Evolução do mercado: Manteiga de cacau (CN 1804) — 2015–2025
Introdução
A manteiga de cacau (CN 1804) é uma matéria-prima essencial para as indústrias de chocolate, cosmética e farmacêutica, extraída do nib do grão de cacau. O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia neste produto ao longo do período 2015–2025, com base em dados anuais completos. A análise incide sobre três dinâmicas principais: a escalada dos preços internacionais como motor do crescimento do valor comercial, a crescente concentração geográfica do abastecimento em fornecedores da África Ocidental e a consolidação da UE enquanto centro de transformação e reexportação de manteiga de cacau.
Fonte: Dados gerais de comércio CN 1804
1. A espiral de preços que triplicou o valor do comércio europeu
1.1 O valor das importações cresceu 291% e o das exportações 211%, muito acima da evolução dos volumes físicos
O período 2015–2025 foi marcado por um crescimento explosivo do valor comercial da manteiga de cacau na UE, contrastando com uma evolução muito mais contida dos volumes físicos. O quadro seguinte sintetiza esta divergência:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações — valor | 896 M€ | 3 509 M€ | +291,4% |
| Importações — volume | 181 007 t | 235 875 t | +30,3% |
| Importações — preço médio | 4 952 €/t | 14 876 €/t | +200,4% |
| Exportações — valor | 633 M€ | 1 969 M€ | +211,0% |
| Exportações — volume | 100 688 t | 103 785 t | +3,1% |
| Exportações — preço médio | 6 287 €/t | 18 969 €/t | +201,7% |
Fonte: Panorama geral do comércio
1.2 Os preços internacionais explicam a esmagadora maioria da variação do valor comercial
A decomposição da variação revela que o efeito-preço foi o motor dominante do crescimento do valor. Enquanto o volume importado cresceu apenas 30,3% (de 181 007 para 235 875 toneladas), o preço médio triplicou, passando de 4 952 €/t para 14 876 €/t. No caso das exportações, o contraste é ainda mais acentuado: o volume exportado cresceu apenas 3,1% (de 100 688 para 103 785 t), mas o preço médio subiu 201,7%, de 6 287 para 18 969 €/t.
Estes dados são consistentes com a escalada dos preços globais do cacau registada em 2024–2025, resultante de más condições climáticas na África Ocilateral e de desequilíbrios estruturais na oferta global. Importa notar, ainda, que o volume importado atingiu um máximo intercalar de 281 016 t — acima do valor registado em 2025 — sugerindo que a contracção mais recente de volumes pode reflectir também efeitos de racionamento perante preços historicamente elevados.
1.3 O déficit comercial da UE em manteiga de cacau agravou-se de forma estrutural
O saldo comercial da UE neste produto passou de −263 M€ em 2015 para −1 540 M€ em 2025, uma deterioração de 484,8%. A UE é estruturalmente deficitária em manteiga de cacau: em 2025, importou 235 875 t e exportou 103 785 t.
Contudo, o preço médio de exportação (18 969 €/t) é sistematicamente superior ao preço médio de importação (14 876 €/t), gerando um prémio de cerca de 4 094 €/t em 2025 — face a apenas 1 335 €/t em 2015. Este prémio crescente sugere que as exportações da UE se orientam para mercados de maior valor acrescentado (Reino Unido, Suíça) e/ou reflectem transformação de qualidade ao longo da cadeia de valor.
2. Crescente concentração geográfica e dependência dos fornecedores da África Ocidental
2.1 A Costa do Marfim, Gana, Camarões e Nigéria dominam o abastecimento europeu
A estrutura geográfica das importações da UE é fortemente dominada por produtores da África Ocidental. Os sete maiores fornecedores em 2025 representam aproximadamente 87% do valor total das importações:
| Parceiro | Importações 2015 (M€) | Importações 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Costa do Marfim | 305 | 1 342 | +339,8% |
| Gana | 155 | 589 | +278,9% |
| Camarões | 30 | 420 | +1 281,4% |
| Indonésia | 93 | 306 | +228,6% |
| Nigéria | 49 | 204 | +317,9% |
| Reino Unido | 82 | 111 | +35,7% |
| Malásia | 26 | 74 | +189,5% |
Fonte: Principais parceiros por valor
Só os quatro países da África Ocidental (Costa do Marfim, Gana, Camarões e Nigéria) representam cerca de 2 555 M€ em 2025 — aproximadamente 73% do total das importações da UE, face a cerca de 60% em 2015. Destaca-se o crescimento excecional das importações provenientes de Camarões (+1 281,4%), que passou de fornecedor marginal a terceiro maior parceiro em valor.
