Evolução do mercado: Sulfitos e tiossulfatos (CN 2832) — 2015–2025
Introdução
O código NC 2832 abrange os sulfitos — incluindo o sulfito de sódio (283210), os restantes sulfitos (283220) — e os tiossulfatos (283230). Trata-se de produtos químicos inorgânicos com aplicações relevantes em setores como o tratamento de águas, a indústria alimentar, a fotografia e a produção de papel e pasta de celulose. Ao longo do período 2015–2025, o comércio externo da UE com parceiros não comunitários registou dinâmicas notáveis, marcadas por uma consolidação do superávit comercial, uma forte reconfiguração geográfica dos parceiros de importação e uma transformação estrutural do segmento dos tiossulfatos. Este relatório analisa os principais movimentos observados com base nos dados disponíveis no Painel Geral de Comércio.
1. Consolidação do superávit comercial e crescimento centrado nas exportações
O superávit comercial reforçou-se em mais de 30%
A UE manteve-se ao longo de todo o período uma exportadora líquida de sulfitos e tiossulfatos. O saldo comercial passou de 61,2 milhões EUR em 2015 para 80,0 milhões EUR em 2025, uma variação positiva de 30,7%. O índice de dependência líquida de importações confirma esta trajetória: com valores negativos ao longo de todo o período (de −16,8% para −20,4%), a UE reforçou a sua posição de autossuficiência líquida.
As exportações cresceram em valor acima do crescimento em volume
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE subiu de 77,0 milhões EUR para 94,4 milhões EUR (+22,6%), enquanto o volume cresceu apenas de 167 mil toneladas para 179 mil toneladas (+7,2%). A intensidade do preço médio de exportação passou de 461 EUR/t para 527 EUR/t (+14,4%), o que indica que parte substancial do ganho em valor se deveu a uma valorização dos preços e não apenas a um aumento de volume.
As importações recuaram acentuadamente em volume, com pressão ascendente nos preços
O volume importado caiu de forma pronunciada: de 54,5 mil toneladas em 2015 para apenas 28,4 mil toneladas em 2025 (−48,0%). Paradoxalmente, o valor das importações diminuiu apenas 8,8% (de 15,8 M EUR para 14,4 M EUR), dado que o preço médio de importação quase duplicou, passando de 289 EUR/t para 507 EUR/t (+75,5%). Este descolamento entre volume e preço reflete uma alteração na composição das importações — com menor peso dos tiossulfatos de baixo preço — e efeitos de inflação de preços em 2022.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor (M EUR) | 77,0 | 94,4 | +22,6 |
| Exportações — volume (mil t) | 167,1 | 179,1 | +7,2 |
| Exportações — preço médio (EUR/t) | 460,8 | 527,2 | +14,4 |
| Importações — valor (M EUR) | 15,8 | 14,4 | −8,8 |
| Importações — volume (mil t) | 54,5 | 28,4 | −48,0 |
| Importações — preço médio (EUR/t) | 288,8 | 506,9 | +75,5 |
| Saldo comercial (M EUR) | 61,2 | 80,0 | +30,7 |
2. Reconfiguração geográfica: perda de fornecedores tradicionais e emergência de novos parceiros
A Rússia e os EUA desapareceram como fornecedores de importação
Duas das mudanças mais marcantes nas importações por parceiro foram o colapso das compras à Federação Russa e aos Estados Unidos. A Rússia, que em 2015 representou 1,1 milhão EUR em fornecimentos, caiu para valores residuais em 2025 (−100%). Os EUA passaram de 5,5 milhões EUR para 420 mil EUR (−92,4%). Estes dois parceiros, que em conjunto representavam mais de 40% do valor das importações em 2015, praticamente desapareceram do mapa das importações da UE.
A Turquia e a Tailândia ganharam protagonismo
Em contrapartida, a Turquia consolidou-se como principal fornecedor extra-UE, crescendo de 4,3 milhões EUR para 6,7 milhões EUR (+54,9%). A Tailândia apresentou o crescimento mais espetacular: de 205 mil EUR para 1,55 milhões EUR (+659%). O Reino Unido, que após o Brexit passou a ser contabilizado como parceiro não comunitário, também registou um crescimento significativo (+64,0%), passando a ter um peso relevante nas importações da UE.
Os destinos de exportação da UE diversificaram-se
No lado das exportações por parceiro, a UE diversificou significativamente os seus mercados. O Reino Unido tornou-se um dos principais destinos, com um crescimento de 275,3% (de 2,9 milhões EUR para 10,7 milhões EUR). O Equador registou um crescimento de 200,4%, e a Noruegia consolidou-se como parceiro estável (+45,3%). O Brasil, apesar de ser o maior destino em 2015, registou uma quebra de 20,5%, passando a partilhar protagonismo com os EUA (+32,2%).
