Evolução do mercado: Zinco bruto (CN 7901) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento de zinco em formas brutas (posição aduaneira CN 7901) ao longo do período 2015–2025. Este produto abrange três subcategorias: zinco com pureza ≥99,99% (CN 790111), zinco com pureza <99,99% (CN 790112) e ligas de zinco (CN 790120).
O período em análise foi marcado por transformações estruturais profundas: a UE passou de importadora líquida a exportadora líquida de zinco bruto, os preços duplicaram em termos reais, e as cadeias de abastecimento foram significativamente reconfiguradas por choques geopolíticos e comerciais — com destaque para o Brexit, a pandemia de COVID-19 e a crise energética europeia de 2022.
1. A metamorfose comercial: da dependência à liderança exportadora
1.1. A inversão do saldo comercial
A dinâmica mais marcante do período é a transformação da posição comercial da UE relativamente ao zinco bruto. Em 2015, o saldo comercial era positivo mas modesto (85,1 milhões EUR), refletindo uma dependência líquida de importações de 9,5%. Em 2025, a UE apresentava um superávit de 650 milhões EUR, com uma dependência líquida negativa de −26,3%, consolidando-se como exportadora líquida.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Saldo comercial (milhões EUR) | 85,1 | 650,0 | +664,2% |
| Dependência líquida de importações | +9,5% | −26,3% | −376,1% |
| Propensão exportadora | 9,7% | 36,4% | +273,6% |
| Intensidade comercial | 24,9% | 44,9% | +80,0% |
A propensão exportadora, que mede a razão entre exportações e produção interna, triplicou de 9,7% para 36,4%, indicando que uma parcela crescente da produção europeia de zinco foi canalizada para mercados externos.
1.2. Crescimento assimétrico de exportações e importações
O crescimento das exportações foi significativamente mais robusto do que o das importações, tanto em volume como em valor:
| Fluxo | Valor 2015 (M EUR) | Valor 2025 (M EUR) | Variação | Volume 2015 (kt) | Volume 2025 (kt) | Variação |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Exportações | 638,8 | 1.230,2 | +92,6% | 340,3 | 467,3 | +37,3% |
| Importações | 553,8 | 580,3 | +4,8% | 282,4 | 208,3 | −26,3% |
Enquanto as exportações cresceram 92,6% em valor e 37,3% em volume, as importações viram o seu valor crescer apenas 4,8% apesar de uma queda de 26,3% no volume. Isto sugere que as importações se tornaram mais seletivas, concentrando-se em produtos de maior valor unitário, ou que os aumentos de preços compensaram parcialmente a redução de volume.
1.3. A escalada dos preços e a sua contribuição para o valor
Os preços unitários subiram significativamente em ambos os fluxos:
| Fluxo | Preço 2015 (EUR/t) | Preço 2025 (EUR/t) | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações | 1.877 | 2.633 | +40,2% |
| Importações | 1.961 | 2.786 | +42,1% |
O pico de preços ocorreu em 2022, com exportações a atingir 3.383 EUR/t e importações a 3.612 EUR/t — níveis que refletem a crise energética europeia pós-invasão da Ucrânia e a forte procura global por metais industriais. Cerca de metade do crescimento nominal das exportações em valor (92,6%) deveu-se à subida de preços (40,2%), e a outra metade ao aumento de volume (37,3%).
1.4. O papel da produção interna
A produção europeia de zinco bruto em volume cresceu de 2.259 milhões de toneladas para 2.518 milhões de toneladas (+11,5%), mas em valor caiu 28,4% (de 5.556 M EUR para 3.978 M EUR). Esta desconexão entre volume e valor sugere alterações na estrutura de produção ou na composição dos produtos fabricados, bem como a volatilidade extrema dos preços do zinco nos mercados globais.
2. Reconfiguração das cadeias de abastecimento: parceiros, concentração e o impacto do Brexit
2.1. A consolidação dos fornecedores de importação
O mercado de importação da UE passou por uma profunda reestruturação geográfica. Os principais fornecedores evoluíram de forma muito distinta:
| Parceiro | Importação 2015 (M EUR) | Importação 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Noruega | 165,9 | 332,2 | +100,2% |
| Peru | 136,0 | 208,7 | +53,5% |
| México | 47,1 | 14,0 | −70,4% |
| Namíbia | 84,5 | 0,6 | −99,3% |
| Reino Unido | 87,7 | 1,0 | −98,8% |
| Cazaquistão | 3,5 | 3,4 | −4,1% |
| Índia | 3,1 | 2,0 | −36,4% |
Noruega consolidou-se como o principal fornecedor, duplicando o seu valor de exportação para a UE e passando de 165,9 M EUR para 332,2 M EUR. Peru manteve-se como segundo maior fornecedor, crescendo 53,5%.
