Evolução do mercado: Minério de cobalto (CN 2605) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no segmento de minérios de cobalto e seus concentrados (código CN 2605) ao longo do período 2015–2025. O cobalto é uma matéria-prima crítica para a indústria europeia, essencial na produção de baterias para veículos elétricos, ligas metálicas de alta resistência e catalisadores. A análise incide sobre os fluxos de importação e exportação com países terceiros, a estrutura de fornecimento, os choques de preços registados e a vulnerabilidade estratégica do bloco. Os dados revelam um período de profunda transformação: contração acentuada dos volumes transacionados, colapso quase total da produção interna europeia e crescente concentração geográfica das cadeias de abastecimento.
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1. A espiral descendente do comércio e da produção europeia de cobalto
O período 2015–2025 foi marcado por uma erosão sistemática dos volumes de comércio de minério de cobalto na União Europeia, tanto nas importações quanto — de forma ainda mais dramática — nas exportações. Paralelamente, a produção europeia praticamente desapareceu.
1.1. Importações: volumes em queda livre, preços em ascensão
As importações da UE de minério de cobalto registaram uma redução acentuada ao longo da década. Em termos de valor, passaram de €1 863 886 em 2015 para €427 429 em 2025, uma queda de 77,1%. Em quantidade, a quebra foi ainda mais pronunciada: de 128 toneladas para apenas 19,3 toneladas (-84,9%). Em contrapartida, o preço médio de importação subiu de €14 559/t para €22 157/t (+52,2%), sinal de que a UE passou a adquirir menores volumes a preços unitários significativamente mais elevados.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (EUR) | 1 863 886 | 427 429 | -77,1% |
| Quantidade (t) | 128,0 | 19,3 | -84,9% |
| Preço médio (EUR/t) | 14 559 | 22 157 | +52,2% |
Estes dados sugerem um mercado europeu estruturalmente mais pequeno, com menor procura de minério bruto e pressão inflacionária sobre os preços de aquisição, possivelmente refletindo a escassez crescente de fornecedores e a volatilidade dos mercados globais.
1.2. Exportações europeias: o desaparecimento quase total
A evolução das exportações foi ainda mais drástica. O valor exportado caiu de €1 573 282 em 2015 para praticamente zero em 2025 (€1,18), uma redução de -100%. A quantidade exportada seguiu a mesma trajetória, descendo de 714 toneladas para 0 toneladas. Apenas o preço médio de exportação subiu (de €2 203/t para €3 309/t, +50,2%), mas num contexto em que o volume se tornou residual.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (EUR) | 1 573 282 | 1,18 | -100,0% |
| Quantidade (t) | 714,1 | 0,0 | -100,0% |
| Preço médio (EUR/t) | 2 203 | 3 309 | +50,2% |
1.3. Produção interna europeia em colapso
A produção europeia de minério de cobalto, rastreada por volume e valor, sofreu um declínio catastrófico. A quantidade produzida passou de 870 000 kg em 2015 para apenas 583 kg em 2025, uma queda de -99,9%. O valor de produção caiu de €20 000 000 para €2 998 000 (-85,0%). Estes números indicam que a Europa praticamente cessou a extração de minério de cobalto no seu território, tornando-se quase inteiramente dependente de importações para o abastecimento desta matéria-prima crítica.
2. Reconfiguração geográfica das cadeias de abastecimento
A redução dos volumes de comércio acompanhou-se de uma profunda transformação na geografia dos parceiros comerciais, com a concentração a intensificar-se significativamente.
2.1. Reestruturação dos fornecedores: o fim do domínio britânico e japonês
Em 2015, o Reino Unido era de longe o principal fornecedor de minério de cobalto à UE, com importações no valor de €1 182 500, representando mais de 63% do total. Em 2025, esse valor desceu para €302 976 (-74,4%), embora o parceiro tenha mantido a liderança. O Japão, segundo maior fornecedor em 2015 com €602 862, viu as suas exportações para a UE descerem para €545 (-99,9%), tornando-se marginal.
