Evolução do mercado: Cinzas e resíduos (CN 2620) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 2620 abrange escórias, cinzas e resíduos que contenham metais, arsénio ou os seus compostos, excluindo os provenientes da fabricação de ferro fundido, ferro ou aço. Trata-se de uma posição pautal agregadora que engloba nove subcategorias, desde resíduos contendo principalmente zinc (262019), cobre (262030) e alumínio (262040) até resíduos contendo antimónio, berílio, cádmio ou crómio (262091). Estes materiais constituem matérias-primas secundárias essenciais para a indústria metalúrgica europeia, sendo reaproveitados para a recuperação de metais valiosos.
O período 2015–2025 foi marcado por profundas transformações no comércio europeu deste produto. Em termos gerais, a UE passou de um défice comercial marginal de −7,5 milhões de euros em 2015 para um excedente de +26,8 milhões em 2025, apesar de as importações terem crescido a um ritmo substancial. As exportações valorizaram-se 59,0 % em valor (de 331,6 para 527,1 milhões de euros) e 117,7 % em volume (de 132 306 para 287 996 toneladas), enquanto as importações cresceram 47,5 % em valor e 93,4 % em volume. Este relatório analisa as principais dinâmicas que moldaram este mercado ao longo da última década.
1. Redução generalizada de preços e crescimento assimétrico de volumes
1.1. Queda sustentada dos preços unitários em ambas as correntes comerciais
Um dos fenómenos mais marcantes do período é a erosão consistente dos preços unitários. Os preços de exportação desceram de 2 506 €/t para 1 830 €/t (−27,0 %), atingindo um mínimo de 1 634 €/t durante o período. Os preços de importação reduziram-se de 1 165 €/t para 889 €/t (−23,7 %). Esta tendência reflete, em parte, alterações na composição do mix comercial — com o crescimento de segmentos de menor valor unitário, como os resíduos de alumínio (262040), cujo preço de importação se situou nos 372 €/t em 2025 — mas também pressões de mercado mais amplas sobre as matérias-primas secundárias.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Preço exportação (€/t) | 2 506 | 1 830 | −27,0 % |
| Preço importação (€/t) | 1 165 | 889 | −23,7 % |
1.2. O volume cresceu mais do que o valor — uma expansão orientada pela quantidade
O crescimento dos volumes ultrapassou largamente o crescimento em valor, evidenciando a queda dos preços. As importações duplicaram quase em volume (+93,4 %, de 290 991 para 562 684 t), enquanto o valor cresceu apenas 47,5 %. As exportações mais do que duplicaram em volume (+117,7 %), com valor a crescer 59,0 %. Esta desconexão entre volume e valor sugere que a UE está a movimentar quantidades crescentes de resíduos metálicos a preços unitários decrescentes, o que pode indicar tanto mudanças na composição do produto como pressão competitiva nos mercados globais de sucata e resíduos.
1.3. A produção interna da UE acompanhou a tendência de crescimento moderado
A produção europeia de cinzas e resíduos metálicos cresceu 9,4 % em peso (de 1 902 para 2 080 milhões de kg) e 21,0 % em valor (de 100 para 121 milhões de euros) entre o primeiro e o último ano do período. Contudo, este crescimento é significativamente inferior ao registado nas importações, o que evidencia uma dependência crescente de fornecedores externos para alimentar a indústria de recuperação de metais na UE.
2. Reconfiguração geográfica das relações comerciais
2.1. A Turquia emergiu como principal fornecedor de importações com crescimento excecional
A transformação mais dramática do mapa de fornecedores da UE é o crescimento explosivo das importações provenientes da Turquia, que passaram de 3,1 milhões de euros em 2015 para 52,5 milhões em 2025 — um aumento de 1 580,6 %. Complementarmente, a Turquia tornou-se também um destino de exportação relevante, com vendas da UE a crescerem de 3,5 para 6,3 milhões (+80,5 %). A Turquia funciona assim como um parceiro bidirecional, refletindo a sua posição crescente na cadeia de valor dos resíduos metálicos no espaço euro-mediterrânico.
2.2. Perda de relevância dos fornecedores nórdicos e diversificação das fontes de abastecimento
Em contraste com a ascensão turca, as importações provenientes da Noruega caíram de 32,0 para 11,5 milhões de euros (−64,1 %). O Canadá, por outro lado, consolidou-se como um fornecedor de peso, crescendo de 19,2 para 53,8 milhões de euros (+180,3 %), atingindo um máximo intercalar de 137,1 milhões. A África do Sul também quadruplicou as suas exportações para a UE (de 4,6 para 9,3 milhões, +103,7 %). Globalmente, os Estados Unidos mantiveram-se como o maior fornecedor individual, com 129,2 milhões de euros em 2025, embora com crescimento mais moderado (+34,3 %).
