Evolução do mercado: Escórias siderúrgicas (CN 2619) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no que diz respeito à posição pautal CN 2619 — Escórias (exceto escória de altos-fornos granulada) e outros desperdícios da fabricação do ferro fundido, ferro ou aço, no período compreendido entre 2015 e 2025.
Trata-se de um produto resultante do processo de fabrico do aço, com múltiplas aplicações na indústria da construção civil, cimenteira e na recuperação de solos. O período em análise é particularmente relevante por abranger alterações estruturais significativas nas cadeias de abastecimento europeias, incluindo a pandemia de COVID-19, a crise energética de 2021-2022 e as sanções impostas à Rússia a partir de 2022.
Os dados revelam uma transformação profunda no padrão comercial da UE: a União Europeia passou de uma posição de superavit comercial para um déficit acentuado, com as importações a crescerem de forma exponencial e as exportações a registarem uma quebra acentuada, particularmente em volume.
1. A inversão do saldo comercial: de superavit a déficit estrutural
A dinâmica mais marcante do período 2015-2025 é a inversão completa da balança comercial da UE relativamente às escórias siderúrgicas. Se em 2015 a UE apresentava um superavit de 3,4 milhões de euros, em 2025 o saldo atingiu os -52,6 milhões de euros, registando uma variação de -1 662,5%. O valor mínimo do saldo ao longo do período foi de -196,3 milhões de euros, evidenciando que o déficit chegou a ser ainda mais profundo em anos intermédios.
1.1. Queda acentuada das exportações, sobretudo em volume
As exportações da UE de escórias siderúrgicas para países terceiros sofreram uma redução significativa ao longo da década:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor (EUR) | 14 051 567 | 10 794 324 | -23,2% |
| Quantidade (t) | 413 125 | 206 422 | -50,0% |
| Preço médio (EUR/t) | 34,01 | 52,29 | +53,7% |
Fonte: Visão geral do comércio
O volume exportado caiu para metade (-50%), uma queda mais pronunciada do que a do valor (-23,2%), o que se explica pela subida do preço médio de exportação (+53,7%). Este aumento de preço pode refletir quer uma inflação nos custos de produção, quer uma alteração na composição do produto exportado para subcategorias de maior valor acrescentado.
1.2. Crescimento exponencial das importações
Em contraste com o declínio das exportações, as importações da UE cresceram de forma exponencial:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor (EUR) | 10 687 865 | 63 351 031 | +492,7% |
| Quantidade (t) | 79 208 | 1 072 457 | +1 254,0% |
| Preço médio (EUR/t) | 134,93 | 59,07 | -56,2% |
Fonte: Visão geral do comércio
A quantidade importada multiplicou-se por mais de 13 vezes, atingindo mais de 1 milhão de toneladas em 2025. Curiosamente, o preço médio de importação desceu 56,2%, passando de 134,93 EUR/t para 59,07 EUR/t, o que sugere que a UE passou a importar escórias de fornecedores com custos significativamente mais baixos, possivelmente de países com indústria siderúrgica em expansão e excedentes disponíveis a preços competitivos.
1.3. Os Estados-Membros como polos de absorção
O crescimento das importações não se distribuiu uniformemente pelos Estados-Membros. Os principais destinos de importação em 2025 revelam padrões geográficos interessantes:
| Estado-Membro | Valor 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|
| Países Baixos | 39 367 216 | +9 308,9% |
| Áustria | 23 161 261 | -51,6% |
| Roménia | 11 088 301 | +44 730,8% |
| Bulgária | 3 189 594 | +987,8% |
| França | 3 089 399 | +173,1% |
| Alemanha | 1 792 597 | -72,2% |
| Finlândia | 25 | -100,0% |
Fonte: Principais Estados-Membros importadores
Os Países Baixos tornaram-se, de longe, o principal ponto de entrada na UE, com importações que cresceram mais de 9 000%, atingindo quase 39,4 milhões de euros em 2025. Este crescimento espetacular sugere a consolidação dos portos neerlandeses (nomeadamente Roterdão) como hub logístico para a receção de escórias provenientes de países terceiros, dada a sua capacidade portuária e localização central na Europa. A Roménia e a Bulgária, enquanto economias da Europa de Leste com indústria siderúrgica ativa e custos operacionais mais baixos, também registaram crescimentos muito significativos.
