Evolução do mercado: Minérios de urânio e tório (CN 2612) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código aduaneiro 2612 — "Minérios de urânio ou de tório, e seus concentrados" — ao longo do período 2015–2025. Este código abrange duas subcategorias principais: minérios de urânio e seus concentrados (261210) e minérios de tório e seus concentrados (261220).
A UE é estruturalmente uma importadora líquida destes minérios, apresentando ao longo de todo o período uma balança comercial negativa. Os volumes negociados são reduzidos em termos absolutos — tipicamente na ordem de unidades a dezenas de toneladas — mas os valores unitários são extremamente elevados, refletindo a natureza estratégica destes recursos energéticos. O relatório organiza-se em três eixos de análise: a evolução do paradoxo volume-preço nas importações, as transformações geográficas nas cadeias de abastecimento e a concentração do mercado, e por fim os episódios de volatilidade e choques de oferta registados ao longo da década.
1. O paradoxo da queda de volume e a escalada dos preços unitários
A evolução das importações: menos toneladas, mas maior valor unitário
O período 2015–2025 foi marcado por uma redução acentuada do volume de minérios de urânio e tório importados pela UE, acompanhada de um aumento significativo do preço médio por tonelada. A quantidade importada passou de 8,995 toneladas em 2015 para 1,44 toneladas em 2025, uma queda de 84,0%. Em contrapartida, o valor total das importações diminuiu apenas 25,3% (de 30 830,8 EUR mil para 23 022,0 EUR mil), enquanto o preço médio de importação subiu 365,3%, de 3 417 EUR/t para 15 901 EUR/t.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Quantidade importada (t) | 8,995 | 1,440 | −84,0% |
| Valor importado (mil EUR) | 30 830,8 | 23 022,0 | −25,3% |
| Preço médio importação (EUR/t) | 3 417 | 15 901 | +365,3% |
Esta dinâmica sugere que, apesar da redução do volume físico, a UE continua a necessitar destes minérios estratégicos e está disposta a pagar preços crescentes — um indício de restrições de oferta no mercado global e/ou de um aumento da procura energética associada ao regresso da energia nuclear na agenda europeia.
As exportações da UE: volumes residuais, mas em crescimento pontual
As exportações da UE de CN 2612 são residualmente pequenas face às importações, mas registaram um crescimento expressivo ao longo do período. O valor exportado subiu de 35,6 EUR mil (2015) para 3 035,2 EUR mil (2025), um aumento de 8 429,6%, enquanto a quantidade passou de 0,018 t para 0,698 t (+3 777,8%). Contudo, estas exportações são pontuais e altamente concentradas em transações isoladas: em 2025, por exemplo, a Itália sozinha representou 31 070 EUR mil em exportações, sugerindo uma operação singular de reexportação ou trânsito.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Quantidade exportada (t) | 0,018 | 0,698 | +3 777,8% |
| Valor exportado (mil EUR) | 35,6 | 3 035,2 | +8 429,6% |
| Preço médio exportação (EUR/t) | 1 977 | 4 229 | +113,9% |
Uma balança comercial estruturalmente deficitária, mas em ligeira recuperação
A balança comercial da UE para CN 2612 permaneceu negativa ao longo de todo o período, confirmando a dependência externa do bloco. O défice atingiu o seu máximo em 2015 (−30 795 EUR mil) e reduziu-se para −19 987 EUR mil em 2025, uma melhoria de 35,1%. Esta recuperação reflete sobretudo a redução das importações em volume, mais do que qualquer expansão significativa das exportações.
Os dois subprodutos: domínio do urânio, peso crescente do tório nas importações
A decomposição por subcódigo revela que o urânio (261210) domina claramente o comércio. Em 2025, os minérios de urânio representaram 1,024 t importadas (20 713 EUR mil), enquanto o tório (261220) totalizou 0,416 t (2 309 EUR mil). Notavelmente, o preço unitário do tório foi em muitos anos significativamente superior ao do urânio — atingindo valores como 181 750 EUR/t (2016) e 184 000 EUR/t (2020) — o que reflete a escassez e a elevada especificidade deste mineral.
