Evolução do mercado: chapas de zinco (CN 7905) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativo ao código pautal 7905 — «Chapas, folhas e tiras, de zinco» — ao longo do período 2015–2025. O produto insere-se no capítulo 79 (zinco e suas obras), com mapeamento direto ao código PRODCOM 24.43.23.00, que abrange barras, perfis, fio, chapas, tiras e folhas de zinco (ver Scope & Definitions).
O período em análise é particularmente revelador: a UE passou de uma posição deficitária líquida em 2015 (saldo comercial de −14,2 milhões de euros) para um superavit significativo em 2025 (+22,2 milhões de euros), uma inversão de 256,3% (dados gerais de comércio). Este relatório decompõe as principais dinâmicas subjacentes a esta transformação, abordando a evolução dos fluxos, a estrutura de parceiros e a volatilidade setorial.
1. A viragem comercial: de importador líquido a exportador líquido
1.1. As exportações da UE triplicaram em valor nominal
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE de chapas de zinco para países terceiros cresceu de 17,2 para 49,7 milhões de euros, correspondendo a um aumento de 189,7%. A quantidade exportada subiu 68,3% (de 6.033 para 10.152 toneladas), enquanto o preço médio subiu 72,2% (de 2.844 para 4.896 €/t). A subida de preços explica assim uma parte substancial do crescimento nominal, sugerindo quer uma valorização do produto, quer choques inflacionários nos custos de matéria-prima (General Overview).
1.2. As importações recuaram em volume, apesar da subida de preços
Em contraste, as importações da UE diminuíram 12,3% em valor (de 31,4 para 27,5 milhões de euros) e 36,8% em quantidade (de 12.758 para 7.758 toneladas). Contudo, o preço médio das importações subiu 38,7% (de 2.555 para 3.543 €/t). Estes dois efeitos opostos — volumes em queda e preços a subir — resultaram num declínio moderado do valor total importado. A queda mais acentuada em volume sugere uma redução estrutural da procura de importações, possivelmente substituídas por produção interna ou por reorientação de fluxos comerciais (dados de importações).
1.3. A dependência líquida de importações inverteu-se
O indicador de dependência líquida de importações (net import reliance) passou de +2,8% em 2015 para −2,1% em 2025, atingindo um mínimo de −5,0% em algum momento do período (Autonomy & Vulnerability). Valores negativos indicam que a UE se tornou exportador líquido deste produto. Paralelamente, a propensão para exportar (export propensity) disparou de 1,9% para 6,2%, um crescimento de 229,7%, sinalizando uma reorientação significativa da produção europeia para mercados externos (export propensity).
1.4. A produção europeia perdeu volume, mas manteve o valor
Os dados PRODCOM revelam que a produção europeia de chapas, folhas e tiras de zinco em volume caiu 39,8% — de 298,9 milhões de kg para 180,0 milhões de kg — entre o primeiro e o último ano disponível. No entanto, o valor da produção recedeu apenas 3,8% (de 935,5 para 900,0 milhões de euros), situando-se entre um mínimo de 600 milhões e um máximo de 1.200 milhões de euros ao longo do período (production volumes). Esta combinação — forte queda de volume e estabilidade relativa de valor — reflete um aumento acentuado do valor unitário da produção, consistente com uma subida generalizada dos preços do zinco e/ou com uma aposta europeia em produtos de maior valor acrescentado.
2. Concentração geográfica e evolução dos parceiros comerciais
2.1. As importações estão fortemente concentradas no Peru
O Peru é, de longe, o principal fornecedor externo de chapas de zinco à UE, representando 87,2% do valor total das importações em 2025 (24,0 de 27,5 milhões de euros). Apesar de uma ligeira queda de 8,3% face ao valor inicial, o domínio do Peru manteve-se quase inalterado ao longo da década. O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor manteve-se persistentemente elevado — entre 6.711 e 8.394 — confirmando uma estrutura de fornecimento muito concentrada (concentração HHI).
| Fornecedor | Valor 2015 (k€) | Valor 2025 (k€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Peru | 26.152 | 23.974 | −8,3% |
| Estados Unidos | 3.936 | 2.408 | −38,8% |
| Reino Unido | 588 | 123 | −79,1% |
| China | 156 | 705 | +352,2% |
Os restantes fornecedores — Estados Unidos, Reino Unido, China, Austrália, Turquia e Coreia do Sul — representam parcelas residuais. Cabe notar a forte subida das importações chinesas (+352,2%) ainda que em valores absolutos moderados, e a quase eliminação das importações do Reino Unido como fornecedor (−79,1%), num movimento que se enquadra no pós-Brexit (top partners — imports).
