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Evolução do mercado: Nozes (CN 0802) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento das "Outras nozes, frescas ou secas, mesmo com casca ou peladas" (posição aduaneira CN 0802), que abrange amêndoas, avelãs, nozes, castanhas, pistaches, nozes-macadâmia, pinhões e outras frutas de casca rija — excluindo cocos, castanhas-do-brasil e castanhas-de-caju.

A análise cobre o período de 2015 a 2025 e baseia-se em dados anuais de comércio intra e extra-UE. Três dinâmicas centrais emergem da leitura dos dados: (i) o agravamento estrutural do défice comercial, impulsionado por um crescimento acentuado das importações; (ii) uma reconfiguração geográfica dos fornecedores, com destaque para a ascensão das Américas e o recuo de fornecedores tradicionais do Médio Oriente; e (iii) uma contração marcada das exportações da UE, agravada pelo Brexit e pela perda de competitividade face a terceiros mercados.


1. O défice estrutural da UE: crescimento das importações e estagnação exportadora

1.1. As importações cresceram mais de 50% em volume

Entre 2015 e 2025, as importações extra-UE de nozes (CN 0802) cresceram de forma robusta. Em valor, passaram de €4.869 mil milhões para €5.982 mil milhões (+22,9%). Em volume, o crescimento foi ainda mais expressivo: de 571.140 toneladas para 869.487 toneladas (+52,2%). Este crescimento superior do volume face ao valor reflete uma compressão significativa dos preços médios de importação, que caíram 19,3% — de €8.525/t para €6.880/t — sugerindo maior oferta global e/ou mudanças na composição dos produtos importados.

Indicador 2015 2025 Variação (%)
Importações — valor (€) 4.869 M 5.982 M +22,9%
Importações — volume (t) 571.141 869.487 +52,2%
Preço médio importação (€/t) 8.525 6.880 −19,3%

1.2. As exportações da UE recuaram 30% em valor

Em sentido inverso, as exportações da UE para países terceiros diminuíram significativamente: o valor caiu de €516 milhões para €361 milhões (−30,0%) e o volume de 65.907 toneladas para 50.188 toneladas (−23,9%). O preço médio de exportação também recuou, mas de forma mais moderada (−8,1%), indicando que a queda se deve sobretudo a uma redução real das quantidades exportadas, e não apenas a efeitos de preço.

Indicador 2015 2025 Variação (%)
Exportações — valor (€) 516 M 361 M −30,0%
Exportações — volume (t) 65.907 50.188 −23,9%
Preço médio exportação (€/t) 7.830 7.194 −8,1%

1.3. O défice comercial atingiu €5,6 mil milhões em 2025

O resultado líquido destas tendências opostas é o agravamento do défice comercial, que passou de −€4.353 mil milhões em 2015 para −€5.621 mil milhões em 2025 (−29,1%). A dependência líquida de importações manteve-se estável em torno de 83% ao longo de todo o período (83,1% em 2015; 83,8% em 2025), evidenciando que a UE continua estruturalmente dependente de fornecedores externos para satisfazer o consumo interno de nozes. O índice de intensidade comercial permaneceu igualmente elevado (93,6% em 2015, 92,9% em 2025), confirmando que este é um setor fortemente integrado no comércio internacional.


2. Reconfiguração geográfica dos fornecedores: ascensão das Américas e declínio do Médio Oriente

2.1. Os Estados Unidos consolidaram a liderança como principal fornecedor

Os Estados Unidos reforçaram a sua posição como principal fornecedor extra-UE, com as importações a crescerem de €2.495 mil milhões para €3.305 mil milhões (+32,5%). Este crescimento reflete sobretudo a expansão da produção californiana de amêndoas — o produto dominante neste código aduaneiro (CN 080212, amêndoas sem casca, representou cerca de 32% do volume total de importações em 2025). A estabilidade das relações comerciais transatlânticas e a escala da produção americana explicam a consolidação desta posição.

