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Evolução do mercado: Bagaços de óleos vegetais (CN 2306) — 2015–2025

Introdução

A posição CN 2306 abrange os bagaços (tortas) e outros resíduos sólidos resultantes da extração de gorduras ou óleos vegetais — um conjunto de subprodutos com papel central na indústria de rações animais na União Europeia. Ao longo da década 2015–2025, o comércio externo da UE nesta posição passou por transformações profundas: a dependência de fornecedores tradicionais reconfigurou-se, a produção interna cresceu de forma exponencial e os preços internacionais registaram ciclos de volatilidade sem precedentes, em parte impulsionados por conflitos geopolíticos e pela pandemia. Este relatório analisa a evolução das importações e exportações da UE27 com países terceiros, com base nos dados disponíveis de 2015 a 2025, procurando identificar as dinâmicas estruturais e os choques que moldaram o mercado europeu de tortas oleaginosas.

Para mais detalhes sobre o âmbito e as definições do produto, consultar a visão geral no Trade Dashboard.


1. Reconfiguração geopolítica das fontes de abastecimento

1.1. O colapso das importações da Rússia e o peso crescente da Ucrânia

O fornecedor que mais sofreu uma desagregação ao longo do período foi a Federação Russa: as importações da UE provenientes da Rússia caíram de 208,1 milhões EUR em 2015 para apenas 0,7 milhões EUR em 2025, uma redução de 99,6%. Este colapso, que se acelerou após 2022 em resultado das sanções impostas no contexto do conflito Rússia–Ucrânia, eliminou praticamente um fornecedor que em 2015 representava a terceira maior origem de bagaços importados pela UE.

A Ucrânia, por sua vez, consolidou-se como o principal fornecedor externo ao longo de praticamente todo o período, passando de 443,9 milhões EUR em 2015 para 315,4 milhões EUR em 2025 (–29,0%). Apesar da redução nominal, a Ucrânia manteve uma quota dominante: em 2025 representava ainda a maior fonte individual de importações de bagaços, com uma quota de valor significativa (cerca de 32% do total importado). O valor máximo registado foi de 490,4 milhões EUR em 2021, num ano em que a subida dos preços internacionais amplificou o valor das importações. A queda subsequente reflecte tanto a normalização de preços como possíveis disrupções logísticas ligadas ao conflito, apesar dos corredores de exportação terem sido posteriormente reabertos.

Consultar a evolução dos principais parceiros nas importações.

Parceiro (importações) 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação (%)
Ucrânia 443,9 315,4 –29,0%
Indonésia 161,0 171,0 +6,2%
Federação Russa 208,1 0,7 –99,6%
Argentina 62,3 198,4 +218,6%
Malásia 44,9 14,6 –67,5%
Reino Unido 23,8 38,9 +63,7%
Tunísia 14,9 17,0 +14,5%

1.2. A ascensão da Argentina e a diversificação das origens

A Argentina registou o crescimento mais expressivo entre os principais fornecedores, com um aumento de 218,6% no valor das importações para a UE (de 62,3 para 198,4 milhões EUR). Este crescimento posicionou a Argentina como o segundo maior fornecedor em 2025, ultrapassando a Indonésia. A dinâmica argentina é consistente com a expansão da capacidade de moagem de soja no país e com a reorientação europeia para fornecedores mais distantes, face à perda de acesso ao fornecedor russo.

Por outro lado, a Malásia sofreu uma redução acentuada de 67,5%, caindo de 44,9 para 14,6 milhões EUR, o que sugere uma reconfiguração das cadeias de abastecimento de tortas de palma (CN 230660). A Indonésia, o outro grande fornecedor asiático de tortas de palma, manteve-se relativamente estável (+6,2%), sinalizando um desvio de quota da Malásia para a Indonésia ou para outras origens.

1.3. Menor concentração nas importações

O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) para as importações por valor diminuiu de 2 605 para 1 928 (–26,0%), o que indica uma redução significativa da concentração das importações da UE. Em 2015, a combinação Ucrânia–Rússia dominava as importações; em 2025, a distribuição tornou-se mais diversificada, com a Argentina, a Indonésia e o Reino Unido a ganharem peso relativo. Esta evolução contribuiu para uma menor vulnerabilidade a riscos de abastecimento.


