Evolução do mercado: Escória granulada (CN 2618) — 2015–2025
Introdução
A escória de altos-fornos granulada (areia de escória) proveniente da fabricação de ferro fundido, ferro ou aço (posição aduaneira CN 2618) é um subproduto da indústria siderúrgica largamente utilizado na construção civil, nomeadamente na produção de cimentos e betões. Entre 2015 e 2025, o comércio externo da União Europeia (UE) com países terceiros neste produto sofreu uma transformação profunda: passou de uma posição de excedente líquido para um défice comercial acentuado, com alterações significativas na estrutura geográfica das trocas, nos preços unitários e no nível de dependência externa.
O presente relatório analisa as principais dinâmicas observadas ao longo da década, com base nos dados disponíveis no Trade Dashboard, organizados em três eixos: a reversão do saldo comercial e a explosão das importações; a reconfiguração dos parceiros geográficos e a crescente concentração das exportações; e os riscos associados à volatilidade, aos choques de fornecimento e à dependência externa.
1. A grande inversão: de excedente a défice estrutural
1.1. As exportações valorizam-se, mas perdem volume
Ao longo da década, o valor das exportações da UE para países terceiros cresceu de €32,4 milhões em 2015 para €116,9 milhões em 2025, um aumento de +260,8% (ver dados). Contudo, esta evolução esconde uma dinâmica contraditória: o volume exportado diminuiu 20,0%, passando de 2,12 milhões de toneladas para 1,69 milhões de toneladas. O mínimo registado foi de 1,41 milhões de toneladas.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (€ milhões) | 32,4 | 116,9 | +260,8% |
| Quantidade (mil t) | 2 117 | 1 694 | −20,0% |
| Preço médio (€/t) | 15,3 | 69,0 | +350,7% |
A explicação reside na forte subida do preço médio de exportação, que passou de €15,3/t para €69,0/t — um aumento de 350,7%. Este fenómeno é consistente com a valorização global das matérias-primas e subprodutos industriais, particularmente após as disrupções da pandemia (2020) e a crise energética europeia (2022). A escória granulada, antes tratada como resíduo de baixo valor, passou a ter procura acrescida como material substituto de clínquer na produção de cimentos com menor pegada de carbono.
1.2. As importações disparam: crescimento explosivo em volume e valor
O contraste com as importações é marcante. Estas cresceram de €4,8 milhões e 156 mil toneladas em 2015 para €226,3 milhões e 5,96 milhões de toneladas em 2025 — variações de +4 581,6% e +3 719,9%, respetivamente.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (€ milhões) | 4,8 | 226,3 | +4 581,6% |
| Quantidade (mil t) | 156 | 5 961 | +3 719,9% |
| Preço médio (€/t) | 31,0 | 38,0 | +22,6% |
Enquanto o preço médio de importação se manteve relativamente estável (de €31,0/t para €38,0/t, +22,6%), o volume multiplicou-se por quase 38 vezes. Isto indica que a procura europeia de escória granulada se deslocou fortemente para fontes externas, provavelmente impulsionada por:
- Limitações na capacidade produtiva europeia de escória granulada face à procura crescente;
- A crescente utilização de adições minerais em cimentos para cumprir objetivos ambientais;
- Preços competitivos de fornecedores terceiros (sobretudo da Ásia e dos Balcãs).
1.3. O saldo comercial inverte-se de forma dramática
Em 2015, a UE registava um excedente comercial de €27,6 milhões. Em 2025, transformou-se num défice de €109,3 milhões — uma reversão de −496,4% (ver evolução do saldo). A dependência líquida de importações subiu de 55,1% para 76,9%, com um mínimo negativo de −8,1% registado num ano intermédio (sugerindo um breve período de excedente).
2. Reconfiguração geográfica: novos fornecedores e crescente concentração das exportações
2.1. As importações diversificam-se geograficamente, mas com riscos
Os principais parceiros de importação da UE em 2025 revelam uma estrutura geográfica diversificada:
| País de origem | Valor 2015 (€) | Valor 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Japão | 600 038 | 64 692 826 | +10 681,5% |
| China | 68 697 | 49 844 308 | +72 456,7% |
| Turquia | 215 128 | 28 564 424 | +13 177,9% |
| Indonésia | 626 | 30 549 520 | +4 880 015,1% |
| Bósnia e Herzegovina | 486 190 | 20 925 540 | +4 204,0% |
| Ucrânia | 1 068 249 | 20 449 724 | +1 814,3% |
| Argélia | 823 181 | 7 256 555 | +781,5% |
Destaca-se a entrada massiva de fornecedores asiáticos: a China passou de valores residuais para €49,8 milhões, o Japão para €64,7 milhões e a Indonésia (praticamente inexistente em 2015) para €30,5 milhões. Esta ascensão reflete provavelmente a redução da capacidade siderúrgica interna desses países e a reorientação das exportações de subprodutos para mercados europeus com procura crescente.
Os índices de concentração HHI das importações mantiveram-se em níveis moderados (de 1 801 para 1 824 em valor), indicando que a base de fornecimento, apesar de transformada, permaneceu razoavelmente diversificada.
