Evolução do mercado: Fruta seca (CN 0813) — 2015–2025
Introdução
A posição pautal 0813 abrange a fruta seca (exceto a das posições 0801 a 0806) e as misturas de fruta seca ou de fruta de casca rija. Inclui cinco subcategorias: damascos (081310), ameixas (081320), maçãs secas (081330), outros frutos secos diversos (081340) e misturas de fruta seca ou de casca rija (081350). A análise que se segue cobre o período 2015–2025 e incide sobre o comércio da UE com países terceiros.
O período em análise é marcado por três grandes dinâmicas: (i) o agravamento significativo do défice comercial, impulsionado sobretudo pela subida dos preços de importação; (ii) uma reconfiguração geográfica profunda, com a emergência dos Balcãs como fornecedores e o recuo dos EUA; e (iii) uma diferenciação acentuada entre segmentos de produto, em que os «outros frutos secos» se tornaram o principal motor da inflação comercial.
1. Défice comercial crescente apesar da expansão da produção europeia
1.1 A duplicação do valor da produção interna de fruta seca
A produção europeia de fruta seca (incluindo castanhas e frutos de casca rija processados) registou um crescimento notável ao longo da década. Em volume, passou de 101 722 toneladas em 2015 para 168 990 toneladas em 2025 — um aumento de 66,1%. Ainda mais expressivo foi a evolução do valor de produção, que subiu de 450 milhões de euros para 922 milhões de euros (+104,6%), refletindo tanto o crescimento de volume como a valorização dos preços em toda a cadeia.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Volume de produção (t) | 101 722 | 168 990 | +66,1% |
| Valor de produção (M EUR) | 450 | 922 | +104,6% |
Fonte: Produção — volumes e valores
Apesar deste crescimento, a dependência líquida de importações manteve-se persistentemente elevada, oscilando entre 79,7% e 84,5% ao longo de todo o período — com uma ligeira redução de 84,5% (2015) para 82,0% (2025). A UE continua, portanto, fortemente dependente do exterior para o abastecimento deste setor.
1.2 Importações que crescem em valor muito acima do volume
O valor total das importações extra-UE de fruta seca subiu de 426,7 milhões de euros em 2015 para 525,7 milhões em 2025 (+23,2%). Contudo, a evolução não foi linear: após um mínimo de 331,7 milhões em 2019 — agravado pela queda dos preços internacionais —, as importações dispararam a partir de 2021, impulsionadas por choques de oferta e pela inflação agrícola global.
O volume importado cresceu apenas 3,8% (de 99 516 t para 103 295 t), tendo atingido um máximo de 108 966 t num ano intermédio. A diferença entre o crescimento do valor (+23,2%) e do volume (+3,8%) explica-se essencialmente pela subida do preço médio de importação, que passou de 4 287 €/t para 5 089 €/t (+18,7%).
| Indicador | 2015 | Mínimo | Máximo | 2025 | Variação 2015–25 |
|---|---|---|---|---|---|
| Valor das importações (M EUR) | 426,7 | 331,7 | 525,7 | 525,7 | +23,2% |
| Volume das importações (t) | 99 516 | 95 521 | 108 966 | 103 295 | +3,8% |
| Preço médio (€/t) | 4 287 | 3 093 | 5 089 | 5 089 | +18,7% |
Fonte: Visão geral — comércio
1.3 A erosão das exportações e o agravamento do défice
Em contraste com o crescimento das importações, as exportações da UE para países terceiros diminuíram significativamente. O valor passou de 162,5 milhões de euros (2015) para 145,4 milhões (2025), uma queda de 10,5%. Ainda mais expressiva foi a contração do volume exportado, que desceu 32,6% — de 27 254 t para 18 366 t. O preço médio de exportação subiu 32,8% (de 5 962 €/t para 7 917 €/t), o que sugere que a UE passou a exportar menos volume mas a preços significativamente mais elevados.