2. Reconfiguração geográfica e crescente concentração das cadeias de abastecimento
Reestruturação profunda dos fornecedores de importação
Os principais fornecedores de importação da UE sofreram alterações substanciais entre 2015 e 2025. Os parceiros tradicionais — Reino Unido, Espanha e Irlanda — reduziram drasticamente o seu fornecimento:
| Parceiro | 2015 (EUR mil) | 2025 (EUR mil) | Variação |
|---|---|---|---|
| França | 9 006 | 20 432 | +126,9% |
| Espanha | 15 261 | 1 440 | −90,6% |
| Reino Unido | 6 483 | 61 | −99,1% |
| Irlanda | 6 001 | 594 | −90,1% |
| Itália | 482 | 4 349 | +802,3% |
| Polónia | 1 309 | 3 141 | +139,9% |
| Alemanha | 851 | 98 | −88,5% |
Fonte: Top parceiros por valor
A França emergiu como o principal importador intra-UE, com um crescimento de 126,9%, refletindo provavelmente a centralidade do setor nuclear francês. A Itália (+802,3%) e a Polónia (+139,9%) também ganharam peso significativo. Em contraste, o Reino Unido, que em 2015 era o terceiro maior fornecedor (6 483 EUR mil), reduziu as suas exportações para a UE para apenas 61 EUR mil em 2025 — uma queda de 99,1%, possivelmente associada ao Brexit e à reorganização das cadeias de abastecimento no pós-saída.
Origens extra-UE: diversificação geográfica e novas dependências
No que respeita às origens extra-UE, o quadro é igualmente dinâmico. Os parceiros tradicionais como a África do Sul mantiveram-se relevantes (de 12 186 EUR mil em 2015 para 8 339 EUR mil em 2025, −31,6%), enquanto novos fornecedores ganharam protagonismo:
| Parceiro extra-UE | 2015 (EUR mil) | 2025 (EUR mil) | Variação |
|---|---|---|---|
| África do Sul | 12 186 | 8 339 | −31,6% |
| Níger | 86 | 2 318 | +2 595,3% |
| Namíbia | 2 707 | 4 227 | +56,2% |
| Uzbequistão | 15 560 | 15 560 | 0% |
| Estados Unidos | 9 | 466 | +5 077,8% |
| Suíça | 150 | 56 | −62,6% |
| Reino Unido | 6 483 | 61 | −99,1% |
O Níger destaca-se como um fornecedor cuja importância cresceu exponencialmente (+2 595,3%), refletindo a relevância estratégica do cinturão de urânio saheliano para a segurança energética europeia — nomeadamente para o abastecimento das centrais francesas. Os Estados Unidos e o Uzbequistão surgem também como origens relevantes, embora com padrões muito diferentes: o Uzbequistão manteve um fornecimento estável (15 560 EUR mil), enquanto os EUA apresentaram uma evolução errática.
Crescente concentração do mercado — um risco estrutural
O Índice Herfindahl-Hirschman (HHI) confirma uma tendência preocupante de concentração crescente:
| Dimensão | HHI 2015 | HHI 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 2 957 | 4 964 | +67,9% |
| Exportações (valor) | 5 157 | 8 371 | +62,3% |
| Importações (volume) | 6 285 | 2 861 | −54,5% |
O HHI das importações por valor subiu de 2 957 para 4 964 (+67,9%), aproximando-se do limiar de mercado altamente concentrado (acima de 2 500). No entanto, o HHI por volume desceu 54,5%, o que sugere que a concentração se manifesta sobretudo no valor (i.e., poucos fornecedores dominam as transações de maior valor), enquanto o volume está um pouco mais distribuído. Esta dualidade reflete a natureza estratégica do produto: a UE importa volumes reduzidos mas a preços elevados, concentrando as suas compras em poucos fornecedores-chave.
A especialização revela um padrão assimétrico: a Grécia apresenta um RCA extremamente elevado (142,44) com um RSCA de 0,986, sugerindo que, apesar do seu peso marginal no comércio global, possui uma forte especialização relativa neste setor. Em contraste, os Países Baixos, com maior quota total (14,5%), exibem um RSCA negativo (−0,575), indicando que o seu envolvimento neste comércio não reflete uma vantagem comparativa.