Em contrapartida, a Alemanha e a Áustria — tradicionais potências siderúrgicas — reduziram as suas importações, o que pode refletir uma retração da sua produção siderúrgica ou uma alteração nas fontes de abastecimento de matéria-prima.
2. Diversificação das parcerias comerciais e transformação geográfica
O período 2015-2025 assistiu a uma profunda reconfiguração das parcerias comerciais da UE, tanto no que diz respeito às importações como às exportações, com uma marcante redução da concentração do mercado.
2.1. Queda da concentração: um mercado mais disperso
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI), que mede o grau de concentração do comércio, apresentou uma redução acentuada em ambos os sentidos do comércio:
| Fluxo | HHI 2015 | HHI 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 3 412 | 1 368 | -59,9% |
| Exportações (valor) | 4 372 | 1 694 | -61,3% |
| Importações (volume) | 1 984 | 1 500 | -24,4% |
| Exportações (volume) | 5 571 | 2 083 | -62,6% |
Fonte: Índice de concentração HHI
Em 2015, tanto as importações como as exportações apresentavam uma concentração elevada (HHI acima de 3 000), indicando que o comércio se encontrava fortemente dominado por poucos parceiros. Em 2025, ambos os HHIs desceram para valores próximos de 1 400-1 700, refletindo um mercado significativamente mais diversificado. Esta evolução é positiva do ponto de vista da resiliência da cadeia de abastecimento, embora a dispersão das fontes de importação possa também introduzir novos desafios em termos de controlo de qualidade e logística.
2.2. A ascensão de novos fornecedores: Sérvia, Ucrânia e Canadá
A transformação mais visível nas parcerias de importação reside na emergência de novos fornecedores que praticamente não existiam no início do período:
| Parceiro | Valor importação 2015 (EUR) | Valor importação 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Rússia | 5 776 718 | 34 515 488 | +497,5% |
| Sérvia | 4 978 | 8 971 884 | +180 147,2% |
| Ucrânia | 28 992 | 6 143 649 | +21 090,8% |
| Canadá | 57 265 | 7 184 324 | +12 445,8% |
| Noruega | 1 662 740 | 1 537 234 | -7,5% |
| Suíça | 1 405 596 | 2 187 895 | +55,7% |
| Turquia | 81 269 | 529 935 | +552,1% |
Fonte: Principais parceiros de importação
A Sérvia apresenta o crescimento mais espetacular (+180 147%), passando de um valor marginal de cerca de 5 mil euros para quase 9 milhões de euros. Este crescimento reflete provavelmente a integração da indústria siderúrgica sérvia nas cadeias de valor europeias, beneficiando da proximidade geográfica e de acordos comerciais favoráveis. A Ucrânia (+21 091%) e o Canadá (+12 446%) registaram crescimentos também muito significativos, sugerindo a reorientação das fontes de abastecimento europeias.
No entanto, é relevante notar que a Rússia permaneceu, em 2025, como o maior fornecedor extra-UE de escórias siderúrgicas (34,5 milhões de euros), apesar do contexto de sanções. Os picos de importação da Rússia foram registados antes de 2022 (o máximo atingiu 188 milhões de euros), e a quebra posterior coincide com as sanções impostas no contexto do conflito na Ucrânia. Ainda assim, o valor de 2025 mantém-se significativo, o que pode refletir a existência de isenções específicas para determinados produtos ou de rotas de comércio indireto.
