Explorar dados em tempo real

Evolução do mercado: Cascas de cacau (CN 1802) — 2015–2025

Introdução

O código CN 1802 abrange as cascas, películas e outros desperdícios de cacau (Capítulo 18 — Cacau e suas preparações). Trata-se de um subproduto do processamento industrial do cacau, utilizado sobretudo na alimentação animal, em compostagem, na produção de chá de cacau e, crescentemente, como matéria-prima para a extração de compostos bioativos (como teobromina e fibra dietética).

Entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE neste produto sofreu transformações profundas: os volumes globais diminuíram, mas os valores e os preços unitários dispararam, alterando radicalmente o perfil geográfico das trocas. O presente relatório analisa essas dinâmicas em três eixos — a divergência entre valores, volumes e preços; a reconfiguração geográfica dos parceiros e das rotas intra-UE; e os episódios de volatilidade e choques identificados.


1. Valor crescente, volumes em queda: a divergência estrutural entre preço e quantidade

1.1. Exportações da UE: volume reduzido à metade, mas valor praticamente estável

O período 2015–2025 revela uma contradição marcante nas exportações da UE de cascas de cacau. Os volumes exportados caíram 45,0%, passando de 10.781 toneladas no primeiro período disponível para 5.930 toneladas no último. Apesar disso, o valor total das exportações manteve-se praticamente estável (+1,9%), situando-se em 4,1 milhões de euros em ambos os extremos.

Esta aparente contradição explica-se inteiramente pela evolução do preço unitário de exportação, que subiu 85,3% — de 375 €/t para 695 €/t. Ou seja, a UE passou a exportar muito menos em termos físicos, mas a vender cada tonelada a um preço significativamente mais elevado.

Indicador Exportações UE Primeiro período Último período Variação
Valor (EUR) 4.044.697 4.122.344 +1,9%
Quantidade (toneladas) 10.781 5.930 −45,0%
Preço unitário (EUR/t) 375 695 +85,3%

1.2. Importações da UE: valor quase duplicado, com preço a triplicar

A tendência é ainda mais acentuada do lado das importações. O valor importado cresceu 79,0%, passando de 4,9 milhões de euros para 8,8 milhões de euros. No entanto, os volumes importados diminuíram 39,0%, de 6.126 toneladas para 3.734 toneladas. O preço unitário de importação disparou 193,6%, de 800 €/t para 2.348 €/t — um valor mais do que triplicado.

Indicador Importações UE Primeiro período Último período Variação
Valor (EUR) 4.899.468 8.770.058 +79,0%
Quantidade (toneladas) 6.125 3.734 −39,0%
Preço unitário (EUR/t) 800 2.348 +193,6%

1.3. Deterioração acentuada da balança comercial

A conjugação destes movimentos resultou numa deterioração significativa do défice comercial da UE neste produto. Se em 2015 a UE importava mais 854.771 € em cascas de cacau do que exportava, em 2025 esse diferencial havia-se ampliado para 4.647.714 € — uma deterioração de 443,7%.

A explicação reside na assimetria dos preços: as importações da UE a um preço médio de 2.348 €/t são significativamente mais caras do que as exportações a 695 €/t. Isto sugere que a UE importa cascas de cacau de maior valor acrescentado (possivelmente de origem superior ou com processamento adicional) e exporta volumes brutos ou de menor qualificação.


2. Reconfiguração geográfica: novos parceiros e novas rotas intra-UE

2.1. Origens das importações: a ascensão de Camarões e a diversificação africana

No início do período, as importações da UE de cascas de cacau eram fortemente dominadas por Gana, que representava 3,7 milhões de euros em 2015. Em 2025, Gana continuava a ser o maior fornecedor individual, mas com um valor reduzido para 2,3 milhões de euros (−37,6%).

A transformação mais impressionante reside na ascensão de novos fornecedores:

Parceiro de importação Valor em 2015 (EUR) Valor em 2025 (EUR) Variação
Gana 3.696.382 2.305.783 −37,6%
Camarões 101 2.422.504 +2.398.419%
Costa do Marfim 177.304 1.153.656 +550,7%
Indonésia 110.514 538.361 +387,1%
Nigéria 10.432 499.349 +4.686,7%
República Dominicana 289.437 508.537 +75,7%
Suíça 9.013 112.491 +1.148,1%

Camarões passou de praticamente zero para 2,4 milhões de euros, tornando-se o segundo maior fornecedor. A Costa do Marfim multiplicou as suas exportações para a UE por 6,5 e a Nigéria por quase 50. Esta dinâmica reflete provavelmente investimentos em capacidade de processamento no oeste e centro de África, aliados à busca europeia por diversificação de fornecedores.

