Evolução do mercado: Farelos (CN 2302) — 2015–2025
Introdução
O código NC 2302 abrange as sêmeas, farelos e outros resíduos — mesmo em pellets — provenientes da peneiração, moagem ou de outros tratamentos de cereais ou de leguminosas (incluindo os subcódigos 230210 — de milho, 230230 — de trigo, 230240 — de outros cereais, e 230250 — de leguminosas). Trata-se de uma posição setorial estratégica, situada na interseção entre a indústria de moagem de cereais e a cadeia de alimentação animal, com fortes ligações à gestão de resíduos agroindustriais.
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia com países terceiros neste produto ao longo de uma década (2015–2025). A análise incide sobre três eixos fundamentais: (i) o crescimento assimétrico das exportações e importações e a erosão temporária do superavit comercial; (ii) a reconfiguração geográfica das parcerias comerciais, com a emergência de novos parceiros e a perda de terreno de parceiros tradicionais; e (iii) os episódios de volatilidade de preços, os choques de abastecimento e a evolução dos segmentos de produto que moldaram a estrutura atual do mercado.
1. Um comércio externo em forte expansão, mas com dinâmicas assimétricas entre exportações e importações
1.1. Exportações que crescem 92% em valor, sustentadas por uma subida acentuada dos preços
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE de farelos passou de 71,2 M EUR para 136,3 M EUR, uma variação de +91,6%. Em termos de volume, o crescimento foi mais modesto: de 416 214 t em 2015 para 548 104 t em 2025 (+31,7%). A diferença entre estes dois ritmos traduz-se num aumento significativo do preço médio de exportação, que subiu de 170 EUR/t para 249 EUR/t (+46,1%), com um pico de 362 EUR/t registado em 2022.
Contudo, esta trajetória ascendente esconde uma volatilidade acentuada. O volume exportado atingiu o máximo do período em 2020 (569 716 t) e recuou drasticamente para 290 586 t em 2022 — o mínimo do intervalo — antes de recuperar para 548 104 t em 2025. Esta quebra de quase 50% em dois anos reflete a forte perturbação dos mercados globais de cereais desencadeada pelo conflito na Ucrânia.
| Indicador | 2015 | 2020 | 2022 | 2025 | Variação 2015→2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Valor exportações (M EUR) | 71,2 | 106,3 | 105,2 | 136,3 | +91,6% |
| Volume exportações (mil t) | 416 | 570 | 291 | 548 | +31,7% |
| Preço médio exportação (EUR/t) | 170 | 169 | 362 | 249 | +46,1% |
1.2. Importações que mais do duplicam e comprimem o superavit até ao mínimo de 2023
As importações da UE cresceram de forma ainda mais acentuada: de 30,1 M EUR em 2015 para 75,4 M EUR em 2025 (+150,7% em valor). Os volumes importados mais do que duplicaram, passando de 137 540 t para 355 191 t (+158,2%), consolidando-se estruturalmente acima dos níveis pré-2020.
Este crescimento assimétrico das importações exerceu uma pressão considerável sobre o saldo comercial. O superavit comercial da UE passou por três fases distintas:
- Expansão (2015–2020): o saldo subiu de 41,1 M EUR para o máximo do período, 64,5 M EUR, impulsionado por um crescimento exportador (em volume e valor) que superou o das importações.
- Compressão (2021–2023): o saldo caiu acentuadamente, atingindo o mínimo de 8,9 M EUR em 2023 — uma redução de 86% face ao pico — devido à simultânea queda do volume exportado (sobretudo farelo de trigo) e à escalada das importações.
- Recuperação (2024–2025): o saldo regressou a 60,9 M EUR, perto do máximo histórico, impulsionado pela normalização dos volumes exportados.
| Indicador | 2015 | 2020 | 2023 | 2025 | Variação 2015→2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Valor importações (M EUR) | 30,1 | 41,8 | 94,3 | 75,4 | +150,7% |
| Volume importações (mil t) | 138 | 178 | 407 | 355 | +158,2% |
| Preço médio importação (EUR/t) | 219 | 235 | 232 | 212 | −2,9% |
| Saldo comercial (M EUR) | 41,1 | 64,5 | 8,9 | 60,9 | +48,2% |
1.3. A produção interna da UE recua em volume mas valoriza-se em termos unitários
A produção interna da UE registou uma ligeira contração em volume (de 11,6 milhões de toneladas em 2015 para 10,5 milhões em 2025, −9,9%), mas registou simultaneamente uma valorização significativa do seu valor total (de 1 212 M EUR para 1 648 M EUR, +36,0%). Isto implica um aumento implícito do preço médio unitário de produção de aproximadamente 104 EUR/t para 157 EUR/t, refletindo a transmissão dos choques de custos das matérias-primas agrícolas.
