Evolução do mercado: Chocolate (CN 1806) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no setor do chocolate e outras preparações alimentícias que contenham cacau (CN 1806) ao longo do período 2015–2025. Esta posição pautal abrange um leque alargado de produtos, desde cacau em pó com adição de açúcar (180610) até chocolate em embalagens de consumo final (180690), passando por preparações a granel (180620) e tabletes recheados (180631) e não recheados (180632).
O período em análise foi marcado por três dinâmicas fundamentais: (i) uma duplicação do valor das exportações da UE, que atingiram os 10,5 mil milhões de euros em 2025; (ii) uma reconfiguração significativa das parcerias comerciais, com a emergência de novos fornecedores extraeuropeus; e (iii) uma escalada acentuada dos preços médios, particularmente a partir de 2022, refletindo a crise global de abastecimento de cacau. A produção comunitária cresceu paralelamente em 43,4% em volume e 78,5% em valor, consolidando a posição da UE como um dos maiores exportadores líquidos mundiais de chocolate.
1. Superavit comercial em expansão acelerada: o valor cresceu nove vezes mais do que o volume
O valor das exportações duplicou enquanto os volumes cresceram apenas 17%
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de chocolate (CN 1806) passaram de 5 383,6 M€ para 10 502,7 M€, uma variação positiva de 95,1%. No entanto, o volume exportado cresceu apenas de 1 040,7 kt para 1 216,2 kt (+16,9%), o que revela que a grande maioria do crescimento em valor é explicada pela subida dos preços médios de exportação — de 5 173 €/t para 8 635 €/t (+66,9%). Com efeito, o volume de exportação atingiu o seu máximo em 2022, com 1 307,6 kt, tendo depois descido 7,0% até 2025, enquanto o valor continuou a subir de forma consistente (Visão geral do comércio).
As importações acompanharam a mesma tendência de inflação: o valor subiu de 1 262,7 M€ para 2 627,8 M€ (+108,1%), enquanto o volume cresceu apenas de 250,5 kt para 309,8 kt (+23,6%). O preço médio de importação subiu de 5 040 €/t para 8 483 €/t (+68,3%).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor) | 5 383,6 M€ | 10 502,7 M€ | +95,1% |
| Exportações (volume) | 1 040,7 kt | 1 216,2 kt | +16,9% |
| Preço médio exportação | 5 173 €/t | 8 635 €/t | +66,9% |
| Importações (valor) | 1 262,7 M€ | 2 627,8 M€ | +108,1% |
| Importações (volume) | 250,5 kt | 309,8 kt | +23,6% |
| Preço médio importação | 5 040 €/t | 8 483 €/t | +68,3% |
| Saldo comercial | 4 120,9 M€ | 7 874,8 M€ | +91,1% |
A produção europeia cresceu em paralelo, consolidando a competitividade
A produção da UE de chocolate e preparações com cacau cresceu de 4,23 mil milhões de kg em 2015 para 6,07 mil milhões de kg em 2025 (+43,4% em volume), com o valor da produção a aumentar de 16,1 mil M€ para 28,8 mil M€ (+78,5%). A propensão para exportar (exportações enquanto proporção da produção) subiu de 10,6% para 31,7%, enquanto a intensidade comercial passou de 13,5% para 36,4%. Estes dados indicam uma internacionalização acentuada do setor europeu do chocolate ao longo da década.
O impacto da pandemia foi breve e a recuperação foi rápida
Em 2020, o valor das exportações recuou ligeiramente para 5 821 M€ (face a 5 991 M€ em 2019), e o valor das importações desceu para 1 430 M€ (de 1 463 M€ em 2019), refletindo os constrangimentos logísticos da COVID-19. Contudo, a recuperação foi imediata: em 2021 as exportações já atingiam 6 403 M€ e, a partir de 2022, a aceleração tornou-se pronunciada, com o valor das exportações a crescer em média 13% ao ano até 2025. O impacto da pandemia no setor do chocolate europeu foi, assim, temporário e pouco relevante em contexto histórico.
2. Reconfiguração geográfica: novos parceiros emergentes e consolidação dos mercados tradicionais
O Reino Unido permanece como principal destino, mas os EUA ganharam peso decisivo
O Reino Unido continua a ser, de longe, o principal destino das exportações europeias de chocolate, com 3 271,9 M€ em 2025 (face a 1 811,9 M€ em 2015, +80,6%). Contudo, o crescimento mais espetacular registou-se nos Estados Unidos, cujas importações de chocolate europeu passaram de 415,1 M€ para 1 189,9 M€ (+186,6%), tornando-se o segundo maior mercado extra-UE. O Canadá (+154,9%) e a Noruega (+114,6%) apresentaram também taxas de crescimento elevadas. A Rússia, apesar de sanções parciais, manteve-se como destino relevante (261,1 M€ → 468,3 M€, +79,3%).
