Evolução do mercado: Farelo de soja (CN 2304) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código aduaneiro 2304 — Bagaços (Tortas) e outros resíduos sólidos, mesmo triturados ou em pellets, da extração do óleo de soja — no período compreendido entre 2015 e 2025. Trata-se de um produto essencial para a alimentação animal, sobretudo no setor pecuário, e cuja cadeia de abastecimento europeia depende fortemente de importações provenientes de fornecedores extra-europeus.
O período em análise é marcado por transformações estruturais profundas: alterações geopolíticas (incluindo a invasão da Ucrânia e sanções à Rússia), a pandemia de COVID-19, a crescente pressão sobre a produção doméstica e uma reconfiguração significativa das parcerias comerciais. A visão geral do comércio revela um mercado caracterizado por importações crescentes em volume, exportações em forte declínio e uma dependência externa cada vez mais acentuada.
1. Redução dramática da produção europeia e crescente dependência das importações
A produção doméstica da UE contraiu-se significativamente
A produção europeia de farelo de soja registou um declínio acentuado ao longo da década. Em termos de quantidade, a produção passou de 8,51 mil milhões de kg em 2015 para 5,74 mil milhões de kg em 2025, uma queda de -32,6%. O valor da produção seguiu a mesma tendência, descendo de 1,84 mil milhões de EUR para 1,40 mil milhões de EUR (-24,3%), com um mínimo intercalar de apenas 909 milhões de EUR.
A dependência líquida de importações quase duplicou
Em resultado direto da contração produtiva, a dependência líquida de importações subiu de 66,0% em 2015 para 84,5% em 2025, atingindo um máximo de 86,0% em anos anteriores. Este indicador revela uma vulnerabilidade crescente: a UE depende hoje de terceiros para abastecer quase a totalidade das suas necessidades em farelo de soja.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Produção (mil milhões de kg) | 8,51 | 5,74 | -32,6% |
| Valor da produção (mil milhões EUR) | 1,84 | 1,40 | -24,3% |
| Dependência líquida de importações | 66,0% | 84,5% | +28,0% |
| Intensidade comercial | 69,3% | 87,9% | +26,9% |
A capacidade exportadora da UE encolheu drasticamente
Paralelamente, as exportações da UE de farelo de soja desceram de 412,6 milhões de EUR para 201,0 milhões de EUR (-51,3%) em valor e de 930 mil toneladas para 478 mil toneladas (-48,6%) em volume. A propensão para exportar, embora tenha registado flutuações significativas ao longo do período, subiu de 7,4% para 19,9% no final do período, sugerindo que, embora o volume absoluto exportado tenha caído, a UE continuou a escoar uma parte residual para mercados terceiros.
2. Reconfiguração das parcerias comerciais: o triunfo do Brasil e o surgimento da Ucrânia
O Brasil consolidou-se como o principal fornecedor
A análise dos principais parceiros por valor revela que o Brasil reforçou a sua posição dominante. As importações brasileiras cresceram de 2,94 mil milhões de EUR para 3,50 mil milhões de EUR (+19,2%), representando agora mais de metade do valor total das importações da UE. A Argentina, embora permaneça o segundo maior fornecedor (2,23 mil milhões de EUR), perdeu quota, com uma descida de -19,3% face a 2015.
| Fornecedor | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Brasil | 2.938 | 3.502 | +19,2% |
| Argentina | 2.763 | 2.229 | -19,3% |
| Ucrânia | 5,9 | 407,7 | +6.850,1% |
| Índia | 86,6 | 269,2 | +210,8% |
| Paraguai | 321,0 | 72,5 | -77,4% |
| EUA | 396,4 | 81,7 | -79,4% |
| Rússia | 117,3 | 2,1 | -98,2% |
A Ucrânia emergiu como um fornecedor estratégico
O crescimento mais impressionante registou-se nas importações provenientes da Ucrânia, que passaram de apenas 5,9 milhões de EUR em 2015 para 407,7 milhões de EUR em 2025 — uma variação de +6.850,1%. Este crescimento reflete tanto a expansão da capacidade produtiva ucraniana como os esforços da UE para diversificar as suas fontes de abastecimento, num contexto em que a liberalização comercial e os corredores de exportação desempenharam um papel crucial.
Fornecedores tradicionais perderam relevância
Paraguai (-77,4%), Estados Unidos (-79,4%) e Rússia (-98,2%) registaram quedas dramáticas. O colapso das importações da Rússia é particularmente significativo e coincide com as sanções impostas após 2022. A Índia, por outro lado, registou um crescimento de +210,8%, tornando-se num fornecedor crescentemente relevante.
