438 2 846 +16,8%

(Fonte: Dados gerais de comércio)

1.3. O superávite comercial da UE reduziu-se, mas persiste

A UE manteve-se exportadora líquida de embalagens de papel ao longo de todo o período, registando um saldo comercial positivo. Contudo, este superávite diminuiu de 804 M€ em 2015 para 632 M€ em 2025 (−21,4%), tendo atingido um mínimo de 549 M€ em 2022 e um máximo de 947 M€ em 2021. A erosão do saldo reflete o crescimento mais rápido das importações face às exportações, sugerindo uma progressiva abertura do mercado europeu à concorrência externa.

1.4. A produção europeia cresceu aceleradamente

Dados de produção da UE indicam um crescimento robusto do setor: a quantidade produzida subiu de 29,2 mil milhões de kg para 40,9 mil milhões de kg (+40,3%), enquanto o valor da produção aumentou de 31 752 M€ para 49 765 M€ (+56,7%). Estes números sugerem que a indústria europeia de embalagens de papel beneficiou do forte crescimento do e-commerce e da procura de alternativas sustentáveis ao plástico, mantendo simultaneamente a sua competitividade internacional.

(Fonte: Volumes de produção)


2. Redesenho do mapa geográfico: a ascensão da Ásia e o colapso da rota russa

2.1. A China tornou-se a principal origem das importações, com crescimento de 98%

A evolução mais marcante no lado das importações foi a consolidação da China como principal fornecedor extra-UE. As importações chinesas de embalagens de papel cresceram de 525 M€ em 2015 para 1 038 M€ em 2025, um aumento de 97,5% que praticamente duplicou o valor. Em 2022, o pico atingiu 1 295 M€. A China representa hoje quase metade do valor total das importações da UE neste setor, uma quota sem precedentes.

Paralelamente, a Turquia e a Sérvia emergiram como fornecedores crescentes. As importações turcas passaram de 100 M€ para 317 M€ (+217,8%), enquanto as sérvias cresceram de 26 M€ para 104 M€ (+304,7%). A Índia, embora partindo de uma base muito inferior (8 M€), registou um crescimento de 380,3%, atingindo 37 M€ em 2025.

Fornecedor (importações UE) 2015 (M€) 2025 (M€) Variação
China 525 1 038 +97,5%
Reino Unido 318 295 −7,3%
Turquia 100 317 +217,8%
Suíça 188 138 −26,5%
Sérvia 26 104 +304,7%
Índia 8 37 +380,3%
Albânia 34 38 +10,0%

(Fonte: Principais parceiros por valor)

2.2. O Reino Unido mantém-se como principal destino das exportações, mas com crescimento modesto

O Reino Unido continuou a ser o principal destino das exportações da UE, com um valor de 656 M€ em 2025 (face a 621 M€ em 2015, +5,7%). Contudo, o crescimento mais expressivo registou-se noutros mercados:

  • Suíça: de 431 M€ para 626 M€ (+45,1%), consolidando-se como segundo maior mercado
  • Estados Unidos: de 105 M€ para 237 M€ (+126,4%), refletindo uma forte penetração no mercado transatlântico
  • Sérvia: de 40 M€ para 96 M€ (+142,0%)
  • Marrocos: de 32 M€ para 74 M€ (+131,2%)
Destino (exportações UE) 2015 (M€) 2025 (M€) Variação
Reino Unido 621 656 +5,7%
Suíça 431 626 +45,1%
Noruega 130 142 +9,4%
Estados Unidos 105 237 +126,4%
Federação Russa 126 14 −88,8%
Marrocos 32 74 +131,2%
Sérvia 40 96 +142,0%

(Fonte: Principais parceiros por valor)

2.3. O colapso das exportações para a Rússia (-89%) ilustra o impacto das sanções

O caso mais dramático na reconfiguração geográfica do comércio foi o desmoronamento das exportações para a Federação Russa, que caíram de 126 M€ em 2015 para apenas 14 M€ em 2025, uma redução de 88,8%. Esta quebra, concentrada essencialmente após 2022, reflete diretamente o impacto das sanções comerciais impostas pela UE no contexto do conflito Rússia-Ucrânia. A volatilidade das exportações para a Rússia é das mais elevadas do setor, com um coeficiente de variação de 0,608, confirmando a natureza abrupta desta desvinculação comercial.

2.4. A Alemanha lidera como principal importador e exportador da UE

No contexto intra-UE (reporters), a Alemanha destaca-se como o principal ator em ambos os lados do comércio:

  • Importações: de 300 M€ para 321 M€ (+7,0%)
  • Exportações: de 662 M€ para 678 M€ (+2,3%)

Outros membros com crescimento relevante nas importações incluem os Países Baixos (+187,4%), a Grécia (+286,0%) e a Bélgica (+104,7%). No lado das exportações, Espanha (+110,6%) e a Polónia (+70,5%) registaram os crescimentos mais expressivos.

