Evolução do mercado: Cacau em pó (CN 1805) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento de cacau em pó sem adição de açúcar ou outros edulcorantes (posição aduaneira CN 1805) ao longo do período 2015–2025. O período em análise abrange uma década marcada por transformações estruturais nos mercados globais de commodities agrícolas, incluindo a pandemia de COVID-19, a invasão da Ucrânia em 2022 e uma escalada significativa dos preços internacionais do cacau.
Ao longo deste horizonte temporal, a UE consolidou-se como um exportador líquido de vulto — com um saldo comercial que passou de 455 milhões de euros em 2015 para quase 1,95 mil milhões de euros em 2025, um crescimento de 327,7%. As exportações cresceram em valor mais de quatro vezes, impulsionadas sobretudo por aumentos acentuados nos preços unitários, enquanto a produção interna da UE registou um crescimento de 46% em volume. Este relatório decompõe a evolução do mercado em três eixos fundamentais: a dinâmica de preços e volumes que sustentou a explosão das exportações; a reconfiguração geográfica das relações comerciais e a diversificação das cadeias de abastecimento; e, por fim, a crescente vulnerabilidade a choques de preços e o papel da produção interna europeia na mitigação desse risco.
1. A explosão das exportações europeias: crescimento impulsionado por preços
1.1. As exportações quadruplicaram em valor, mas apenas cresceram 27% em volume
O fenómeno mais marcante da década é a disparidade entre a evolução do valor e do volume das exportações da UE. Em termos de valor, as exportações passaram de 569,7 milhões de euros (2015) para 2.285,5 milhões de euros (2025), representando um crescimento de 301,2%. Contudo, em volume, o crescimento foi substancialmente mais modesto — de 258.065 toneladas para 328.414 toneladas, um aumento de apenas 27,3%.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor das exportações | 569,7 M€ | 2.285,5 M€ | +301,2% |
| Volume das exportações | 258.065 t | 328.414 t | +27,3% |
| Preço unitário (exportações) | 2.208 €/t | 6.959 €/t | +215,2% |
| Valor das importações | 114,5 M€ | 338,3 M€ | +195,5% |
| Volume das importações | 53.048 t | 50.369 t | -5,1% |
| Preço unitário (importações) | 2.158 €/t | 6.716 €/t | +211,3% |
| Saldo comercial | 455,2 M€ | 1.947,2 M€ | +327,7% |
Fonte: Painel Geral — Comércio
O preço unitário médio de exportação subiu de 2.208 €/t para 6.959 €/t (+215,2%), tendo atingido o seu mínimo histórico em 2015-2016 (1.978 €/t) e o máximo em 2025. O preço mínimo das importações foi registado igualmente em 2016 (1.803 €/t). Isto significa que a quase totalidade do crescimento do valor exportado se deveu a uma revalorização dos preços — impulsionada pela escalada dos preços internacionais do cacau em bruto, que atingiram máximos históricos em 2024–2025 — e não a um aumento substancial das quantidades transacionadas.
1.2. O impacto da escalada dos preços internacionais do cacau
A disparidade entre volume e valor é consistente com a evolução dos mercados globais de cacau. Os preços do cacau em bruto na Bolsa de Nova Iorque dispararam a partir de 2023, impulsionados por défices de produção na Costa do Marfim e no Gana, que juntos representam cerca de 60% da produção mundial. Esta escalada transmitiu-se diretamente para os preços do cacau em pó processado na UE, uma vez que a matéria-prima constitui o principal custo de produção.
A concentração temporal do aumento de preços é evidente: entre 2015 e 2022, o preço unitário de exportação situou-se na gama dos 1.978–3.100 €/t, saltando para 4.800–6.959 €/t no biênio 2024–2025. Um padrão semelhante se observa nos preços de importação, sugerindo que os custos de aquisição de cacau em pó de terceiros países foram igualmente afetados pela mesma pressão inflacionista.
1.3. As importações mantiveram-se estáveis em volume, apesar da valorização em euros
Um dado igualmente relevante é a evolução das importações: o volume manteve-se relativamente estável ao longo da década (com flutuações entre 42.880 e 63.601 toneladas), registando mesmo uma ligeira contração de 5,1% entre 2015 e 2025. Contudo, o valor das importações quase triplicou, passando de 114,5 para 338,3 milhões de euros (+195,5%). Este padrão reforça a interpretação de que a dinâmica de preços, e não de volumes, foi o principal motor da evolução comercial do produto ao longo do período.