A queda mais dramática registou-se no comércio com o Reino Unido: de 87,7 M EUR em 2015 para apenas 1,0 M EUR em 2025 (−98,8%). Este colapso coincide diretamente com a saída do Reino Unido da UE e o fim da livre circulação de mercadorias. De forma semelhante, as importações da Namíbia desceram 99,3% e as do México 70,4%, sugerindo uma reorientação das cadeias de abastecimento para fornecedores mais estáveis e geograficamente próximos.
2.2. A diversificação das exportações europeias
Do lado das exportações, a UE reorientou significativamente os seus mercados de destino:
| Parceiro | Exportação 2015 (M EUR) | Exportação 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Turquia | 137,7 | 386,3 | +180,6% |
| Singapura | 0,7 | 80,6 | +10.817,3% |
| Arábia Saudita | 31,4 | 71,1 | +126,6% |
| Egito | 29,2 | 88,9 | +204,0% |
| Reino Unido | 46,5 | 55,7 | +19,8% |
| Estados Unidos | 190,2 | 5,3 | −97,2% |
| China | 0,5 | 3,6 | +668,0% |
Turquia tornou-se de longe o maior destino das exportações europeias de zinco bruto, crescendo 180,6% e passando a representar quase 31% do total exportado. O crescimento explosivo das exportações para Singapura (+10.817,3%) e a queda das exportações para os Estados Unidos (−97,2%) revelam uma reconfiguração profunda das rotas comerciais — possivelmente relacionada com a reexportação asiática e com mudanças na política comercial norte-americana.
2.3. A concentração crescente das importações
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações duplicou de 2.091 para 4.581, atingindo o seu máximo histórico em 2025. Em contraste, o HHI das exportações baixou de 1.519 para 1.251.
| Fluxo | HHI 2015 | HHI 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 2.091 | 4.581 | +119,1% |
| Exportações (valor) | 1.519 | 1.251 | −17,6% |
Um HHI de importações acima de 2.500 indica um mercado moderadamente concentrado, e acima de 4.000 um mercado altamente concentrado. A concentração crescente das importações representa um risco de abastecimento, uma vez que a dependência de poucos fornecedores (sobretudo Noruega e Peru, que em 2025 representam juntos mais de 93% do valor importado) torna a UE vulnerável a interrupções nesses mercados específicos.
2.4. Os Estados-Membros como hubs de comércio
Dentro da UE, a concentração geográfica do comércio também se alterou:
| Estado-Membro (importações) | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 175,2 | 295,8 | +68,8% |
| Bélgica | 176,5 | 101,9 | −42,3% |
| Itália | 69,6 | 55,5 | −20,3% |
| Áustria | 8,7 | 38,7 | +345,4% |
| Estado-Membro (exportações) | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Espanha | 367,4 | 705,0 | +91,9% |
| Bélgica | 124,5 | 239,4 | +92,3% |
| Bulgária | 58,8 | 86,7 | +47,6% |
| Países Baixos | 51,0 | 71,7 | +40,6% |
Espanha consolidou-se como o principal exportador europeu de zinco bruto, com 705 M EUR em 2025, representando mais de 57% das exportações totais da UE. A especialização revela que a Finlândia detém o maior índice de vantagem comparativa revelada (RCA = 16,2), seguida da Bulgária (RCA = 3,8) e da Bélgica (RCA = 2,7).
