Evolução do mercado: Melões e melancias (CN 0807) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 0807 abrange melões, melancias e papaias (mamões) frescos, um segmento de frutos frescos de clima quente que a UE importa em grande escala e cuja produção interna se concentra sobretudo no sul da Europa — Espanha, Grécia e Itália. Entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE neste setor transformou-se profundamente: as importações quase duplicaram em valor, o déficit comercial mais do que dobrou e o mapa dos fornecedores ganhou novos atores. Este relatório analisa as principais dinâmicas observáveis nos dados, organizando-as em três eixos: (1) o crescimento explosivo das importações, puxado pelas melancias; (2) a reconfiguração geográfica das fontes de abastecimento; e (3) o desempenho das exportações europeias num contexto de subida de preços e choques de fornecimento.
1. O crescimento das importações puxado pelas melancias e o aprofundamento do déficit comercial
Aumento global das importações: valor duplicou e volume cresceu 49 %
As importações totais da UE cresceram de forma consistente ao longo da década:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (€ M) | 425,8 | 817,7 | +92,0 % |
| Volume (t) | 581 254 | 866 476 | +49,1 % |
| Preço médio (€/t) | 732,5 | 943,7 | +28,8 % |
O crescimento do valor (+92 %) superou largamente o do volume (+49 %), o que reflecte uma subida generalizada dos preços unitários. A procura europeia não só absorveu mais quantidade como pagou, em média, 29 % mais por tonelada.
As melancias (080711) são o motor principal do crescimento
Ao analisar os três subprodutos, constata-se que as melancias explicam a maior parte da expansão:
| Subproduto | Volume importado (t) | Variação | Valor importado (€ M) | Variação | Preço (€/t) | Variação |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Melancias (080711) | 245 531 → 490 705 | +99,9 % | 117,6 → 405,5 | +244,8 % | 479 → 826 | +72,4 % |
| Melões (080719) | 300 527 → 335 073 | +11,5 % | 245,9 → 319,0 | +29,7 % | 818 → 952 | +16,4 % |
| Papaias (080720) | 35 196 → 40 699 | +15,6 % | 62,3 → 93,1 | +49,4 % | 1 769 → 2 287 | +29,3 % |
As melancias duplicaram em volume e mais que triplicaram em valor. O seu preço unitário subiu de 479 €/t para 826 €/t (+72 %), o que sugere simultaneamente uma expansão da procura e um endurecimento dos custos de fornecimento (transporte refrigerado, sazonalidade, inflação). Os melões, apesar de manterem o maior volume absoluto de importação em vários anos do período, apresentaram um crescimento mais moderado. As papaias, embora em volumes residuais, mostram um preço unitário muito superior (2 287 €/t em 2025), reflectindo o seu carácter mais exótico e cadeias logísticas mais longas.
O déficit comercial mais do que dobrou
A UE é estruturalmente importadora líquida deste sector. O déficit comercial agravou-se significativamente:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (€ M) | 161,4 | 283,8 | +75,8 % |
| Importações (€ M) | 425,8 | 817,7 | +92,0 % |
| Saldo (€ M) | −264,4 | −533,9 | −102,0 % |
Embora as exportações também tenham crescido (+75,8 %), o ritmo das importações foi muito superior, ampliando o hiato. Em 2025, a UE importou 2,88 € em melões e afins por cada euro que exportou — uma razão que se agravou ao longo do período. Note-se que as exportações europeias apresentam um preço médio mais elevado (916 €/t vs. 944 €/t nas importações em 2025), o que indica que a UE tende a exportar produtos de maior valor acrescentado (melões europeus de qualidade reconhecida), mas este diferencial é cada vez mais estreito.
2. A reconfiguração geográfica das importações: novos parceiros emergentes
Brasil e Marrocos dominam, mas novos atores crescem aceleradamente
Os sete principais fornecedores extra-UE revelam dinâmicas muito distintas:
| Parceiro | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Brasil | 179,4 | 320,5 | +78,6 % |
| Marrocos | 77,6 | 239,3 | +208,4 % |
| Costa Rica | 54,1 | 64,1 | +18,4 % |
| Turquia | 8,6 | 46,8 | +445,9 % |
| Senegal | 13,8 | 24,8 | +80,2 % |
| Honduras | 22,8 | 28,2 | +23,9 % |
| Albânia | 1,0 | 12,2 | +1 112,5 % |
O Brasil permanece como o maior fornecedor (320,5 M€ em 2025), mas Marrocos regista o crescimento mais expressivo entre os grandes parceiros: triplicou o valor das exportações para a UE, impulsionado pela proximidade geográfica, acordos comerciais preferenciais e investimento em infra-estruturas agrícolas (estufas no Souss-Massa). A Turquia, que partiu de uma base muito reduzida, multiplicou as suas exportações por 5,5, beneficiando provavelmente da união aduaneira com a UE e da sua posição de fornecedor hemisfério-norte complementar à produção europeia. A Albânia, com um crescimento de 1 113 %, representa o caso mais extremo de emergência como fornecedor, ainda que em valores absolutos ainda modestos (12,2 M€).