Em paralelo, verificou-se uma intensificação da abertura comercial: a intensidade comercial (soma de exportações e importações relativas à produção) passou de 2,8% para 10,9% (+293,7%), enquanto a propensão exportadora se elevou de 1,8% para 7,1% (+295,3%). Estes indicadores sugerem que a UE se tornou progressivamente mais integrada no mercado internacional de farelos, exportando uma fração crescente da sua produção — ainda que continue a ser um exportador líquido persistente (reliância negativa nas importações, de −0,8% em 2015 para −2,9% em 2025).
2. Reconfiguração geográfica: a consolidação da Turquia e a emergência de novos fornecedores
2.1. A Turquia torna-se o principal destino das exportações europeias de farelos
A análise dos principais parceiros de exportação revela uma reconfiguração acentuada. Em 2015, o Reino Unido era o principal destino (19,4 M EUR), seguido da Tunísia (10,6 M EUR) e da Turquia (15,3 M EUR). Em 2025, a Turquia ocupa claramente a liderança (43,8 M EUR, +187,1%), tendo quase triplicado o seu peso, enquanto o Reino Unido se consolidou como segundo destino (35,9 M EUR, +85,7%).
Em contraste, os parceiros da ribeira sul do Mediterrâneo perderam terreno de forma significativa:
- Marrocos: de 6,5 M EUR para 1,8 M EUR (−72,3%)
- Tunísia: de 10,6 M EUR para 5,0 M EUR (−52,8%)
- Bósnia e Herzegovina: de 3,9 M EUR para 2,9 M EUR (−27,3%)
A concentração das exportações (HHI em valor) passou de 1 612 para 1 847 (+14,6%), refletindo precisamente o peso crescente da Turquia como destino dominante.
| Parceiro de exportação | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Turquia | 15,3 | 43,8 | +187,1% |
| Reino Unido | 19,4 | 35,9 | +85,7% |
| Noruega | 0,6 | 1,9 | +214,3% |
| Tunísia | 10,6 | 5,0 | −52,8% |
| Bósnia e Herzegovina | 3,9 | 2,9 | −27,3% |
| Marrocos | 6,5 | 1,8 | −72,3% |
2.2. A Ucrânia, Angola e a Moldávia nas importações: crescimentos explosivos
No que respeita às importações, a fonte dominante continua a ser o Reino Unido (27,9 M EUR em 2025, +48,1% face a 2015). No entanto, três parceiros experimentaram crescimentos particularmente acentuados:
- Ucrânia: de apenas 68 mil EUR em 2015 para 9,4 M EUR em 2025 (+13 630%), com um pico de 15,6 M EUR registado antes de 2025. Este crescimento reflete as medidas de liberalização comercial autónoma adotadas pela UE no contexto do conflito russo-ucraniano.
- Angola: de 0,9 M EUR para 9,0 M EUR (+900,9%), com um pico de 16,7 M EUR, numa trajetória marcada por uma elevada volatilidade (coeficiente de variação de 0,66).
- Moldávia: de 1,4 M EUR para 5,7 M EUR (+291,4%), numa dinâmica semelhante à ucraniana, associada ao enquadramento comercial da Parceria Oriental.
A emergência destes novos fornecedores contribuiu para uma acentuada diversificação das importações: o índice HHI em valor desceu de 4 200 para 1 905 (−54,6%), uma mudança estrutural que reduz a dependência de fontes individuais.
| Parceiro de importação | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 18,8 | 27,9 | +48,1% |
| Ucrânia | 0,07 | 9,4 | +13 630% |
| Angola | 0,9 | 9,0 | +900,9% |
| Moldávia | 1,4 | 5,7 | +291,4% |
| Costa do Marfim | 4,3 | 6,1 | +40,2% |
| RD Congo | 4,9 | 5,3 | +8,3% |
| Índia | 0,6 | 0,6 | +0,0% |
2.3. Assimetrias entre Estados-Membros: a Irlanda importadora e a Itália exportadora
Os principais Estados-Membros importadores apresentam perfis muito diferenciados. A Irlanda é de longe o maior importador extra-UE (39,7 M EUR em 2025, +155,8% face a 2015), provavelmente refletindo a sua forte dependência de rações importadas para o sector pecuário. No entanto, a Irlanda apresenta um coeficiente de especialização exportadora (RSCA) fortemente negativo (−0,83), indicando que o seu papel é sobretudo o de consumidora líquida.
