Evolução do mercado: Sucata de zinco (CN 7902) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) em desperdícios, resíduos e sucata de zinco (CN 7902) no período entre 2015 e 2025. Este produto constitui uma matéria-prima secundária essencial para a indústria europeia do zinco, inscrevendo-se no contexto mais amplo da economia circular e da valorização de resíduos metálicos. O período em análise abrange uma década marcada por transformações geopolíticas significativas, pela pandemia de COVID-19 e por alterações profundas nas cadeias de abastecimento globais de metais não ferrosos.
A UE apresenta-se como exportador líquido estrutural de sucata de zinco, com um saldo comercial que evoluiu de €74,9 milhões em 2015 para €120,6 milhões em 2025 — um crescimento de 60,9% ao longo da década. As exportações totais cresceram 55,8% em valor (de €92,5 milhões para €144,1 milhões), enquanto as importações aumentaram 34,1% (de €17,5 milhões para €23,5 milhões). Contudo, a evolução das quantidades foi muito mais modesta — apenas 8,5% nas exportações e 9,0% nas importações — o que evidencia o papel central da subida dos preços na dinâmica comercial observada.
1. Redirecionamento radical das exportações: da China para a Ásia emergente
A transformação mais marcante do período é a reconfiguração completa dos destinos das exportações europeias de sucata de zinco. Os fluxos comerciais foram profundamente reestruturados, com a perda de peso da China e a emergência de novos parceiros asiáticos como destinos dominantes.
1.1. O colapso das exportações para a China
Em 2015, a China era, de longe, o principal destino da sucata de zinco da UE, com importações no valor de €71,4 milhões — representando cerca de 77% do valor total das exportações europeias. Em 2025, este valor desceu para meros €0,8 milhões, uma queda de 98,8%. Esta queda dramática reflete provavelmente as restrições chinesas à importação de resíduos metálicos, implementadas progressivamente desde 2018 no âmbito da política de "Espada Nacional" (National Sword) e da subsequente Lei de Prevenção e Controlo da Poluição por Resíduos Sólidos, que proibiu efetivamente a importação de determinados tipos de sucata. A volatilidade das exportações para a China é extremamente elevada, com um coeficiente de variação de 1,08, o que reflete a instabilidade crescente deste fluxo ao longo do período.
1.2. A ascensão da Índia como principal destino
A Índia assumiu a posição anteriormente ocupada pela China como principal destino das exportações europeias de sucata de zinco. As exportações para a Índia cresceram de €12,9 milhões em 2015 para €85,3 milhões em 2025 — um aumento de 558,9%. Em 2025, a Índia representou aproximadamente 59% do valor total das exportações da UE, consolidando-se como parceiro comercial estratégico. Este crescimento reflete a industrialização acelerada da Índia e a crescente procura de matérias-primas metálicas secundárias por parte da sua indústria de transformação.
1.3. A emergência da Tailândia como parceiro comercial de duplo sentido
A Tailândia apresentou um crescimento exponencial tanto nas exportações como nas importações. Nas exportações, o valor passou de €97.856 em 2015 para €45,5 milhões em 2025 — um aumento de 46.375% — tornando a Tailândia o terceiro maior destino das exportações europeias. Paralelamente, as importações da Tailândia cresceram de €25.340 para €1,5 milhões (+5.966%). Esta intensificação bilateral sugere o papel crescente da Tailândia como centro de processamento e reexportação de metais não ferrosos na região do Sudeste Asiático, possivelmente como rota alternativa face às restrições chinesas. No entanto, a volatilidade associada a este fluxo é a mais elevada entre todos os parceiros analisados (CV de 1,12 nas exportações e 1,29 nas importações), o que denota a imaturidade e instabilidade desta relação comercial.