| País destino (exportações UE) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 1 811,9 | 3 271,9 | +80,6% |
| Estados Unidos | 415,1 | 1 189,9 | +186,6% |
| Rússia | 261,1 | 468,3 | +79,3% |
| Suíça | 250,2 | 372,1 | +48,7% |
| Canadá | 145,3 | 370,3 | +154,9% |
| Austrália | 170,0 | 295,5 | +73,8% |
| Noruega | 144,5 | 310,1 | +114,6% |
A base de fornecedores da UE diversificou-se significativamente
No que respeita às importações, o índice de concentração HHI desceu de 3 150 para 1 952 (−38,0%), saindo da zona de concentração elevada para uma concentração moderada. Esta diversificação é explicada pelo crescimento exponencial de novos fornecedores:
| País origem (importações UE) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 523,9 | 822,0 | +56,9% |
| Suíça | 462,5 | 632,3 | +36,7% |
| Costa do Marfim | 99,3 | 416,4 | +319,2% |
| Turquia | 27,8 | 197,7 | +611,9% |
| Ucrânia | 16,0 | 146,6 | +815,7% |
| Sérvia | 6,6 | 176,5 | +2 555,0% |
| Noruega | 23,4 | 49,7 | +112,0% |
A Costa do Marfim, maior produtor mundial de cacau em grão, emerge como um fornecedor crescente de preparações transformadas, o que reflete a estratégia de industrialização local do cacau no continente africano. A Sérvia (+2 555%) e a Turquia (+619%) beneficiaram de custos de produção mais competitivos e da proximidade geográfica com a UE, tornando-se importantes plataformas de exportação para o mercado único. A Ucrânia, apesar do conflito armado iniciado em 2022, mais do que duplicou as suas exportações de chocolate para a UE.
A Alemanha e a Bélgica lideram as exportações; a França destaca-se nas importações
Dentro da própria UE, a distribuição geográfica do comércio revela padrões distintos. Na exportação, a Alemanha manteve a liderança (1 313 M€ → 2 311 M€, +76,0%), seguida pela Bélgica, que apresentou o maior crescimento relativo entre os grandes exportadores (758 M€ → 2 009 M€, +164,9%). A Itália (+87,3%), os Países Baixos (+73,8%) e a Polónia (+71,4%) completam o top 5.
| Estado-Membro (exportações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 1 313,3 | 2 311,0 | +76,0% |
| Bélgica | 758,3 | 2 008,8 | +164,9% |
| Itália | 743,7 | 1 393,1 | +87,3% |
| Países Baixos | 638,8 | 1 110,1 | +73,8% |
| Polónia | 608,0 | 1 042,0 | +71,4% |
| França | 447,0 | 726,3 | +62,5% |
| Irlanda | 274,0 | 442,4 | +61,5% |
No lado das importações, a França registou o crescimento mais acentuado (185 M€ → 640 M€, +245,6%), ultrapassando a Alemanha (386 M€ → 511 M€, +32,3%) como principal importador europeu. A Bélgica (+303,3%) e os Países Baixos (+74,7%) registaram também crescimentos significativos, em parte explicados pelo seu papel como plataformas logísticas de distribuição.
Os dados de especialização confirmam que a Bélgica (RSCA = 0,36), a Polónia (0,27) e a Lituânia (0,18) possuem vantagens comparativas claras em chocolate. Em contraste, a Irlanda (RSCA = −0,88), apesar de figurar entre os maiores importadores e exportadores, apresenta desvantagem comparativa, sugerindo um papel mais de plataforma logística e de transformação para multinacionais alimentares do que de especialização produtiva.
3. A escalada dos preços e a transformação do mix de produto
Os preços dispararam a partir de 2022, em todos os segmentos
A análise da evolução dos preços médios por segmento revela um padrão comum: estabilidade relativa entre 2015 e 2021, seguida de uma aceleração acentuada a partir de 2022. Este fenómeno está diretamente ligado à crise global do cacau, resultante de más colheitas na África Ocidental, agravada por condições climáticas adversas (El Niño), doenças das plantações e envelhecimento dos cacaueiros.
| Segmento (exportações UE) | 2015 (€/t) | 2021 (€/t) | 2025 (€/t) | Variação total |
|---|---|---|---|---|
| 180690 — Embalagens ≤ 2 kg | 5 921 | 5 850 | 8 983 | +51,7% |
| 180631 — Tabletes recheados | 4 576 | 4 415 | 7 856 | +71,7% |
| 180620 — Preparações a granel (>2 kg) | 3 417 | 3 341 | 7 858 | +129,9% |
| 180632 — Tabletes não recheados | 5 481 | 5 218 | 9 708 | +77,1% |
| 180610 — Cacau em pó com açúcar | 5 699 | 4 132 | 6 128 | +7,5% |
O segmento 180620 (preparações a granel) destaca-se pela magnitude da subida: os preços mais do que duplicaram (+129,9%), refletindo a forte dependência do custo da matéria-prima. Os segmentos de maior valor acrescentado (tabletes recheados e não recheados) registaram igualmente subidas acentuadas (+71,7% e +77,1%, respetivamente). O segmento 180610 (cacau em pó com açúcar) foi o único que não registou crescimento significativo de preços, mantendo-se praticamente estável em termos de volume e valor.