3. Volatilidade, choques de fornecimento e vulnerabilidades estratégicas
Padrões de volatilidade por parceiro comercial
A análise do coeficiente de variação (CV) por parceiro revela níveis muito díspares de instabilidade nas relações comerciais:
Importações — Coeficiente de Variação (CV):
| Parceiro | CV | Classificação |
|---|---|---|
| Reino Unido | 2,367 | Muito elevada |
| Estados Unidos | 1,980 | Muito elevada |
| China | 1,870 | Elevada |
| Austrália | 1,459 | Elevada |
| Canadá | 1,134 | Moderada |
| Níger | 0,716 | Moderada |
| Cazaquistão | 0,671 | Moderada |
| Suíça, África do Sul, Namíbia, Uzbequistão, Japão | n.d. | Dados insuficientes |
Exportações — Coeficiente de Variação (CV):
| Parceiro | CV | Classificação |
|---|---|---|
| Reino Unido | 1,161 | Elevada |
| Noruega | 1,049 | Elevada |
| Suíça | 1,003 | Elevada |
| Canadá | 0,928 | Moderada |
A elevada volatilidade nas importações provenientes do Reino Unido (CV = 2,367) e dos Estados Unidos (CV = 1,980) confirma que estas relações comerciais são particularmente instáveis. Em contraste, os fornecedores africanos (Níger, CV = 0,716) e centro-asiáticos (Cazaquistão, CV = 0,671) apresentam padrões mais previsíveis, possivelmente refletindo contratos de longo prazo.
Choques de fornecimento identificados
O período em análise registou vários episódios de choque de fornecimento:
| Parceiro | Tipo | Fluxo | Ano | Variação | Quota de valor |
|---|---|---|---|---|---|
| Canadá | Oferta | Exportações | 2018 | −100,0% | 0,7% |
| Benim | Oferta | Importações | 2016 | −100,0% | ~0% |
| Equador | Oferta | Importações | 2018 | −100,0% | 0,1% |
O choque mais relevante em termes de potencial impacto foi a cessação total das exportações do Canadá para a UE em 2018, com uma queda de 100%. Embora a quota de valor fosse modesta (0,7%), o Canadá é um dos maiores produtores mundiais de urânio, e esta interrupção — possivelmente ligada à reestruturação do setor mineiro canadense — sinaliza a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento europeias. Os choques no Benim e no Equador, embora de impacto marginal, ilustram a dispersão geográfica e a fragilidade dos fornecedores periféricos.
A questão do preço: de um mercado comprador a um mercado vendedor
A evolução dos preços médios constitui um dos indicadores mais reveladores da transformação do mercado. O preço médio de importação passou de 3 417 EUR/t (2015) para 15 901 EUR/t (2025), um aumento de 365,3%. No entanto, a trajetória não foi linear: os preços atingiram picos extremos em certos anos (o máximo registado foi de 57 024 EUR/t), refletindo a volatilidade intrínseca de um mercado com poucos intervenientes e volumes reduzidos.
Para o subproduto de tório (261220), os preços unitários foram ainda mais extremos, com valores de 184 000 EUR/t em 2020 e 181 750 EUR/t em 2016, confirmando a raridade e o carácter estratégico deste mineral. Estes valores, embora resultem de volumes muito pequenos (por vezes inferiores a 100 kg), ilustram a sensibilidade do mercado a variações mínimas de volume.
Conclusão
O mercado da UE para minérios de urânio e tório (CN 2612) entre 2015 e 2025 revela um setor em profunda transformação, caracterizado por três dinâmicas interligadas:
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Redução de volume com escalada de preços: A UE importa significativamente menos toneladas de minérios de urânio e tório do que no início do período, mas paga preços unitários muito superiores. Este paradoxo reflete a crescente escassez global de oferta, o carácter estratégico do recurso e o renovado interesse europeu pela energia nuclear.
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Reconfiguração das cadeias de abastecimento: O Reino Unido, outrora fornecedor relevante, praticamente desapareceu das exportações para a UE (-99,1%), enquanto a França consolidou a sua posição como principal importador intra-UE. Os fornecedores africanos — nomeadamente o Níger e a Namíbia — ganharam importância, e o mercado tornou-se mais concentrado, com um HHI de importações a subir 67,9%.
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Vulnerabilidades estruturais e volatilidade: A combinação de elevada concentração, volatilidade de preços e episódios de choques de fornecimento (como a cessação das exportações canadenses em 2018) evidencia fragilidades significativas na segurança do abastecimento europeio de matérias-primas nucleares. Neste contexto, as iniciativas europeias de diversificação de fornecedores e de desenvolvimento de capacidades mineiras próprias ganham uma relevância estratégica acrescida.