| Principais destinos de exportação (€ milhões) | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Índia | 12,9 | 85,3 | +558,9 |
| China | 71,4 | 0,8 | -98,8 |
| Tailândia | 0,1 | 45,5 | +46.375,3 |
| Malásia | 0,04 | 3,1 | +8.564,1 |
| Hong Kong | 5,7 | 3,5 | -37,7 |
| Reino Unido | 0,8 | 0,5 | -36,8 |
| Turquia | 0,2 | 0,3 | +35,2 |
Fonte: Top partners by value
2. Crescimento do valor comercial impulsionado pela subida de preços
Uma das características mais distintivas do período é a divergência acentuada entre a evolução dos valores e das quantidades comercializadas, evidenciando o impacto determinante da subida dos preços internacionais do zinco na dinâmica comercial.
2.1. A valorização das exportações supera largamente o crescimento em volume
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações cresceu 55,8%, enquanto as quantidades aumentaram apenas 8,5% — de 59.230 toneladas para 64.273 toneladas. Esta divergência traduz-se num aumento do preço médio de exportação de €1.561/t para €2.242/t, um crescimento de 43,6%. O preço médio atingiu o seu máximo em 2022, com €2.468/t, coincidindo com os picos de preços das matérias-primas registados no contexto da crise energética europeia e da invasão da Ucrânia. A evolução do preço médio revela uma trajetória ascendente consistente, interrompida apenas por correções pontuais.
2.2. As importações seguem a mesma tendência, mas de forma mais moderada
Nas importações, o padrão é semelhante mas menos pronunciado: o valor cresceu 34,1% enquanto as quantidades aumentaram 9,0% (de 12.924 para 14.087 toneladas). O preço médio de importação subiu de €1.358/t para €1.670/t (+23,0%), tendo atingido o máximo de €2.436/t em 2022. A diferença entre o preço médio de exportação e de importação alargou-se ao longo do período, sugerindo que a UE tem vindo a exportar sucata de zinco de maior valor unitário, possivelmente refletindo diferenças de qualidade ou de poder negocial.
2.3. O saldo comercial positivo consolidou-se
O excedente comercial da UE em sucata de zinco reforçou-se significativamente ao longo do período, passando de €74,9 milhões para €120,6 milhões (+60,9%). O mínimo ocorreu em 2020 (€56,9 milhões), refletindo o impacto da pandemia nos fluxos comerciais, seguindo-se uma recuperação robusta. O máximo foi atingido em 2021 (€130,4 milhões), no contexto da forte procura global de metais na fase de recuperação económica pós-pandemia.
| Indicador comercial | 2015 | 2020 | 2022 | 2025 | Variação 2015-2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Exportações (€ M) | 92,5 | 73,2 | 162,1 | 144,1 | +55,8% |
| Exportações (kt) | 59,2 | 43,1 | 68,2 | 64,3 | +8,5% |
| Preço exp. (€/t) | 1.561 | 1.698 | 2.468 | 2.242 | +43,6% |
| Importações (€ M) | 17,5 | 13,8 | 31,6 | 23,5 | +34,1% |
| Importações (kt) | 12,9 | 9,4 | 16,0 | 14,1 | +9,0% |
| Preço imp. (€/t) | 1.358 | 1.470 | 2.436 | 1.670 | +23,0% |
| Saldo (€ M) | 74,9 | 56,9 | 130,4 | 120,6 | +60,9% |
Fonte: General Overview
3. Reconfiguração dos fluxos intra-UE e concentração do mercado
A estrutura interna do mercado europeu de sucata de zinco também sofreu transformações significativas, com alterações na especialização dos Estados-Membros e na concentração dos fluxos.
3.1. Os Países Baixos emergiram como principal exportador da UE
A evolução dos principais exportadores da UE revela uma reconfiguração notável. A Alemanha manteve-se como o maior exportador (€33,3 milhões em 2025), mas com crescimento praticamente nulo (-1,9%). Em contraste, os Países Baixos registaram um crescimento espetacular de 380,5% — de €8,7 milhões para €42,0 milhões — tornando-se potencialmente o maior exportador em termos de valor. A Espanha (+126,5%) e a Áustria (+199,1%) também registaram crescimentos acentuados, enquanto a França recuou 28,5%, de €26,7 milhões para €19,1 milhões.