A concentração geográfica das importações aumentou
O índice HHI de concentração das importações subiu de 2 442 para 2 990 (+22,4%), refletindo uma maior dependência de um conjunto mais reduzido de fornecedores. As exportações mantiveram-se relativamente mais dispersas (HHI de 486 para 582), embora com uma ligeira tendência de concentração. Esta assimetria sugere que a UE enfrenta riscos de abastecimento superiores aos riscos de acesso a mercados de destino.
| Parceiro (importações) | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Turquia | 4,3 | 6,7 | +54,9 |
| Estados Unidos | 5,5 | 0,4 | −92,4 |
| Reino Unido | 2,0 | 3,3 | +64,0 |
| Tailândia | 0,2 | 1,6 | +659,1 |
| China | 1,2 | 1,5 | +26,7 |
| Federação Russa | 1,1 | ~0 | −100,0 |
| Suíça | 0,1 | 0,2 | +149,4 |
| Parceiro (exportações) | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Brasil | 9,6 | 7,7 | −20,5 |
| Estados Unidos | 8,8 | 11,7 | +32,2 |
| Reino Unido | 2,9 | 10,7 | +275,3 |
| Equador | 3,3 | 9,9 | +200,4 |
| México | 5,0 | 4,9 | −1,3 |
| Peru | 3,5 | 2,6 | −26,8 |
| Noruega | 2,5 | 3,6 | +45,3 |
3. A transformação estrutural do segmento dos tiossulfatos
Os tiossulfatos passaram de principal importação a motor das exportações
A análise por subproduto revela uma transformação profunda do segmento dos tiossulfatos (CN 283230). Em 2015, as importações de tiossulfatos atingiam 31,3 mil toneladas — mais de metade do volume total importado — mas em 2025 esse valor desceu para apenas 2,9 mil toneladas (−90,6%). Simultaneamente, as exportações de tiossulfatos dispararam de 6,2 mil toneladas para 51,0 mil toneladas (+716,4%). A UE deixou de ser importadora líquida de tiossulfatos para se tornar uma exportadora significativa.
A produção europeia de sulfitos duplicou em volume e triplicou em valor
Os dados de produção PRODCOM confirmam uma expansão produtiva notável. A quantidade produzida (expressa em kg de Na₂S₂O₅) passou de 340 milhões kg para 680 milhões kg (+100,1%), enquanto o valor de produção subiu de 71,5 milhões EUR para 258 milhões EUR (+260,8%). Este crescimento em valor muito superior ao crescimento em volume reflete uma subida generalizada dos preços industriais e uma eventual mudança na composição do mix produtivo para produtos de maior valor acrescentado.
A Alemanha domina tanto a produção como as exportações, com vantagem comparativa confirmada
A análise de especialização revela que a Alemanha é o Estado-Membro mais especializado neste setor (RSCA de 0,35; RCA de 2,09), controlando 44,3% da produção europeia. Seguem-se a Bélgica (RSCA 0,35; RCA 2,07; 17,5% da produção) e a Itália (RSCA 0,29; RCA 1,81; 14,5% da produção). Na distribuição das exportações por Estado-Membro, a Alemanha manteve-se estável (45,3 M EUR), mas a Bélgica (+432,3%), os Países Baixos (+277,1%) e a França (+88,1%) registaram crescimentos muito expressivos. Nos setores mais pequenos, a Irlanda (+231,1%) e a Polónia (+130,4%) também se destacaram do lado das importações.
Os preços de exportação dos sulfitos de sódio e dos tiossulfatos registaram volatilidade em 2022
O preço médio de exportação do sulfito de sódio (CN 283210) atingiu um pico de 844 EUR/t em 2022, muito acima dos ~420–516 EUR/t registados nos anos anteriores e seguintes. De igual forma, o preço dos tiossulfatos de exportação subiu para 615 EUR/t em 2022. Os eventos de choque detetados incluem um aumento de preço de 66,4% nas exportações para o México em 2022 (abnormalidade de 47,9), um pico de 595,6% nas importações dos EUA em 2018, e uma subida de 81,5% nas exportações para os EUA em 2022. Estes picos de preços coincidem com a crise energética global e as disrupções nas cadeias de abastecimento pós-COVID, que afetaram particularmente os custos de produção de químicos inorgânicos.
| Segmento | Import. 2015 (t) | Import. 2025 (t) | Var. (%) | Export. 2015 (t) | Export. 2025 (t) | Var. (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 283210 — Sulfitos de sódio | 17 268 | 20 181 | +16,9 | 53 268 | 47 777 | −10,3 |
| 283230 — Tiossulfatos | 31 287 | 2 940 | −90,6 | 6 245 | 51 014 | +716,4 |
| 283220 — Outros sulfitos | 5 977 | 5 231 | −12,5 | 5 739 | 1 841 | −67,9 |
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por três dinâmicas interligadas no mercado europeu dos sulfitos e tiossulfatos: (i) o reforço da posição de exportador líquido da UE, com um superávit comercial que cresceu 30,7% em termos absolutos; (ii) uma profunda reconfiguração geográfica, com a saída de fornecedores tradicionais como a Rússia e os EUA e a consolidação da Turquia, Tailândia e Reino Unido como parceiros relevantes; e (iii) uma transformação estrutural do segmento dos tiossulfatos, que passou de principal categoria de importação a grande motor de exportação, refletindo investimentos produtivos europeus que duplicaram a capacidade de produção. Apesar destas evoluções positivas em termos de autossuficiência, a crescente concentração das importações num número reduzido de fornecedores e a volatilidade de preços registada em 2022–2023 constituem fatores de vulnerabilidade que merecem monitorização. A especialização da Alemanha, Bélgica e Itália neste setor sublinha o papel da indústria química europeia como polo competitivo global, embora a dispersão das capacidades entre Estados-Membros reduza o risco sistémico de uma dependência excessiva de um único produtor interno.