2.3. Redução drástica das exportações para o Reino Unido
No lado das exportações, o parceiro que mais perdeu relevância foi o Reino Unido:
| Parceiro | Valor exportação 2015 (EUR) | Valor exportação 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 8 533 513 | 30 813 | -99,6% |
| Noruega | 3 580 669 | 3 202 724 | -10,6% |
| Sérvia | 465 610 | 2 170 548 | +366,2% |
| Malásia | 3 098 | 1 510 762 | +48 665,7% |
| Israel | 85 500 | 840 486 | +883,0% |
| Ucrânia | 28 869 | 575 930 | +1 895,0% |
| Índia | 19 452 | 118 465 | +509,0% |
Fonte: Principais parceiros de exportação
O colapso das exportações para o Reino Unido (-99,6%), que passou de 8,5 milhões de euros para apenas 31 mil euros, é um dos desenvolvimentos mais marcantes. Esta quebra coincide com o Brexit e a consequente introdução de barreiras alfandegárias e regulatórias que dificultaram significativamente o comércio bilateral. O Reino Unido era, em 2015, o principal destino das exportações da UE de escórias siderúrgicas.
Em paralelo, novos mercados de destino ganharam relevância, nomeadamente a Malásia (+48 666%), a Sérvia (+366%), Israel (+883%) e a Ucrânia (+1 895%), sugerindo uma reorientação geográfica das exportações europeias para mercados emergentes com procura crescente de matéria-prima para a construção e indústria.
2.4. Especialização dos Estados-Membros
A análise da vantagem comparativa revelada (RSCA) em 2025 permite identificar quais os Estados-Membros mais especializados na exportação de escórias siderúrgicas:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota na produção da UE |
|---|---|---|---|
| Hungria | 0,544 | 3,388 | 9,1% |
| Bélgica | 0,503 | 3,020 | 25,6% |
| Finlândia | 0,354 | 2,096 | 2,1% |
| Portugal | 0,301 | 1,861 | 2,6% |
| Países Baixos | 0,272 | 1,746 | 25,3% |
Fonte: Especialização dos Estados-Membros
A Hungria e a Bélgica lideram o ranking de especialização, com RSCA de 0,54 e 0,50 respetivamente. A Bélgica e os Países Baixos destacam-se como os maiores produtores/exportadores em termos de quota de mercado (cada um com cerca de 25% do total da UE), o que é consistente com a presença de importantes complexos siderúrgicos nesses países.
Do lado da desvantagem comparativa, Espanha (RSCA de -0,99), Dinamarca (-0,99) e Polónia (-0,83) são os Estados-Membros menos especializados, refletindo provavelmente uma indústria siderúrgica orientada para o consumo interno ou a inexistência de capacidade significativa de exportação de resíduos siderúrgicos.
3. Choques de preços, volatilidade e o impacto de 2021-2022
O período analisado foi pontuado por eventos de elevada volatilidade, sobretudo nos anos de 2021 e 2022, que alteraram significativamente as dinâmicas de preço e de fluxos comerciais de escórias siderúrgicas.
3.1. Choques de preço identificados
A análise de anomalias de preço revelou três choques significativos:
| Parceiro | Fluxo | Ano | Tipo | Anomalia (σ) | Variação (%) | Quota do valor |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Noruega | Importação | 2022 | Preço | 836,6 | +843,7% | 6,1% |
| Ucrânia | Exportação | 2022 | Preço | 262,3 | +122,1% | 2,8% |
| Turquia | Importação | 2021 | Preço | 95,6 | +104,7% | 5,4% |
Fonte: Eventos de choque de abastecimento
O choque mais acentuado registou-se nas importações provenientes da Noruega em 2022, com uma anomalia de 836,6 desvios-padrão e uma variação de preço de +843,7%. Este evento está provavelmente relacionado com a crise energética europeia de 2022, que afetou severamente os custos de produção na Noruega — um país com elevada dependência de eletricidade na produção de metais — e provocou picos de preços sem precedentes.
O choque nas exportações para a Ucrânia em 2022 (+122,1%) reflete o contexto do conflito armado e a consequente perturbação das cadeias de abastecimento. A Turquia, em 2021, registou um choque de importação de +104,7%, possivelmente relacionado com a escalada dos custos de energia e das commodities a nível global nesse ano.
