Evolução do mercado: Outros cereais (CN 1008) — 2015–2025
Introdução
O código combinado CN 1008 abrange um conjunto heterogéneo de cereais menores — trigo mourisco, painço, alpista, milhã, quinoa, triticale e outros cereais não especificados. Trata-se de um segmento de nicho no comércio de cereais da UE, mas que apresentou dinâmicas notáveis entre 2015 e 2025: a União Europeia permaneceu fortemente dependente de importações, com uma balança comercial estruturalmente negativa. Ao longo do período, o déficit comercial global melhorou moderadamente (de €131,2 milhões para €115,1 milhões, uma redução de 12,3%), mas as importações mantiveram-se sempre cerca de sete vezes superiores às exportações em valor. Os choques geopolíticos, a crescente procura de superalimentos e a reconfiguração dos fornecedores moldaram fortemente este mercado.
1. A quinoa como motor do comércio e a assimetria estrutural entre importações e exportações
As importações dominam o valor total trocado, mas apresentam ligeiro recuo
Ao longo do período 2015–2025, o valor total das importações da UE em CN 1008 situou-se sempre entre os €103,0 milhões (mínimo em 2020) e os €147,6 milhões (máximo em 2022), fechando 2025 em €135,8 milhões — uma descida de 7,5% face ao início do período. Em volume, as importações passaram de 147 109 toneladas (2015) para 133 397 toneladas (2025), uma redução de 9,3%. Este modesto declínio reflecte sobretudo a redução de compras a parceiros tradicionais como a Rússia e o Reino Unido.
A quinoa é, de longe, o subproduto mais relevante nas importações
A segmentação por subproduto (por segmento de produto) revela um domínio esmagador da quinoa (CN 100850). Em 2025, as importações de quinoa totalizaram €71,2 milhões — cerca de 52% do valor total das importações do grupo CN 1008 — provenientes essencialmente da Bolívia, Peru e, num grau crescente, da Índia. Em volume, a quinoa representou 28 434 toneladas, mas a sua elevada valorização unitária (€2 504/t em 2025) é o que explica a sua proeminência em valor. O trigo mourisco (CN 100810), a alpista (CN 100830) e o painço (CN 100829) completam o quadro de fornecimento, com volumes e valores significativamente inferiores.
As exportações europeias permanecem residuais, apesar de crescimento em valor
As exportações partem de uma base muito menor: €15,8 milhões em 2015, subindo 31,7% para €20,7 milhões em 2025. Em volume, contudo, as exportações diminuíram 20,1% (de 17 149 t para 13 709 t). A valorização média das exportações triplicou praticamente face ao preço médio das importações, situando-se em €1 513/t em 2025 contra €1 018/t nas importações, o que sugere que a UE tende a exportar produtos de valor acrescentado mais elevado (como quinoa processada e sementes para sementeira).
Quadro resumo — Flows CN 1008, UE vs. Resto do Mundo
| Indicador | 2015 | 2020 | 2022 | 2025 | Variação % (2015→2025) |
|---|---|---|---|---|---|
| Importações – valor (€) | 146 929 693 | 103 019 616 | 147 599 140 | 135 839 108 | −7,5% |
| Importações – quantidade (t) | 147 109 | 132 155 | 176 348 | 133 397 | −9,3% |
| Importações – preço médio (€/t) | 999 | 780 | 837 | 1 018 | +2,0% |
| Exportações – valor (€) | 15 756 884 | 29 302 518 | 23 479 411 | 20 744 945 | +31,7% |
| Exportações – quantidade (t) | 17 149 | 34 000 | 20 098 | 13 709 | −20,1% |
| Exportações – preço médio (€/t) | 919 | 862 | 1 168 | 1 513 | +64,7% |
| Balança comercial (€) | −131 172 809 | −80 626 353 | −123 802 154 | −115 094 163 | +12,3% |
Fonte: Visão geral do comércio
2. Reconfiguração geográfica: os Andes consolidam-se, a Eurásia enfraquece
O Peru e a Bolívia dominam as importações, com trajetórias divergentes
Os parceiros andinos mantiveram-se como os principais fornecedores ao longo de todo o período, sobretudo por via da quinoa. O Peru liderou em 2015 (€38,4 milhões) mas recuou 21,6% para €30,1 milhões em 2025. A Bolívia, pelo contrário, cresceu 37,4% (de €25,8 milhões para €35,5 milhões), tornando-se, no final do período, o maior fornecedor individual da UE neste código. A Índia emergiu como parceiro relevante, mais do que duplicando o seu valor fornecido (de €6,2 milhões para €11,1 milhões, +78,4%), reflectindo a diversificação das cadeias de abastecimento de cereais menores.
A Rússia e o Reino Unido sofrerem quedas acentuadas
O caso russo é o mais marcante: as importações caíram de €7,6 milhões em 2015 para apenas €1,5 milhões em 2025 (−80,3%), com o mínimo absoluto a coincidir com 2022 — ano da invasão da Ucrânia. O Reino Unido, outrora terceiro maior fornecedor em 2015 (€8,4 milhões), reduziu-se a €2,9 milhões (−65,3%), o que provavelmente reflecte o Brexit e a consequente reconfiguração das rotas comerciais intra/extra-UE. A Ucrânia, por outro lado, cresceu 20,3% (de €8,0 milhões para €9,7 milhões), o que é notável dado o contexto de guerra.