As exportações da UE perderam os seus mercados principais
Do lado das exportações, o Reino Unido — outrora o principal destino, com 272,5 milhões de EUR em 2015 — caiu para 64,9 milhões de EUR (-76,2%), provavelmente em resultado do Brexit. A Rússia, que recebia 22,6 milhões de EUR em exportações europeias, caiu para valores residuais de 14 mil EUR (-99,9%). A Suíça (+153,2%) e a Irlanda (+422,4%) foram as excepções positivas.
3. Volatilidade, choques de preço e fragilidades estruturais
Os preços das importações são mais voláteis do que aparentam
O preço médio de importação desceu de 378,5 EUR/t para 332,1 EUR/t (-12,3%), mas a trajetória não foi linear: atingiu um máximo de 522,3 EUR/t antes de recuar. A volatilidade por parceiro revela que a Ucrânia apresenta o maior coeficiente de variação nas importações (CV = 1,18), refletindo a instabilidade do seu fornecimento, provavelmente ligada ao conflito armado. A Nigéria (CV = 0,90) e a Índia (CV = 0,73) também apresentam elevada volatilidade.
| Fornecedor | CV das importações |
|---|---|
| Ucrânia | 1,18 |
| Nigéria | 0,90 |
| Índia | 0,73 |
| EUA | 0,56 |
| Canadá | 0,59 |
| Paraguai | 0,42 |
| China | 0,35 |
| Argentina | 0,20 |
| Brasil | 0,15 |
| Noruega | 0,12 |
O Brasil surge como o fornecedor mais estável (CV = 0,15), o que reforça a sua posição como parceiro estratégico.
Choques de preço detetados nas exportações
O sistema detetou um choque significativo de preço nas exportações para a Turquia em 2022: um desvio anómalo de 10,3 e uma variação de preço de +30,8%. Este evento pode estar ligado às disrupções comerciais provocadas pelo conflito na Ucrânia e pelo redirecionamento de fluxos. No lado das exportações, os mercados da Rússia (CV = 1,01), do Kosovo (CV = 0,99) e da Sérvia (CV = 0,99) apresentam volatilidade extrema.
A concentração das importações permanece elevada
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 3.460 para 3.650 (+5,5%), indicando uma concentração ligeiramente crescente. Em valor, o HHI das exportações desceu significativamente de 4.477 para 2.573 (-42,5%), sugerindo uma diversificação dos mercados de destino. Os Países Baixos continuam a ser o maior importador dentro da UE (902,8 milhões de EUR em 2025), seguidos de Polónia (1.110 milhões de EUR, +59,7%) e Espanha (1.021 milhões de EUR, +29,7%).
Os Países Baixos e a Eslovénia lideram a especialização
De acordo com o índice de especialização, a Eslovénia (RCA = 9,51) e os Países Baixos (RCA = 2,62) são os Estados-Membros mais especializados no comércio de farelo de soja, enquanto a Bulgária (RCA = 0,0002), a Irlanda (RCA = 0,003) e a Estónia (RCA = 0,006) se encontram no extremo oposto.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação profunda no mercado europeu de farelo de soja. A queda de mais de 30% na produção doméstica conduziu a uma dependência quase total das importações, que hoje representam cerca de 85% do abastecimento. O Brasil consolidou-se como parceiro dominante, mas a emergência da Ucrânia — cujas exportações para a UE cresceram quase 7.000% — revela uma estratégia de diversificação que, todavia, se confronta com elevada volatilidade.
A instabilidade geopolítica, nomeadamente o conflito na Ucrânia e as sanções à Rússia, reconfigurou os fluxos comerciais de forma dramática. A perda de mercados de exportação (Reino Unido, Rússia, Turquia) e a concentração crescente das importações em poucos fornecedores representam riscos consideráveis para a segurança alimentar e a autonomia estratégica da UE. O choque de preço detetado nas exportações para a Turquia em 2022 é um lembrete da fragilidade do sistema.
Olhando para o futuro, a UE enfrenta o desafio de equilibrar a eficiência económica (favorecendo fornecedores de baixo custo como o Brasil) com a necessidade de diversificação e resiliência da cadeia de abastecimento, num contexto em que as perturbações climáticas, geopolíticas e comerciais tendem a intensificar-se.