2.3. Erosão da concentração das exportações e novos destinos emergentes
A concentração das exportações (HHI por valor) desceu de 3 070 para 2 210 (−28,0 %), indicando uma diversificação significativa dos destinos. A Austrália surgiu como um destino ex novo, passando de valores residuais para 37,0 milhões de euros. A Índia mais que quintuplicou as suas compras à UE (de 4,2 para 22,7 milhões, +444,0 %), consolidando-se como destino prioritário. Por outro lado, as exportações para a Suíça despenharam 90,9 %, refletindo possivelmente a reorientação do fluxo de resíduos metálicos europeus para mercados com maior capacidade de processamento.
3. Espanha como epicentro do comércio europeu e mudanças na especialização
3.1. Espanha consolidou-se como o principal exportador da UE — e simultaneamente como grande importador
Espanha domina as exportações da UE, com 357,9 milhões de euros em 2025, representando cerca de dois terços do total, com um crescimento de 44,9 % face a 2015. Simultaneamente, as suas importações dispararam de 38,0 para 108,3 milhões de euros (+185,1 %). Esta combinação revela o papel central de Espanha como hub de processamento e reexportação de resíduos metálicos na UE, provavelmente sustentado pela sua capacidade industrial em fundição e refinação.
3.2. A Bélgica e a Polónia registaram crescimentos extraordinários enquanto a Alemanha recuou
A Bélgica aumentou as suas exportações de 12,7 para 57,0 milhões de euros (+347,6 %), consolidando-se como segundo maior exportador da UE. A Grécia emergiu de praticamente zero para 24,9 milhões de euros, um crescimento de 39 107 %, tornando-se o quinto maior exportador. No lado das importações, a Polónia cresceu de 6,7 para 45,8 milhões (+583,2 %) e a Bélgica de 78,4 para 137,8 milhões (+75,8 %). Em contraste, a Alemanha — historicamente o maior importador — reduziu as suas compras externas em 44,7 %, de 117,4 para 64,9 milhões de euros, sugerindo uma perda de competitividade ou de capacidade de processamento no setor alemão.
3.3. A Finlândia e a Bélgica lideram a especialização na produção de resíduos metálicos
De acordo com o índice de especialização (RSCA), a Finlândia é o Estado-Membro mais especializado neste produto em 2025, com um RSCA de 0,90 e uma quota de 19,5 % na produção total da UE — reflexo da sua indústria metalífera intensiva. A Bélgica (RSCA de 0,35) e os Países Baixos (0,13) seguem-se, com quotas de produção de 17,4 % e 18,8 %, respetivamente. No extremo oposto, a Irlanda (RSCA de −0,99), a Lituânia (−0,97) e o Luxemburgo (−0,94) apresentam especialização negativa, refletindo a inexistência ou irrelevância de indústria de processamento destes resíduos nos seus territórios.
3.4. Aumento da dependência líquida de importações apesar do excedente comercial nominal
Embora a UE tenha registado uma melhoria significativa da balança comercial (de −7,5 para +26,8 milhões de euros), a dependência líquida de importações subiu de 55,1 % para 76,9 %. Isto significa que, em termos de volume, a UE importa cada vez mais resíduos metálicos do exterior relativamente ao seu consumo aparente. A melhoria do excedente em valor resulta essencialmente do facto de os preços de exportação serem sistematicamente superiores aos de importação (1 830 €/t vs. 889 €/t em 2025), indicando que a UE exporta produtos de maior valor unitário — possivelmente resíduos mais ricos em metais preciosos ou melhor pré-processados — e importa feedstock de menor valor para alimentar as suas instalações de recuperação. A propensão para exportar caiu 61,4 %, reforçando a narrativa de crescente absorção interna destes materiais.
Conclusão
O mercado europeu de cinzas e resíduos metálicos (CN 2620) viveu uma transformação profunda entre 2015 e 2025. Os volumes comercializados cresceram de forma espetacular — as importações quase duplicaram e as exportações mais do que duplicaram — mas a uma cadência de preços decrescentes, resultando num crescimento do valor muito inferior ao crescimento físico. A UE passou de um equilíbrio comercial praticamente neutro para um excedente nominal em valor, graças a uma vantagem estrutural nos preços de exportação, mas viu simultaneamente a sua dependência líquida de fornecedores externos atingir quase 77 %, o que constitui um risco em termos de autonomia estratégica no que toca ao abastecimento de matérias-primas críticas.
Do ponto de vista geográfico, a Turquia e o Canadá são as estrelas ascendentes como fornecedores, enquanto a Noruega perdeu relevância. As exportações diversificaram-se significativamente, com a Austrália e a Índia a tornarem-se destinos de peso. No quadro interno da UE, Espanha consolidou-se como o centro nevrálgico do setor, com a Bélgica e a Polónia a registarem crescimentos notáveis, enquanto a Alemanha perdeu terreno.
A crescente concentração geográfica das importações em poucos fornecedores-chave — com a Turquia a registar volatilidade particularmente elevada (CV de 1,30) — e a divergência entre volumes crescentes e preços em queda constituem os principais pontos de atenção para os decisores europeus que acompanham a segurança de abastecimento de matérias-primas no âmbito do Regulamento sobre Matérias-Primas Críticas.