O mix de produto deslocou-se para segmentos de maior valor acrescentado
A estrutura das exportações da UE evoluiu ao longo da década. Em 2015, o segmento 180690 (chocolate em embalagens de consumo ≤ 2 kg) representava 55,7% do valor total das exportações; em 2025, essa quota desceu para 44,8%. Em contrapartida, os tabletes recheados (180631) ganharam quota — de 16,9% para 19,7% — e as preparações a granel (180620) subiram de 11,2% para 16,9%. Os tabletes não recheados (180632) passaram de 15,4% para 18,3%.
| Segmento | Quota valor export. 2015 | Quota valor export. 2025 | Variação volume | Variação valor |
|---|---|---|---|---|
| 180690 — Embalagens ≤ 2 kg | 55,7% | 44,8% | +3,5% | +57,0% |
| 180631 — Recheados | 16,9% | 19,7% | +32,2% | +127,0% |
| 180620 — A granel (>2 kg) | 11,2% | 16,9% | +27,9% | +194,2% |
| 180632 — Não recheados | 15,4% | 18,3% | +31,1% | +132,2% |
| 180610 — Cacau em pó c/ açúcar | 0,8% | 0,3% | −31,0% | −25,8% |
A evolução do segmento 180631 (tabletes recheados) é particularmente relevante: o volume exportado cresceu 32,2% (de 199,2 kt para 263,4 kt), o que indica crescimento genuíno de procura, para além do efeito preço. Este é o único segmento que combinou crescimento real de volume acima de 30% com duplicação do valor. No lado das importações, os tabletes recheados cresceram de 17,7 kt para 31,8 kt (+79,4% em volume) e de 103,4 M€ para 272,8 M€ (+163,8% em valor).
A volatilidade concentra-se nos parceiros emergentes
O coeficiente de variação das importações revela que os parceiros mais voláteis são precisamente os mais recentes: a Sérvia (CV = 0,88), a Rússia (0,48) e a Ucrânia (0,39). No lado das exportações, a Ucrânia (0,40), a Arábia Saudita (0,26) e a Turquia (0,26) apresentam maior variabilidade. Em contraste, os parceiros tradicionais — Reino Unido (CV de 0,06 nas exportações), Suíça (0,09) e Austrália (0,06) — exibem uma estabilidade muito superior. O HHI das exportações manteve-se em níveis moderados (1 354 → 1 239), confirmando a diversificação geográfica das exportações europeias. Foram ainda detetados episódios de choque pontuais, com destaque para um choque de preço nas importações dos Emirados Árabes Unidos em 2019 (anomalia de 536) e um choque de preço nas exportações para o Panamá em 2020 (−24% de variação), embora ambos com quota de valor marginal.
Conclusão
O mercado europeu de chocolate (CN 1806) registou, entre 2015 e 2025, uma transformação profunda. O superavit comercial da UE praticamente duplicou, passando de 4,1 mil M€ para 7,9 mil M€, mas esta expansão foi desproporcionadamente alimentada pela escalada dos preços (+66,9% nos preços médios de exportação), e não pelo crescimento dos volumes (+16,9%). A partir de 2022, a crise global do cacau — com preços da matéria-prima a atingir máximos históricos — transmitiu-se de forma pronunciada a todos os segmentos de produto, com particular intensidade nas preparações a granel (180620), cujos preços de exportação mais do que duplicaram.
Paralelamente, o setor europeu internacionalizou-se de forma acelerada: a propensão para exportar triplicou (de 10,6% para 31,7%), e a base de fornecedores da UE diversificou-se significativamente, com a Sérvia, a Turquia e a Ucrânia a emergirem como parceiros relevantes. No lado europeu, a Bélgica consolidou-se como a estrela do período, com crescimento das exportações de 164,9%, refletindo a sua posição como hub global de transformação de cacau.
O mix de produto evoluiu no sentido de uma maior valorização dos segmentos de valor acrescentado mais elevado — tabletes recheados e não recheados — em detrimento do chocolate em embalagens genéricas de consumo (180690), que perdeu quota relativa. A redução do volume exportado a partir de 2022, simultaneamente ao crescimento do valor, sugere que a indústria europeia do chocolate enfrentará nos próximos anos o desafio de manter a competitividade num contexto de custos da matéria-prima estruturalmente mais elevados.