3. Volatilidade, choques e riscos sistémicos
3.1. Padrões de volatilidade nos parceiros comerciais
A análise do coeficiente de variação (CV) revela padrões distintos de volatilidade entre parceiros:
Importações — volatilidade por parceiro:
| Parceiro | Coef. Variação | Classificação |
|---|---|---|
| Noruega | 0,12 | Baixa |
| Peru | 0,13 | Baixa |
| México | 0,39 | Moderada |
| Reino Unido | 0,96 | Elevada |
| Cazaquistão | 1,31 | Muito elevada |
| Índia | 2,89 | Extrema |
Exportações — volatilidade por parceiro:
| Parceiro | Coef. Variação | Classificação |
|---|---|---|
| Sérvia | 0,15 | Baixa |
| Bósnia e Herzegovina | 0,15 | Baixa |
| Marrocos | 0,20 | Baixa |
| Egito | 0,26 | Moderada |
| Turquia | 0,32 | Moderada |
| China | 2,00 | Muito elevada |
| Singapura | 1,84 | Muito elevada |
Os fornecedores mais estáveis (Noruega, Peru) são simultaneamente os mais importantes, o que reduz parcialmente o risco de volatilidade no abastecimento. No entanto, os parceiros de exportação mais voláteis (China, Singapura) representam volumes crescentes, o que pode gerar flutuações significativas nas receitas exportadoras.
3.2. Os grandes choques de 2022
O sistema detectou três choques de preço significativos, todos concentrados em torno de 2022:
| Evento | Tipo | Fluxo | Anomalia | Variação | Valor no total |
|---|---|---|---|---|---|
| China | Preço | Exportações | 128,9 | +877,9% | 6,8% |
| México | Preço | Importações | 34,3 | +39,4% | 10,4% |
| Brasil | Preço | Exportações | 29,8 | +330,1% | 2,5% |
O choque mais pronunciado registou-se nas exportações para a China em 2022, com uma variação anómala de 877,9% e uma pontuação de anomalia de 128,9. Este evento reflete o pico dos preços do zinco em 2022, impulsionado pela crise energética europeia, pela recuperação pós-pandemia e pela forte procura industrial chinesa. Os picos de preços de importação de zinco em 2022 (3.612 EUR/t) e de exportação (3.383 EUR/t) foram os mais elevados de todo o período.
3.3. Os segmentos de produto: dinâmicas diferenciadas
A análise por subproduto revela dinâmicas distintas:
Importações por subproduto (volume, milhares de toneladas):
| Subproduto | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| 790111 (≥99,99% Zn) | 125,1 | 100,8 | −19,5% |
| 790112 (<99,99% Zn) | 110,0 | 62,8 | −42,9% |
| 790120 (Ligas) | 47,3 | 44,7 | −5,5% |
Exportações por subproduto (volume, milhares de toneladas):
| Subproduto | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| 790111 (≥99,99% Zn) | 255,4 | 324,7 | +27,1% |
| 790120 (Ligas) | 69,6 | 102,1 | +46,7% |
| 790112 (<99,99% Zn) | 15,3 | 40,5 | +165,5% |
O zinco de alta pureza (≥99,99%) domina tanto as importações como as exportações, mas a redução mais acentuada nas importações de zinco de menor pureza (−42,9%) sugere que a produção interna europeia passou a cobrir mais eficazmente esta categoria. Do lado das exportações, o crescimento explosivo das exportações de zinco de menor pureza (+165,5%) e das ligas (+46,7%) indica uma especialização crescente em produtos de valor acrescentado, complementar à matéria-prima de alta pureza.
Conclusão
O período 2015–2025 foi, para o mercado europeu de zinco bruto, uma década de transformação estrutural. Três dinâmicas principais definiram este período:
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A UE consolidou-se como exportadora líquida, passando de uma dependência de importações de 9,5% para um superávit comercial de 26,3%, impulsionada por um crescimento exportador (+92,6% em valor) muito superior ao das importações (+4,8%).
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As cadeias de abastecimento reconfiguraram-se radicalmente: o comércio com o Reino Unido colapsou após o Brexit, os fornecedores de importação concentraram-se fortemente em torno da Noruega e Peru (HHI de importações duplicou para 4.581), e as exportações europeias reorientaram-se para a Turquia, Singapura e o Médio Oriente.
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A volatilidade e os choques de preço de 2022 expuseram vulnerabilidades sistémicas, com variações anómalas de até 878% nas exportações para a China, refletindo a confluência da crise energética europeia e da procura global.
Apesar da maior robustez comercial, a crescente concentração das importações em dois fornecedores principais representa um risco potencial de abastecimento que merece monitorização. A diversificação geográfica, tanto das fontes de importação como dos destinos de exportação, continua a ser um imperativo estratégico para a segurança do abastecimento europeu de zinco.