Evolução do mercado: Cocos e castanhas (CN 0801) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no período 2015–2025 para o código pautal 0801, que abrange cocos, castanha-do-brasil (castanha-do-pará) e castanha-de-caju, frescos ou secos, mesmo com casca ou pelados. Trata-se de uma categoria abrangente que inclui tanto frutos tropicais de elevado valor nutricional — amplamente utilizados nas indústrias alimentar, cosmética e de bebidas — como produtos com relevância estratégica para os países produtores do Sul Global.
O período em análise é marcado por profundas transformações: a crescente procura europeia por estes produtos, a reconfiguração das cadeias de abastecimento — acelerada por choques como a pandemia de COVID-19 e o conflito na Ucrânia — e a emergência de novos fornecedores em África e na Ásia. Ao longo de dez anos, o défice comercial da UE neste setor quase duplicou, passando de -883 mil milhões de euros para -1.574 mil milhões de euros, refletindo uma dependência estrutural das importações que se manteve estável em torno de 83% (Visão geral do comércio).
1. Crescimento sustentado das importações e aprofundamento da dependência externa
1.1. As importações crescem a um ritmo muito superior ao das exportações
Entre 2015 e 2025, o valor das importações da UE de cocos e castanhas cresceu 74,8%, passando de 959 milhões de euros para 1.677 milhões de euros. Em volume, o aumento foi de 53,9%, de 214.027 toneladas para 329.434 toneladas. Este crescimento consistente — verificável em praticamente todos os anos do período — reflete a crescente procura europeia por frutos tropicais e oleaginosas, impulsionada por tendências alimentares como o veganismo, a procura de alternativas vegetais (leite de coco, manteiga de caju) e a valorização de superfoods.
Por seu lado, as exportações da UE cresceram apenas 33,9% em valor (de 76,5 milhões de euros para 102,4 milhões de euros) e 13,7% em volume (de 14.990 toneladas para 17.043 toneladas). O crescimento exportador é, portanto, muito mais modesto, o que aprofundou significativamente o défice comercial.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações — valor (milhões €) | 959 | 1.677 | +74,8% |
| Importações — volume (mil t) | 214 | 329 | +53,9% |
| Exportações — valor (milhões €) | 76,5 | 102,4 | +33,9% |
| Exportações — volume (mil t) | 15,0 | 17,0 | +13,7% |
| Balança comercial (milhões €) | -883 | -1.574 | -78,4% |
Fonte: Dados gerais de comércio
1.2. A evolução dos preços importados reflete tensões estruturais e conjunturais
O preço médio das importações (FOB) passou de 4.482 €/t em 2015 para 5.090 €/t em 2025, uma subida de 13,6%. Contudo, a trajetória não foi linear: após atingir um máximo de 5.422 €/t em 2021 — ano em que os preços globais das matérias-primas alimentares foram severamente pressionados pelas disrupções pandémicas —, os preços recuaram em 2022–2023 antes de retomarem a trajetória ascendente.
O preço médio das exportações europeias evoluiu de 5.104 €/t para 6.010 €/t (+17,7%), indicando que a UE tende a exportar produtos de valor acrescentado mais elevado (possivelmente processados ou de nicho) e a importar sobretudo matéria-prima a preços mais baixos.
1.3. A dependência líquida de importações mantém-se estruturalmente elevada
O indicador de dependência líquida de importações situou-se consistentemente entre 78% e 84% ao longo de todo o período, atingindo 83,8% em 2025 (Dependência líquida de importações). A intensidade comercial (rácio entre o comércio total e a produção interna mais o consumo aparente) manteve-se igualmente elevada, em torno de 93% (Intensidade comercial). Estes valores indicam que a UE é estruturalmente dependente do exterior para o abastecimento de cocos, castanhas-do-brasil e castanhas-de-caju, e que a produção interna (embora em crescimento volumétrico de 314.000 toneladas para 600.000 toneladas, +91,1%) permanece insuficiente para cobrir a procura, contribuindo com menos de 17% do consumo aparente (Produção da UE).
2. Reconfiguração geográfica das fontes de abastecimento e emergência de novos fornecedores africanos
2.1. O Vietnã consolida-se como o principal fornecedor da UE
O Vietnã passou de 436 milhões de euros em exportações para a UE (2015) para 920 milhões de euros (2025), um crescimento de 110,8% que o posiciona como o fornecedor dominante, com uma quota superior a 54% do valor total das importações da UE em 2025 (Principais parceiros por valor). Esta ascensão é largamente explicada pela castanha-de-caju processada (código 080132 — "sem casca"), que constitui o segmento dominante das importações, e da qual o Vietnã é o maior produtor e exportador mundial.