As exportações atingiram o seu valor máximo em 2017 (182,0 M EUR) e o mínimo em 2021 (139,9 M EUR), refletindo o impacto da pandemia nos fluxos comerciais. Consequentemente, o défice comercial agravou-se substancialmente: após ter melhorado para cerca de −165 milhões de euros em 2017, voltou a alargar-se até atingir −380,2 milhões de euros em 2025.
| Indicador | 2015 | 2017 (melhor) | 2021 (mínimo) | 2025 | Variação 2015–25 |
|---|---|---|---|---|---|
| Valor das exportações (M EUR) | 162,5 | 182,0 | 139,9 | 145,4 | −10,5% |
| Volume das exportações (t) | 27 254 | — | — | 18 366 | −32,6% |
| Preço médio export. (€/t) | 5 962 | — | — | 7 917 | +32,8% |
| Saldo comercial (M EUR) | −264,2 | −165,0 | −231,3 | −380,2 | −43,9% |
Fonte: Visão geral — comércio
A propensão para exportar caiu de 156,7% para 109,6%, sugerindo que a UE está a reter uma proporção crescente da sua produção para o mercado interno, em vez de a canalizar para exportação.
2. Reconfiguração geográfica das parcerias comerciais
2.1 A ascensão meteórica da Sérvia e da Moldávia
A mudança mais marcante na geografia das importações foi a ascensão da Sérvia como fornecedor de destaque. O valor das importações provenientes da Sérvia passou de 6,7 milhões de euros em 2015 para 52,4 milhões em 2025 — um crescimento de 682,1%. A Moldávia registou uma trajetória semelhante, com um aumento de 265,9% (de 3,9 M EUR para 14,2 M EUR). Estes dois países dos Balcãs e da Europa de Leste passaram a representar, em conjunto, mais de 12% do valor total das importações da UE em fruta seca.
| Fornecedor | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Sérvia | 6,7 | 52,4 | +682,1% |
| Moldávia | 3,9 | 14,2 | +265,9% |
| Turquia | 115,0 | 150,0 | +30,4% |
| Chile | 93,9 | 108,1 | +15,2% |
| China | 76,2 | 79,7 | +4,6% |
| Argentina | 11,4 | 10,8 | −5,0% |
| EUA | 67,5 | 20,4 | −69,8% |
Fonte: Principais parceiros — importações
A concentração das importações (HHI) diminuiu de 1 816 para 1 633 (−10,1%), confirmando uma diversificação estrutural das fontes de abastecimento.
2.2 O recuo dos EUA e a consolidação da Turquia como parceiro dominante
Em contraste com a ascensão dos Balcãs, as importações provenientes dos Estados Unidos sofreram uma queda dramática: de 67,5 milhões de euros para apenas 20,4 milhões (−69,8%). Os EUA passaram do terceiro para o sétimo lugar entre os fornecedores da UE. Este declínio pode refletir alterações na competitividade norte-americana, bem como reorientações estratégicas dos importadores europeus face à crescente disponibilidade de oferta nos Balcãs e na Ásia Central.
A Turquia consolidou a sua posição como principal fornecedor, com importações a crescerem de 115,0 M EUR para 150,0 M EUR (+30,4%), representando em 2025 cerca de 28,5% do valor total importado. Chile e China mantiveram posições estáveis como segundo e quarto maiores fornecedores, respetivamente.
2.3 A perda do Reino Unido como mercado de exportação e a viragem para a Suíça
No lado das exportações, a reconfiguração geográfica foi igualmente significativa. O Reino Unido — que em 2015 era de longe o principal destino das exportações europeias de fruta seca, com 93,9 milhões de euros (57,8% do total) — registou uma queda de 43,4%, situando-se nos 53,1 milhões em 2025. Esta diminuição acentuada reflete em parte o impacto do Brexit nas relações comerciais bilaterais.
Em contrapartida, as exportações para a Suíça duplicaram (+104,4%), passando de 15,2 M EUR para 31,1 M EUR, e as para a Noruega cresceram 88,7% (de 4,0 M EUR para 7,5 M EUR). Estes mercados europeus não-UE tornaram-se assim destinos crescentemente relevantes.
| Destino | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 93,9 | 53,1 | −43,4% |
| Suíça | 15,2 | 31,1 | +104,4% |
| Noruega | 4,0 | 7,5 | +88,7% |
| EUA | 7,3 | 10,6 | +45,1% |
| Argélia | 8,7 | 4,9 | −43,8% |
| Turquia | 4,1 | 5,1 | +25,4% |
| China | 2,0 | 1,5 | −28,2% |
Fonte: Principais parceiros — exportações
A concentração das exportações (HHI) desceu drasticamente de 3 507 para 1 935 (−44,8%), evidenciando uma forte diversificação dos mercados de destino e uma menor dependência do mercado britânico.