Os mercados de exportação europeus permanecem concentrados no espaço europeu circundante
O Reino Unido é de longe o principal destino das exportações europeias (€4,9 milhões em 2025), apesar de uma queda de 23,4% face a 2015. A Suíça (€3,6 milhões, +60,2%) e os EUA (€3,0 milhões, +80,2%) ganharam relevância. O caso mais impressionante é o da Sérvia, que passou de €289 mil para €1,8 milhão (+535,4%), consolidando-se como mercado de proximidade no sudeste europeu.
Quadro resumo — Principais parceiros por valor em 2025
| Parceiro | Importações 2025 (€) | Δ 2015→2025 | Parceiro | Exportações 2025 (€) | Δ 2015→2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Bolívia | 35 503 964 | +37,4% | Reino Unido | 4 908 783 | −23,4% |
| Peru | 30 145 688 | −21,6% | Suíça | 3 568 101 | +60,2% |
| Canadá | 20 602 682 | −32,1% | EUA | 3 006 413 | +80,2% |
| Índia | 11 067 094 | +78,4% | Alemanha | 3 443 525 | +181,7% |
| Ucrânia | 9 671 658 | +20,3% | Itália | 3 157 325 | +257,4% |
Fonte: Parceiros por valor
3. Volatilidade, choques e concentração: um mercado particularmente exposto a disrupções
A volatilidade das importações é elevada junto de parceiros periféricos
O coeficiente de variação (CV) dos fluxos por parceiro (volatilidade) revela uma instabilidade acentuada em fornecedores menores. O Cazaquistão apresenta o CV mais elevado nas importações (1,47), seguido da Argentina (0,71) e dos EUA (0,50). O Canadá e o Peru, como parceiros dominantes, mostram CVs mais moderados (0,18, respetivamente), o que atenua o risco sistémico. Nas exportações, o Brasil (CV de 1,75), a Ucrânia (1,35) e a Bielorrússia (0,88) destacam-se pela imprevisibilidade dos fluxos.
Os eventos de choque assimétrico concentram-se nos anos 2021–2023
A análise de choques de abastecimento identifica três eventos de grande magnitude:
- Sérvia, 2021 (exportações): aumento de preço de 112,7% com índice de anormalidade de 78,2. O preço médio de exportação da UE para a Sérvia saltou dramaticamente, o que pode reflectir quer pressões de custos no pós-COVID quer a consolidação de uma relação comercial de nicho.
- Brasil, 2023 (exportações): aumento de preço de 543,2% face ao período anterior, com anormalidade de 26,0. Este choque é concessão episódico — o volume exportado era muito reduzido, mas a variação de preço extrema sugere descontinuidades no fornecimento.
- Ucrânia, 2018 (importações): aumento de preço de 42,5% com anormalidade de 20,6, num momento em que a Ucrânia fornecia 12,1% do valor total das importações. Este choque antecede a crise de 2022 e pode associar-se a fatores climáticos ou a mudanças de política comercial.
A concentração das exportações europeias diminuiu significativamente
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das exportações por parceiro caiu de 2 057 para 1 259 entre 2015 e 2025 (−38,8%), reflectindo uma diversificação geográfica significativa. As exportações europeias, outrora fortemente dependentes do Reino Unido e dos Países Baixos, dispersaram-se para mercados como a Sérvia, a Suíça e a Itália. Em contraste, o HHI das importações permaneceu praticamente estável (de 1 576 para 1 16 por valor), o que indica que a composição dos fornecedores dominantes (Bolívia, Peru, Canadá) se manteve estruturalmente semelhante.
Os Estados-Membros revelam especializações assimétricas
De acordo com os índices de especialização, a Lituânia (RSCA de 0,84, RCA de 11,2) e a Letónia (RSCA de 0,82, RCA de 10,3) são, em 2025, os Estados-Membros mais especializados nos outros cereais, seguidos da Polónia (RCA de 4,2). Estes países bálticos e da Europa de Leste têm uma tradição agrícola de cultivo de cereais menores. Em contraste, a Irlanda (RCA de 0,001), a Finlândia (0,003) e a Dinamarca (0,05) praticamente não exportam este grupo. No que respeita às importações, Espanha (+30,5%, para €18,9 milhões) e Itália (+50,3%, para €21,2 milhões) registaram os maiores crescimentos entre os grandes importadores europeus, enquanto o declínio francês foi acentuado (−59,1%, de €24,0 milhões para €9,8 milhões), sugerindo uma redistribuição da procura intra-UE.
Conclusão
O mercado europeu de outros cereais (CN 1008) entre 2015 e 2025 caracteriza-se por três traços fundamentais: dependência estrutural de importações, domínio comercial da quinoa e instabilidade geopolítica dos parceiros de abastecimento. A quinoa, proveniente sobretudo dos Andes, responde por mais de metade do valor importado, o que confere ao segmento uma vulnerabilidade a fatores climáticos e políticos na América do Sul. A perda de relevância da Rússia como fornecedor (−80,3%) e a consolidação da Bolívia como primeiro parceiro são os sinais mais nítidos de reconfiguração da cadeia de abastecimento. Do lado das exportações, a UE diversificou os seus mercados — o HHI caiu significativamente — apesar de as exportações representarem sempre uma fração reduzida das importações. A crescente valorização unitária nas exportações (preço médio de €1 513/t em 2025, 49% acima do preço médio das importações) aponta para uma estratégia de exportação orientada para segmentos de maior valor adicionado. Em suma, trata-se de um mercado de nicho, mas com crescentes relevância comercial e desafios de diversificação de fornecedores.