O índice de concentração HHI das importações confirmou esta desconcentração: passou de 5.793 em 2015 para 1.849 em 2025, uma queda de 68,1%. A base de fornecedores da UE tornou-se significativamente mais diversificada.

2.2. Destinos das exportações: colapso do Reino Unido e ascensão da Ucrânia

Do lado das exportações, a reconfiguração foi igualmente dramática. O Reino Unido, que em 2015 era o maior destino das exportações da UE de cascas de cacau (485.506 €), praticamente desapareceu como destino em 2025 (apenas 175 €, −100%). Este colapso coincide com o Brexit e a saída do mercado único europeu.

Parceiro de exportação Valor em 2015 (EUR) Valor em 2025 (EUR) Variação
Reino Unido 485.506 175 −100,0%
Ucrânia 140.310 1.216.823 +767,2%
Rússia 951.780 649.379 −31,8%
Camboja 98.221 397.633 +304,8%
Turquia 41.000 22.107 −46,1%
Suíça 127.293 101.248 −20,5%
Canadá 299.590 950 −99,7%

Em contrapartida, a Ucrânia tornou-se o principal destino, crescendo de 140.310 € para 1,2 milhões de euros (+767,2%). O Camboja também emergiu como um destino significativo, com as exportações a quadruplicarem. A Rússia, apesar de se manter como terceiro destino, reduziu as suas compras em 31,8%, possivelmente refletindo sanções e restrições comerciais.

O HHI das exportações manteve-se relativamente estável (de 1.447 para 1.511, +4,5%), sugerindo que a distribuição das exportações pelos parceiros se manteve razoavelmente equilibrada apesar da rotação dos destinos.

2.3. Reconfiguração das rotas intra-UE: a ascensão da Lituânia e da Polónia

Uma das transformações mais notáveis ocorreu na redistribuição do comércio dentro da própria UE, tanto do lado das importações como das exportações.

Importações: Os Países Baixos, que em 2015 dominavam as importações intra-UE com 3,8 milhões de euros, caíram para 2,4 milhões (−36,1%). Mas a mudança mais espetacular foi a da Lituânia: de apenas 6.101 € em 2015 para 4,9 milhões de euros em 2025, tornando-se de longe o maior importador da UE — um crescimento de quase 80.000%.

Estado-Membro importador Valor em 2015 (EUR) Valor em 2025 (EUR) Variação
Lituânia 6.101 4.885.031 +79.969%
Países Baixos 3.811.516 2.434.245 −36,1%
Alemanha 422.196 859.994 +103,7%
Espanha 639.876 103.499 −83,8%
Bélgica 1.433 70.393 +4.812%
França 12.999 77.384 +495,3%

Exportações: No lado das exportações, a Polónia emergiu como o principal exportador, crescendo de 117.662 € para 2,0 milhões de euros (+1.632%). A Estónia (+4.038%) e a Bulgária (+2.258%) também registaram crescimentos explosivos. Em contraste, a Espanha (−88,5%) e os Países Baixos (−91,4%) viram as suas posições exportadoras desmoronarem.

Estado-Membro exportador Valor em 2015 (EUR) Valor em 2025 (EUR) Variação
Polónia 117.662 2.038.304 +1.632%
Países Baixos 1.068.320 91.558 −91,4%
Espanha 2.422.349 279.489 −88,5%
Alemanha 282.115 544.953 +93,2%
Estónia 10.962 453.650 +4.038%
Bulgária 5.219 123.048 +2.258%
Chéquia 183.999 436.785 +137%

O mapa da especialização em 2025 confirma que a Estónia (RSCA de 0,78), a França (0,47) e a Bélgica (0,37) são os Estados-Membros mais especializados neste produto, enquanto a Chéquia, a Suécia e a Itália apresentam índices de especialização negativos (RSCA < −0,99), indicando que o comércio de cascas de cacau é marginal nas suas economias.


3. Volatilidade, choques e instabilidade das cadeias de abastecimento

3.1. Elevada variabilidade das importações provenientes de fornecedores emergentes

O coeficiente de variação (CV) das importações revela que os fornecedores mais recentes apresentam uma variabilidade muito superior à dos fornecedores tradicionais. Gana (CV de 0,57) e a Costa do Marfim (CV de 0,70) demonstram alguma estabilidade, enquanto Camarões (CV de 1,10), a Suíça (CV de 1,34) e a Guiné (CV de 1,67) exibem flutuações muito mais acentuadas.