2.2 A concentração das importações aumentou, enquanto as exportações se diversificaram
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) confirma a tendência de concentração crescente das importações e de diversificação das exportações:
| Dimensão | HHI 2015 | HHI 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 1 750 | 2 036 | +16,3% |
| Exportações (valor) | 2 477 | 2 076 | −16,2% |
Fonte: Índice de concentração HHI
O HHI das importações subiu de 1 750 para 2 036, reflectindo o crescimento da quota dos fornecedores dominantes, sobretudo da Costa do Marfim. Em contrapartida, o HHI das exportações desceu de 2 477 para 2 076, indicando que a UE diversificou os seus mercados de destino. Esta assimetria é relevante: a UE tornou-se mais dependente de menos fornecedores, mas simultaneamente alargou a base dos seus clientes de exportação.
2.3 A volatilidade dos fluxos comerciais difere consoante o parceiro
O coeficiente de variação (CV) dos fluxos ao longo do período revela padrões distintos de estabilidade entre parceiros:
Importações — Coeficiente de variação dos principais fornecedores
| Fornecedor | CV |
|---|---|
| Nigéria | 0,21 |
| Costa do Marfim | 0,27 |
| Gana | 0,27 |
| Indonésia | 0,28 |
| Camarões | 0,33 |
| Malásia | 0,51 |
| China | 0,67 |
Exportações — Coeficiente de variação dos principais destinos
| Destino | CV |
|---|---|
| Suíça | 0,05 |
| Reino Unido | 0,12 |
| Noruega | 0,19 |
| Ucrânia | 0,22 |
| Turquia | 0,37 |
| Federação Russa | 0,42 |
| Estados Unidos | 0,48 |
Os fornecedores principais da África Ocidental — Nigéria (CV = 0,21), Costa do Marfim (0,27) e Gana (0,27) — apresentam relativa estabilidade, consistente com o seu papel de fornecedores estruturais. Em contraste, fornecedores periféricos como a China (0,67) e a Malásia (0,51) exibem maior volatilidade. Do lado das exportações, os mercados mais estáveis são a Suíça (0,05) e o Reino Unido (0,12), enquanto os EUA (0,48) e a Sérvia (0,55) apresentam maior variabilidade.
Foram detetados eventos de choque pontuais — nomeadamente no Togo em 2022 (choque de preço nas importações, +842,6%) e nas Filipinas em 2021 (choque de preço nas exportações, +180,9%) — mas envolvem fluxos de valor residual e não constituem perturbações sistémicas.
Fonte: Volatilidade dos fluxos · Eventos de choque
3. A UE como plataforma de transformação e reexportação de manteiga de cacau
3.1 Os Países Baixos concentram mais de metade do comércio europeu de manteiga de cacau
A análise por Estado-Membro revela uma forte concentração no papel dos Países Baixos como hub logístico e de transformação:
Principais Estados-Membros importadores (M€)
| Estado-Membro | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 402 | 1 119 | +178,2% |
| França | 191 | 1 136 | +494,4% |
| Alemanha | 164 | 888 | +441,1% |
| Itália | 19 | 159 | +739,7% |
| Irlanda | 34 | 72 | +108,6% |
| Bélgica | 14 | 21 | +55,4% |
| Espanha | 10 | 71 | +631,0% |
Principais Estados-Membros exportadores (M€)
| Estado-Membro | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 391 | 1 170 | +199,2% |
| Alemanha | 80 | 437 | +447,1% |
| França | 116 | 250 | +116,1% |
| Bulgária | 21 | 43 | +108,1% |
| Espanha | 11 | 28 | +141,4% |
| Bélgica | 3 | 25 | +883,8% |
Fonte: Principais Estados-Membros por valor
Os Países Baixos dominam ambos os fluxos, com um volume de comércio total que atingiu mais de 2 289 M€ em 2025 (1 119 M€ em importações + 1 170 M€ em exportações). Com um RCA de 3,67 e um RSCA de 0,571 em 2025, apresentam a maior vantagem comparativa revelada entre todos os Estados-Membros da UE. A França (RCA = 2,35; RSCA = 0,403) surge em segundo lugar, seguida da Alemanha (RCA = 1,04; RSCA = 0,02).