Fornecedor 2015 (€) 2025 (€) Variação (%)
Estados Unidos 2.495 M 3.305 M +32,5%
Turquia 1.058 M 890 M −15,9%
Chile 177 M 656 M +271,3%
Austrália 208 M 66 M −68,0%
China 153 M 257 M +68,0%
Irão 220 M 120 M −45,4%
Ucrânia 61 M 104 M +70,9%

2.2. Chile e China registaram crescimentos extraordinários

O Chile registou o crescimento mais espetacular entre os principais fornecedores: as importações cresceram 271,3% em valor, passando de €177 milhões para €656 milhões. Este crescimento reflete a expansão da produção chilena de nozes, em particular nozes com casca (CN 080231) e avellanas, alimentada pela crescente procura europeia e pela vantagem sazonal do hemisfério sul.

A China também registou um crescimento significativo (+68,0%), de €153 milhões para €257 milhões, refletindo a sua posição como produtor global de diversas frutas de casca rija, embora com elevada volatilidade (coeficiente de variação de 0,53 — o mais elevado entre os principais fornecedores).

2.3. Fornecedores tradicionais do Médio Oriente perderam quota

Em contraste, os fornecedores do Médio Oriente registaram quebras significativas. A Turquia, segundo maior fornecedor, viu as suas exportações para a UE recuarem 15,9% em valor (de €1.058 milhões para €890 milhões). O Irão sofreu uma queda ainda mais acentuada (−45,4%), de €220 milhões para €120 milhões. Estas quebras podem estar relacionadas com sanções internacionais, instabilidade geopolítica e flutuações cambiais. A Austrália também registou uma queda acentuada (−68,0%), de €208 milhões para €66 milhões, possivelmente refletindo a redireção da produção australiana para mercados asiáticos mais próximos e lucrativos.

2.4. A concentração das importações aumentou ligeiramente

O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações em valor subiu de 3.177 para 3.435 (+8,1%), refletindo uma maior concentração geográfica dos fornecedores. Esta evolução decorre em grande medida da consolidação dos Estados Unidos como parceiro dominante. Em volume, a concentração foi ainda mais pronunciada (de 3.341 para 3.733, +11,8%). Apesar deste aumento, o HHI mantém-se em níveis moderados, indicando que a UE dispõe de alguma diversificação de fornecedores — embora esta diversificação esteja a diminuir.

2.5. Os Estados-membros mais especializados na produção de nozes

De acordo com os dados de especialização disponíveis para 2025, a Espanha apresenta o maior índice de especialização (RSCA de 0,6432), seguida por Portugal (0,5339) e Grécia (0,3599) — países mediterrâneos com tradição na produção de amêndoas, avelãs e nozes. No extremo oposto, a Irlanda, a Finlândia e a Estónia apresentam índices de especialização negativos, indicando que são essencialmente importadores líquidos deste produto.

A produção interna da UE cresceu de forma significativa em volume (de 314 mil toneladas para 600 mil toneladas, +91,1%), mas o valor da produção manteve-se praticamente estável (de €1.000 milhões para €990 milhões), o que implica uma queda acentuada do valor unitário da produção — possivelmente refletindo a expansão de culturas de menor valor ou a pressão dos preços no mercado global.


3. A contração das exportações da UE: o impacto do Brexit e a perda de mercados

3.1. O Reino Unido deixou de ser o principal destino das exportações

O evento mais marcante na evolução das exportações da UE é o colapso das vendas para o Reino Unido: de €212 milhões em 2015 para €84 milhões em 2025 (−60,6%). Esta quebra coincide com a saída do Reino Unido da UE (Brexit, formalizado em janeiro de 2020), que introduziu barreiras alfandegárias, formalidades aduaneiras e custos de conformidade adicionais. Embora o Reino Unido permaneça o maior destino individual das exportações da UE de nozes, a sua quota foi significativamente reduzida.

Destino 2015 (€) 2025 (€) Variação (%)
Reino Unido 212 M 84 M −60,6%
Suíça 74 M 91 M +22,5%
Estados Unidos 89 M 22 M −74,6%
Turquia 16 M 22 M +33,4%
Albânia 2 M 10 M +400,3%
Noruega 13 M 13 M −0,5%

3.2. A Suíça tornou-se o destino mais estável

A Suíça consolidou-se como destino de referência para as exportações da UE, com crescimento moderado (+22,5%, de €74 milhões para €91 milhões) e baixa volatilidade (coeficiente de variação de 0,076). Este crescimento estável reflete a proximidade geográfica, a integração económica (acordos bilaterais UE-Suíça) e o poder de compra elevado do mercado suíço.