2. Reconfiguração geográfica: diversificação das importações e consolidação das exportações
2.1. Os principais destinos de exportação consolidaram a sua importância relativa
Em 2025, os Estados Unidos foram, de longe, o principal destino das exportações europeias de cacau em pó, com 646,8 milhões de euros — quase o triplo do valor registado em 2015 (166,3 M€), uma variação de +288,8%. Seguem-se a Turquia (242,1 M€, +508,5%), a Rússia (189,5 M€, +258,1%), o Reino Unido (111,3 M€, +137,9%), a Argélia (115,2 M€, +781,0%), a Ucrânia (83,3 M€, +413,7%) e o Egipto (77,3 M€, +423,5%).
| Parceiro (exportações) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 166,3 M€ | 646,8 M€ | +288,8% |
| Turquia | 39,8 M€ | 242,1 M€ | +508,5% |
| Rússia | 52,9 M€ | 189,5 M€ | +258,1% |
| Reino Unido | 46,8 M€ | 111,3 M€ | +137,9% |
| Argélia | 13,1 M€ | 115,2 M€ | +781,0% |
| Ucrânia | 16,2 M€ | 83,3 M€ | +413,7% |
| Egipto | 14,8 M€ | 77,3 M€ | +423,5% |
Fonte: Principais parceiros por valor
Destaca-se o crescimento excecional das exportações para a Argélia (+781%) e a Turquia (+508,5%), que se posicionaram como mercados de destino cada vez mais relevantes. A Argélia, em particular, passou de um destino marginal em 2015 para o quinto maior mercado em 2025, refletindo potencialmente o crescimento da procura no Norte de África e Médio Oriente por produtos transformados de cacau.
2.2. As importações diversificaram-se em direção à Ásia, mantendo o eixo ocidental-africano
Do lado das importações, Gana e a Costa do Marfim continuaram a dominar o abastecimento externo da UE, com 115,0 e 80,3 milhões de euros em 2025, respetivamente. No entanto, os crescimentos mais expressivos em termos percentuais registaram-se em proveniências asiáticas: a Malásia (+619,8%, de 2,9 para 20,7 M€) e a Indonésia (+193,5%, de 4,7 para 13,8 M€). O Brasil também registou um crescimento significativo (+363,9%, de 6,1 para 28,2 M€).
| Parceiro (importações) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Gana | 49,0 M€ | 115,0 M€ | +134,5% |
| Costa do Marfim | 37,4 M€ | 80,3 M€ | +114,9% |
| Brasil | 6,1 M€ | 28,2 M€ | +363,9% |
| Malásia | 2,9 M€ | 20,7 M€ | +619,8% |
| Indonésia | 4,7 M€ | 13,8 M€ | +193,5% |
| Reino Unido | 4,2 M€ | 12,8 M€ | +203,2% |
| Turquia | 2,6 M€ | 10,4 M€ | +305,4% |
Fonte: Principais parceiros por valor
2.3. A concentração das importações diminuiu significativamente
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor caiu de 2.982 (2015) para 1.940 (2025), uma redução de 34,9%. Este declínio indica uma diversificação substancial das fontes de abastecimento: a UE tornou-se menos dependente de um número restrito de fornecedores africanos e alargou a sua base de importação para incluir parceiros asiáticos e sul-americanos. Em contrapartida, o HHI das exportações manteve-se relativamente estável (de 1.143 para 1.104, -3,4%), sugerindo que os mercados de destino das exportações europeias já se encontravam razoavelmente diversificados no início do período.
| Índice HHI | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (por valor) | 2.982 | 1.940 | -34,9% |
| Exportações (por valor) | 1.143 | 1.104 | -3,4% |
| Importações (por volume) | 2.980 | 2.026 | -32,0% |
| Exportações (por volume) | 1.142 | 1.069 | -6,4% |
Fonte: Concentração — HHI
2.4. A concentração interna da UE: os Países Baixos como hub dominante
Dentro da própria UE, a especialização na produção e exportação de cacau em pó é fortemente desigual. Em 2025, os Países Baixos detinham um RCA (Índice de Vantagem Comparativa Revelada) de 3,43 e um RSCA normalizado de 0,549, sinalizando uma especialização robusta. Este dado reflete o papel de Roterdão como principal porto de entrada de cacau bruto e centro de transformação europeu, com uma quota de 49,8% na produção europeia do produto.
| Estado-Membro | RCA (2025) | RSCA (2025) | Quota na produção UE |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 3,43 | 0,549 | 49,8% |
| Espanha | 1,91 | 0,313 | 11,1% |
| Bulgária | 1,24 | 0,106 | 0,8% |
| Estónia | 1,23 | 0,101 | 0,4% |
| França | 1,14 | 0,063 | 8,9% |
Fonte: Especialização — Relatório
Em contraste, a Irlanda (RCA de 0,0001), o Luxemburgo (0,004) e a Finlândia (0,01) apresentam níveis de especialização negligíveis, refletindo o facto de a transformação de cacau se concentrar geograficamente nos grandes portos atlânticos e nos países com tradição de indústria alimentar.