Fonte: Especialização por Estado-Membro
3.2 A produção europeia cresceu 43%, mas a subida dos preços explicou a maior parte do crescimento das exportações
A produção europeia de manteiga de cacau (série PRODCOM 10.82.12.00) registou um crescimento significativo:
| Indicador | 2015 | 2025 | Máximo intercalar | Variação 2015–2025 (%) |
|---|---|---|---|---|
| Produção — quantidade | 314 924 t | 450 000 t | 600 000 t | +42,9% |
| Produção — valor | 969 M€ | 1 400 M€ | 1 716 M€ | +44,5% |
Fonte: Volumes de produção
A produção atingiu um máximo intercalar de 600 000 t e 1 716 M€, tendo depois recuado para 450 000 t e 1 400 M€ em 2025. O crescimento do valor das exportações (+211%) foi muito superior ao crescimento da produção (+44,5%), o que confirma que o aumento das receitas de exportação se deveu sobretudo à escalada de preços e não à expansão do volume produzido na UE.
3.3 A propensão exportadora ultrapassou os 100%, confirmando o papel de reexportação da UE
Os indicadores de autonomia e vulnerabilidade comercial revelam uma transformação estrutural profunda:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações | 13,2% | 42,9% | +225,3% |
| Intensidade comercial | 43,0% | 101,7% | +136,4% |
| Propensão exportadora | 21,9% | 104,6% | +378,5% |
Fonte: Dependência de importações · Intensidade comercial · Propensão exportadora
O dado mais revelador é que a propensão exportadora ultrapassou os 100% em 2025, atingindo 104,6% — valor que indica que a UE exportou mais manteiga de cacau do que produziu internamente, o que só é possível se uma parte significativa das exportações corresponder a reexportação de produto importado e transformado. Em paralelo, a dependência líquida de importações subiu de 13,2% para 42,9%, e a intensidade comercial duplicou de 43,0% para 101,7%.
Estes três indicadores, em conjunto, confirmam que a UE consolidou a sua posição como plataforma de transformação e reexportação: importa volumes crescentes de matéria-prima dos países produtores da África Ocidental, transforma-a industrialmente e reexporta-a com valor acrescentado para mercados terceiros — sobretudo o Reino Unido (645 M€), a Suíça (552 M€) e a Turquia (221 M€).
Conclusão
O mercado europeu da manteiga de cacau (CN 1804) sofreu uma transformação profunda entre 2015 e 2025, articulada em torno de três dinâmicas interligadas:
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A escalada dos preços foi o factor dominante, triplicando o valor do comércio apesar de um crescimento modesto dos volumes físicos. O preço médio de importação passou de 4 952 para 14 876 €/t, e o de exportação de 6 287 para 18 969 €/t, em linha com a crise global de oferta de cacau.
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A concentração geográfica do abastecimento intensificou-se: os quatro maiores fornecedores da África Ocidental passaram de cerca de 60% para 73% do valor das importações da UE. A dependência líquida de importações subiu de 13,2% para 42,9%, criando vulnerabilidades acrescidas face a perturbações na produção africana e à volatilidade dos preços internacionais.
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O papel de transformação e reexportação da UE consolidou-se claramente: a propensão exportadora ultrapassou 100%, a produção europeia cresceu 43% e o prémio de exportação sobre as importações alargou-se de 1 335 para 4 094 €/t. Os Países Baixos, com mais de 2 289 M€ de comércio em 2025 e uma vantagem comparativa dominante (RCA = 3,67), constituem o epicentro desta cadeia europeia de valor.
Em síntese, a UE consolidou-se como elo central na cadeia global de valor da manteiga de cacau, mas esta integração traz consigo uma exposição crescente a riscos de abastecimento e de volatilidade de preços, num mercado cada vez mais dependente de um número limitado de fornecedores africanos.