A concentração das importações manteve-se estável em nível moderado
O índice HHI de concentração das importações em valor situou-se entre 2 321 e 2 765 ao longo do período, com uma ligeira subida para 2 536 em 2025 (+5,8 %). Estes valores indicam uma concentração moderada: os dois principais fornecedores (Brasil e Marrocos) ganharam peso relativo, mas a entrada de novos parceiros (Turquia, Albânia, Senegal) ajudou a manter alguma diversificação.
França e Áustria: os importadores europeus que mais cresceram
No lado dos Estados-Membros importadores, os padrões de crescimento foram heterogéneos:
| Estado-Membro | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 192,4 | 285,8 | +48,6 % |
| Espanha | 81,1 | 177,0 | +118,4 % |
| França | 70,7 | 206,0 | +191,3 % |
| Portugal | 12,4 | 36,6 | +195,2 % |
| Alemanha | 17,1 | 13,3 | −22,0 % |
| Itália | 15,6 | 15,6 | −0,5 % |
| Áustria | 3,1 | 24,7 | +693,0 % |
A França tornou-se em 2025 o segundo maior importador da UE (206 M€), ultrapassando largamente a Alemanha, que registou uma quebra de 22 %. Este contraste pode reflectir diferenças nos hábitos de consumo (o mercado francês de melões Charentais e melancias tem forte tradição), mas também a crescente integração da França nas cadeias logísticas com Marrocos e Espanha. A Áustria, com um crescimento de 693 %, partiu de uma base muito baixa mas atingiu 24,7 M€, sugerindo o papel crescente de Viena como hub de redistribuição para a Europa Central. Os Países Baixos mantêm-se como principal porta de entrada (285,8 M€), em parte pelo papel do porto de Roterdão e da FloralHolland como centro logístico europeu.
A Espanha consolida a sua vantagem comparativa
Os dados de especialização para 2025 mostram que a Espanha é, de longe, o Estado-Membro mais especializado neste sector (RSCA de 0,79, RCA de 8,58), seguida pela Grécia (RSCA de 0,78). A Espanha é simultaneamente o maior importador extra-UE (177 M€) e o maior exportador (148 M€), o que reflecte o seu papel como transformador e reexportador de frutos frescos — importando de Marrocos e reexportando para o norte da Europa. Os países nórdicos e da Europa Oriental (Finlândia, Suécia, Eslováquia, Polónia) apresentam RCA próximo de zero, confirmando a natureza mediterrânica e subtropical deste sector.
3. Exportações europeias: crescimento sólido, subida de preços e choques de 2022
As exportações cresceram 76 % em valor, puxadas por melancias e pelo Reino Unido
As exportações da UE para países terceiros cresceram de forma robusta:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (€ M) | 161,4 | 283,8 | +75,8 % |
| Volume (t) | 247 225 | 309 764 | +25,3 % |
| Preço médio (€/t) | 652,8 | 915,9 | +40,3 % |
O aumento do valor das exportações (+75,8 %) deve-se sobretudo à subida de preços (+40,3 %) e, em menor medida, ao crescimento do volume (+25,3 %). Ao nível dos subprodutos:
| Subproduto | Volume exportado (t) | Variação | Valor (€ M) | Variação | Preço (€/t) | Variação |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Melancias (080711) | 123 743 → 211 583 | +71,0 % | 60,4 → 161,9 | +168,3 % | 488 → 765 | +56,8 % |
| Melões (080719) | 122 551 → 95 388 | −22,2 % | 98,8 → 114,7 | +16,1 % | 806 → 1 203 | +49,2 % |
| Papaias (080720) | 931 → 2 793 | +200,0 % | 2,2 → 7,2 | +221,0 % | 2 394 → 2 566 | +7,2 % |
As melancias tornaram-se o principal produto de exportação da UE (161,9 M€), ultrapassando os melões (114,7 M€), cujo volume até diminuiu 22 %. Este resultado sugere que a produção europeia de melancias (sobretudo espanhola) se reorientou para mercados externos, nomeadamente o Reino Unido pós-Brexit.