2.2. A Costa do Marfim e o crescimento exponencial dos fornecedores africanos
A evolução mais impressionante do período é a da Costa do Marfim: de 22 milhões de euros em 2015 para 217 milhões de euros em 2025, uma variação de +905,9%. A Costa do Marfim tornou-se assim o terceiro maior fornecedor da UE, ultrapassando a Indonésia e aproximando-se das Filipinas (130 milhões de euros). Outros fornecedores africanos como o Burkina Faso e o Gana, embora com volumes menores, apresentam coeficientes de variação elevados (0,509 e 0,378, respetivamente), sugerindo uma presença ainda instável mas em crescimento (Volatilidade dos parceiros).
Este fenómeno reflete a estratégia da Costa do Marfim de promover o processamento nacional da castanha-de-caju (anteriormente exportada bruta para a Índia), capturando assim mais valor acrescentado na cadeia e redirecionando as exportações para a Europa.
2.3. A Índia perde relevância enquanto a Bolívia e o Sri Lanka ganham terreno
Em contraste com o crescimento africano, a Índia — que em 2015 era o terceiro maior fornecedor da UE com 166 milhões de euros — viu as suas exportações para a UE recuarem 52,9%, para apenas 78 milhões de euros em 2025. Esta quebra está relacionada com a crescente concorrência direta de fornecedores africanos no segmento de castanha-de-caju processada, bem como com eventuais restrições à exportação de castanha-do-brasil proveniente da Bolívia (que passa por território indiano).
A Bolívia, o principal produtor mundial de castanha-do-brasil (castanha-do-pará), cresceu 52,9%, de 62 milhões de euros para 94 milhões de euros. O Sri Lanka, fornecedor de cocos e produtos derivados, mais do que duplicou as suas exportações para a UE (+115,2%), de 18 milhões de euros para 39 milhões de euros.
| Fornecedor | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Vietnã | 436 | 920 | +110,8% |
| Filipinas | 68 | 130 | +91,4% |
| Costa do Marfim | 22 | 217 | +905,9% |
| Indonésia | 60 | 78 | +29,1% |
| Índia | 166 | 78 | -52,9% |
| Bolívia | 62 | 94 | +52,9% |
| Sri Lanka | 18 | 39 | +115,2% |
Fonte: Principais parceiros por valor
2.4. A concentração das importações aumenta, apesar da diversificação geográfica
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações em valor subiu de 2.549 para 3.322 (+30,3%), e em volume de 1.654 para 2.711 (+63,9%) (Concentração HHI). Este aparente paradoxo — mais fornecedores emergentes, mas maior concentração — explica-se pelo facto de o crescimento do Vietnã ter sido tão expressivo que dominou o aumento total das importações, concentrando ainda mais o poder de mercado num único fornecedor.
2.5. Os Países Baixos e a Alemanha dominam o comércio intra-UE
No que respeita aos Estados-Membros da UE, os Países Baixos (551 milhões de euros) e a Alemanha (535 milhões de euros) são, em 2025, os maiores importadores extra-UE, juntos representando mais de 64% do valor total das importações (Principais países da UE por valor). A Espanha destaca-se pelo crescimento mais acentuado (+263,6%), passando de 43 milhões de euros para 157 milhões de euros. A Bélgica é o único grande importador a registar uma quebra significativa (-54,2%).
Na especialização, os Países Baixos apresentam o maior índice RCA normalizado (RSCA de 0,60 em 2025), confirmando o seu papel como hub de distribuição europeu para este tipo de produto (Especialização dos países da UE).
3. Dinâmica dos segmentos de produto: a castanha-de-caju sem casca como motor do crescimento
3.1. A castanha-de-caju sem casca (080132) domina as importações
A análise por subcategoria pautal revela que o segmento 080132 (castanha-de-caju sem casca) é, de longe, o mais relevante em volume e valor. As importações deste segmento passaram de 100.953 toneladas (2015) para 201.371 toneladas (2025), um crescimento de 99,4% — praticamente duplicação. Em valor, a evolução foi de 688 milhões de euros para 1.273 milhões de euros (+85,0%), constituindo mais de 75% do valor total das importações da UE em 2025.
