Evolução do mercado: Resíduos de plástico (CN 3915) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativamente à posição aduaneira 3915 — Desperdícios, resíduos e aparas, de plástico — no período compreendido entre 2015 e 2025. Esta posição inclui quatro subcategorias: polímeros de etileno (391510), polímeros de estireno (391520), polímeros de cloreto de vinilo (391530) e outros plásticos (391590).
O período em análise é particularmente relevante por abranger a fase de implementação da proibição chinesa de importação de resíduos plásticos (2018), a pandemia de COVID-19 (2020–2021) e a crise energética europeia (2022), todos eventos com impacto profundo nas cadeias de valor globais de reciclagem de plástico. Os dados revelam uma transformação estrutural significativa nos destinos de exportação da UE e uma reconfiguração das relações comerciais bilaterais.
Visão geral do produto CN 3915
1. A reconfiguração radical dos destinos de exportação: do domínio chinês à viragem para a Ásia Oriental e o Médio Oriente
A dinâmica mais marcante do período é o colapso quase total das exportações para a China e Hong Kong, e a subsequente redireção dos fluxos para novos mercados na Ásia Oriental e no Médio Oriente.
1.1 O colapso das exportações para a China e Hong Kong
Em 2015, a China era o principal destino das exportações da UE de resíduos plásticos, com um valor de €456,9 milhões. Em 2025, esse valor tinha caído para apenas €234 mil — uma redução de -99,9%. O caso de Hong Kong é semelhante: de €188,0 milhões em 2015 para €234 mil em 2025 (também -99,9%), refletindo o facto de que Hong Kong servia frequentemente como rota de trânsito para o mercado chinês.
| Destino | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 456,9 | 0,2 | -99,9% |
| Hong Kong | 188,0 | 0,2 | -99,9% |
Este colapso está directamente associado à operação National Sword da China, lançada em 2017 e plenamente implementada a partir de 2018, que proibiu a importação de 24 categorias de resíduos sólidos, incluindo a maioria dos plásticos. O impacto foi imediato e devastador: a UE viu-se forçada a encontrar rapidamente destinos alternativos para volumes que, em 2015, representavam mais de €645 milhões em exportações combinadas.
1.2 A ascensão da Turquia, Malásia e Indonésia como novos destinos
Os destinos que substituíram a China mostram um crescimento excecional ao longo do período:
| Destino | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Turquia | 6,4 | 93,8 | +1 367,5% |
| Indonésia | 1,9 | 74,7 | +3 886,9% |
| Malásia | 12,8 | 67,4 | +425,4% |
| Vietname | 19,3 | 24,9 | +29,2% |
A Turquia tornou-se, em 2025, o maior destino individual das exportações da UE de resíduos plásticos, com €93,8 milhões. A Indonésia, que em 2015 representava apenas €1,9 milhões, atingiu €74,7 milhões em 2025, reflectindo a relocalização da capacidade de reciclagem para o Sudeste Asiático. A Malásia seguiu uma trajectória semelhante, embora com crescimento menos acentuado.
Fluxos comerciais por parceiro
1.3 Menor concentração das exportações
Consistentemente com a diversificação dos destinos, o índice de concentração HHI (Herfindahl-Hirschman) das exportações da UE em valor caiu de 3 530 em 2015 para 1 692 em 2025, uma redução de -52,1%. Este valor mínimo atingiu 924 em 2022, sugerindo que, nesse ano, os fluxos estavam particularmente dispersos. A queda acentuada do HHI confirma que a dependência de um pequeno número de destinos foi substancialmente reduzida, embora os novos mercados apresentem riscos regulatórios próprios (vários países do Sudeste Asiático implementaram igualmente restrições às importações de resíduos).
Índice de concentração HHI das exportações
2. A redução do superavit comercial e a crescente importância das importações
O segundo grande eixo de análise é o acentuado declínio do superavit comercial da UE em resíduos plásticos e o crescimento sustentado das importações, que reflectem tanto alterações estruturais na procura interna como mudanças de preços.
2.1 Evolução das exportações: quebra acentuada em volume e valor
As exportações da UE de resíduos plásticos sofreram uma contracção significativa ao longo do período:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor (€ M) | 840,1 | 358,7 | -57,3% |
| Quantidade (kt) | 2 526 | 1 463 | -42,1% |
| Preço médio (€/t) | 332,5 | 245,2 | -26,3% |
O mínimo de exportações em valor (€334 milhões) e em quantidade (1 116 kt) foi registado em 2020 e 2022, respectivamente, reflectindo os choques da pandemia e da subsequente crise energética. Note-se que a queda do preço médio de exportação (-26,3%) contribuiu para a redução do valor total, embora em menor grau do que a queda de volume.
2.2 Crescimento das importações: o papel do Reino Unido
Em contraste com as exportações, as importações da UE cresceram ao longo do período:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor (€ M) | 157,1 | 250,0 | +59,1% |
| Quantidade (kt) | 685 | 800 | +16,7% |
| Preço médio (€/t) | 229,3 | 312,6 | +36,3% |
O crescimento das importações é impulsionado sobretudo pelo aumento do preço médio (+36,3%), que quase triplicou o seu impacto relativamente ao crescimento de volume (+16,7%).