Os maiores aumentos nas importações ocorreram na Roménia (+443,5%), na Grécia (+476,8%) e em Espanha (+207,2%). Em contraste, as importações da França colapsaram (−78,7%).
Do lado das exportações, a Itália lidera com 38,4 M EUR em 2025 (+107,2%), seguida da Irlanda (13,2 M EUR) e da Polónia (14,6 M EUR, +109,1%). A Bélgica regista o crescimento mais espetacular (+330,1%). A Alemanha, apesar de ter o maior peso na produção europeia (36,7% da produção total), ocupa a quarta posição nas exportações extra-UE, com um nível de especialização moderado (RSCA de 0,27). Por seu turno, a Bulgária — que em 2015 era o terceiro maior exportador extra-UE (8,0 M EUR) — viu as suas exportações recuarem 52,2%, possivelmente em resultado da redireção de fluxos intra-UE ou de quebras de produção.
3. Dos choques de preços à diversificação setorial: fragilidades e oportunidades do mercado
3.1. A explosão dos preços em 2022–2023 e o subsequente arrefecimento
O período 2022–2023 é claramente identificável como um ponto de rutura nos preços do mercado de farelos. Em 2022, o preço médio de exportação da UE atingiu o máximo de 362 EUR/t — mais do dobro do nível de 2015 (170 EUR/t). O preço médio de importação seguiu uma trajetória semelhante mas mais moderada, atingindo 253 EUR/t em 2022. A dinâmica é consistente com a crise global de cereais desencadeada pelo conflito na Ucrânia, que afetou os custos das matérias-primas agrícolas em cadeia.
A análise por segmento permite observar que a subida dos preços afetou sobretudo o farelo de trigo (CN 230230), que constitui a larga maioria do comércio:
| Indicador | 2015 | 2022 | 2025 | Variação 2015→2025 |
|---|---|---|---|---|
| Preço exportação farelo de trigo (EUR/t) | 154 | 349 | 211 | +37,0% |
| Preço importação farelo de trigo (EUR/t) | 175 | 230 | 189 | +7,9% |
| Preço exportação farelo de milho (EUR/t) | 196 | 278 | 250 | +27,4% |
| Preço importação farelo de milho (EUR/t) | 232 | 236 | 283 | +22,0% |
Após o pico de 2022, os preços de exportação arrefeceram de forma significativa em 2025, ainda que se mantivessem acima dos níveis pré-2020. Os preços de importação, por seu turno, regressaram quase ao ponto de partida, apresentando uma variação global de −2,9% ao longo da década. Esta assimetria sugere que os exportadores europeus foram capazes de reter algum do aumento de preços, enquanto o lado das importações sofreu um ajuste mais completo.
3.2. Eventos de choque em fornecedores periféricos
A análise de choques de abastecimento identificou três eventos significativos no período:
| Fornecedor | Tipo de choque | Fluxo | Período central | Deslocamento de preço | Grau de anormalidade | Quota no valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Angola | Preço | Importações | 2022 | +60,9% | 54,5 | 12,5% |
| Reino Unido | Preço | Importações | 2020 | +14,9% | 16,7 | 57,0% |
| Costa do Marfim | Preço | Importações | 2022 | +65,2% | 11,3 | 13,5% |
O choque mais extremo foi o registado nas importações de Angola em 2022, com uma anomalia de 54,5 — indicando uma desvio de preços muito significativo face ao padrão histórico. O choque no Reino Unido em 2020, de menor magnitude mas maior quota de mercado (57% do valor das importações), pode refletir perturbações associadas à transição do Brexit.
De notar que os parceiros com maior coeficiente de variação nas importações incluem a Ucrânia (CV: 1,31), Gana (1,11), a Bielorrússia (0,98) e a Noruega (0,90) — parceiros que, pelas suas características geográficas ou políticas, estão sujeitos a maiores flutuações. No lado das exportações, a Arábia Saudita (CV: 1,61), o Japão (1,14) e Israel (0,95) registam os maiores níveis de volatilidade.