3. Vulnerabilidade a choques de preços e o papel crescente da produção interna
3.1. A produção europeia cresceu significativamente, mas ficou aquém da procura externa
A produção europeia de cacau em pó (medida pelo PRODCOM, código 10.82.13.00) cresceu de 361,4 milhões de kg em 2015 para 527,6 milhões de kg em 2025, uma variação de +46%. Em valor, o crescimento foi de 904,2 para 1.214,5 milhões de euros (+34,3%). Contudo, o valor de produção atingiu o seu máximo em anos anteriores (1.304,2 M€), sugerindo flutuações que podem refletir variações de preço mais do que de volume.
| Indicador de produção | 2015 | Máximo | 2025 | Variação (2015→2025) |
|---|---|---|---|---|
| Quantidade (kg) | 361,4 M | 600,0 M | 527,6 M | +46,0% |
| Valor (€) | 904,2 M | 1.304,2 M | 1.214,5 M | +34,3% |
Fonte: Volumes de produção
Considerando que as exportações atingiram 328.414 toneladas em 2025 e a produção ronda as 527.618 toneladas, a taxa de propensão exportadora da UE atingiu 119,2% (contra 40,2% em 2015). Este valor superior a 100% sugere que a UE importa cacau em grão, transforma-o em pó e reexporta uma fração significativa — um modelo típico de economia de transformação industrial, onde os Países Baixos e a Bélgica funcionam como plataformas logísticas e de processamento.
3.2. O índice de dependência líquida de importações atingiu valores extremos
O índice de dependência líquida de importações passou de -37,9% em 2015 para -2.925,0% em 2025. Um valor negativo indica que a UE é exportadora líquida; o agravamento acentuado reflete a divergência crescente entre o valor das exportações (que disparou) e o valor das importações (que cresceu mais moderadamente). Embora o valor absoluto de -2.925% deva ser interpretado com cautela — resulta da combinação de um denominador relativamente pequeno (produção interna) com um numerador muito grande (exportações) — a direção é inequívoca: a UE consolidou-se como processador e exportador líquido de cacau em pó, mas continua fortemente dependente de importações de cacau em grão (posição CN 1801) para alimentar a sua indústria transformadora.
3.3. Choques de preços detetados em fornecedores periféricos
A análise de volatilidade e choques de oferta revelou a existência de eventos de choque de preços significativos, embora em parceiros de menor peso relativo no comércio global:
| Evento | País | Tipo | Fluxo | Anomalia | Variação | Data |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Camarões | Preço | Exportações | 203,5 | +176,2% | 2017 |
| 2 | Guatemala | Preço | Importações | 193,3 | +1.127,1% | 2018 |
| 3 | Panamá | Preço | Importações | 155,3 | +480,7% | 2021 |
Fonte: Choques de oferta
Estes eventos, apesar de terem ocorrido em fluxos de quota reduzida (value_share de 0,0%), ilustram a fragilidade dos fornecedores periféricos. O choque na Guatemala em 2018, com uma variação de +1.127,1%, é particularmente notável e pode refletir flutuações cambiais ou alterações na qualidade/especificação das exportações registadas.
Do lado das exportações, os parceiros com maior coeficiente de variação (CV) incluem a Turquia (0,314), a Argélia (0,301) e o Egipto (0,293), todos mercados com elevado crescimento mas igualmente sujeitos a maior instabilidade. Em contraste, os mercados mais estáveis foram o Reino Unido (CV de 0,042), os Estados Unidos (0,098) e a Rússia (0,136).
3.4. A intensidade comercial e a propensão exportadora atingiram máximos históricos
A intensidade comercial da UE no segmento CN 1805 passou de 46,9% em 2015 para 116,7% em 2025 (+148,5%), enquanto a propensão exportadora evoluiu de 40,2% para 119,2% (+196,6%). Ambos os indicadores atingiram valores superiores a 100%, o que significa que as exportações e o comércio total excedem a produção interna — um padrão que confirma o papel da UE como plataforma de transformação e reexportação.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Intensidade comercial | 46,9% | 116,7% | +148,5% |
| Propensão exportadora | 40,2% | 119,2% | +196,6% |
Fonte: Intensidade comercial e Propensão exportadora
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação profunda do mercado europeu de cacau em pó (CN 1805). A conclusão mais relevante é que a UE fortaleceu fortemente a sua posição como exportador líquido, com um saldo comercial que atingiu quase 2 mil milhões de euros em 2025. Este crescimento foi esmagadoramente impulsionado pela escalada dos preços unitários — que triplicaram em ambas as pontas do comércio — e não por um aumento proporcional dos volumes, que se mantiveram relativamente contidos.
Paralelamente, registou-se uma diversificação geográfica das fontes de importação, com a redução do HHI de importações em 34,9% a refletir uma menor dependência dos fornecedores tradicionais ocidentais-africanos e uma maior abertura para parceiros asiáticos e sul-americanos. No lado das exportações, os mercados de destino consolidaram-se, com destaque para o crescimento excecional das exportações para a Argélia, a Turquia e a Ucrânia.
Contudo, esta aparente robustece esconde vulnerabilidades estruturais. A produção europeia cresceu 46%, mas a dependência em matéria-prima importada (cacau em grão) permanece elevada, e os choques de preços detetados em fornecedores periféricos — embora de impacto limitado no curto prazo — alertam para os riscos inerentes a uma cadeia de valor globalizada. A concentração da produção europeia nos Países Baixos, que detêm quase metade da produção da UE, adiciona um fator de risco adicional. Em síntese, a indústria europeia de cacau em pó beneficiou plenamente da valorização dos preços internacionais, mas a sua sustentabilidade a longo prazo dependerá da capacidade de diversificação das fontes de abastecimento e da manutenção da competitividade num contexto de preços estruturalmente mais elevados.