Parceiro de importação Coeficiente de variação
Gana 0,57
Costa do Marfim 0,70
República Dominicana 0,82
Indonésia 0,85
Nigéria 0,89
Camarões 1,10
Suíça 1,34
Guiné 1,67
Brasil 1,91
Reino Unido 1,86

Esta elevada volatilidade dos fornecedores emergentes reflete, em parte, o facto de muitas destas relações comerciais terem começado de raiz durante o período em análise (como Camarões, cujo valor passou de 101 € para 2,4 milhões de euros), tornando os CVs naturalmente mais elevados devido às transições abruptas entre períodos de volume baixo e alto.

3.2. Choques de preço identificados: Canadá, Camarões e Reino Unido

O sistema de deteção de choques identificou três eventos de preço significativos durante o período:

Evento Entidade Fluxo Ano do choque Variação de preço Grau de anormalidade Participação no valor
1 Canadá Exportações 2021 +1.493% 248 8,4%
2 Camarões Importações 2020 +2.796% 146 12,9%
3 Reino Unido Exportações 2023 +1.271% 53 29,8%

O choque mais intenso ocorreu nas exportações para o Canadá em 2021, com uma subida de preço de 1.493% e um grau de anormalidade de 248 (o mais elevado). Em 2025, as exportações para o Canadá haviam-se reduzido a 950 €, sugerindo que este mercado se tornou residual.

O choque nas importações de Camarões em 2020 (+2.796%) coincide com o início do crescimento explosivo deste fornecedor, que passou de volumes residuais para milhões de euros. A instabilidade inicial das relações comerciais com Camarões reflete-se neste pico de preço.

O choque nas exportações para o Reino Unido em 2023 (+1.271%) é particularmente significativo pela sua participação no valor total das exportações (29,8%). Este pico de preço pode estar relacionado com a crescente complexidade e custos do comércio pós-Brexit, num momento em que as exportações para o Reino Unido já se encontravam em declínio acentuado.

3.3. Volatilidade nas exportações: rotas menos estáveis para a Ásia e a Europa de Leste

Do lado das exportações, os parceiros mais voláteis incluem o Chile (CV de 2,16), a Indonésia (CV de 2,04) e o Canadá (CV de 1,47). Em contraste, a Suíça apresenta a rota de exportação mais estável (CV de 0,39), seguida pelo Brasil (0,65) e pela Sérvia (0,67).

Parceiro de exportação Coeficiente de variação
Suíça 0,39
Brasil 0,65
Sérvia 0,67
Ucrânia 0,63
Reino Unido 0,88
Camboja 0,88
Rússia 1,01
Turquia 1,33
Canadá 1,47
Indonésia 2,04
Chile 2,16

Estes resultados sugerem que a UE tem mantido relações comerciais de exportação mais estáveis com parceiros geográficos próximos (Suíça, Sérvia, Ucrânia) e com mercados com estruturas de procura consolidadas, enquanto as rotas para mercados mais distantes e emergentes são significativamente mais instáveis.


Conclusão

O mercado europeu de cascas de cacau (CN 1802) entre 2015 e 2025 foi marcado por três grandes dinâmicas simultâneas:

  1. Uma inflação acentuada dos preços, que mais do que compensou a queda dos volumes físicos, elevando tanto o valor das importações (+79%) como mantendo estável o valor das exportações (+1,9%) — mas ampliando o défice comercial para 4,6 milhões de euros.

  2. Uma profunda reconfiguração geográfica, com a diversificação das fontes de abastecimento africanas (ascensão de Camarões, Costa do Marfim e Nigéria), a rotação dos destinos de exportação (Ucrânia e Camboja a substituir o Reino Unido e o Canadá), e a redistribuição das funções logísticas dentro da UE (Lituânia e Polónia a emergirem como nós centrais).

  3. Uma elevada volatilidade nas relações comerciais mais recentes, com choques de preço significativos a afetarem tanto importações (Camarões em 2020) como exportações (Canadá em 2021, Reino Unido em 2023), refletindo a fragilidade das cadeias de abastecimento em consolidação.

Em suma, o setor das cascas de cacau na UE encontra-se num período de transição estrutural: de um modelo baseado em grandes volumes e parceiros tradicionais para um paradigma de volumes menores, preços mais elevados, fornecedores mais diversificados e maiores incertezas comerciais. A monitorização contínua destas dinâmicas será essencial para os operadores do setor e para os decisores políticos europeus.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

Se precisar de aconselhamento sobre a política comercial europeia, ou de representação dos seus interesses em Bruxelas, contacte-me através do endereço support@tradedashboard.eu. Encontrará o meu CV neste endereço.