O Reino Unido é, de longe, o principal fornecedor da UE, tendo passado de €64,3 milhões em 2015 para €128,5 milhões em 2025 (+99,8%). Esta evolução reflecte provavelmente as dificuldades do Reino Unido pós-Brexit em processar internamente os seus próprios resíduos plásticos, forçando a reexportação para a UE. Os Estados Unidos surgem como segundo fornecedor com maior crescimento relativo: de €7,7 milhões para €22,2 milhões (+188,5%).
| Fornecedor | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 64,3 | 128,5 | +99,8% |
| Estados Unidos | 7,7 | 22,2 | +188,5% |
| Noruega | 17,0 | 16,0 | -6,2% |
| Suíça | 22,9 | 13,6 | -40,6% |
Principais parceiros de importação
2.3 Erosão do superavit comercial
A conjugação do declínio das exportações e do crescimento das importações conduziu a uma erosão acentuada do superavit comercial da UE:
| Indicador | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Saldo comercial | 683,0 | 108,7 | -84,1% |
O saldo mínimo registado foi de -€0,5 milhões em 2022, o único ano do período em que a UE chegou perto de atingir um défice comercial em resíduos plásticos. A elevada concentração das importações (HHI passou de 2 085 para 2 837, um aumento de +36,1%) reforça a dependência crescente do Reino Unido como fornecedor.
3. Volatilidade de preços, choques específicos e evolução sectorial por tipo de plástico
O período 2015–2025 foi marcado por uma elevada volatilidade de preços, com choques pontuais significativos e uma evolução diferenciada entre os segmentos de produto.
3.1 Choques de preços identificados
A análise de volatilidade revelou três choques de preço de grande magnitude:
| Evento | Fluxo | Ano | Variação de preço (%) | Anomalia |
|---|---|---|---|---|
| Reino Unido | Exportações | 2018 | +62,8% | 16,0 |
| Indonésia | Exportações | 2021 | +74,4% | 8,0 |
| Reino Unido | Importações | 2022 | +84,2% | 6,2 |
O choque de 2018 nas exportações para o Reino Unido (anomalia de 16,0) coincidiu com o período de implementação da proibição chinesa, quando os fluxos de resíduos se redirecionaram rapidamente, provocando pressões de preço. O choque de 2022 nas importações provenientes do Reino Unido (anomalia de 6,2, com uma variação de +84,2%) reflecte provavelmente a crise energética europeia, que comprimiu a capacidade de processamento doméstica e elevou os custos.
3.2 Pico de preços de 2022 em todos os segmentos de importação
A análise por segmento de produto revela que 2022 foi um ano de pico generalizado nos preços de importação:
| Segmento (importação) | Preço 2021 (€/t) | Preço 2022 (€/t) | Preço 2025 (€/t) |
|---|---|---|---|
| Outros plásticos (391590) | 259,5 | 457,5 | 263,0 |
| Polímeros de etileno (391510) | 341,0 | 537,7 | 313,4 |
| Polímeros de estireno (391520) | 626,1 | 996,8 | 593,1 |
| Polímeros de cloreto de vinilo (391530) | 379,9 | 493,6 | 420,9 |
O segmento de polímeros de estireno (391520) apresenta os preços mais elevados e a maior volatilidade, tendo atingido quase €997/t em 2022 — quase o dobro do preço de 2025. Os preços normalizaram parcialmente após 2022, mas em 2025 mantinham-se ainda acima dos níveis pré-pandemia para a maioria dos segmentos.
Evolução por segmento de produto
3.3 Evolução sectorial nas exportações: quebra generalizada dos maiores exportadores
Os principais exportadores da UE registaram quebras acentuadas, reflectindo a contracção global das exportações:
| País exportador | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 325,3 | 102,3 | -68,5% |
| Bélgica | 97,6 | 50,4 | -48,4% |
| Países Baixos | 82,3 | 59,2 | -28,1% |
| Espanha | 71,2 | 46,5 | -34,8% |
| França | 62,6 | 2,7 | -95,7% |
| Eslovénia | 46,0 | 7,1 | -84,6% |
A Alemanha, que em 2015 era de longe o maior exportador (€325,3 milhões), viu as suas exportações reduzidas a €102,3 milhões em 2025. A França registou a queda mais acentuada (-95,7%), de €62,6 milhões para apenas €2,7 milhões, sugerindo uma reorientação radical da sua política de gestão de resíduos plásticos. Estes declínios reflectem tanto a redução de volume como a queda de preços médios.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação estrutural profunda no comércio externo da UE de resíduos plásticos. O evento central foi a proibição chinesa de importação de resíduos, que provocou um redirecionamento massivo dos fluxos de exportação da UE — da China e Hong Kong (que representavam mais de €645 milhões em 2015) para a Turquia, a Indonésia e a Malásia (que juntas totalizam mais de €236 milhões em 2025). Esta reconfiguração conduziu a uma significativa diversificação geográfica das exportações (HHI de exportação caiu de 3 530 para 1 692), embora os novos mercados apresentem riscos regulatórios.
Paralelamente, registou-se uma erosão dramática do superavit comercial da UE (de €683 milhões para €109 milhões, -84,1%), impulsionada tanto pela queda das exportações (-57,3% em valor) como pelo crescimento das importações (+59,1%). O Reino Unido emergiu como o principal fornecedor, com €128,5 milhões em 2025, reflectindo provavelmente as dificuldades pós-Brexit na gestão interna de resíduos.
Os preços registaram uma elevada volatilidade, com um pico generalizado em 2022 associado à crise energética, e normalização parcial nos anos seguintes. O mercado de resíduos plásticos da UE encontra-se, em 2025, num ponto de equilíbrio distinto do de 2015: com exportações mais diversificadas mas muito menores, importações crescentes e um superavit comercial significativamente reduzido.