Evolução do mercado: Tiras de aço-liga (CN 7226) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento de produtos laminados planos de outras ligas de aço, com largura inferior a 600 mm (posição aduaneira CN 7226), ao longo do período 2015–2025. Esta posição engloba subcategorias distintas, desde aços elétricos ao silício (grãos orientados e não orientados) até aços de corte rápido e produtos laminados a quente ou a frio de outras ligas. A análise baseia-se nos fluxos de importação e exportação da UE com países terceiros, abrangendo valores, volumes, preços, parceiros comerciais, estrutura produtiva e vulnerabilidades de abastecimento.
1. A UE consolidou-se como exportador líquido, com ganhos líquidos de 50 %
O saldo comercial passou de positivo a fortemente favorável
O balanço comercial da UE em CN 7226 com países terceiros evoluiu de 441 milhões de euros em 2015 para 663 milhões de euros em 2025, um crescimento de 50,2 % (Visão geral do comércio). Este resultado resultou de uma divergência acentuada entre exportações e importações:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor, mil M €) | 597,7 | 753,4 | +26,0 % |
| Importações (valor, mil M €) | 156,7 | 90,9 | −42,0 % |
| Saldo (mil M €) | 441,0 | 662,5 | +50,2 % |
| Exportações (volume, kt) | 370,3 | 253,3 | −31,6 % |
| Importações (volume, kt) | 118,6 | 43,7 | −63,1 % |
| Preço médio exportações (€/t) | 1 614 | 2 973 | +84,2 % |
| Preço médio importações (€/t) | 1 311 | 2 078 | +58,5 % |
Fonte: Dados de comércio.
O colapso dos volumes mascarou uma forte valorização das exportações
O volume exportado caiu 31,6 % (de 370 kt para 253 kt), mas o valor subiu 26,0 % graças a uma escalada de preços de 84,2 % — de 1 614 €/t para 2 973 €/t. O pico de preços ocorreu precisamente em 2025. Do lado das importações, a redução foi ainda mais pronunciada: o volume encolheu 63,1 % e o valor baixou 42,0 %, com o preço médio das importações a subir 58,5 %, mas de forma menos intensa do que nas exportações.
A dependência líquida de importações inverteu-se de forma decisiva
A dependência líquida de importações passou de +0,77 % em 2015 (ligeira dependência externa) para −6,20 % em 2025, tendo atingido um mínimo de −13,89 % num ano intermédio. Valores negativos indicam que a UE exporta mais do que importa, ou seja, tornou-se fornecedor líquido para o mercado mundial. Esta inversão reflecte tanto a redução drástica das importações como o crescimento sustentado das exportações em valor.
2. Reconfiguração geográfica: sanções à Rússia, ascensão da China e erosão do comércio pós-Brexit
As importações sofreram uma revolução na sua estrutura por parceiro
A repartição das importações por parceiro alterou-se radicalmente entre 2015 e 2025:
| Parceiro | Importações 2015 (mil M €) | Importações 2025 (mil M €) | Variação |
|---|---|---|---|
| Federação Russa | 38,2 | 0,4 | −99,0 % |
| Reino Unido | 39,5 | 8,3 | −78,9 % |
| Japão | 33,0 | 12,5 | −62,2 % |
| EUA | 14,3 | 3,4 | −76,4 % |
| China | 8,2 | 30,4 | +271,1 % |
| Turquia | 2,6 | 13,1 | +415,0 % |
| Suíça | 11,4 | 10,8 | −5,4 % |
Fonte: Parceiros — importações.
Três dinâmicas sobressaem:
- Rússia: de maior fornecedor externo (38,2 M €, 24,4 % das importações totais) a fornecedor residual (0,4 M € em 2025, −99 %). A queda abrupta entre 2022 e 2024 é consistente com as sanções impostas pela UE após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. Trata-se do choque de oferta mais significativo registado no período, com uma queda de −99,9 % e uma anomalia de 2,9 desvios-padrão.
- China e Turquia preencheram parcialmente o vazio: as importações chinesas cresceram 271 % (de 8,2 M € para 30,4 M €), tornando a China o maior fornecedor extra-UE em 2025; as importações turcas aumentaram 415 % (de 2,6 M € para 13,1 M €).
- Reino Unido: as importações caíram 78,9 % (de 39,5 M € para 8,3 M €), reflexo provável das fricções comerciais pós-Brexit e da introdução de barreiras alfandegárias e regulamentares.
Os destinos de exportação mantiveram-se estáveis, com o México como a grande novidade
Do lado das exportações, os parceiros tradicionais mantiveram-se dominantes:
| Parceiro | Exportações 2015 (mil M €) | Exportações 2025 (mil M €) | Variação |
|---|---|---|---|
| Suíça | 102,7 | 122,7 | +19,5 % |
| China | 113,5 | 134,0 | +18,1 % |
| EUA | 108,5 | 88,0 | −18,9 % |
| Reino Unido | 29,6 | 30,2 | +2,1 % |
| Turquia | 19,5 | 19,6 | +0,2 % |
| Índia | 29,9 | 22,8 | −23,7 % |
| México | 8,2 | 32,0 | +291,6 % |
O México destaca-se com um crescimento de 291,6 %, passando de parceiro secundário a quinto maior destino das exportações da UE. Este crescimento pode reflectir a reconfiguração das cadeias de abastecimento norte-americanas e o aumento da procura industrial no México. A queda das exportações para os EUA (−18,9 %) e a Índia (−23,7 %) sugere uma perda de competitividade ou mudanças na procura nesses mercados.