2.2. As exportações europeias diversificaram-se e cresceram em múltiplos mercados
Enquanto as importações se mantiveram concentradas, as exportações da UE sofreram uma clara diversificação: o HHI das exportações desceu 27,8% (de 2.429 para 1.754), o valor mais baixo registado em todo o período (1.129 em 2019), reflectindo uma base de destinos mais ampla e equilibrada (concentração de exportações).
| Destino | Valor 2015 (k€) | Valor 2025 (k€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 2.137 | 17.040 | +697,3% |
| Coreia do Sul | 7.962 | 3.525 | −55,7% |
| Turquia | 640 | 8.645 | +1.250,9% |
| Suíça | 473 | 3.427 | +625,3% |
| China | 692 | 4.214 | +509,2% |
| Estados Unidos | 867 | 2.943 | +239,5% |
| Marrocos | 399 | 150 | −62,4% |
O Reino Unido tornou-se em 2025 o maior destino das exportações da UE (+697,3%), mas as subidas mais espetaculares em termos percentuais registaram-se na Turquia (+1.250,9%), Suíça (+625,3%) e China (+509,2%). A Coreia do Sul e Marrocos foram os dois mercados que registaram contrações significativas (top partners — exports).
2.3. A França consolidou-se como principal exportador intra-UE
Do lado dos Estados-Membros, a França é o principal exportador de chapas de zinco para países terceiros, com 37,4 milhões de euros em 2025 (crescimento de 5,5% face a 2015), e detém a maior especialização relativa (RSCA de 0,715; RCA de 6,02) (especialização). A Espanha surge como segundo produtor especializado (RCA de 3,59; RSCA de 0,564). Em contraste, Bélgica assistiu a uma queda acentuada nas exportações (−92,3%), passando de 1,5 milhão para apenas 112 mil euros, o que sugere uma reconfiguração das cadeias logísticas intra-europeias (top reporters — exports).
3. Choques de preço e volatilidade nos fluxos setoriais
3.1. A volatilidade dos fluxos de importação é dominada por fornecedores periféricos
Os coeficientes de variação (CV) dos principais fornecedores revelam padrões distintos. O Peru — responsável pela esmagadora maioria das importações — apresenta o CV mais baixo (0,191), reflectindo a estabilidade do seu fornecimento. Em contraste, parceiros de menor dimensão como Austrália (CV de 1,952), Noruega (1,607), Índia (1,553) e Vietname (1,386) exibem volatilidade muito elevada, consistente com fluxos esporádicos ou pontuais (volatilidade das importações).
O elevado CV destes fornecedores periféricos, combinado com as suas reduzidas quotas de mercado, sugere que funcionam como válvulas de ajuste sazonal ou oportunístico, e não como fontes estruturais de abastecimento.
3.2. Identificaram-se três choques de preço significativos
O modelo de deteção de choques identificou três eventos anómalos relevantes (supply shocks):
| Evento | Tipo | Fluxo | Ano | Anormalidade | Variação (%) | Peso no fluxo (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Marrocos | Preço | Exportações | 2021 | 215,8 | +703,5% | 0,8% |
| Peru | Preço | Importações | 2017 | 56,7 | +34,8% | 100,0% |
| Turquia | Preço | Exportações | 2022 | 5,6 | +39,9% | 10,9% |
O choque mais intenso, em termos de anormalidade estatística, ocorreu nas exportações para Marrocos em 2021 (anormalidade de 215,8, com uma variação de preço de +703,5%). Apesar do seu peso marginal no total das exportações, este evento sugere uma transação atípica — possivelmente de pequeno volume mas elevado preço unitário — que distorziu a média.
O choque nas importações do Peru em 2017 (anormalidade de 56,7, variação de +34,8%) é mais relevante em termos sistémicos: dado que o Peru representava 100% do valor das importações desse cluster, o aumento de preço refletiu-se diretamente no custo total de aquisição pela UE, podendo estar associado a dinâmicas de oferta mineira sul-americana.
3.3. A volatilidade das exportações é mais elevada e distribuída
No lado das exportações, os parceiros com maior volatilidade incluem Índia (CV de 1,057), Noruega (1,035) e Suíça (0,991). Note-se que a Turquia — destino em forte crescimento — apresenta um CV de 0,970, sugerindo que a trajetória ascendente das exportações para este mercado não foi isenta de flutuações significativas. Em contraste, os fluxos para o Reino Unido (CV de 0,845) e Estados Unidos (CV de 0,430) revelaram-se mais estáveis, o que é consistente com o seu estatuto de parceiros comerciais de largo prazo e elevado volume (volatilidade das exportações).
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação estrutural do comércio europeu de chapas de zinco (CN 7905). A UE deixou de ser importador líquido para se tornar exportador líquido, impulsionada por uma triagem do valor das exportações e por uma contração simultânea dos volumes importados. Esta reconfiguração foi apoiada pela diversificação geográfica das exportações — com ganhos particularmente expressivos no Reino Trido, Turquia, Suíça e China —, ao passo que as importações permaneceram fortemente dependentes de um único fornecedor, o Peru.
A produção europeia perdeu substancial volume (−39,8%), mas manteve o valor nominal, sugerindo uma aposta em segmentos de maior valor unitário. A concentração das exportações diminuiu, conferindo maior resiliência à carteira de destinos, enquanto a concentração das importações se manteve num nível elevado, constituindo um ponto de vulnerabilidade potencial.
Os choques de preço detetados — em particular o ocorrido nas importações do Peru em 2017 — sublinham a sensibilidade do abastecimento europeu a perturbações num fornecedor dominante. A combinação de crescente propensão exportadora com maior autonomia líquida sugere que o setor europeu de chapas de zinco atravessou uma década de reorientação estratégica, passando de uma posição defensiva para uma postura de projeção externa no comércio global deste produto.