2.4 A reconfiguração interna da UE: a Alemanha como hub e o declínio da Itália
Dentro da própria UE, a distribuição do comércio por Estado-Membro também se reconfigurou. A Alemanha consolidou-se como o principal importador e exportador de fruta seca: as suas importações cresceram 53,4% (de 125,7 M EUR para 192,9 M EUR) e as exportações subiram 17,4% (de 50,0 M EUR para 58,7 M EUR). A Polónia registou um crescimento significativo nas importações (+41,5%), passando de 35,9 M EUR para 50,8 M EUR.
A evolução mais marcante, porém, foi o colapso das exportações italianas: de 31,8 milhões de euros em 2015 para apenas 7,8 milhões em 2025 (−75,4%). Em sentido inverso, os Países Baixos e a Polónia aumentaram as suas exportações (+34,0% e +27,4%, respetivamente), sugerindo um deslocamento dos fluxos intra-europeus de transformação e reexportação.
| Estado-Membro | Imp. 2015 (M EUR) | Imp. 2025 (M EUR) | Var. | Exp. 2015 (M EUR) | Exp. 2025 (M EUR) | Var. |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Alemanha | 125,7 | 192,9 | +53,4% | 50,0 | 58,7 | +17,4% |
| Países Baixos | 58,0 | 39,9 | −31,3% | 7,0 | 9,4 | +34,0% |
| França | 45,3 | 41,0 | −9,4% | 38,6 | 28,8 | −25,2% |
| Polónia | 35,9 | 50,8 | +41,5% | 8,6 | 10,9 | +27,4% |
| Itália | 46,0 | 32,8 | −28,7% | 31,8 | 7,8 | −75,4% |
| Espanha | 28,4 | 30,1 | +6,0% | 14,1 | 8,1 | −42,8% |
| Suécia | 15,0 | 12,3 | −17,9% | — | — | — |
Fonte: Principais Estados-Membros — importações e exportações
3. Segmentação do mercado e aceleração desigual de preços
3.1 Ameixas (081320): o pilar estável das importações
As ameixas constituem o maior segmento de importações em volume, representando entre 37 865 t e 49 827 t por ano ao longo da década. O volume manteve-se relativamente estável, embora com alguma volatilidade: após um mínimo de 37 865 t em 2021, recuperou para 46 997 t em 2025. O preço médio de importação oscilou entre 2 518 €/t (2018) e 4 073 €/t (2022), situando-se em 3 267 €/t em 2025 — abaixo do nível de 2015 (3 417 €/t).
| Ano | Volume (t) | Valor (M EUR) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 49 827 | 170,3 | 3 417 |
| 2019 | 42 598 | 108,4 | 2 545 |
| 2021 | 37 865 | 118,1 | 3 119 |
| 2022 | 47 604 | 193,9 | 4 073 |
| 2025 | 46 997 | 153,5 | 3 267 |
Fonte: Comparação por segmento
3.2 Outros frutos secos (081340): o motor da inflação comercial
O segmento CN 081340 — que inclui pêssegos, peras, tamarindos e outros frutos secos diversos — registou a evolução mais impressionante nas importações. Embora o volume tenha crescido apenas 26% (de 15 647 t para 19 717 t), o valor praticamente duplicou: de 107,0 M EUR para 203,8 M EUR (+90,5%). O preço médio de importação subiu de 6 837 €/t para 10 335 €/t (+51,2%), sendo este o segmento com a maior aceleração de preços de todo o universo CN 0813.
| Ano | Volume (t) | Valor (M EUR) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 15 647 | 107,0 | 6 837 |
| 2019 | 15 642 | 92,3 | 5 903 |
| 2022 | 17 515 | 145,8 | 8 322 |
| 2025 | 19 717 | 203,8 | 10 335 |
Fonte: Comparação por segmento
No lado das exportações, este mesmo segmento sofreu um colapso ainda mais acentuado: o volume desceu de 8 925 t para 2 842 t (−68,2%), mas o preço médio de exportação disparou de 4 843 €/t para 15 814 €/t (+226,5%). Este padrão — menos volume mas preços exponencialmente mais altos — sugere que a UE deixou de exportar produtos de menor valor acrescentado, concentrando-se em nichos de elevado valor.