2.2. As exportações concentram-se fortemente no Reino Unido
Ao contrário das importações, as exportações da UE tornaram-se drasticamente mais concentradas. O índice HHI das exportações em valor subiu de 1 394 para 6 415 — uma variação de +360,3% —, ultrapassando largamente o limiar de mercado concentrado (2 500).
| País destino | Valor 2015 (€) | Valor 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 5 095 642 | 92 382 254 | +1 713,0% |
| Turquia | 6 175 851 | 14 043 177 | +127,4% |
| Israel | 1 242 016 | 1 316 981 | +6,0% |
| Estados Unidos | 6 828 887 | 34 270 | −99,5% |
| Egipto | 1 007 159 | 151 241 | −85,0% |
| Brasil | 4 890 425 | 386 568 | −92,1% |
| Colômbia | 636 704 | 392 035 | −38,4% |
O Reino Unido tornou-se o destino dominante, absorvendo 79,0% do valor total das exportações da UE em 2025 (€92,4 milhões de €116,9 milhões). Esta concentração é acentuada e representa um risco de mercado. Em sentido oposto, os Estados Unidos — outrora o segundo maior mercado — caíram para valores residuais (−99,5%).
Do lado dos Estados-membros exportadores, a Espanha (€25,8 milhões) e os Países Baixos (€43,5 milhões) lideram em 2025, enquanto a Itália — que em 2015 exportava €5,0 milhões — viu o seu valor cair para €1,2 milhões (−74,4%).
2.3. O perfil de especialização revela heterogeneidade interna
Os dados de especialização para 2025 mostram que apenas alguns Estados-membros possuem vantagem comparativa revelada (RCA > 1) na produção/exportação de escória granulada:
| País | RCA | RSCA |
|---|---|---|
| Luxemburgo | 8,61 | 0,792 |
| Áustria | 3,27 | 0,532 |
| Grécia | 3,21 | 0,525 |
| Eslováquia | 3,03 | 0,504 |
| Finlândia | 2,88 | 0,484 |
Em contraste, países como Portugal (RCA = 0,0002), Roménia (0,0005) e Lituânia (0,0024) apresentam níveis praticamente nulos de especialização, confirmando que a produção e exportação de escória granulada estão geograficamente concentradas nas regiões com indústria siderúrgica ativa.
3. Riscos, volatilidade e vulnerabilidade estrutural
3.1. Choques de preço identificados em fluxos específicos
A análise de choques revelou três eventos de significativa anomalia:
| Evento | Tipo | Fluxo | Ano central | Variação (%) | Peso no valor total |
|---|---|---|---|---|---|
| Egipto | Preço | Exportações | 2020 | +745,8% | 3,1% |
| Israel | Preço | Exportações | 2022 | +124,8% | 2,6% |
| China | Preço | Importações | 2021 | +176,8% | 13,9% |
O choque no Egipto em 2020 (anomalia de 57,8 desvios-padrão) coincide com a pandemia COVID-19 e as disrupções logísticas no Mediterrâneo. O choque nas importações da China em 2021 (13,9% do valor total) reflete provavelmente a escalada dos preços das matérias-primas industriais no contexto da recuperação pós-pandemia.
3.2. Volatilidade elevada nos fluxos com parceiros-chave
Os coeficientes de variação (CV) revelam elevada instabilidade em vários fluxos:
- Importações: China (CV = 1,38), Brasil (1,99), Índia (1,93) e Ucrânia (1,19) apresentam os maiores CVs, indicando fornecimento intermitente ou muito sensível a choques.
- Exportações: Gana (CV = 1,62), Estados Unidos (1,07) e Ucrânia (1,04) registam os maiores níveis de volatilidade nos destinos de exportação.
A Turquia, apesar de ser um parceiro relevante em ambos os fluxos, apresenta volatilidade moderada (CV de 0,78 nas importações e 0,26 nas exportações), sugerindo relações comerciais mais estáveis.
3.3. Dependência externa crescente e vulnerabilidade
A dependência líquida de importações atingiu 76,9% em 2025, um valor historicamente elevado. Embora a produção interna da UE tenha registado um crescimento de +9,4% em quantidade (de 1,90 mil milhões de kg para 2,08 mil milhões de kg) e de +21,0% em valor (de €100,0 milhões para €121,0 milhões), este crescimento foi claramente insuficiente para acompanhar a procura.
Paralelamente, a propensão para exportar caiu de 623,0% para 240,5% (−61,4%), indicando que a produção europeia está a ser crescentemente absorvida pelo mercado interno, ou que as capacidades de exportação se reduziram. A intensidade comercial também diminuiu (de 161,9% para 120,9%), sugerindo que o comércio internacional, embora crescente em valor absoluto, perdeu peso relativo face ao consumo total.
Conclusão
A evolução do comércio da UE na posição CN 2618 entre 2015 e 2025 é marcada por três tendências estruturais:
-
Uma inversão radical do saldo comercial, que passou de um excedente de €27,6 milhões para um défice de €109,3 milhões, impulsionada por uma explosão das importações em volume (×38) que a produção interna não conseguiu compensar.
-
Uma reconfiguração geográfica profunda, com a entrada massiva de fornecedores asiáticos (Japão, China, Indonésia) nas importações e uma concentração extrema das exportações no Reino Unido (79% do valor em 2025).
-
Um aumento da vulnerabilidade estrutural, com a dependência líquida de importações a atingir 76,9% e elevada volatilidade nos principais fluxos de fornecimento, nomeadamente com a China e com parceiros dos Balcãs.
A crescente procura de escória granulada como material de substituição parcial do clínquer — no contexto da transição verde e da redução da pegada de carbono dos cimentos — deverá manter a pressão sobre a procura europeia. Os decisores políticos e os operadores económicos devem acompanhar de perto a evolução desta dependência, nomeadamente no que respeita à diversificação das fontes de abastecimento e ao reforço da capacidade produtiva interna.