2. Expansão da produção e capacidade exportadora europeia

2.1. Crescimento exponencial da produção europeia de tortas

A produção europeia (PRODCOM) de bagaços de óleos vegetais cresceu de forma notável ao longo do período, passando de 9,5 mil milhões de kg (2015) para 26,0 mil milhões de kg (2025), um aumento de 172,7%. Em termos de valor, a produção subiu de 947,3 milhões EUR para 3 723,4 milhões EUR (+293,0%), com um pico de 4 208,7 milhões EUR em 2022, ano de preços historicamente elevados. Este crescimento reflecte a expansão da capacidade de moagem europeia, particularmente de colza (nabo-silvestre), em resposta ao aumento da procura interna de rações proteicas e à estratégia europeia de reduzir a dependência de importações de proteína vegetal.

Consultar os volumes de produção europeus.

2.2. A consolidação da torta de colza como subproduto dominante nas exportações

A análise segmentar revela que a torta de colza com baixo teor de ácido erúcico (CN 230641) se tornou o principal subproduto exportado pela UE. As exportações deste segmento cresceram de 462 393 toneladas (2015) para 883 777 toneladas (2025), em volume, e de 118,3 milhões EUR para 248,1 milhões EUR, em valor. Em 2025, a CN 230641 representava já a maior fatia das exportações da UE em valor (61,9%), ultrapassando a torta de girassol (CN 230630).

As exportações de torta de girassol (CN 230630), por sua vez, apresentaram uma trajectória mais volatil: atingiram um pico de 1 013 161 toneladas e 343,1 milhões EUR em 2022 — impulsionado pela crise dos preços energéticos e agrícolas — antes de recuarem para 469 589 toneladas e 119,6 milhões EUR em 2025, valores inferiores aos de 2015.

Segmento exportações 2015 vol. (t) 2025 vol. (t) Var. (%) 2015 val. (M EUR) 2025 val. (M EUR) Var. (%)
230630 — Girassol 474 705 469 589 –1,1% 91,9 119,6 +30,1%
230641 — Colza (baixo AE) 462 393 883 777 +91,1% 118,3 248,1 +109,7%
230660 — Palma (palmiste) 80 608 50 420 –37,4% 13,3 8,2 –38,6%
230649 — Colza (alto AE) 133 039 30 668 –76,9% 35,1 8,7 –75,3%

Consultar a comparação de segmentos de produto.

2.3. Crescente propensão exportadora e redução da dependência de importações

A dependência líquida de importações da UE diminuiu significativamente ao longo da década, passando de 25,6% em 2015 para 17,6% em 2025 (–31,4%). Em simultâneo, a propensão exportadora — definida como a razão entre exportações e produção interna — disparou de 5,2% para 13,0% (+151,1%), atingindo um máximo de 15,8% em 2022. Esta dinâmica revela que o crescimento da produção europeia foi mais do que suficiente para compensar o aumento da procura interna, permitindo à UE colocar volumes crescentes nos mercados externos.

O principal destino das exportações da UE continuou a ser o Reino Unido, que absorveu 152,8 milhões EUR em 2025 (+56,1% face a 2015), reflectindo as cadeias de abastecimento integradas entre a UE e o mercado britânico. A Noruega tornou-se o segundo maior destino (91,7 milhões EUR, +104,2%), enquanto a China surgiu como mercado de oportunismo, com exportações a crescerem de 132 mil EUR para 22,3 milhões EUR, embora com uma volatilidade extrema.

A concentração das exportações por parceiro (HHI) aumentou de 1 863 para 2 244 (+20,4%), indicando que, apesar da diversificação dos fornecedores nas importações, as exportações da UE se tornaram mais dependentes de um número mais reduzido de mercados de destino.

Parceiro (exportações) 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação (%)
Reino Unido 97,9 152,8 +56,1%
Noruega 44,9 91,7 +104,2%
Israel 32,9 39,8 +21,0%
China 0,1 22,3 n.m.*
Marrocos 21,2 22,6 +6,6%
Turquia 20,2 5,7 –71,9%
Suíça 21,4 38,5 +79,5%

*n.m. = não mensurável (crescimento de base muito baixa)


3. Ciclos de preços, choques de abastecimento e volatilidade

3.1. O ciclo de preços 2015–2025: de depressão a pico e normalização

Os preços médios de importação da UE evoluíram de 182,6 €/t em 2015 para um máximo de 279,7 €/t — provavelmente em 2022 — antes de descerem para 199,2 €/t em 2025 (+9,1% face ao período inicial). Os preços de exportação seguiram uma trajectória semelhante, subindo de 217,5 €/t para um máximo de 345,1 €/t, fechando em 273,8 €/t em 2025 (+25,9%). O pico de 2022 está directamente relacionado com a crise energética e alimentar provocada pelo conflito na Ucrânia, que elevou os custos de produção e os preços das commodities agrícolas a níveis historicamente elevados.