3.3. Vários mercados de destino registaram quedas acentuadas

Para além do Reino Unido, outros mercados tradicionais registaram quebras significativas. As exportações para os Estados Unidos caíram 74,6% (de €89 milhões para €22 milhões), refletindo possivelmente a concorrência da produção doméstica americana e eventuais barreiras comerciais. A concentração das exportações diminuiu significativamente (HHI de 2.236 para 1.362, −39,1%), indicando que as exportações da UE se tornaram mais dispersas geograficamente, mas em volumes totais inferiores.

3.4. A propensão exportadora da UE diminuiu

O índice de propensão exportadora da UE recuou de 58,7% para 52,2% (−11,0%), confirmando que a UE está a tornar-se progressivamente menos competitiva na exportação de nozes para mercados terceiros. Em termos internos, a Espanha continua a ser o maior exportador intra-UE (€130 milhões), embora com uma quebra de 25,2% face a 2015. A Grécia foi o único Estado-membro a registar um crescimento significativo nas exportações (+123,9%, de €6 milhões para €13 milhões), possivelmente refletindo a expansão da produção de nozes e a procura por produtos de qualidade mediterrânica.

3.5. Dinâmicas por segmento de produto

A análise dos subprodutos revela dinâmicas diferenciadas nas importações:

Código Descrição Importação 2015 (t) Importação 2025 (t) Variação (%)
080212 Amêndoas, sem casca 222.592 276.465 +24,2%
080222 Avelãs, sem casca 120.423 149.967 +24,5%
080232 Nozes, sem casca 59.835 147.712 +146,9%
080251 Pistaches, com casca 69.128 121.057 +75,1%
080231 Nozes, com casca 41.404 53.003 +28,0%
080252 Pistaches, sem casca 7.817 35.306 +351,7%
080241 Castanhas, com casca 14.312 13.929 −2,7%

Destaca-se o crescimento exponencial das importações de pistaches sem casca (+351,7%) e nozes sem casca (+146,9%), sugerindo uma mudança nas preferências dos consumidores europeus para produtos prontos a consumir. Os pistaches sem casca apresentam o preço médio mais elevado (€16.785/t em 2025), indicando um posicionamento premium. Em contraste, as castanhas com casca foram o único segmento a registar ligeiro declínio em volume.

3.6. Choques de preço e volatilidade nos mercados de abastecimento

Os dados de volatilidade revelam que alguns fornecedores apresentam flutuações significativas. A China (CV de 0,53) e o Irão (CV de 0,49) são os fornecedores com maior volatilidade nas importações. Nas exportações, os mercados com maior instabilidade incluem o Egito (CV de 1,23) e Ceuta (CV de 1,19).

Foi detetado um choque de preço significativo nas exportações da UE para a Turquia em 2018, com uma subida anómala de 58,5% nos preços (anomalia de 2,8 desvios-padrão). Este evento pode estar relacionado com a desvalorização da lira turca em 2018, que tornou as importações mais caras em moeda local, ou com alterações nas políticas comerciais bilaterais.


Conclusão

O mercado europeu de nozes (CN 0802) entre 2015 e 2025 é caracterizado por um paradoxo aparente: a procura interna cresceu de forma robusta — impulsionada por tendências de alimentação saudável e pelo aumento do consumo de frutas de casca rija — mas a UE não foi capaz de traduzir esta procura em crescimento das exportações. Pelo contrário, o défice comercial agravou-se significativamente, atingindo €5,6 mil milhões em 2025.

A reconfiguração dos fornecedores constitui uma segunda grande tendência: as Américas (EUA, Chile) ganharam peso crescente, enquanto os fornecedores tradicionais do Médio Oriente (Turquia, Irão) perderam quota — possivelmente por razões geopolíticas, cambiais e de competitividade. A concentração das importações aumentou ligeiramente, o que pode constituir um risco de abastecimento em caso de perturbações num fornecedor dominante.

Finalmente, a contração das exportações da UE — com o colapso das vendas para o Reino Unido como fator mais marcante — reflete os desafios estruturais que a indústria europeia enfrenta nos mercados internacionais. A redução da propensão exportadora sugere que a UE está a transitar de um papel de intermediário comercial para o de consumidor líquido, com implicações para a balança comercial e para a resiliência do setor agroalimentar europeu.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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