Evolução do mercado: Barras perfis e fios de zinco (CN 7904) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento de barras, perfis e fios de zinco (código pautal CN 7904) ao longo do período 2015–2025. O produto, inserido no capítulo 79 ("Zinco e suas obras"), mapeia-se ao código PRODCOM 24.43.23.00 e abrange barras, perfis, fio, chapas, tiras e folhas de zinco.
O período em análise é marcado por transformações estruturais profundas: a UE passou de uma posição de superávit comercial para défice, os volumes exportados sofreram um colapso acentuado e as fontes de abastecimento externo foram radicalmente reconfiguradas. Fatores como o Brexit, a pandemia de COVID-19, a escalada de preços de 2022 e a invasão da Ucrânia contribuíram para a reconfiguração das cadeias de valor deste produto. O relatório organiza-se em três eixos principais, complementados por uma análise de volatilidade e vulnerabilidade estrutural.
Para mais detalhes sobre o âmbito e as definições do produto, consulte a página de visão geral no Trade Dashboard.
1. A inversão do balanço comercial: de exportador líquido a importador líquido
A dinâmica mais marcante do período é a transformação radical da posição comercial da UE no segmento de zinco processado. Em 2015, a UE registava um superávit comercial de €7,07 milhões; em 2025, a situação inverteu-se para um défice de €3,59 milhões. Esta seção destrincha os fatores por trás desta mudança estrutural.
1.1. O colapso das exportações europeias
As exportações da UE de CN 7904 para países terceiros sofreram uma redução dramática ao longo da década:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (€) | 10 479 045 | 4 724 609 | −54,9 % |
| Quantidade (t) | 5 229 | 1 004 | −80,8 % |
| Preço médio (€/t) | 2 004 | 4 626 | +130,9 % |
A queda de mais de 80 % em volume é particularmente significativa: em 2025, as exportações situaram-se no mínimo de toda a série temporal. Contudo, a subida do preço médio unitário de €2 004/t para €4 626/t compensou parcialmente a perda de volume em termos de valor, atenuando a queda nominal para "apenas" −55 %.
Esta evolução sugere que a produção europeia de zinco processado foi progressivamente reorientada para o mercado interno ou que os custos de produção tornaram as exportações menos competitivas face a concorrentes de países terceiros — em particular a Índia e a China. Os dados sobre produção industrial europeia corroboram parcialmente esta leitura: a produção física caiu 39,8 % (de 298 870 t para 180 000 t), enquanto o valor de produção se manteve relativamente estável (−3,8 %), refletindo a inflação de preços no setor.
1.2. A expansão das importações e a consolidação da dependência externa
Em contraste com o declínio exportador, as importações cresceram de forma sustentada:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (€) | 3 411 387 | 8 314 689 | +143,7 % |
| Quantidade (t) | 1 214 | 2 233 | +84,0 % |
| Preço médio (€/t) | 2 792 | 3 722 | +33,3 % |
O volume importado quase duplicou, enquanto o valor mais do que duplicou. O pico das importações em valor atingiu-se em 2022, com €9 777 256 — coincidindo com a crise energética europeia e a escalada de preços das matérias-primas.
A taxa de dependência líquida de importações revela a magnitude desta transformação: de +2,8 % em 2015 (a UE era líquida exportadora) para −2,1 % em 2025, atingindo o mínimo de −5,0 % em 2022. A intensidade comercial — que mede o peso do comércio extra-UE face à produção — subiu de 6,3 % para 9,9 %, evidenciando uma crescente integração do setor no comércio global.
1.3. Apropensão exportadora residual: um setor cada vez mais importador
Um indicador complementar relevante é a propensão exportadora, que mede a fração da produção europeia que é exportada para países terceiros. Esta passou de 1,9 % em 2015 para 6,2 % em 2025 — um crescimento de 230 % que, aparentemente contraditório com a queda das exportações absolutas, se explica pela redução ainda mais acentuada da produção interna. Ou seja, os poucos produtores europeus que restam dedicam uma quota crescente da sua produção ao mercado externo, mas o setor como um todo encolheu significativamente.
2. Reconfiguração das parcerias comerciais: o Brexit, a ascensão da Índia e a erosão dos destinos tradicionais
A segunda grande dinâmica do período é a profunda transformação dos parceiros comerciais da UE, tanto do lado das exportações como das importações. Fatores geopolíticos — com destaque para o Brexit — e económicos explicam em grande medida estas mudanças.