Reino Unido e Suíça: destinos dominantes com dinâmicas distintas
Os principais destinos de exportação da UE são:
| Destino | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 76,6 | 145,2 | +89,6 % |
| Suíça | 52,6 | 75,4 | +43,4 % |
| Noruega | 18,1 | 31,6 | +74,1 % |
| Sérvia | 2,0 | 5,8 | +187,9 % |
| Ucrânia | 0,1 | 2,7 | +2 101,5 % |
O Reino Unido absorve mais de metade do valor das exportações extra-UE (145,2 M€), o que torna a dependência deste destino significativa. A Ucrânia, com um crescimento de 2 102 % em valor, tornou-se um destino relevante (2,7 M€), ainda que em volumes muito inferiores. A concentração das exportações (HHI de 3 506 em 2025) é superior à das importações (2 536), o que revela uma base exportadora mais concentrada, assente em poucos mercados europeus vizinhos.
2022: o ano dos choques de preço nas exportações
A análise de volatilidade e choques identifica 2022 como um ano atípico:
| Evento | Tipo | Fluxo | Ano | Variação de preço | Grau de anormalidade |
|---|---|---|---|---|---|
| Noruega | Preço | Exportações | 2022 | +51,8 % | 16,3 |
| Suíça | Preço | Exportações | 2022 | +23,7 % | 11,0 |
| Senegal | Preço | Importações | 2020 | +13,0 % | 10,6 |
Os choques de preço nas exportações para a Noruega e a Suíça em 2022 coincidem com um período de inflação generalizada na Europa, agravada pela invasão da Ucrânia e pela subida dos custos energéticos (refrigeração, transporte). O choque de importação de Senegal em 2020 pode estar ligado à pandemia de COVID-19 e às disrupções logísticas iniciais. Entre os parceiros com maior volatilidade (coeficiente de variação elevado) destacam-se Albânia (0,79), Marrocos (0,35) e Turquia (0,53) nas importações, e Ucrânia (1,54) e Bósnia-Herzegovina (0,68) nas exportações — parceiros com fornecimento menos estável e mais sujeitos a interrupções.
Espanha e Itália lideram a ofensiva exportadora europeia
Os Estados-Membros exportadores revelam crescimentos díspares:
| Estado-Membro | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Espanha | 73,9 | 148,3 | +100,6 % |
| Países Baixos | 30,3 | 44,1 | +45,5 % |
| França | 29,4 | 37,4 | +27,3 % |
| Itália | 15,5 | 33,1 | +113,3 % |
| Grécia | 5,4 | 11,9 | +119,8 % |
| Portugal | 1,4 | 2,5 | +82,0 % |
| Alemanha | 1,3 | 0,9 | −30,3 % |
A Espanha praticamente duplicou as suas exportações (148,3 M€) e constitui o motor europeu do sector. A Itália (+113 %) e a Grécia (+120 %) confirmam a vocação mediterrânica da produção europeia, enquanto a Alemanha (-30 %) saiu progressivamente do mapa exportador.
Conclusão
O período 2015–2025 caracterizou-se por uma expansão vigorosa do comércio externo da UE em melões, melancias e papaias, impulsionada por três fatores convergentes: (1) o crescimento da procura europeia, em especial de melancias, cujas importações duplicaram em volume e triplicaram em valor; (2) a emergência de novos fornecedores como Marrocos, Turquia e Albânia, que reconfiguraram o mapa geográfico das importações; e (3) uma subida generalizada dos preços, tanto nas importações como nas exportações, agravada em 2022 por choques energéticos e logísticos.
O déficit comercial da UE agravou-se para 534 M€ em 2025, reflectindo uma procura interna que cresce mais depressa do que a capacidade exportadora. A concentração geográfica manteve-se moderada nas importações (HHI ~2 536), mas as exportações permanecem mais dependentes do Reino Unido. Espanha consolidou a sua posição como hub central do sector na Europa, combinando produção própria, importação e reexportação — uma posição reforçada pela sua vantagem comparativa demonstrada (RCA de 8,58).
A principal incerteza para o futuro prende-se com a sustentabilidade da subida de preços e a capacidade dos fornecedores tradicionais (Brasil, Marrocos) de satisfazer uma procura europeia cada vez mais exigente em volume e em período de cobertura sazonal.