3.3 Damascos (081310): um ciclo de pico e reversão
Os damascos apresentam uma trajetória de crescimento até 2021 seguida de contração. As importações cresceram de 21 946 t em 2015 para 30 831 t em 2021, mas recuaram para 23 919 t em 2025. O preço médio sofreu uma forte erosão entre 2015 e 2018 (de 5 024 €/t para 2 724 €/t), recuperando depois para 5 280 €/t em 2025 — ligeiramente acima do nível de 2015.
3.4 Misturas de fruta seca (081350): contração estrutural em ambos os fluxos
O segmento das misturas registou uma contração acentuada. Nas importações, o volume caiu de 2 488 t para 1 257 t (−49,5%), embora o preço tenha subido 59,8% (de 5 305 €/t para 8 477 €/t). Nas exportações, a descida foi mais moderada (de 7 497 t para 6 037 t, −19,5%), com o preço a manter-se relativamente estável em torno dos 8 500–9 800 €/t. A redução das misturas importadas pode refletir uma preferência crescente dos importadores europeus por produtos individuais em detrimento de blends.
3.5 Volatilidade dos parceiros e choques de preço pontuais
A análise de volatilidade revela padrões muito distintos entre parceiros. Os fornecedores mais estáveis são a Turquia (CV = 0,12) e o Chile (CV = 0,13), enquanto parceiros como o Uzbequistão (CV = 1,06), a Noruega nas exportações (CV = 1,50) e o Reino Unido nas importações (CV = 0,77) apresentam flutuações consideráveis.
Foram detetados três choques de preço significativos:
| Parceiro | Fluxo | Ano | Variação de preço | Grau de anormalidade | Peso no valor total |
|---|---|---|---|---|---|
| Noruega | Exportação | 2018 | +202% | 26,7 | 4,3% |
| Argentina | Importação | 2021 | +49,4% | 21,7 | 2,5% |
| China | Exportação | 2023 | +225% | 6,5 | 1,9% |
O choque mais extremo — o aumento de 202% nos preços de exportação para a Noruega em 2018 — pode ter resultado de uma combinação de fatores sazonais, quebras pontuais de oferta e reorientação para produtos de maior valor. O choque nas importações da Argentina em 2021 (+49,4%) coincide com o período de disrupções logísticas e inflação agrícola global pós-pandemia. O choque nas exportações para a China em 2023 (+225%), embora com menor peso no valor total, é relevante como sinal da crescente procura asiática por fruta seca europeia de elevada qualidade.
Conclusão
O mercado europeu de fruta seca (CN 0813) entre 2015 e 2025 foi marcado por uma contradição estrutural: apesar de a produção europeia ter crescido 66% em volume e mais de 100% em valor, o défice comercial agravou-se de 264 milhões para 380 milhões de euros. A explicação reside na inflação dos preços de importação — sobretudo no segmento de «outros frutos secos» (CN 081340), onde o preço médio subiu mais de 50% — e na simultânea erosão das exportações, que perderam mais de 30% do seu volume.
A geografia do comércio reconfigurou-se profundamente. A Sérvia emergiu como um fornecedor de destaque (+682% em valor), os EUA recuaram drasticamente como fonte de importação (−70%), e o Reino Unido perdeu relevância como mercado de exportação (−43%). A concentração do comércio diminuiu em ambos os lados, sinal de uma maior diversificação das relações comerciais — mas também de uma maior complexidade logística. No interior da UE, a Itália perdeu três quartos das suas exportações, enquanto a Alemanha e a Polónia consolidaram posições.
A dependência líquida de importações manteve-se na ordem dos 82%, e a redução da propensão para exportar (de 157% para 110%) indica que uma proporção crescente da produção europeia está a ser absorvida pelo mercado interno. Os riscos de abastecimento parecem hoje mais diversificados geograficamente, mas a concentração em poucos fornecedores-chave — sobretudo a Turquia, que representa quase 29% das importações — permanece um fator de vulnerabilidade a monitorizar.