Em contrapartida, novos fornecedores ganharam relevância relativa:
- Os Estados Unidos passaram de €19 128 para €116 164 (+507,3%).
- O Brasil cresceu de €96 603 para €128 358 (+32,9%).
- A Rússia surge nos dados com €50 544, embora sem variação ao longo do período.
| Parceiro (importações) | 2015 (EUR) | 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 1 182 500 | 302 976 | -74,4% |
| Estados Unidos | 19 128 | 116 164 | +507,3% |
| Japão | 602 862 | 545 | -99,9% |
| Brasil | 96 603 | 128 358 | +32,9% |
| Rússia | 50 544 | 50 544 | 0,0% |
| Marrocos | 1 742 | 382 | -78,1% |
A evolução dos parceiros por valor evidencia uma diversificação parcial, mas insuficiente face à contração dos volumes totais.
2.2. Concentração crescente e desvio para o Brasil
A concentração das importações (HHI) subiu de 5 103 para 5 814 (+13,9%), sinal de maior dependência de um número reduzido de fornecedores. Nas exportações, a concentração disparou de 4 535 para 9 899 (+118,2%), atingindo níveis muito elevados, o que reflete o facto de os fluxos de exportação se terem reduzido a muito poucos parceiros.
No que respeita às exportações da UE, a reconfiguração foi igualmente marcante. O Reino Unido, principal destino em 2015 (€1 018 619), praticamente desapareceu (€12 em 2025, -100%). A China cresceu significativamente, de €53 594 para €360 330 (+572,3%). Contudo, a transformação mais notável foi o crescimento explosivo das exportações para o Brasil: de €34 001 em 2015 para €4 715 482 em 2025 (+13 768,7%), fazendo do Brasil o destino dominante das exportações europeias.
| Parceiro (exportações) | 2015 (EUR) | 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 1 018 619 | 12 | -100,0% |
| China | 53 594 | 360 330 | +572,3% |
| Brasil | 34 001 | 4 715 482 | +13 768,7% |
| Malásia | 183 600 | 58 874 | -67,9% |
| Vietname | 168 439 | 124 044 | -26,4% |
| Coreia do Sul | 120 536 | 47 108 | -60,9% |
2.3. Especialização dos Estados-Membros: Itália como exceção
De acordo com os índices de especialização de 2025, a Itália é o único Estado-Membro com vantagem comparativa revelada (RCA de 11,71 e RSCA de 0,84), concentrando 93,8% da sua produção nacional no setor de minérios de cobalto. Todos os restantes principais parceiros — Eslováquia (RSCA -0,62), Alemanha (-0,69), França (-0,79) e Países Baixos (-0,88) — apresentam índices negativos, o que indica que a sua participação no comércio de cobalto é inferior à média, confirmando o carácter altamente especializado e geograficamente concentrado do setor na UE.
No que respeita aos principais Estados-Membros importadores, registou-se uma alteração significativa dos protagonistas:
| Estado-Membro (importações) | 2015 (EUR) | 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Bélgica | 1 574 217 | 843 | -99,9% |
| França | 140 065 | 234 670 | +67,5% |
| Irlanda | 73 785 | 113 003 | +53,2% |
| Itália | 23 130 | 61 096 | +164,1% |
| Países Baixos | 96 856 | 43 605 | -55,0% |
A Bélgica, que dominava as importações em 2015 com €1 574 217, reduziu a sua atividade a €843 em 2025 (-99,9%). Em contrapartida, França, Irlanda e Itália aumentaram significativamente as suas importações.
3. Choques de preços, volatilidade elevada e riscos sistémicos
Para além da contração estrutural, o mercado de minério de cobalto na UE foi marcado por episódios de elevada volatilidade e choques de preços significativos que amplificaram a exposição a riscos de abastecimento.