(Fonte: Principais reporters por valor)


3. Concentração crescente das importações, mas especialização diversificada na UE

3.1. O índice HHI das importações subiu 17%, sinalizando maior dependência de fornecedores dominantes

A concentração do mercado, medida pelo Índice Herfindahl-Hirschman (HHI), revelou tendências opostas nos dois lados do comércio:

Dimensão HHI 2015 HHI 2025 Variação
Importações (por valor) 2 215 2 596 +17,2%
Importações (por volume) 2 189 1 930 −11,8%
Exportações (por valor) 1 312 1 154 −12,1%
Exportações (por volume) 1 249 1 085 −13,2%

O aumento do HHI nas importações por valor (+17,2%), atingindo 2 596 em 2025, reflete a concentração crescente nas mãos de fornecedores de alto valor — sobretudo a China. Em contraste, as exportações tornaram-se progressivamente mais diversificadas, com o HHI a descer de 1 312 para 1 154 (−12,1%), indicando que a UE está a reduzir a sua dependência de poucos mercados de destino.

3.2. A intensidade comercial da UE com o mundo subiu de 6,4% para 10,0%

A intensidade comercial (comércio total em percentagem da produção) registou um aumento significativo, passando de 6,4% para 10,0% (+56,8%). Este crescimento indica que o setor se tornou progressivamente mais internacionalizado, tanto no acesso a mercados como na importação de produtos. A propensão para exportar também cresceu de 4,4% para 5,9% (+34,9%).

Apesar da crescente exposição internacional, a UE manteve uma dependência líquida negativa (ou seja, posição de exportador líquido) ao longo de todo o período: de −2,2% em 2015 para −1,3% em 2025. A redução em valor absoluto da dependência líquida reflete, contudo, uma convergência entre importações e exportações.

3.3. Polónia, Áustria e Croácia lideram a especialização europeia; Irlanda e Malta são as menos especializadas

A análise de especialização (RSCA — Índice de Vantagem Comparativa Simétrica Revelada) para 2025 permite identificar os Estados-Membros com maior ou menor vantagem competitiva neste setor:

Países mais especializados (RSCA positivo elevado):

País RSCA RCA Quota na produção Quota no comércio
Croácia 0,430 2,51 1,0% 0,4%
Polónia 0,383 2,24 14,9% 6,6%
Áustria 0,252 1,67 5,5% 3,3%
Portugal 0,229 1,59 2,2% 1,4%
Lituânia 0,116 1,26 0,8% 0,6%

Países menos especializados (RSCA negativo):

País RSCA RCA
Malta −0,890 0,06
Luxemburgo −0,851 0,08
Irlanda −0,719 0,16
Finlândia −0,502 0,33
Chipre −0,451 0,38

Destaca-se o caso da Polónia, que combina uma elevada especialização (RSCA de 0,383) com uma quota significativa na produção europeia (14,9%), refletindo o crescimento do setor de conversão de papel no Leste Europeu.

3.4. Choques de preço pontuais em 2021-2022 afetaram fluxos com o Reino Unido e a Islândia

A análise de eventos de choque detetou anomalias significativas em três situações:

Evento Tipo Fluxo Anomalia Desvio (%) Ano Quota valor
Islândia Preço Exportações 547,1 +33,7% 2022 1,1%
Reino Unido Preço Importações 43,7 +244,9% 2021 19,7%
Sérvia Preço Exportações 29,8 +29,0% 2022 3,1%

O choque mais relevante em termes de quota de mercado foi o aumento anómalo dos preços nas importações provenientes do Reino Unido em 2021 (+244,9%), que afetou um fluxo representativo de 19,7% do valor total das importações. Este fenómeno pode estar relacionado com as perturcações pós-Brexit nas cadeias logísticas e os custos adicionais de conformidade aduaneira.


Conclusão

O mercado europeu de embalagens de papel (CN 4819) atravessou uma década de transformação profunda entre 2015 e 2025. Três dinâmicas principais definem este período:

Em primeiro lugar, a valorização dos preços substituiu o crescimento dos volumes como motor principal do valor comercial. Com os preços de exportação a subirem 37,3% e os volumes a recuarem 4,5%, a indústria europeia demonstrou capacidade para transferir os aumentos de custos para os mercados internacionais, mantendo a competitividade em termos de valor.

Em segundo lugar, a geografia do comércio reconfigurou-se de forma significativa. A consolidação da China como principal fornecedor (quase 1 000 M€ em 2025), o crescimento acelerado da Turquia e da Sérvia, e o colapso quase total das exportações para a Rússia (−88,8%) redefiniram profundamente as rotas comerciais do setor. Simultaneamente, a UE diversificou os seus mercados de destino, com crescimentos notáveis para os Estados Unidos (+126,4%) e Marrocos (+131,2%).

Em terceiro lugar, a internacionalização do setor acentuou-se — a intensidade comercial subiu para 10,0% — mas a UE manteve a sua posição de exportador líquido, com uma produção europeia robusta que cresceu 40,3% em volume e 56,7% em valor. A especialização geográfica interna é heterogénea, com a Polónia, a Croácia e a Áustria a liderarem a vantagem comparativa, enquanto países como Malta e a Irlanda permanecem fortemente dependentes de importações.

O desafio futuro reside na capacidade de o setor europeu manter a sua competitividade face à crescente pressão dos fornecedores asiáticos, ao mesmo tempo que se adapta às exigências da economia circular e à sustentabilidade ambiental — fatores que, paradoxalmente, deverão reforçar a procura de soluções de embalagem em papel.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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