3.3. O domínio estrutural do farelo de trigo e o crescimento acelerado das leguminosas
A decomposição por segmento de produto revela a persistência do domínio do farelo de trigo (CN 230230), que em 2025 representava 79,1% do volume importado e 74,9% do volume exportado. Contudo, o período em análise é marcado por dois movimentos estruturais dignos de nota.
Em primeiro lugar, o crescimento explosivo das importações de farelo de leguminosas (CN 230250): de 3 424 t em 2015 para 26 059 t em 2025 (+661% em volume), elevando a sua quota nas importações de 2,5% para 7,3%. Em valor, este segmento passou de 1,6 M EUR para 8,9 M EUR, refletindo um aumento da procura europeia por farelos de origem leguminosa — possivelmente associado à procura por proteínas vegetais alternativas na alimentação animal. Curiosamente, o preço das importações de leguminosas desceu de 479 EUR/t em 2015 para 343 EUR/t em 2025 (−28,4%), sugerindo níveis crescentes de oferta internacional e/ou uma mudança na tipologia de produto importado.
Em segundo lugar, o fortalecimento do farelo de milho (CN 230210) enquanto segundo segmento de exportação: as suas exportações passaram de 46 608 t para 110 980 t (+138% em volume), elevando a sua quota de 11,2% para 20,3% do total exportado. A quota do farelo de trigo nas exportações desceu, em contrapartida, de 86,0% em 2015 para 74,9% em 2025 — uma diversificação setorial que, embora ténue, contribui para uma redução da concentração de risco.
| Segmento de produto | Importações 2015 (mil t) | Importações 2025 (mil t) | Variação | Exportações 2015 (mil t) | Exportações 2025 (mil t) | Variação |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Farelo de trigo (230230) | 102 | 281 | +174% | 358 | 410 | +15% |
| Farelo de milho (230210) | 20 | 38 | +91% | 47 | 111 | +138% |
| Farelo de leguminosas (230250) | 3 | 26 | +661% | 2 | 16 | +795% |
| Outros cereais (230240) | 12 | 10 | −16% | 10 | 11 | +10% |
Conclusão
A análise do comércio externo da UE em farelos (NC 2302) ao longo da década 2015–2025 revela um setor marcado por uma trajetória ascendente global, mas pontilhada por episódios de forte volatilidade e reconfiguração estrutural.
A UE permaneceu ao longo de todo o período um exportador líquido de farelos, com o superavit comercial a crescer de 41 M EUR para 61 M EUR (+48,2%). Contudo, este crescimento não foi linear: o saldo atingiu o mínimo de apenas 8,9 M EUR em 2023, sobretudo devido ao crescimento muito acentuado das importações (de 138 mil t em 2015 para 407 mil t em 2023), impulsionadas pela emergência de novos fornecedores como a Ucrânia e Angola e por um ciclo de preços globalmente elevados. O subsequente arrefecimento das importações em 2025 e o regresso do volume exportado a níveis próximos de 2020 permitiram uma recuperação do saldo.
A dimensão geográfica do comércio reconfigurou-se significativamente. A Turquia consolidou-se como principal destino das exportações europeias, ao passo que os parceiros mediterrâneos tradicionais (Marrocos, Tunísia) perderam terreno. A concentração das importações reduziu-se em mais de metade (HHI de 4 200 para 1 905), refletindo a diversificação das fontes de abastecimento — um fator positivo do ponto de vista da resiliência, ainda que a elevada volatilidade de parceiros como a Ucrânia e Angola introduza novas vulnerabilidades. O choque de preços de 2022, em linha com a crise global dos cereais, afetou fortemente o mercado mas mostrou-se transitório, com os preços a regressarem em 2025 para níveis próximos (importações) ou ligeiramente superiores (exportações) aos de 2015.
Do ponto de vista setorial, assiste-se a uma ligeira mas significativa diversificação: as leguminosas ganharam peso nas importações (de 2,5% para 7,3% do volume) e o milho nas exportações (de 11% para 20%). A redução simultânea da produção interna em volume e a forte intensificação da abertura comercial (de 2,8% para 10,9%) sugerem que a economia europeia de farelos está cada vez mais integrada no comércio mundial — um processo que traz oportunidades, mas também novas dependências que importa monitorizar.