Evolução do mercado: Resíduos vegetais (CN 2308) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 2308 abrange matérias vegetais, desperdícios e subprodutos vegetais — mesmo em pellets — do tipo utilizado na alimentação de animais, não especificados nem compreendidos noutras posições (ver descrição no Trade Dashboard). Inserido no capítulo 23 da Nomenclatura Combinada («Resíduos e desperdícios das indústrias alimentares; alimentos preparados para animais»), este produto desempenha um papel essencial na cadeia de abastecimento pecuária europeia.
O período 2015–2025 foi marcado por transformações estruturais significativas no comércio da UE relativamente a este produto. Entre os principais desenvolvimentos, destaca-se um forte crescimento da produção interna, uma redução acentuada das importações, uma reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais e episódios de volatilidade de preços associados a choques geopolíticos. O presente relatório analisa estas dinâmicas em três eixos: a evolução da autonomia europeia face ao comércio externo, a reconfiguração das parcerias comerciais, e as dinâmicas de preços e volatilidade que moldaram o mercado ao longo da década.
1. Rumo à autonomia: crescimento da produção europeia e contração das importações
1.1 A produção europeia cresceu de forma exponencial
O dado mais marcante do período é o crescimento extraordinário da produção europeia de matérias vegetais para alimentação animal. A produção em quantidade passou de 870 milhões de kg em 2015 para 2.460 milhões de kg em 2025, um aumento de 182,8% (ver volumes de produção). Em valor, o crescimento foi ainda mais impressionante: de 58 milhões de euros para 279 milhões de euros, um aumento de 381% (ver valor de produção). Este crescimento em valor superior ao crescimento em quantidade sugere uma valorização significativa dos produtos ao longo do período.
1.2 As importações reduziram-se acentuadamente em volume
Em paralelo com o aumento da produção interna, as importações da UE de resíduos vegetais registaram uma contração significativa. Em volume, as importações passaram de 1.557.508 toneladas para 1.121.012 toneladas, uma queda de 28,0%. Em valor, a redução foi de 18,8%, situando-se em 288,3 milhões de euros em 2025 contra 354,9 milhões de euros em 2015 (ver visão geral do comércio).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Produção UE (kg) | 870.000.000 | 2.460.000.000 | +182,8% |
| Produção UE (EUR) | 58.000.000 | 279.000.000 | +381,0% |
| Importações UE (t) | 1.557.508 | 1.121.012 | −28,0% |
| Importações UE (EUR) | 354.862.292 | 288.314.003 | −18,8% |
| Exportações UE (t) | 153.639 | 124.940 | −18,7% |
| Exportações UE (EUR) | 51.054.737 | 59.176.980 | +15,9% |
1.3 A dependência líquida de importações diminuiu substancialmente
A taxa de dependência líquida de importações (net import reliance) da UE desceu de 72,1% em 2015 para 47,6% em 2025, uma redução de 34,0 pontos percentuais (ver dependência de importações). Este indicador atingiu um mínimo histórico de 30,2% no período analisado, o que sugere um pico de autossuficiência europeia. O saldo comercial, embora permaneça negativo (−229,1 milhões de euros em 2025), melhorou 24,6% face a 2015 (−303,8 milhões de euros).
Em simultâneo, a intensidade comercial (trade intensity) diminuiu de 78,5% para 62,6% (ver intensidade comercial), enquanto a propensão exportadora (export propensity) se manteve estável em torno de 18,8%–20,8% (ver propensão exportadora). Estes dados indicam que a UE se tornou progressivamente menos dependente do exterior para este produto, apoiando-se num setor produtivo interno em franca expansão.
2. Reconfiguração geográfica das parcerias comerciais
2.1 Argentina mantém a liderança nas importações, mas com instabilidade
A Argentina continuou a ser o principal fornecedor externo da UE ao longo de todo o período, com um valor de importação que passou de 174,4 milhões de euros em 2015 para 165,9 milhões de euros em 2025 (−4,8%). No entanto, as importações argentinas atingiram um pico de 281,9 milhões de euros em algum ponto do período, antes de recuarem (ver parceiros comerciais). A volatilidade das importações argentinas foi relativamente baixa (CV de 0,145), o que sugere que o comércio com este parceiro, apesar das flutuações, é estruturalmente estável (ver volatilidade).