3.2. Volatilidade por parceiro comercial
Os coeficientes de variação (CV) permitem avaliar a volatilidade dos fluxos ao longo do período:
Importações — maiores coeficientes de variação:
| Parceiro | CV |
|---|---|
| Estados Unidos | 3,30 |
| Sérvia | 1,41 |
| Ucrânia | 1,41 |
| Canadá | 1,27 |
| Noruega | 1,14 |
| Turquia | 1,03 |
Exportações — maiores coeficientes de variação:
| Parceiro | CV |
|---|---|
| Índia | 3,28 |
| China | 2,96 |
| Sérvia | 1,79 |
| Malásia | 1,18 |
| Austrália | 1,11 |
| Reino Unido | 1,03 |
Fonte: Volatilidade do comércio
Os fluxos com os Estados Unidos (CV de 3,30 nas importações) e a Índia (CV de 3,28 nas exportações) apresentam os maiores níveis de volatilidade, refletindo volumes de comércio intermitentes e fortemente dependentes de condições conjunturais. Por outro lado, a Noruega apresenta uma volatilidade relativamente moderada nas exportações (CV de 0,23), sugerindo uma relação comercial mais estável e previsível, o que é consistente com a proximidade geográfica e a integração logística.
3.3. A pressão dos custos de matéria-prima e a procura de alternativas
A conjugação de vários fatores — a transição energética europeia, a crescente pressão regulatória ambiental, as perturbações nas cadeias de abastecimento e o aumento dos custos de energia — explica, em larga medida, as dinâmicas observadas.
A queda do preço médio de importação (de 134,93 EUR/t em 2015 para 59,07 EUR/t em 2025, -56,2%), simultânea ao aumento exponencial dos volumes importados, sugere que a UE procurou ativamente fontes de escórias siderúrgicas mais económicas em países terceiros. Países como a Sérvia, a Ucrânia e o Canadá, com custos de produção mais baixos e excedentes siderúrgicos disponíveis, beneficiaram desta procura europeia.
Por seu lado, a subida do preço médio de exportação (de 34,01 EUR/t para 52,29 EUR/t, +53,7%) indica que as escórias que a UE continua a exportar se dirigem a mercados dispostos a pagar um prémio, ou que a composição das exportações se deslocou para subcategorias de maior valor.
Conclusão
O período 2015-2025 foi marcado por uma transformação estrutural no comércio de escórias siderúrgicas (CN 2619) da União Europeia. Os três desenvolvimentos mais relevantes são:
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Inversão do saldo comercial: a UE passou de uma posição de superavit (3,4 milhões de euros em 2015) para um déficit significativo (-52,6 milhões de euros em 2025), impulsionado por um crescimento exponencial das importações (quantidade ×13,5) e uma redução acentuada das exportações (volume -50%).
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Reconfiguração geográfica: o mercado tornou-se significativamente mais diversificado (HHI de importações reduziu-se de 3 412 para 1 368), com a emergência de novos fornecedores como a Sérvia, a Ucrânia e o Canadá, e a perda de relevância do Reino Unido como destino de exportação (-99,6%) após o Brexit.
-
Pressão sobre preços e volatilidade: os anos de 2021-2022 foram marcados por choques de preços significativos, em particular nas importações da Noruega (+843,7% em 2022), refletindo a crise energética europeia. A descida do preço médio de importação sugere uma reorientação da procura europeia para fornecedores mais económicos.
Em perspetiva, a crescente dependência da UE em importações de escórias siderúrgicas de países terceiros — em particular de fornecedores com contextos geopolíticos complexos — levanta questões de segurança de abastecimento que merecem acompanhamento nos próximos anos. A diversificação observada é positiva, mas a dimensão do déficit comercial e a magnitude do crescimento importador sugerem que a procura europeia por estas matérias-primas secundárias continuará a crescer, impulsionada pela economia circular e pela procura de subprodutos industriais para a construção civil.