2.1. O colapso do comércio com o Reino Unido após o Brexit
O Reino Unido era, em 2015, o principal destino das exportações da UE de CN 7904 (€5,22 milhões, representando ~50 % do total) e a principal origem das importações (€2,09 milhões, ~61 % do total). Em 2025, a situação alterou-se drasticamente:
| Fluxo | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações para o RU (€) | 5 215 470 | 601 127 | −88,5 % |
| Importações do RU (€) | 2 091 395 | 1 177 518 | −43,7 % |
As exportações para o Reino Unido caíram quase 90 % em valor, consolidando a ruptura comercial provocada pela saída do Reino Unido do mercado único europeu. A introdução de barreiras alfandegárias, requisitos documentais e atritos logísticos pós-Brexit explicam em grande medida este colapso, que se tornou evidente a partir de 2020–2021.
Curiosamente, as importações do Reino Unido também diminuíram (−44 %), mas de forma mais gradual, sugerindo que o RU manteve alguma capacidade de fornecimento ao mercado europeu, provavelmente por proximidade geográfica e existência de relações comerciais prévias consolidadas. A volatilidade das importações do RU é moderada (CV de 0,51), mas registou-se um choque de preços em 2017 com uma subida anómala de 54,6 %, possivelmente associado a antecipações do Brexit.
2.2. A ascensão da Índia como principal fornecedor
A transformação mais espetacular do lado das importações é a ascensão da Índia, que passou de um papel marginal (€65 787 em 2015) para o de maior fornecedor extra-UE em 2025 (€4 696 327), representando um crescimento de mais de 7 000 %:
| Parceiro | 2015 | 2025 | Variação | Quota 2025 (est.) |
|---|---|---|---|---|
| Índia | 65 787 | 4 696 327 | +7 039 % | ~56 % |
| Reino Unido | 2 091 395 | 1 177 518 | −43,7 % | ~14 % |
| China | 588 400 | 1 662 364 | +182,5 % | ~20 % |
| Estados Unidos | 230 953 | 231 607 | +0,3 % | ~3 % |
| Turquia | 109 003 | 134 566 | +23,5 % | ~2 % |
A Índia e a China, em conjunto, passaram a fornecer cerca de 76 % das importações da UE de CN 7904 em 2025. A Índia apresenta uma volatilidade elevada (CV de 1,05), o que reflete a rapidez da sua ascensão e uma certa irregularidade nas remessas. O Japão, por contraste, desapareceu quase completamente como fornecedor (de €8 905 para €47; −99,5 %), enquanto o Brasil também caiu drasticamente (−91,6 %).
2.3. Diversificação limitada e especialização regional das exportações
Do lado das exportações, a perda dos destinos tradicionais — Reino Unido (−88,5 %), Rússia (−94,3 %), Argélia (−98,7 %), Nova Zelândia (−92,3 %) — não foi compensada por novos mercados. Os Estados Unidos foram a única exceção significativa, crescendo 54,3 % (de €449 536 para €693 858), tornando-se em 2025 o principal destino das exportações europeias de CN 7904.
O HHI de concentração das exportações caiu de 2 659 para 858 (−67,7 %), o que aparenta ser diversificação, mas que na verdade reflete a erosão das exportações globais: com um volume residual de ~1 000 t, o HHI torna-se irrelevante como indicador de estrutura de mercado.
Do lado das importações, o HHI manteve-se relativamente estável (de 4 145 para 3 866; −6,7 %), sinalizando uma concentração moderada que, no entanto, se tornou mais dependente de um único fornecedor (a Índia).
2.4. Os Estados-Membros mais afetados pela reconfiguração
A nível interno da UE, a reconfiguração do comércio não afetou todos os Estados-Membros de igual forma. Os dados por país declarante revelam padrões distintos:
| Estado-Membro | Importações 2015 | Importações 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Portugal | 858 752 | 2 634 972 | +206,8 % |
| França | 53 041 | 1 062 290 | +1 902,8 % |
| Dinamarca | 27 410 | 569 832 | +1 978,9 % |
| Alemanha | 299 748 | 563 976 | +88,2 % |
| Espanha | 350 495 | 530 580 | +51,4 % |
| Países Baixos | 646 968 | 651 804 | +0,7 % |
| Bélgica | 278 717 | 137 831 | −50,5 % |
Destaca-se o caso de Portugal, que em 2025 se tornou o maior importador europeu de CN 7904 (€2,63 milhões), ultrapassando os Países Baixos. França e Dinamarca registaram crescimentos extraordinários, partindo de bases muito baixas. Pelo contrário, a Bélgica — o Estado-Membro mais especializado na produção de CN 7904 (RSCA de 0,79) — reduziu as suas importações pela metade, em coerência com a sua posição de produtor especializado.