No segmento das importações, os subprodutos com maior variação de preço incluem:

Segmento importações 2015 (€/t) Pico (€/t) 2025 (€/t)
230630 — Girassol 221,5 296,2 (2022) 228,0
230660 — Palma (palmiste) 111,5 234,2 (2022) 150,2
230641 — Colza (baixo AE) 236,7 325,0 (2022) 215,5
230649 — Colza (alto AE) 236,7 305,6 (2022) 254,2
230650 — Coco/copra 351,5 2 283,8 (2022) 2 129,7

O segmento de torta de coco/copra (CN 230650) destaca-se pela extraordinária subida de preços, de 351,5 €/t em 2015 para 2 283,8 €/t no pico, reflectindo restrições de oferta da Ásia e custos de transporte elevados. Apesar dos preços reduzidos em volume (as importações deste segmento são marginais, com 1 556 toneladas em 2025), o seu comportamento de preço é um indicador da pressão inflacionista nos mercados de commodities proteicas tropicais.

3.2. Choques de abastecimento e de preço identificados

O sistema de detecção de choques identificou três eventos significativos no período:

Evento Tipo Fluxo Anomalia Variação (%) Comparticipação no valor
China (2018) Preço Exportações 32,2 +1 328,7% 14,2%
Ucrânia (2021) Preço Importações 20,5 +31,4% 42,0%
Turquia (2022) Preço Exportações 5,8 +97,8% 7,2%

O choque mais extraordinário ocorreu nas exportações para a China em 2018, quando o valor das exportações da UE disparou de valores residuais para 171,1 milhões EUR (um aumento de mais de 1 300%), antes de recair para 22,3 milhões EUR em 2025. Esta dinâmica sugere uma compra pontual de grande volume por parte chinesa — possivelmente ligada a restrições de importação de soja dos EUA durante a guerra comercial EUA–China — que não se consolidou como padrão regular.

O choque de preços nas importações da Ucrânia em 2021 (anomalia de 20,5, com uma subida de 31,4% num único ano) reflecte a escalada de preços de commodities que antecedeu o conflito armado de fevereiro de 2022, e cujo impacto se prolongou até 2022.

3.3. Volatilidade por parceiro comercial

O coeficiente de variação (CV) das importações revela que os parceiros com maior instabilidade de fluxos incluem a Malásia (CV = 0,82), a Bielorrússia (CV = 1,03), a República da Moldávia (CV = 1,07) e o Canadá (CV = 2,91), este último com a maior volatilidade de todos. Do lado das exportações, a China apresenta o maior CV (1,33), confirmando o carácter esporádico das exportações para este mercado.

Os parceiros de importação mais estáveis — e portanto mais fiáveis do ponto de vista da segurança de abastecimento — são a Indonésia (CV = 0,11) e a Ucrânia (CV = 0,28), apesar da instabilidade geopolítica desta última.

Consultar a análise de volatilidade e choques.


Conclusão

O mercado europeu de bagaços de óleos vegetais (CN 2306) passou por uma transformação estrutural significativa entre 2015 e 2025. A perda quase total do fornecedor russo, a consolidação da Ucrânia como principal fornecedor e a ascensão da Argentina como alternativa sul-americana reconfiguraram profundamente o mapa das importações. Em paralelo, a produção europeia cresceu 172,7% em volume, impulsionada pela expansão da moagem de colza, o que permitiu reduzir a dependência líquida de importações de 25,6% para 17,6% e mais do que duplicar a propensão exportadora.

O ciclo de preços 2015–2025 foi dominado pela subida acentuada de 2021–2022, com o conflito na Ucrânia a funcionar como catalisador de uma crise mais ampla de preços de commodities agrícolas. Os preços normalizaram-se parcialmente em 2023–2025, mas mantiveram-se estruturalmente acima dos níveis pré-pandemia. A crescente especialização das exportações europeias em torta de colza de baixo teor de ácido erúcico — que em 2025 representava 61,9% do valor exportado — reflecte a vantagem competitiva europeia neste segmento, sustentada por uma base produtiva alargada nos Estados-Membros do Centro e Leste da Europa (Bulgária, Roménia, Hungria). No entanto, o aumento da concentração das exportações por parceiro (HHI ascendente) constitui um risco que merece acompanhamento, caso os principais mercados de destino venham a restringir o acesso às suas importações.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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