O Brasil, segundo maior fornecedor, registou uma queda mais acentuada de 33,4% (de 39,8 milhões para 26,5 milhões de euros), com uma volatilidade significativamente superior (CV de 0,573).
2.2 A Ucrânia emerge como parceiro em rápida ascensão
Um dos desenvolvimentos mais notáveis do período foi o crescimento exponencial das importações provenientes da Ucrânia, que aumentaram 688% — de 0,9 milhões de euros em 2015 para 6,9 milhões de euros em 2025 (ver parceiros comerciais). Esta evolução reflete a liberalização comercial UE-Ucrânia e as rotas de exportação alternativas que o país estabeleceu. A volatilidade do comércio com a Ucrânia é, contudo, elevada (CV de 0,536).
2.3 Reino Unido ganha peso como fornecedor e parceiro estável
O Reino Unido consolidou-se como parceiro comercial de referência em ambos os sentidos do comércio. Nas importações da UE, as compras ao Reino Unido mais do que duplicaram (+116,0%), passando de 12,9 milhões para 27,9 milhões de euros. Nas exportações, o Reino Unido manteve-se como o principal destino, com um crescimento modesto de 4,3% (de 25,3 milhões para 26,4 milhões de euros) e uma volatilidade relativamente baixa (CV de 0,337) (ver parceiros de exportação).
A relevância crescente do Reino Unido como fornecedor para a UE pode estar relacionada com a reconfiguração das cadeias de abastecimento no pós-Brexit, onde antigas rotas intra-UE passaram a ser registadas como comércio extra-UE.
2.4 Queda acentuada de fornecedores tradicionais
Em contraste, vários parceiros tradicionais perderam relevância. As importações dos Estados Unidos caíram 60,1% (de 24,4 milhões para 9,7 milhões de euros), e as do Vietname colapsaram de 5,4 milhões de euros para praticamente zero (−100%). A Federação Russa também registou uma queda de 34,1% (ver parceiros comerciais). No entanto, a Rússia registou um choque de preços nas importações em 2022, com um aumento de preço anómalo de 49,8% (ver choques de abastecimento), coincidindo com as sanções impostas após a invasão da Ucrânia.
2.5 A concentração das importações aumentou, enquanto as exportações se diversificaram
O índice de concentração HHI das importações em valor subiu 26,6%, de 2.824 para 3.576, indicando uma maior dependência de um número reduzido de fornecedores (ver concentração). Em contrapartida, o HHI das exportações desceu 19,2% (de 2.773 para 2.239), refletindo uma diversificação dos mercados de destino. Este padrão sugere que, embora a UE tenha ganho margem comercial, a sua base de fornecimento externo se tornou mais concentrada e potencialmente mais vulnerável a disrupções num número reduzido de parceiros.
2.6 Reconfiguração interna da UE: a Irlanda ultrapassa os Países Baixos
No panorama intra-UE, a Irlanda tornou-se o maior importador em 2025, com 79,5 milhões de euros (+42,4%), ultrapassando os Países Baixos que registaram uma queda de 40,2% (de 87,4 milhões para 52,3 milhões de euros) (ver principais declarantes). A Alemanha emergiu como o principal exportador intra-UE, com um crescimento excecional de 389,9% (de 4,5 milhões para 22,2 milhões de euros).
| Estado-Membro (importações) | 2015 (EUR) | 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Irlanda | 55.834.304 | 79.495.684 | +42,4% |
| Países Baixos | 87.414.325 | 52.265.778 | −40,2% |
| Espanha | 36.916.399 | 29.214.357 | −20,9% |
| Alemanha | 49.259.269 | 42.861.141 | −13,0% |
| Dinamarca | 53.333.134 | 33.982.448 | −36,3% |
| França | 18.932.983 | 10.651.449 | −43,7% |
| Chéquia | 22.265.215 | 10.977.632 | −50,7% |
3. Preços em alta, volatilidade heterogénea e choques geopolíticos
3.1 Os preços unitários subiram significativamente em ambos os lados do comércio
O preço médio de exportação da UE subiu 42,5%, de 332 euros por tonelada para 474 euros por tonelada, atingindo um máximo de 668 euros por tonelada em algum ponto do período (ver visão geral). O preço médio de importação subiu 12,9%, de 228 euros para 257 euros por tonelada, com um pico de 344 euros por tonelada. A divergência entre a subida dos preços de exportação (42,5%) e de importação (12,9%) indica uma melhoria nos termos de troca da UE, que consegue vender a preços crescentemente superiores aos que paga pelos fornecedores externos.