A castanha-de-caju é um produto com múltiplas aplicações alimentares (snacks, confeitaria, alternativas vegetais) e cuja procura na Europa tem crescido de forma sustentada, refletindo mudanças nos padrões de consumo.
| Segmento (código) | Descrição | Volume importado 2015 (t) | Volume importado 2025 (t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|
| 080132 | Castanha-de-caju sem casca | 100.953 | 201.371 | +99,4% |
| 080111 | Cocos dessecados | 69.490 | 83.424 | +20,0% |
| 080119 | Cocos frescos | 23.976 | 19.645 | -18,1% |
| 080122 | Castanha-do-brasil sem casca | 12.859 | 10.110 | -21,4% |
| 080112 | Cocos na casca interna | 5.755 | 14.576 | +153,3% |
| 080121 | Castanha-do-brasil com casca | 720 | 132 | -81,7% |
| 080131 | Castanha-de-caju com casca | 274 | 175 | -36,1% |
Fonte: Comparação por segmentos de produto
3.2. Os cocos dessecados mantêm-se como segundo maior segmento, mas os cocos frescos perdem relevância
O segmento 080111 (cocos dessecados) cresceu 20,0% em volume, passando de 69.490 toneladas para 83.424 toneladas, consolidando-se como o segundo maior segmento. A seu lado, o segmento 080112 (cocos na casca interna/endocárpio) cresceu 153,3% em volume (de 5.755 para 14.576 toneladas), refletindo possivelmente a crescente procura de coco ralado ou em lascas para confeitaria e bebidas.
Em contraste, os cocos frescos (080119) registaram uma quebra de 18,1% em volume (de 23.976 para 19.645 toneladas). A diminuição pode estar relacionada com questões de sustentabilidade logística (transporte de cocos inteiros com elevado peso de casca), bem como com a crescente preferência do consumidor por produtos pré-processados.
3.3. A castanha-do-brasil enfrenta constrangimentos de oferta
O segmento 080122 (castanha-do-brasil sem casca) registou uma quebra de 21,4% em volume (de 12.859 para 10.110 toneladas). Este retrocesso reflete constrangimentos estruturais do lado da oferta: a castanha-do-brasil é um produto de extração essencialmente silvestre na Amazônia, dependente de uma floresta em pé e de cadeias de valor com desafios logísticos significativos. A Bolívia, principal produtor, tem enfrentado instabilidade política e dificuldades de exportação. As importações do segmento 080121 (castanha-do-brasil com casca) caíram dramaticamente (-81,7% em volume), confirmando uma migração para a forma processada.
Em termos de preços, o segmento 080122 apresentou preços elevados (de 7.814 €/t em 2015 para 10.829 €/t em 2025, +38,6%), indicando que a redução de volume não se traduziu em quebras de receita na mesma proporção.
3.4. A produção interna da UE cresce em volume, mas o valor mantém-se estável
A produção da UE registou um crescimento notável em volume: de 314 milhões de kg (2015) para 600 milhões de kg (2025), um aumento de 91,1% (Volume de produção). Contudo, o valor da produção manteve-se praticamente estável, em torno de mil milhões de euros (Valor de produção), o que implica uma quebra significativa do preço unitário da produção interna. Este fenómeno pode refletir o crescimento da produção de cocos em territórios ultramarinos da UE (como as Ilhas Canárias, a Madeira ou os Açores), cujos volumes são mais elevados mas cujo valor unitário é inferior ao das castanhas-de-caju ou castanhas-do-brasil importadas.
Conclusão
A evolução do mercado europeu de cocos e castanhas (CN 0801) entre 2015 e 2025 é marcada por três tendências fundamentais: (1) um crescimento robusto da procura, que levou as importações a aumentar 74,8% em valor e 53,9% em volume; (2) uma reconfiguração geográfica significativa das fontes de abastecimento, com o Vietnã a consolidar a sua posição dominante e a Costa do Marfim a emergir como um fornecedor de relevo graças à sua estratégia de processamento local da castanha-de-caju; e (3) uma concentração crescente em torno de poucos fornecedores e de um único segmento de produto — a castanha-de-caju sem casca — que explica a maior parte do crescimento observado.
A dependência estrutural da UE em relação às importações (cerca de 84% do consumo aparente) permanece inalterada, apesar do crescimento volumétrico da produção interna. O aprofundamento do défice comercial, que atingiu -1.574 milhões de euros em 2025, sublinha a vulnerabilidade do bloco a eventuais disrupções nas cadeias de abastecimento globais — como demonstraram os choques de preço detetados nas Filipinas (2021), na Ucrânia (2022) e no Marrocos (2020) (Eventos de choque).
Olhando para o futuro, a crescente concentração das importações num único fornecedor (o Vietnã) e num único segmento (castanha-de-caju sem casca) representa tanto uma oportunidade — pela eficiência das cadeias de abastecimento estabelecidas — como um risco, que justifica a diversificação das fontes de abastecimento e o investimento na valorização de fornecedores africanos emergentes.