3.2. A especialização produtiva concentra-se em França e nos países centrais
De acordo com o índice de especialização revelada (RSCA), a França é o Estado-Membro mais especializado na produção de sucata de zinco (RSCA = 0,64, RCA = 4,62), respondendo por 36,1% da produção europeia em volume. Seguem-se a Áustria (RSCA = 0,20), o Luxemburgo (RSCA = 0,11) e a Alemanha (RSCA = 0,08), esta última com a maior quota absoluta de produção (25,0%). Os países com menor especialização incluem a Grécia (RSCA = -1,00), a Bulgária (RSCA = -0,96) e a Estónia (RSCA = -0,94), cuja produção de sucata de zinco é residual face às suas necessidades internas.
3.3. A produção europeia cresceu significativamente em volume e valor
A produção europeia de sucata de zinco cresceu 48,7% em quantidade (de 1.634.700 toneladas para 2.430.000 toneladas) e 56,2% em valor (de €1.920 milhões para €3.000 milhões). Este crescimento reflete tanto o aumento da recolha seletiva e da reciclagem de produtos contendo zinco, como a maior valorização económica da sucata, impulsionada pela subida dos preços do zinco no mercado internacional.
3.4. A concentração das exportações diminuiu, sinalizando maior diversificação
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das exportações por parceiro diminuiu 27,2% — de 6.201 para 4.513 — refletindo a diversificação dos destinos de exportação após a saída da China. Este valor permanece, no entanto, num patamar que indica uma concentração moderada a elevada, consistente com a dominância da Índia como destino principal. Nas importações, o HHI aumentou ligeiramente (+7,1%, de 1.928 para 2.065), sugerindo uma ligeira concentração das fontes de abastecimento, com os Estados Unidos, o Reino Unido e a Suíça a dominarem o panorama.
| Estado-Membro exportador | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 33,9 | 33,3 | -1,9 |
| Países Baixos | 8,7 | 42,0 | +380,5 |
| França | 26,7 | 19,1 | -28,5 |
| Itália | 7,9 | 12,6 | +59,1 |
| Bélgica | 6,6 | 11,2 | +69,5 |
| Espanha | 4,7 | 10,6 | +126,5 |
| Áustria | 1,1 | 3,2 | +199,1 |
Fonte: Top reporters by value
Conclusão
O mercado europeu de sucata de zinco (CN 7902) experimentou uma transformação estrutural profunda entre 2015 e 2025. A dinâmica mais significativa foi a reconfiguração radical das cadeias de abastecimento de exportação, com a China a perder praticamente toda a sua relevância como destino (de €71,4 milhões para €0,8 milhões) e a Índia e a Tailândia a emergirem como os principais mercados de destino para a sucata europeia. Este redirecionamento reflete as políticas de restrição à importação de resíduos da China e a crescente procura industrial no Sul e Sudeste Asiático.
Em termos de valor comercial, o período foi marcado por um crescimento acentuado do excedente comercial (+60,9%), impulsionado sobretudo pela subida dos preços (+43,6% nas exportações), uma vez que o crescimento em volume foi modesto. A produção europeia cresceu significativamente (+48,7% em volume), reforçando o papel da UE como fornecedor global de matérias-primas secundárias de zinco.
A diversificação geográfica das exportações melhorou, como evidenciado pela redução do HHI de exportação (-27,2%), embora a concentração no destino indiano apresente riscos potenciais de dependência. No interior da UE, os Países Baixos consolidaram-se como hub logístico de exportação, enquanto a França mantém a liderança em termos de especialização produtiva. Os choques de preços pontuais detetados nas importações do México, Suíça e Bósnia e Herzegovina reforçam a necessidade de monitorização contínua das vulnerabilidades na cadeia de abastecimento europeia.