3.1. Volatilidade acentuada nos principais parceiros
O índice de volatilidade (coeficiente de variação) revela uma variabilidade muito elevada nos fluxos de comércio com vários parceiros. Nas importações, destaca-se a Coreia do Sul (CV de 2,39) e Marrocos (CV de 1,67), enquanto o Reino Unido (1,06) e os Estados Unidos (1,04) apresentam também volatilidade significativa. Nas exportações, o Reino Unido (CV 0,96), a China (1,05) e o Brasil (0,47) exibem níveis variáveis de instabilidade, sendo que o crescimento exponencial das exportações para o Brasil contribuiu para uma dinâmica altamente concentrada e potencialmente frágil.
3.2. Choques de preços em 2017–2018: o ponto de viragem
A análise de choques de abastecimento identificou três eventos de grande magnitude:
| Evento | Tipo | Fluxo | Centro | Variação | Grau de anomalia | Peso no valor |
|---|---|---|---|---|---|---|
| EUA — choque de preço | Preço | Importação | 2018 | +1 928,6% | 25,0 | 5,4% |
| Brasil — choque de preço | Preço | Exportação | 2017 | +945,4% | 12,9 | 45,1% |
| Reino Unido — choque de preço | Preço | Importação | 2018 | +342,9% | 11,1 | 82,8% |
O choque mais significativo ocorreu nas importações provenientes do Reino Unido em 2018, com uma variação de preço de +342,9% e um grau de anomalia de 11,1, afetando 82,8% do valor total das importações da UE nesse parceiro. Este episódio coincide com o período de boom especulativo nos preços do cobalto (2017–2018), impulsionado pela procura de baterias de iões de lítio para veículos elétricos. Em paralelo, registou-se um choque de preço nas exportações para o Brasil em 2017 (+945,4%), e nos EUA em 2018 (+1 928,6%), embora com menor peso relativo no valor total.
3.3. Dependência estrutural e riscos para a autonomia europeia
Os indicadores de vulnerabilidade pintam um quadro preocupante. A dependência líquida de importações (net import reliance) situou-se em 5,8% em 2025, ligeiramente inferior a 2015 (6,8%), mas com uma amplitude de variação que atingiu -80,6% no mínimo, refletindo anos em que a UE foi exportador líquido. A intensidade comercial desceu de 11,6% para 10,5% (-9,0%), enquanto a propensão exportadora manteve-se estável em torno de 2,7%.
| Indicador de vulnerabilidade | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações (%) | 6,8 | 5,8 | -15,4% |
| Intensidade comercial (%) | 11,6 | 10,5 | -9,0% |
| Propensão exportadora (%) | 2,7 | 2,7 | -1,5% |
Contudo, estes indicadores relativos mascaram uma realidade absoluta preocupante: com a produção interna europeia reduzida a 583 kg e os volumes de importação a apenas 19,3 toneladas, o mercado europeu de minério de cobalto encontra-se num estado de contração extrema. A concentração das exportações (HHI) em 9 899 — próximo do limiar de monopolização (10 000) — confirma que os fluxos restantes estão concentrados em muito poucos parceiros, elevando significativamente o risco de disrupção.
Conclusão
A evolução do mercado europeu de minérios de cobalto (CN 2605) entre 2015 e 2025 é marcada por três tendências convergentes e preocupantes: (1) uma contração massiva dos volumes de comércio e da produção interna; (2) uma reconfiguração radical das cadeias de abastecimento, com o fim do domínio do Reino Unido e do Japão e a emergência do Brasil e dos EUA como parceiros-chave; e (3) episódios de volatilidade extrema e concentração crescente que amplificam a exposição da UE a riscos de abastecimento.
O colapso da produção europeia (de 870 toneladas para menos de 1 kg) e a redução das importações para 19,3 toneladas sugerem que o minério de cobalto bruto deixou de ser um produto significativo no comércio europeu, possivelmente devido à reorientação da procura para intermediários processados (cobalto refinado, sulfatos de cobalto) ou a mudanças nas cadeias de valor da indústria das baterias. Contudo, num contexto em que o cobalto permanece uma matéria-prima crítica para a transição energética europeia, a quase-total desaparecimento da capacidade de extração e o reduzido número de fornecedores remanescentes representam um risco estratégico que merece atenção política, em linha com os objetivos da Lei Europeia das Matérias-Primas Críticas.