A volatilidade das importações é sistematicamente superior à das exportações
Os coeficientes de variação revelam que os fluxos de importação são mais instáveis:
- Importações dos EUA: CV = 0,97 (o mais volátil);
- Importações da Noruega: CV = 0,95;
- Importações do Brasil e Índia: CV ≈ 0,78.
As exportações apresentam volatilidade mais contida, com os parceiros mais fiáveis a serem a Suíça (CV = 0,18), a Turquia (CV = 0,22) e o Brasil (CV = 0,21). Esta assimetria sugere que a UE tem maior controlo sobre os seus fluxos de saída do que sobre as suas fontes de abastecimento externo.
3. Estrutura industrial: a Alemanha lidera a produção, mas a França ganha peso exportador
A produção europeia cresceu significativamente em valor
Os dados de produção mostram que a produção da UE em CN 7226 cresceu de 1,9 mil milhões de kg (2015) para 3,1 mil milhões de kg (2025), um aumento de 62,4 % em volume. Em valor, o crescimento foi ainda mais expressivo: de 2 173 milhões de euros para 4 104 milhões de euros (+88,8 %), reflectindo a escalada de preços do aço.
A concentração das exportações por Estado-Membro é dominada por cinco países
A especialização produtiva revela uma estrutura altamente concentrada:
| Estado-Membro | Participação nas exportações (2015) | Participação nas exportações (2025) | RCA | RSCA |
|---|---|---|---|---|
| Alemanha | 319,4 M € | 287,0 M € | 1,43 | 0,18 |
| França | 116,3 M € | 290,8 M € | 1,29 | 0,13 |
| Áustria | 62,1 M € | 89,0 M € | 7,27 | 0,76 |
| Suécia | 29,1 M € | 19,0 M € | — | — |
| Itália | 15,2 M € | 29,5 M € | — | — |
A Alemanha permanece o maior exportador, mas viu o seu valor diminuir 10,2 %. Em contraste, a França mais do que duplicou as suas exportações (+150 %), passando de 116 M € para 291 M €, aproximando-se da Alemanha. A Áustria apresenta a maior RCA (7,27) e RSCA (0,76), indicando uma especialização comparativa muito forte neste produto.
O segmento de aços laminados a frio (722692) domina o comércio
A segmentação por subproduto revela que o subproduto 722692 (simplesmente laminados a frio) é o mais relevante:
| Subproduto | Exportações 2025 (valor, mil M €) | Participação |
|---|---|---|
| 722692 — Laminados a frio | 465,3 | 61,8 % |
| 722691 — Laminados a quente | 82,6 | 11,0 % |
| 722699 — Outros ligas, further worked | 77,0 | 10,2 % |
| 722611 — Grãos orientados | 63,8 | 8,5 % |
| 722619 — Silício-eléctrico, não orientado | 54,3 | 7,2 % |
| 722620 — Aço de corte rápido | 10,3 | 1,4 % |
Os produtos laminados a frio representam quase dois terços do valor exportado, reflectindo a procura por aços de maior valor acrescentado. Curiosamente, os preços do aço de corte rápido (722620) são os mais elevados — atingindo 16 288 €/t nas exportações em 2025 — embora o volume seja marginal.
A concentração das importações diminuiu, sinalizando diversificação
O índice HHI das importações por parceiro (em valor) baixou ligeiramente de 1 862 para 1 840 (−1,2 %), enquanto o HHI das importações por volume caiu acentuadamente de 3 928 para 2 086 (−46,9 %). O HHI das exportações por valor subiu 10,2 % (de 1 144 para 1 261), indicando uma ligeira concentração dos destinos de exportação. Em termes de propensão exportadora, o rácio subiu de 1,75 % para 7,95 % (+353 %), confirmando a crescente orientação externa da indústria europeia de aços-liga.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação estrutural no comércio da UE em CN 7226. A UE consolidou-se como exportador líquido, com o saldo comercial a crescer 50 % para 663 milhões de euros. Esta evolução foi impulsionada não por um aumento de volumes — que na verdade caíram — mas por uma valorização acentuada dos preços (+84 % nas exportações), reflectindo quer a inflação dos custos de produção quer a crescente orientação para produtos de maior valor acrescentado.
Do ponto de vista geopolítico, o choque mais significativo foi o colapso das importações da Rússia (−99 %), consequência direta das sanções pós-2022. A China e a Turquia emergiram como fornecedores alternativos, mas a redução global das importações sugere que a capacidade produtiva europeia absorveu parte dessa procura internamente. O Reino Unido, outrora o maior fornecedor, perdeu relevância de forma dramática no contexto pós-Brexit.
A indústria europeia demonstrou resiliência: a produção cresceu 62 % em volume e 89 % em valor, sustentada sobretudo pela Alemanha, Áustria e França. Esta última registou o crescimento mais expressivo nas exportações (+150 %). A propensão exportadora da UE triplicou, sinalizando uma crescente competitividade externa num segmento estratégico para a indústria transformadora europeia — nomeadamente o setor automóvel, energético e de equipamentos elétricos.