3.2 A volatilidade do comércio varia fortemente consoante os parceiros
A análise do coeficiente de variação (CV) revela padrões de volatilidade muito distintos entre parceiros (ver volatilidade):
Importações — Coeficientes de variação mais elevados:
| Parceiro | CV |
|---|---|
| Indonésia | 1,41 |
| Vietname | 0,75 |
| Índia | 0,74 |
| Brasil | 0,57 |
| EUA | 0,56 |
| Ucrânia | 0,54 |
| Federação Russa | 0,46 |
Exportações — Coeficientes de variação mais elevados:
| Parceiro | CV |
|---|---|
| Líbano | 1,75 |
| Noruega | 1,57 |
| Islândia | 1,29 |
| Jordânia | 1,27 |
| Canadá | 0,95 |
| EUA | 0,90 |
| Cuba | 0,78 |
Os parceiros com maior volatilidade nas importações (Indonésia, Vietname, Índia) representam fluxos comerciais de menor dimensão e mais sujeitos a interrupções. Nos destinos de exportação, a elevada volatilidade do Líbano (CV de 1,75) e da Noruega (CV de 1,57) reflete mercados esporádicos e instáveis.
3.3 Três choques de preços marcaram o período
O sistema de deteção de choques identificou três eventos anómalos significativos (ver choques de abastecimento):
-
Reino Unido (exportações, 2017) — Um choque de preços com uma anomalia de 29,9 desvios-padrão e um aumento de 55,7% nos preços. Este evento teve uma ponderação de 61,7% no valor das exportações para o Reino Unido, tornando-o o choque mais significativo do período. O timing (2017) coincide com o período pós-referendo do Brexit, quando as flutuações cambiais da libra esterlina afetaram os preços de comércio bilateral.
-
Líbano (exportações, 2021) — Um choque de preços com uma anomalia de 17,1 desvios-padrão e um aumento de preço de 1.116,5%, embora com uma ponderação de apenas 1,6% no valor das exportações. Este episódio está provavelmente ligado à crise económica e financeira do Líbano, que provocou uma desvalorização maciça da moeda e distorções nos preços de importação.
-
Federação Russa (importações, 2022) — Um choque de preços com uma anomalia de 7,2 desvios-padrão e um aumento de 49,8%, com uma ponderação de 5,8% no valor das importações. Este evento reflete diretamente o impacto das sanções económicas impostas à Rússia no contexto do conflito na Ucrânia.
Conclusão
O período 2015–2025 foi definido por uma transformação estrutural no mercado europeu de resíduos vegetais para alimentação animal (CN 2308). A UE registou um crescimento excecional da sua capacidade produtiva interna (+182,8% em quantidade, +381% em valor), o que se traduziu numa redução significativa da dependência externa — a taxa de dependência líquida de importações baixou de 72,1% para 47,6%.
Paralelamente, as parcerias comerciais reconfiguraram-se: a Argentina mantém a liderança como fornecedor externo, mas a Ucrânia emergiu como parceiro em rápida ascensão (+688%), enquanto os Estados Unidos e o Vietname perderam relevância. O Reino Unido consolidou-se como parceiro estratégico em ambos os sentidos do comércio, e a Irlanda tornou-se o maior importador intra-UE, ultrapassando os Países Baixos.
Os preços subiram acentuadamente, com as exportações a registarem um crescimento de preço (42,5%) superior ao das importações (12,9%), refletindo uma melhoria dos termos de troca europeus. Os choques geopolíticos — o Brexit (2017), a crise libanesa (2021) e as sanções à Rússia (2022) — deixaram marcas visíveis nos preços e nos volumes de comércio.
Apesar da melhoria da autonomia, a concentração das importações (HHI +26,6%) sugere que a base de fornecimento externo se tornou mais dependente de um número reduzido de parceiros. A capacidade da UE em diversificar as suas fontes de abastecimento, mantendo simultaneamente o crescimento da produção interna, será determinante para a resiliência futura deste setor essencial para a cadeia alimentar europeia.