3. Choques de preços, volatilidade e vulnerabilidade estrutural
A terceira dinâmica central do período 2015–2025 prende-se com a elevada volatilidade de preços registada em certos fluxos e com os choques de abastecimento que marcaram particularmente os anos de 2020 e 2022.
3.1. Choques de preços identificados na série temporal
A análise de eventos de choque revela três episódios particularmente relevantes:
| Evento | Tipo | Fluxo | Ano | Anomalia | Variação | Quota de valor |
|---|---|---|---|---|---|---|
| China | Preço | Importações | 2022 | 89,7 | +95,9 % | 27,2 % |
| Argélia | Preço | Exportações | 2020 | 36,4 | +217,1 % | 5,0 % |
| Reino Unido | Preço | Importações | 2017 | 29,7 | +54,6 % | 45,3 % |
O choque mais significativo em termes sistémicos ocorreu nas importações da China em 2022, com uma subida anómala de preços de quase 96 % (anomalia de 89,7). Este episódio inscreve-se no contexto da crise energética global de 2022, que afetou particularmente a China como grande consumidora e processadora de zinco, e que se transmitiu para os preços de exportação. Dado que a China representava 27,2 % do valor das importações, este choque teve um impacto material no custo de abastecimento europeu.
3.2. Volatilidade por parceiro: padrões distintos de incerteza
Os coeficientes de variação revelam perfis de volatilidade muito distintos entre parceiros:
Importações — CV mais elevados:
| Parceiro | CV |
|---|---|
| Japão | 3,28 |
| Noruega | 2,63 |
| Peru | 1,55 |
| Hong Kong | 1,46 |
| Suíça | 1,27 |
Exportações — CV mais elevados:
| Parceiro | CV |
|---|---|
| Reino Unido | 1,84 |
| Índia | 1,94 |
| Nova Zelândia | 1,00 |
| Tunísia | 0,96 |
O Reino Unido apresenta a maior volatilidade no lado das exportações (CV de 1,84), coerente com a turbulência pós-Breito. A Índia, como novo fornecedor dominante das importações, apresenta também uma volatilidade elevada (CV de 1,05), o que constitui um fator de risco para a segurança de abastecimento europeia.
3.3. Dependência estrutural e implicações para a autonomia estratégica
A combinação de fatores — queda da produção europeia, crescimento da dependência de fornecedores asiáticos, volatilidade de preços e concentração de importações — coloca questões relevantes para a autonomia estratégica da UE no setor do zinco processado.
A taxa de dependência líquida de importações atingiu o mínimo de −5,0 % em 2022, ano em que a UE enfrentou simultaneamente choques de preços e de fornecimento. Embora a dependência se tenha atenuado ligeiramente até 2025 (−2,1 %), o setor permanece estruturalmente deficitário no comércio com países terceiros.
A intensidade comercial crescente (de 6,3 % para 9,9 %) indica que o setor se tornou progressivamente mais exposto a perturbações externas, numa altura em que a produção interna encolhe. Este padrão é consistente com as dinâmicas mais amplas de deslocalização industrial que afetam múltiplos segmentos da indústria metalúrgica europeia.
Conclusão
O mercado europeu de barras, perfis e fios de zinco (CN 7904) sofreu uma transformação profunda entre 2015 e 2025. Três dinâmicas principais definem este período:
-
A inversão do balanço comercial: a UE passou de uma posição de superávit de €7,1 milhões para um défice de €3,6 milhões, impulsionada por uma queda de 80,8 % nos volumes exportados e um crescimento de 84,0 % nos volumes importados.
-
A reconfiguração das parcerias: o Brexit provocou o colapso do comércio com o Reino Unido, enquanto a Índia emergiu como fornecedor dominante (de €66 mil para €4,7 milhões), e os destinos tradicionais de exportação desapareceram quase na totalidade.
-
A crescente vulnerabilidade estrutural: a combinação de produção europeia em queda (−40 % em volume), concentração de importações em fornecedores asiáticos e episódios de choque de preços (China 2022) fragilizou a posição europeia numa matéria-prima industrial relevante.
A recuperação parcial da dependência líquida de importações em 2025 (−2,1 % face ao mínimo de −5,0 % em 2022) não invalida a trajetória de longo prazo: o setor tornou-se estruturalmente importador e cada vez mais dependente de cadeias de abastecimento globais. Para as políticas europeias de autonomia estratégica e transição industrial, o zinco processado constitui um caso de estudo relevante sobre os desafios da competitividade da indústria metalúrgica europeia num contexto de globalização e pressão regulatória crescente.